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"A urna é o destino. A urna deitada, do convívio final de um velório, escolhida horas antes por carpideiras, pode acumular pó, conter-se, guardar as cinzas, mas nunca estará fora de moda, a cor de pérola do interior do caixão. Estas caixas não mudaram o mundo, e podem ser empilhadas num mausoléu, a casa sem vista. A moradia sem vista para o rio, para a montanha, para o monte de vizinhos levados pela doença súbita. É uma casa sem janelas. Não é uma vivenda.
É uma casa que não respira, mas sincera, parecida com os inquilinos, perecida. É uma casa igual às demais. Um mesmo volume que se levantou do chão com a ajuda do mesmo cordel que a fez descer sete palmos. O espírito santo esqueceu-se de desatar os nós, e é com isso que nos ocupamos quotidianamente. O fio condutor da via, uma novela. O santo esqueceu-se de quase tudo e não é o autor do homem, não escreveu num livro sábio. A magna lista de expectativas e dissabores. E quando tombam os homens, um a um, ou todos menos um, o luto desvanece-se em três dias. Passa num instante, a anuência, o pêsame solitário de uma parte de um mosqueteiro. Um por todos e não o inverso."
São momentos do quotidiano. Desfeitos os meandros que despoletam os acontecimentos destinados ao previsível e natural esquecimento numa sociedade em que tudo consideramos adquirido e banal, deparamos então com as múltiplas e complexas situações ou processos antecedendo a apresentação de uma obra, seja esta a máquina que nos oferece a ilusória promessa da perfeição que acicata o hedonismo, ou de um concerto cuja compexidade na organização é de todo desconhecida pelos espectadores, ou pior ainda, insolentemente por nós atirada para o monturo do acessório sem interesse.
Em cada um dos contos, uma infinidade de possibilidades de evolução do mesmo. Nm sempre deixamos a tentação de a partir de um complemento, imaginarmos uma direcção diferente que mercê dessa única perspectiva, seria passível de nos conduzir a uma história bem diversa. Personagens sem nome e que todos já vimos repetidas vezes nas mais diversas situações, surgindo como células de um organismo aparentemente coerente quando visto no todo - a plateia, a sala cheia, o consultório -, mas na verdade disfuncional quando dissecadas as componentes da multidão espessa, fuliginosa. Nas estórias dentro da história, enredos conducentes a camilianos imbróglios onde a grandeza fugaz e a tacacanhez normativa mutuamente se pontapeiam, desde já se conhecendo a quem caberão os nunca reconhecidos louros. É mesmo a vida, naquela marginalidade comezinha que ignoramos e que estranhamente torna o normal, surreal. Umas tantas passagens a obrigarem-nos a olhar para o casal de cabeças que Magritte ocultou com um fantasmagórico pano cru, para logo surgir A Torre Vermelha ao fundo de uma escura perspectiva das grandezas que Chirico preferia.
É um livro de complexos cenários dos nossos dias, de situações do absurdo em que a dor do outro, é tão só a base de sobrevivência de quem dela depende para exercício do seu mister, também surgindo o suspeitado vulto espectral da inveja, o inimigo querido e bastas vezes imaginado como inevitável, mesmo que de nós nem sequer conheça o nome ou a identificação física.
Uma obra de John Wolf para irmos lendo sem a ordem imposta pela formal paginação, possibilitando a articulação teatral das cenas e de pensamentos ocultos, agora demasiadamente evidentes.