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Durão Barroso, perdão, José Manuel Barroso, tem o engraçadíssimo hábito de querer mostrar a meio mundo que existe, fazendo uso de estratagemas que só demonstram à saciedade a sua completa irrelevância. Esta notícia do The Guardian não teria muita importância não fosse o facto de o presidente da Comissão Europeia asseverar que (peço desculpa aos leitores que não acompanham a sapiência socrática no concernente ao domínio do inglês técnico) "frankly, we're not here to receive lessons in terms of democracy or in terms of how to handle the economy. By the way, this crisis was not originated in Europe. Seeing as you mention North America, this crisis originated in North America and much of our financial sector was contaminated by, how can I put it, unorthodox practices from some sectors of the financial markets." Reparem nos sublinhados, e tirem as vossas próprias conclusões. Estamos a falar, note-se, da instituição mais inoperante na gestão da denominada crise das dívidas soberanas, uma instituição que, em rigor, pouco ou nada tem feito para dirimir positivamente o profundo défice democrático que acoberta a constelação institucional europeia. Mas o pormenor mais curioso das declarações atrás mencionadas prende-se, ironicamente ou não, com a insistência desbragada na tese de que a crise económica não teve a sua origem em terras europeias. Wolfgang Munchau diz aqui que as palavras de Durão não constituem, propriamente, uma surpresa, mas, em boa verdade, o colunista alemão oblitera um dado fundamental na análise: o que as palavras do presidente da Comissão transluzem é a enormíssima falta de vergonha dos principais responsáveis políticos europeus. Tantos anos volvidos, e a converseta continua a mesma: a culpa é dos americanos obesos e super-hiper-ultra-liberais e, também, dos europeus que viveram irresponsavelmente acima das suas possibilidades. Quanto à Europa comunitária, os seus responsáveis têm feito, democratica e liberalmente, tudo o que está ao seu alcance para corrigir os desvarios da cidadania endividada. Como é bom de ver, esta práxis justificatória cai literalmente por terra quando se olha seriamente para a realidade chã da Europa em crise. No fundo, o que isto comprova é que Durão Barroso continua o mesmo bigorrilhas de sempre, um político que fez carreira à sombra da mais absurda falta de convicções. Não se esqueçam disso quando o putativo candidato presidencial pedir o vosso voto.