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Camelos

por Nuno Castelo-Branco, em 30.05.14

Fugiu das sete pragas do Egipto. Refastelado na garupa do camelo, pouco lhe custou a travessia do deserto, um penoso serviço para a besta de carga. A aproximação do apetecido oásis fez rejubilar o tranquilo transportado e dando carinhosas pancadinhas no pescoço do dromedário, foi-lhe dizendo: ..."quando  chegarmos ao caravançarai, eu é que beberei a água e comerei as tâmaras. Tu vais para o estábulo!"

 

***

 

1. Não causa espanto algum, esta súbita afeição da direita parlamentar portuguesa, caridosamente em defesa de um António José Seguro inegavelmente usado e abusado por bem conhecidos correligionários. Todos sabemos que a derrota do passado domingo, também se deveu à persistente presença de gente claramente responsável pelo alijar de carga em 2011. Sócrates, Costa, Soares, Sampaio, Silva Pereira, Coelho e tantos outros, jamais permitiram o início de uma nova etapa num partido que antes de tudo, deveria ressurgir mais limpo perante um eleitorado cada vez menos crédulo de narrativas que não passam disso mesmo. Os sátrapas eleitoralmente depostos há três anos, marcaram de forma despiedada o percurso do dirigente escolhido numa hora que é sobretudo trágica para o país.

 

O PS não venceu folgadamente, porque a persistente presença do socratismo  consistiu num arrogante, irreparável e deliberado erro. 

A direita não devia imiscuir-se no oportunista repto lançado por Costa, pois isso denota algum receio. Mas que receio é este, senão o implícito reconhecimento da falta de coragem de agir, de ideias, de estratétgia que desmonte peça por peça este fetiche de um passado ainda muito recente? Tem a direita a necessária coragem para mostrar aquilo que Costa tem feito na edilidade que comanda? Mas o que Costa vai concretamente prometer aos portugueses, senão um mero render da guarda e mesmo esta feita, continuando com alguns elementos da actual maioria em exercício?

 

Pode a direita apresentar números, casos flagrantes, erros crassos, processos ínvios? Talvez não o deseje fazer, pois o regime baseia-se num contínuo jogo de aparências. Alijado Seguro, logo regressará a publicidade à volta do socratismo que o ambicioso alcaide inegavelmente representa. A direita não pode nem deve tomar partido na questão interna do PS, sob pena de estar a contribuir para criar aquela errónea sensação de Costa lhe causar algum medo ou incómodo. Muito pelo contrário, Costa convem-lhe, pois nada mais tem sido senão uma superstição que os buracos e lixo das ruas de Lisboa, malfeitorias, património demolido ou sonegado, descarado mau gosto e decisões erradas demonstram à saciedade. Se a direita ainda mantiver algum discernimento quanto às realidades, Costa serve-lhe e de preferência, acompanhado por Sócrates, Soares ou mais ou menos excelsas nulidades como Sampaio e demais colegas. Portanto, deve deixar correr o marfim e de preferência, abstenha-se nesta contenda.

 

Qual a mensagem insistentemente transmitida desde domingo? A de um partido sem uma única proposta credível a apresentar a um país desorientado e pasto de um combate de compadres gananciosos pelo mero exercício do poder. O apoio a uma moção de censura que é absolutamente estranha ao que o PS da Europa diz e defende, é disto a prova cabal. O que o ambicionado poder proporciona, isso já será algo bastante diferente.

 

2. No rescaldo daquilo que dadas as circunstâncias foi uma pequena derrota - a imprensa diz outra coisa, mas a realidade é bem diversa -, Pedro Passos Coelho disse algo de novo que à imensa maioria passou despercebido. Afirmou o 1º ministro que durante toda a sua vida foi um atlantista e partisan do aprofundamento das relações com a CPLP. Tudo isto é muito certo, pois decorre de uma tradicional política portuguesa de aproximação ao mundo que desvendámos à Europa, a tal política externa que balizou a posição de Portugal ao longo de mais de sete séculos e garantiu a nossa independência nacional.

 

No entanto, Passos Coelho afirmou algo mais, pois o seu descuidado discurso leva-nos a crer que agora, o único caminho é o da Europa à qual Portugal está inextricavelmente ligado. O que quer isso dizer? Nada mais, nada menos, senão o abandono da defesa dos nossos interesses mais imediatos - a ocupação efectiva do espaço marítimo reivindicado - e um esmorecer da vital colaboração com o Brasil, PALOP, Reino Unido e EUA. O único caminho pró- continentalista, abre o caminho à "mutualização europeia" do mesmo espaço marítimo que apresentamos como nosso nas instâncias internacionais. Um erro fatal, uma indecência política sem perdão. Embora tenhamos de reconhecer a fatuidade dos discursos da nossa classe política, há assuntos com os quais há que manter um extremo cuidado, pois se dentro de portas são praticamente inaudíveis, podem no estrangeiro servir como erróneos avisos.

 

 

publicado às 10:30







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