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Geórgia (3)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.08.08

Há 2 anos atrás participei no seminário da Juventude Dinamarquesa do Atlântico, do qual se tornou uma constante a simulação de uma situação de crise. No caso, desde há 3 ou 4 anos a esta parte que a situação se repete, nomeadamente uma crise generalizada no Caúcaso, mais especificamente na Abkhazia, na Ossétia do Sul, na Tchetchénia e em Nagorno-Karabakh. Em 2006 coube-me o papel de Presidente da Federação Russa. É fácil prever o resultado. Para a região enviámos um enorme dispositivo militar. Rejeitei qualquer negociação com a NATO ou os Estados Unidos com o simples argumento de que aquela é uma área de tradicional influência russa na senda de que também a América Latina o é para os norte-americanos e os russos não se intrometem. Enquanto isso, o meu colega de equipa delegado ao Conselho de Segurança tratou de vetar qualquer avanço de forças internacionais especialmente impulsionado pelos norte-americanos. Quanto à União Europeia ficámo-nos por um acordo de apoio dos europeus à reconstrução no pós-estabilização da região. Há qualquer coisa de déjà vu e de surreal na situação actual...

 

 

 

Entretanto parece-me evidente que os norte-americanos (especialmente George Bush e a sua ânsia expansionista) e os europeus são os grandes culpados pelos maus lençóis em que se encontram os georgianos, que provavelmente não estavam a contar com tamanha passividade dos seus alegados aliados, assim ficando demonstrada alguma ingenuidade por parte de Saakashvili. Imaginem agora se a Geórgia já fizesse parte da NATO, com um tal ataque naturalmente invocaria o Art.º 5.º e lá iríamos todos contentes entrar em guerra com a Rússia.

 

 

 

Anda a faltar bom senso a muita gente e pelo menos aplicar qualquer coisa das lições de História e de Geopolítica para colocarem finalmente na cabeça que a Rússia será sempre um portento internacional, a sua própria dimensão é a causa da sua propensão para o controlo dos territórios próximos das suas fronteiras, e por mais amanhãs que cantem e profetizem o declínio russo, é uma daquelas nações que rapidamente recuperará o status quo, à semelhança dos alemães. Entretanto ainda há quem continue a achar que podemos alargar a NATO indefinidamente para a Ucrânia e Geórgia. Parece-me evidente que tal só será possível se a própria Rússia fizesse parte da Aliança Atlântica, o que não se me afigura como viável no curto ou médio prazo, e mesmo a longo prazo tenho dúvidas.

 

Porém, ainda que seja engraçado estudar e ler sobre este tipo de coisas e sobre fenómenos como a guerra, essa ganha contornos estranhos e perde-se qualquer tipo de racionalidade quando uma amiga em contacto com uma georgiana que conhecemos este ano (ainda no sábado estava em Portugal), me diz que ela acabou de ficar sem net logo após ter dito que estava algo a sobrevoar-lhe a casa, isto em Tbilisi....

publicado às 21:34


6 comentários

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De Zé da Burra o Alentejano a 12.08.2008 às 10:12

A COMUNIDADE INTERNACIONAL DEVERIA RECLAMAR A MESMA SOLUÇÃO PARA OSSÉTIA QUE FOI RECLAMADA PARA O KOZOVO E QUE SE CHAMA: AUTO-DETERMINAÇÃO. DE OUTRA FORMA AS NAÇÕES UNIDAS CONTINUARÃO A PERDER A SUA CREDIBILIDADE. ALÉM DISSO, AS AUTORIDADES DA GEORGIA DEVERIAM TAMBÉM PAGAR PELOS CRIMES PRATICADOS CONTRA A OSSETIA DO SUL.

THE INTERNATIOAL COMMUNITY SHOULD CLAIM THE SAME SOLUTION TO OSSETIA THAT WAS CLAIMED TO KOZOVO AND IT IS CALLED: SELF-DETERMINATION. OTHERWISE OF THE UNITED NATIONS SHALL CONTINUE TO LOSE THEIR CREDIBILITY. IN ADDITION, THE ATHORITIES OF GEORGIA SHOULD ALSO PAY FOR THEIR CRIMES AGAINST OSSETIA OF SOUTH.

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De Carlos Barbosa de Oliveira a 12.08.2008 às 11:25

Gostei muito da sua análise e concordo com grande parte do que escreve.
O conflito, infelizmente, era esperado há vários anos. Quando a UE reconheceu o Kosovo, apontei no meu blog o Cáucasos e as relações russo-georgianas como área de conflito eminente, porque a Ossétia do Sul e a Abecássia vivem desde 95 numa espécie e independência não oficial e agora havia um pretexto.
O presidente georgiano foi aventureiro. Devia saber que não podia confiar na Europa e nos USA, que só estão interessado o oleoduto e no gás natural, demodo a não ficarem dependentes da Rússia. E devia saber que emaEuropa nem os EUA têm moral para condenar o ataque russo, depois da verginhosa encenação para atacar o Iraque.
O povo georgiano não tem culpa, eu sei, mas Saakhasvilli está a ter a sorteque merece, depois dos massacres que perpretou na Ossétia do sul, coma Europa eo USA a assobiaem para o ar.
Havia muito mais paar dizer, mas o comentário vai longo. Peço desculpa
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De Samuel de Paiva Pires a 13.08.2008 às 20:00

Ora essa Carlos, comentário nenhum é longo! Concordo plenamente consigo, principalmente no que concerne a Saakashvili. Claro que o povo não tem culpa, e por este caminho ele ainda se arrisca a deixar de ser o grande herói que tem sido para muita gente da região...
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De Paulo Soska Oliveira a 12.08.2008 às 11:42

1) Não esquecer a propaganda efectuada pelos media ocidentais...

2) Kosovo = Ossetia do Sul = Abkázia = Transnistria...

3) É engraçado ver algo que como a guerra na ex-jugoslávia é iniciado por uma das partes e prontamente "clareada" pelos media ocidentais. Na ex-Jugoslávia quem começou os crimes contra a humanidade foram os Croatas e não se vê ninguém sentado na Haia...

4) Bom senso e moderação. Alguém me pode explicar a Bandeira da UE por detrás do Presidnete Georgiano?
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De Zé da Burra o Alentejano a 12.08.2008 às 15:56

Infelizmente a Europa e a UE nada valem e apenas seguem cegamente os ditames dos EUA, por vezes até contra os interesses da própria Europa. Apesar de se saber que a guerra do Iraque era injusta a Europa acabou por não a condenar e alguns países aderiram até à mentirosa tese americana. A verdade é que os EUA tinham perdido qualquer influência no Iraque depois da 1ª guerra e com isso ERAM AS PETROLÍFERAS EUROPEIAS QUE ESTAVAM A BENEFICIAR. Daí aos americanos chamarem aos franceses os representantes da "velha europa". Quanto aos ingleses, são, como se sabe, inquestionáveis seguidistas dos EUA e só aderiram à UE para "ficar por dentro", mas está mais próximos dos EUA (em corpo e alma) do que da Europa".

Zé da Burra o Alentejano
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De Samuel de Paiva Pires a 13.08.2008 às 20:02

Bem visto esse quarto ponto Soska, não dei por isso!

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