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É suficiente?

por Nuno Castelo-Branco, em 26.09.14

 

Bem verificados os calamitosos precedentes, parece legítima alguma suspeita quanto à intervenção dos EUA na Síria. Apresentando-a como o único recurso para a destruição dos terroristas do pretenso "Estado Islâmico", os nossos aliados poderão de facto tentar servir-se deste móbil para conseguirem aquilo que há muito querem: o derrube de Assad e a sua substituição pela incógnita que tememos. Municiaram e generosamente subsidiaram - ajudados por sauditas e alguns emiratos - boa parte daqueles que agora surgem como a mais directa ameaça à Europa, não nos podendo esquecer dos crimes cometidos pelo "ISIS" nas comunidades locais - cristãs e outras - que este grupo de bandidos considera como elimináveis. 

Estamos então perante a possibilidade de uma guerra em duas frentes. Quando aqui se diz estamos, isso deve-se à inevitável situação que a nossa pertença à NATO implica, apesar da fortíssima suspeita que leva a crer estar a imensa maioria dos europeus contra a aventura de uma guerra no leste. Apesar de paulatinamente vender-se  a  ilusória possibilidade de um conflito localizado, a verdade  implica o reconhecimento desta suposição como totalmente falaciosa. Um conflito que implique a entrada directa da Polónia e de outros países limítrofes da Rússia em operações militares no âmbito do contencioso russo-ucraniano, conduzirá inevitavelmente a uma escalada. São tragicamente risíveis, os sonhos quanto a uma residual utilização táctica de armas nucleares, ousando alguns menosprezar esta evidência. A acontecer o desastre, esperam circunscrevê-lo ao campo de batalha europeu, acreditando serem os russos incapazes de caírem na tentação de uma resposta num alvo além-Atlântico.  Seria aconselhável uma conscienciosa avaliação da situação, estudando-se  alguns precedentes históricos que indicam sem sofismas, qual o modus operandi russo quando em situações de desespero. 

Estamos no plano das hipóteses e é impossível prever o alastrar ou não do conflito a outras áreas do globo, onde regimes como o norte-coreano poderão tomar iniciativas de âmbito regional. Muitas interrogações ficam sem resposta, sendo a posição da China, aquela que mais pesadamente apresentará consequências até no delinear de uma nova ordem territorial. Não existe qualquer espaço para alegadas traições ou cobardias, mas tão só o ponderado considerar dos interesses de uma Europa demasiadamente sacrificada ao longo de mais de cem anos de constante declínio. Qualquer intencional projecto ocidental de conflagração no leste europeu, poderá significar danos letais na aliança que desde 1949 tem garantido a paz, prosperidade e solidariedade no amplo espaço euro-atlântico. Putin poderá estar a contar com este factor. Conhecendo-se a aversão alemã a mais desastres que a teriam como alvo primordial, também pouco se espera quanto a um alinhar francês numa nova campanha da Rússia. A estes dois países juntar-se-ão todos os países próximos da Alemanha do pós-1990, talvez sobrando para a constituição de uma frente de incondicionais, a Polónia, os Estados Bálticos e com escassa, dir-se-ia mesmo nenhuma certeza, a Roménia. É pouco, para não dizermos mais. Ninguém decerto esperará entusiasmos italianos, espanhóis, nórdicos e até, pasme-se, portugueses, pois todos sabemos que a verdadeira guerra a ser urgentemente ser travada, é outra

Quanto à aventurosa  campanha ucraniana, fala Helmut Schmidt, apresentando algumas similitudes entre a actual situação e a Crise dos Mísseis de Cuba:

"Devido a estes mísseis ameaçarem a segurança dos Estados Unidos, isto colocou o mundo inteiro à beira de uma terceira guerra mundial (...) nem B. Obama ou Putin querem uma guerra, os europeus não querem qualquer guerra (...) A solução para a crise dos mísseis de Cuba tornou-se possível, porque ambos os lados estiveram cientes das suas responsabilidades. Este ensinamento deveria servir os diplomatas para o futuro (...) a anexação da Crimeia é um facto consumado, sem possibilidade de retorno".

Schmidt tem razão, querendo apenas referir-se a uma situação que tal como a presente, parecia insolúvel a não ser pelo recurso ao confronto armado. Embora não o diga, o antigo Chanceler decerto pensa na insistência americana em incluir a Ucrânia na NATO, algo que alguns militares aliados consideravam como uma séria possibilidade, quando exibiam Sebastopol como uma necessária base para a USN. Não parece estar em causa - por enquanto - a colocação de mísseis nucleares americanos nas proximidades da fronteira russa, embora os progressos tecnológicos conseguidos nos últimos quarenta anos, sejam suficientes para colocar a situação estratégica num patamar muito diferente daquele existente no início da década de setenta. Seria uma comparação anacrónica, descartável. Trata-se antes de tudo, de uma questão de delimitação de áreas de influência e da óbvia vontade russa de afastar o mais possível da proximidade do seu centro administrativo, qualquer presença militar ocidental. Funciona como sempre, o complexo adquirido após a esmagadora derrota  de Briansk-Viazma, a sempre presente lição que paira nos espíritos dos responsáveis políticos e militares russos, em perfeito paralelo com os ensinamentos dados pela doutrina da defesa elástica concebida pelo marechal Von Manstein, cuidadosamente estudada pelos Aliados ocidentais.

 

Tal como a França dos anos vinte gizou o chamado Cordão Sanitário - Polónia, Checoslováquia, Roménia e Jugoslávia - que conteria a possibilidade de um revanchismo alemão, hoje estamos perante o ensejo russo de pelo menos garantir a neutralização da Ucrânia, servindo-se Moscovo das  minorias nacionais russas, como uma arma de pressão para conseguir os seus fins. A não-finlandização militar da Ucrânia, poderá significar a pesada contrapartida do eternizar do conflito naquele país, assim como a já quase certa perda ucraniana de importantes territórios limítrofes do Mar de Azov e Mar Negro. O assunto é desagradável para nós, os ocidentais, mas nem por isso deixará de ser colocado desta forma. 

 

Outro caso a considerar é a posição da Alemanha. Potência sem um real peso militar - airosamente beneficia das bem implícitas exigências aliadas como compensação pela reunificação -, não aparenta querer  aderir sem condições, à continuidade da sua pertença cheque em branco, à Aliança Atlântica tal como ela existiu ao longo de décadas. A Europa é hoje muito diferente daquela existente em 1988 e as mais directas ameaças à segurança geral apresentam-se noutros possíveis teatros de operações. Em suma, com ou sem exército que se veja, sem a Alemanha não é possível qualquer tipo de frente coerente. Se os outros europeus e os norte-americanos aceitam esta realidade, essa é a grande incógnita. 

 

Em referência às conclusões tiradas após Estalinegrado, o general Francisco Franco declarava a Sir Samuel Hoare - um conhecido appeaser que paradoxalmente bastante contribuiria para manter os espanhóis fora do Eixo - , embaixador britânico em Madrid: "se o curso da guerra não se transformar de maneira decisiva, os exércitos russos penetrarão profundamente no território da Alemanha (...) existirá na Europa central, um bricabraque de raças e nações desunidas (...) uma potência capaz de se opôr eficazmente às ambições de Estaline?  É esta a pergunta que a mim próprio faço. Não, não existe (...) se a Alemanha não existisse, nós deveríamos criá-la. É ridículo acreditar que uma federação de letões, de polacos, de checos e de romenos poderia substituí-la. Semelhante liga de Estados cairia rapidamente sob o poder dos russos. (Guderian, Heinz: Memórias Dum Soldado, Paris, Plon, 1954, pág. 288)


Recorrendo ou não ao informal "pacto de Visegrado", amalgamando melhor ou pior todos os países Bálticos, a Polónia e a Roménia, será isto suficiente para alguém falar ou até agir em nome da NATO? Não é, até porque para disfarçar-se uma acção unilateral com uma aliança, podem os interessados recorrer à boa vontade de Andorra, S. Marino e Mónaco. 

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publicado às 18:05


2 comentários

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De José Lima a 27.09.2014 às 18:17

O vídeo já tem algum tempo, mas parece-me que a ameaça nele feita deve ser mesmo levada a sério, o que não me parece que este esteja a suceder neste momento por parte dos nossos responsáveis políticos (sobretudo, os da área da defesa): é que há "brincadeiras" que se podem tornar bem sérias e desagradáveis...

Sem prejuízo, seria bom que o gordo e o barbicha à mefistófeles do vídeo - e outros com iguais ambições - ponderassem o que sucedeu aos últimos da laia deles que a estas bandas chegaram com tais desideratos... - http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Navas_de_Tolosa
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De Bete a 05.11.2014 às 23:47

Vão ser recebidos a tiro e já que não têm medo de morrer não há problema nenhum.

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