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O regabofe acabou?

por Nuno Castelo-Branco, em 30.09.08

 

No passado dia 15 de Setembro, aqui deixei um post em referência ao discurso de Bento XVI contra a plutocracia. Apenas duas semanas depois, chegamos a esta situação, com notícias de desastres a chegar hora a hora, quase nos remetendo para a Invasão marciana  daquele programa radiofónico que tendo como base A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, há décadas espalhou o pânico na América. 

 

A crise que se vive era previsível e já muitos se tinham apercebido da total irrealidade de uma economia fictícia, feita de gases tão rarefeitos como aqueles encontrados na estratosfera. Especulação, manipulação de números não correspondentes à realidade material, eis o que temos há muitos, demasiados anos. As implicações são fáceis de prever e julgo que podemos esperar o seguinte:

1. Fim das ilusões quanto à descida de impostos, pois os Estados serão forçados a intervir, urgindo obter mais receitas.

2. Fim da grande farra dos empréstimos para fins tão relevantes, como aquisição de electrodomésticos, férias em resorts exóticos nas Caraíbas,  automóveis de gama muito acima das possibilidades dos deslumbrados compradores, apartamentos que nada valem no mercado real e que mais que nunca precipitarão em breve a indústria da construção civil para o buraco da falência. Vão acabar os regabofes dos cartões de crédito oferecidos à porta de centros comerciais e aqueles termos esquisitos como leasings, spreads, etc, que serão aplicáveis a uma minoria.

3. As pessoas terão de viver de forma mais comedida, sem 4 televisões de ecrã plano-plasma em cada divisão da casa e uma infinidade de inutilidades como 6 play-stations, dois leitores de dvd - um antigo, com dois anos e um novo, comprado ontem . E poderiamos continuar indefinidamente.

4. No plano político, assiste-se hoje à inacreditável indignação dos comentadores televisivos da economia , que agora incrédulos pela alegada politiquice dos governos e parlamentos do Ocidente, se insurgem contra o laxismo, pois ... "os Estados têm mesmo de intervir!"... (SIC). São os mesmos que ainda há dias pretendiam a privatização de tudo o que resta do sector público e ..."deixar o mercado funcionar"... Obcecados com jogos virtuais de bolsa, agora não sabem o que dizer e pior, o programa a apresentar para a salvação do sistema. 

Que bela oportunidade para os partidos dos extremos políticos. É que, ou muito me engano, ou dentro em pouco as eleições tornarão bastante audíveis vozes sieg heil! um pouco por toda a parte. Ditas com um fundo musical menos marcial, como na Rússia, mas sem dúvida não deixarão de se fazer escutar por muitos. Em Portugal, na melhor das hipóteses, voltámos a 1908, com a decadência absoluta e definitiva do rotativismo. Estamos a dois anos de 1910, ano de todas as oportunidades. Quem dará o primeiro passo?

publicado às 08:54


7 comentários

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De Pi-Erre a 30.09.2008 às 16:04

O regabofe acabou? Uhmmm..., parece que ainda não é desta que acaba.
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De Margarida Pereira a 30.09.2008 às 18:38

"Leasing" ser um vocábulo "estranho" é que é estranho para mim :)...
É uma forma de financiamento que conta, em Portugal, com uma trintena de anos. Destina-se, em especial, à indústria e ao comércio e vem desempenhando um papel importantíssimo na modernização e incremento dessas actividades económicas.
Também se utiliza na aquisição de imóveis, para as mesmas acividades (fábricas, lojas...).
Certo que se propagou ao consumo de particulares, sobretudo para aquisição de automóveis, mas, mesmo assim, não é, nem de perto, nem de longe, a actividade financeira a alvejar.
Garanto... ;)
Já outras, hum..., ficaríamos aqui muito tempo a discorrer e há bem mais quem o faça excepcionalmente.
Apenas tive de 'saltar' em defesa da "minha dama".
(isto para (lhe) mostrar que não é tudo só poesia, pintura, fotografia e... arquitectura. E História, claro está :)! )

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De Nuno Castelo-Branco a 01.10.2008 às 15:25

Desculpe-me Margarida, mas todo esse rol de cifras bancárias pertencem ao mundo da simples extorsão e vigarice. E daqui não saio :)
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De Margarida Pereira a 01.10.2008 às 15:57

"extorsão e vigarice" é virulento e - cá está, Nuno - tinem as espadas...
Classificar tudo pela mesma labita é redutor e não o concebo em espíritos superiores...
Vou achar que anda mal disposto. E que 'dará amão à palmatória'. Um dia.
Opinar baseado em tudo menos na injustiça, concordará, por certo.
Se lhe reconhecesse razão, silenciaria ou corroboraria.
Assim, não.
Ainda o desafio para um duelo ao nascer do sol, para defender a honra do meu labor!

(começamos bem a troca de comentários, para a qual tão gentilmente me convidou..., ai!)
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De Nuno Castelo-Branco a 01.10.2008 às 16:32

ehehehe, pois é, Margarida, como nunca me meti em assados desses, sou alérgico a contas que indiciam ruína iminente. Spreads, stocks e tudo o mais, não me causam qualquer tipo de estímulo. Antes pelo contrário. E a simples ideia de comprar um carro durante cinco anos, andar a pagá-lo, para depois quase ser coagido a comprar outro, é no mínimo, uma ideia delirante... :)
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De Margarida Pereira a 01.10.2008 às 16:57

Entendo-o muito bem e concordo em absoluto consigo. Nem imagina o quanto, nem a que grau, só lhe digo.
Mas do que se falava era mais lato do que o 'crédito pessoal' ou o 'leasing de automóveis de passageiros'.
E o Nuno, nessa sanha ferocíssima contra a banca esquece que há muitos produtos, muitos financiamentos, muitos... bancos.
Recordo que a base da crise é a banca "de investimento". A especulativa. A dos castelos no ar.
Há a produtiva.
É dessa que orgulhosamente faço parte há mais de duas décadas.
Sei do que falo. Quase tanto como o Nuno da sua 'dama', pela qual tão garbosamente milita e sobre a qual tanto (me) ensina.

Recuou e não escolhe a arma? :)
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De A Besta a 06.10.2008 às 02:11

Minha cara Margarida,
sem querer abusar da sua paciência e pedindo antecipadamente desculpa por este meu atrevimento, gostaria que me explicasse, se possível, como se eu fosse muito burro (basta atender ao meu nome), o que que é que entende por banca produtiva.
O que é que esse tipo de banca produz???
Será que há bancos, até agora desconhecidos, transformadores de matérias primas???
Em quê?
Cumprimentos

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