por Nuno Gonçalo Poças, em 04.12.15

Nos primeiros dias do ano de 1976, à mesa do Tavares, Francisco Sá Carneiro perguntou a Natália Correia que tal era a sua editora. A mulher chamava-se Snu Abecassis e era responsável pela D. Quixote. E Natália Correia respondeu-lhe assim:
"É melhor não querer saber como ela é. É uma princesa nórdica que jaz adormecida num esquife de gelo à espera que venha o príncipe encantado dar-lhe o beijo de fogo. Esse príncipe encantado é você. Porque ela é a mulher da sua vida. Corra para ela! Telefone-lhe e convide-a."
Sá Carneiro assumia, algum tempo depois, a relação com Snu. Casado, separado, não divorciado – e unido de facto. Em 1976. Escândalo político. Uma mancha na vida pública. Uma vergonha doméstica. Um amor. O amor. E Sá Carneiro resistia. O caso era tema político – como um lodo que nos entra pelos lençóis. Manuela Eanes recusava-se a ter Snu ao seu lado na recepção a Jimmy Carter. De Sá Carneiro dizia-se que não se podia esperar que um homem incapaz de governar a sua casa fosse capaz de governar o país.
Mas o homem era de ferro. Contorceu-se, entrou, saiu, rodou, voltou. Foi capaz de dizer ‘sim’ e de dizer ‘não’. Teimou, teimou, teimou. Confrontou. Baixou os braços, deprimiu, saiu. Voltou, ganhou, perdeu e, por fim, morreu, na sua “ânsia febril de andar depressa”, como terá dito Marcello Caetano um dia. E escolheu sempre Snu. E esclareceu isso em 1977: “se a situação for considerada incompatível com as minhas funções, escolherei a mulher que amo”. Não foi preciso tanto. Antes das eleições perguntou a Freitas do Amaral e a Ribeiro Telles se a sua condição pessoal era incompatível com uma hipotética condição política. Disseram-lhe que não – eles e o país, que o levou em ombros pouco tempo depois. A ele e a Snu.
É este o legado de Sá Carneiro – digo eu, cheio de incertezas e desconhecimento. Não é político e muito menos ideológico. Não é a social-democracia. O legado de Sá Carneiro é o carácter. A força e a coragem. A capacidade de ir ao choque – e de provocar o confronto. De entrar para sair, de sair para entrar. De abandonar o partido para não abandonar as suas ideias. De edificar para destruir, de destruir para edificar. E o descaramento de conquistar o coração de um povo que o amou e que o chorou – a ele e à sua mulher que as convenções diziam ser ilegítima. O legado de Sá Carneiro é o carácter. O carácter que o fez esquecer as regras e a moral. E é uma pena que tenhamos deixado morrer o homem Francisco, para manter a lenda do político Sá Carneiro. Trinta e cinco anos depois de Camarate, trinta e cinco anos depois da morte de Sá Carneiro, de Adelino Amaro da Costa e de Snu Abecassis, parece-me mais relevante realçar a força de carácter das pessoas que iam a bordo daquele avião do que o seu legado partidário.