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"Caridade no reino da fartura"

por Samuel de Paiva Pires, em 16.10.08

 É o título de um magnífico post de JCS que aqui deixamos na íntegra:

 

Se bem percebi, o Blog Action Day é uma iniciativa que pretende reunir todos os blogues do mundo numa causa comum. Este ano fala-se de pobreza e exige-se aos líderes mundiais que cumpram a promessa de a saldar até 2015.


Fui desafiado para participar, por uma plataforma portuguesa, mas confesso que estes circos não me agradam.


Posso lembrar os pobrezinhos em caridosos posts, posso pendurar links na coluna do lado direito, posso até participar naqueles eventos públicos com pessoas deitadas em jardins. Posso fazer tudo isto e a pobreza no mundo permanece ilesa.


Lutar contra a pobreza não é falar nela. Nem é pedir aos governantes para cumprir promessas. Isso é o que fazem largas centenas de organizações internacionais, altamente financiadas, há muitas décadas.


O nosso papel, na luta contra a pobreza, é bem mais simples e começa nos nossos hábitos. Se pusermos cobro à ganância que tomou conta da nossa vida, estamos a entrar directamente nesse combate, sem autocolantes ou palavras afáveis.


Queremos hoje ter o melhor carro do semáforo, o melhor telemóvel da mesa, a camisa mais vistosa da rua, o cinto mais crocodilo da savana, os óculos escuros mais bimbos do universo e o relógio mais espalhafatoso do escritório. Deitamo-nos a pensar nisto e acordamos com muitas ganas.


Corremos confiantes para os balcões porque nos dizem que a sociedade tem de ser mesmo assim. Ao comprarmos estas merdas estamos a dar dinheiro à loja, que depois dá à fábrica, que depois dá emprego. Como se não fosse já evidente que este consumo ganancioso gera apenas fortunas milionárias, ironicamente esbanjadas em inutilidades análogas.

Ora, neste pomposo cenário, lamentar a pobreza é treta. Se procuramos ser cada vez mais ricos, não podemos ser generosos. É elementar: o que nos sobra faz falta noutro lado.

publicado às 01:55


9 comentários

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De Ana Vidal a 16.10.2008 às 03:03

Clap, clap, clap.
Também já estou farta de correntes e conversas da treta, que nos ilibam de fazer alguma coisa de concreto, menos visível mas certamente muito mais útil. Mais vale cada um de nós pensar em como pode ajudar a salvar alguém (uma só pessoa só já é um universo) da miséria... mesmo sem petições nem grandes parangonas.
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De Once a 16.10.2008 às 10:38

:) concordo com quase tudo o que está escrito menos com a inibição da divulgação.
Divulgando, alertando, informando pode resultar. Tem de resultar.
Aderi à causa a par de outras pequenas atitudes que tenho ao longo do ano para minimizar do lado de lá aquilo de que não padeço (ainda) do lado de cá, mas há muito que deixei de pedir responsabilidades .. tal como há muito não "embandeiro" em arco :)

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De Nuno Castelo-Branco a 16.10.2008 às 13:11

Ora pois e com esta, poupaste-me um post. E ver ontem o Guterres em Petra a debitar a choraminguisse do costume, foi mesmo para rir...
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De Anónimo a 16.10.2008 às 14:44

"(...)uma plataforma portuguesa, mas confesso que estes circos não me agradam" ... pelo que leio já somos quatro.
A proveniência é sempre a mesma, as propostas mantêm-se (apenas se adaptam ao que corre e está na berra) - há quarenta anos era a luta contra a desnuclearização do mundo leia-se "a oeste do muro", hoje é a fominha ... desculpe esquecia-me daquela outra do Bangladesh. Afinal é mesmo a "mesma coisa".
Cumprimentos
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De Luísa a 16.10.2008 às 15:06

Absolutamente de acordo, Samuel – embora concorde com a Once sobre a necessidade da divulgação (se mais não for porque «água mole em pedra dura tanto dá até que fura»). Mas há, sem dúvida, muitos que limpam a consciência com a mera divulgação, devolvendo a acção para os outros. E os seus exemplos de incoerência ou quase hipocrisia acabam por desacreditar a causa. Também acho que alguma renúncia da nossa parte deve ajudar, porque o que não gastamos há-de sobrar para alguém (ainda que não esteja completamente segura de que chegue a esse alguém, e como, e quando...)
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De David Oliveira a 16.10.2008 às 16:15

Peço muita desculpa mas esse comentário que aí está assinado como Anónimo, é meu - David Oliveira. O erro foi meu...esqueci-me. Logo eu que gosto muito de anónimos e de quem se esconde por trás do anonimato. Obrigado
david Oliveira
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De CMF a 16.10.2008 às 16:40

Bem, isto é muito discutível. A economia de subsistência passa a economia de mercado quando há excedentes. A verdade é que o consumo gera emprego. Aliás, não é por acaso que inflação (que está directamente ligado ao consumo) e desemprego têm tantas vezes uma correlação negativa. Lutar contra essa coisa do "consumismo inútil" também é um pouco como "participar naqueles eventos públicos com pessoas deitadas em jardins".
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De Zé Pedro Silva a 16.10.2008 às 17:54

«A economia de subsistência passa a economia de mercado quando há excedentes. A verdade é que o consumo gera emprego.»

Pois, claro. Isso é muito verdade aqui nas nossas vidas. Por isso eu digo: «Se procuramos ser cada vez mais ricos, não podemos ser generosos.» Temos, aliás, de manter os excedentes e o emprego connosco.

E então, lá está… não nos fica nada bem lamentar a pobreza.

(Bom exemplo disto, Europa e África.)
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De CMF a 16.10.2008 às 22:35

Sim, isso é verdade ao nível dos Estado e continentes. Concordo que a Europa enriquece (?) enquanto África empobrece, e muito devido ao proteccionismo europeu (que no entanto não se importa de receber mão-de-obra barata para poder pagar o Estado-Providência que a sua demografia já não lhe permite sustentar). Mas aí há uma acção (e efeito) directa.
Eu não estava a ver o texto (falta minha) como uma referência ao facto, por exemplo, de uma vaca francesa ganhar mais do que muitos senegaleses. Vendo por esse prisma, concordo com a acusação de hipocrisia. Mas em geral, e era a isso que eu me queria referir, o enriquecimento de uns não significa o empobrecimento de outros (e nalguns casos até é o contrário). O mercado não é feito de jogos de soma nula. Todos podemos ganhar, todos podemos perder.

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