Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
É um lugar comum dizer-se que os norte-americanos são racistas. Numa sociedade demograficamente vibrante cujo poder de adaptação e flexibilidade às condicionantes impostas pelo mundo em devir se devem em grande parte ao modelo cultural de assimilação e integração dos milhões de migrantes que têm acolhido ao longo da História, latinos e afro-americanos têm, com maior ou menor dificuldade, encontrado espaço para desempenhar cargos públicos e políticos, e Obama é a maior expressão disso mesmo. Pesem embora algumas tensões que assolaram os Estados Unidos, desde a abolição da escravatura que levou a uma guerra sangrenta, passando pelo episódio de Martin Luther King, chegando-se aos dias de hoje com alguns indivíduos a defenderem certos princípios como a supremacia branca (KKK), actualmente esse racismo não me parece ter expressão significativamente relevante na sociedade americana, isto é, para criar graves problemas de perturbação da ordem pública e, mais uma vez, Obama é a prova disso mesmo.
Lembrei-me disto a propósito deste post e mais especificamente destas palavras de Nuno Lobo:
Por outras palavras, Obama significa a vitória da europeização da América.
Pois bem, se os Estados Unidos da América, e o restante continente americano, são de facto, historicamente, um prolongamento da Europa, e se essa é que é supostamente, pelo menos partindo de uma perspectiva euro-cêntrica, a base da civilização Ocidental, quanto a esta questão do racismo, parece-me que talvez estejamos a ver as coisas ao contrário. E porquê? Perguntem-se quantos africanos ou descendentes de africanos exercem cargos públicos ou políticos em todos os aparelhos estatais dos estados membros da União Europeia e, em consequência, nas próprias instituições europeias? Pois, muito provavelmente poucos ou nenhuns. Basta olhar para o nosso próprio Governo, a Assembleia da República, os Tribunais e por aí fora. Sem esquecer ainda a recente expressão cada vez mais significativa da extrema-direita por esse velho continente fora ou ainda a tendência crescente para fechar fronteiras e impedir a imigração, a ilegal legitimamente, a legal sendo um tiro no pé que vamos pagar a longo prazo quando os sistemas de segurança social não conseguirem mais comportar o díspar rácio entre população activa e população reformada.
Além do mais, tal como referi no início deste post, e como refere Fareed Zakaria em O Mundo Pós-Americano, parte do segredo da regeneração dos Estados Unidos em face das diversas crises e da constatação de que continuarão a ser por muitas décadas a única super-potência no mundo tem sido a sua atitude perante a imigração. E depois os americanos é que são racistas...
No velho continente cá continuamos contentes e alegres com o nosso euro-centrismo e alegada superioridade moral, julgando que nos encontramos em posição de dar lições aos Estados Unidos, ou tentando ver em determinados acontecimentos nesses a expressão acabada dessa mesma nossa alegada superioridade. Daqui a umas décadas talvez vejamos como estávamos enganados... Europeização da américa? Posso estar enganado ou talvez não esteja a conseguir vislumbrar tal processo mas, não só quanto a esta questão do racismo ou da imigração, num espectro mais alargado, tal não me parece sequer uma ideia séria, pelo menos por agora. Esperemos pelo que irão fazer quanto aos sistemas de educação, saúde e segurança social, e aí sim, porventura poderemos assistir a algum tipo de europeização.