Ao longo da história foram aparecendo centenas de modelos políticos. Da direita à esquerda, todos eles nos brindaram com virtudes e calamidades, não nos permitindo apontar nenhum deles como perfeitos. Quer os mais aristocráticos, quer os ditos “socialistas” tiveram um ponto como base comum, a estratificação social dividida entre a elite governante (classe política/administrativa), a elite não-governante (classe intelectual ou militar ou economicamente imponente ou puro mistério de ligações – “cunhas”) e claro as massas que em todos os regimes funcionam como uma base de pirâmide social.
Numa altura em que a democracia em perde de uma forma progressiva a sua credibilidade, é necessária a reinvenção da forma de fazer política, o que exige necessariamente uma “revolução” (termo lamentavelmente associado de forma automática a movimentos violentos de esquerda relativos a golpes de estado).
Há dias numa conversa com o Samuel sobre este mesmo tema, ele disse-me quatro condições políticas essenciais com os quais me vi obrigado a concordar depois de reflectir para que um sistema funcione, o humor, o politicamente incorrecto, o realismo e o sentido de estado. Pensemos agora caro leitor no caso português; alguma vez se assiste a alguma situação de humor por parte dos políticos portugueses? Há uns anos tínhamos as camisas do Dr. Carvalhas, de vez em quando há umas calinadas e propostas absurdas que dão para rir e mais? Não há qualquer humor político em S. Bento, o tabu e a extrema sensibilidade em relação a questões ideológicas fazem com que tudo se torne demasiado “obtuso”, sem humor não há tacto e muito menos confiança. Se é necessária a seriedade nas questões, também é o humor nas relações interpartidárias e na abordagem dos problemas. Quanto ao segundo ponto, acho que tem havido um esforço, mas como referi em monarchy for dummies, muitas pessoas neste país confundem o politicamente incorrecto com o politicamente absurdo. Não há risco, não há tentativa… Tudo se resume à continuidade de políticas que agradam, na garantia de que de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos vão ter a reciprocidade dos beijinhos das velhinhas dos mercados ou as mãos erguidas fazendo símbolos que desconhecem. O Realismo meus caros, estará ele escondido atrás do sonho marxista, no pseudo-socialismo, no trotskismo politicamente correcto ou na direita indefinida? No que toca à nossa postura em relação à vida, o idealismo é uma das mais pertinentes virtudes que um homem pode ter (fala o poeta que da vida ainda pouco conhece), mas não na política, nas eleições fazemos um voto em actos e propostas exequíveis e não em ideologias que impossivelmente se aplicam em 4/8 anos. Por fim, o sentido de estado, contam-se pelos dedos das mãos os nossos caros políticos que estão familiarizados com tal termo. Para uns é o seguimento de políticas vãs num conformismo existencial de ocupação de poder, para outros é o simples facto de garantia de soberania, obrigado aos senhores que nos garantiram dois maravilhosos submarinos de guerra e outros gastos com a defesa (não culpemos o Dr. Paulo Portas, porque as políticas que anteriores remetiam para a compra desses mesmos submarinos e para além disso jogar ao braço de ferro com as forças armadas só teria um resultado possível) – o que não quer dizer que a necessidade de forças armadas não seja uma realidade mas...
Qual a solução?
Que futuro?
Há uma frase que costumo dizer e que é muitas vezes mal interpretada, o grande mal das ditaduras é não terem um prazo de validade, não haja dúvida de que há uma necessidade de uma séria recuperação e mudança política no nosso país, provavelmente a única solução democrática passaria pelo extremo centro, mas até que ponto seria exequível? Alguma vez as massas votariam no MMS e nesses outros que se afirmam totalmente independentes de ideologia? Não. A direita está descredibilizada com o Estado Novo (no que toca às práticas de censura, liberdade política e afins), a esquerda teve a sua oportunidade num verão que quase virou guerra civil e o centro tem-nos levado ao fundo cada vez mais…
Não encarem isto como discurso político ou rebeldia sem causa, é apenas um desabafo.