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Um bom político deve nortear todos os seus actos pela sensatez que na maior parte das vezes decorre do senso comum.
Estando Portugal numa das mais difíceis situações da sua história - ressaca da perda do império, exaustão de recursos financeiros, dificuldades decorrentes da extinção da moeda nacional, catástrofe na educação e justiça, fim do ciclo semi-presidencial da Constituição de 1976 -, os comentadores políticos aproveitam as mais inesperadas oportunidades para justificar o próprio emprego. Não oferecem o produto da sua reflexão para o desbaste do matagal de cipós em que a nossa sociedade se transformou, nem sequer estão minimamente preocupados com as inegáveis consequências negativas deste permanente lançar de mais achas à fogueira que acabará por tudo e todos consumir. Agora, chegou a vez de gastar mais uns dias, no comentário da desastrada prenda oferecida ao primeiro-ministro, neste caso, um alegado cheque para artigos de moda na Fashion Clinic.
Há quarenta anos, os portugueses viram desaparecer de cena um primeiro-ministro com aquilo que hoje, neste conglomerado de gentes que povoam o planeta, é vital: um homem com "bom aspecto", que os media vulgarmente designam como imagem. Quatro década volvidas, Sócrates tem-na, nisso quase todos concordam. Além da apresentação, possui até ao excedente, outra qualidade secretamente idolatrada pelos nossos compatriotas: a força, advenha esta da razão ou da simples teimosia. Num país de choramingas hipocondríacos, de "discursos da tanga", do miserabilista "pobrezinhos e pequeninos", das sandecas de coirato e do copito de carrascão, alguém que fuja ao estereótipo tão bem retratado por Hergé no seu maravilhoso senhor vigarista Oliveira da Figueira, torna-se num corpo estranho. Estranho, mas intimamente apreciado pela maioria.
Além do citado "bom aspecto" que não nos envergonha lá fora - ao contrário do miserável choninhismo pegajoso do sr. Zapatero, da rasquice gourmande de Sarkozy, do cabotinismo mafioso de Berlusconi, ou das aventesmas que pululam no leste ou países bálticos -, Sócrates parece ser um muito apresentável optimista. Tem "ar" e boa presença. Portugal não necessita de mais tribunos apocalípticos que desencoragem ainda mais, a necessária reacção ao tremendo perigo que ameaça a segurança da nação como entidade independente. O grotesco discurso da tanga de Barroso, confirmou a predisposição de muitos para a resignação. Portugal tem pelo contrário, a imperiosa necessidade de seguir em frente e deixar cair uma pesada laje de granito sobre o pessimismo secular que nos corrói até aos ossos, exaurindo qualquer capacidade de reacção e aferrando-nos a um destino decadentista que nos mina até à morte.
Os assuntos públicos não parece correrem bem e todos conhecemos as razões para tal. No entanto, tornar-se-á impossível mobilizar o país, se não existir aquela dose de desvairado optimismo que por vezes conduz ao desastre final e irremediável, ou pelo contrário, à almejada solução para tantos e tão esmagadores problemas. Nada temos a perder.
Santana era um irreflectido optimista e foi por isso lapidado. Neste aspecto, Sócrates conta a seu favor, com a geral predisposição para a tolerância dispensada a quem se reclama de esquerda, neste Portugal onde ser-se de direita é um prático sinónimo de anormalidade ou pior ainda, de crime. Os acontecimentos de 1974-75 e a pesada coacção física e moral exercida sobre os aspirantes a agentes políticos, impuseram este absurdo modelo em que a direita - sempre alternativa de poder nas verdadeiras democracias - vê-se relegada a um mero resíduo com menos de 10% do eleitorado. Pelo contrário, a social-democracia de facto - o PS - e aquela outra que é um mero arremedo de embuste, surgem hegemónicas e alternando-se a si próprias, desacreditando mesmo o conceito de rotativismo que é por si, a constatação da existência e enraizamento da democracia e do progresso. Assim é na Europa que queremos imitar.
Sempre considerei indispensável desejar o sucesso aos consecutivos governos que têm exercido o poder em Portugal, não imaginando outra fórmula que se coadune com a pessoal e inabalável fé patriótica. Apenas o período que se seguiu à revolução e até ao 25 de Novembro, contou com a minha total oposição ao consumar de um pretenso modelo de regime que alguns quiseram instaurar em Portugal. Desejei o seu estrepitoso fracasso, mesmo se para tal, fosse necessário recorrer à violência. Disso não tenham qualquer tipo de dúvida. Apesar dos meus então inofensivos 15 anos de vida, fui orgulhosamente um inimigo.
Hoje vivemos uma situação totalmente diferente e se a própria democracia se encontra estabelecida nas mentes e no quotidiano, esta existe apenas enquanto desígnio, carecendo urgentemente de uma reformulação institucional - no sentido mais lato do termo -, tal como disse em numerosos posts anteriores.
Agrada-me o optimismo do primeiro-ministro (1), mesmo quando não pareça muito coincidente com a realidade conhecida. Sem ousadia, uma boa dose de descaramento, querer na procura e ambição, não chegaremos a lado algum, amarfanhando-nos ainda mais num fado que curiosamente, é até bastante audível extra-fronteiras, rebaixando Portugal à ínfima condição de pária entre os ricos.
A recente crise financeira e o apressado e impopular auxílio aos bancos dos milionários, consistiram em dois pesados reveses para a imagem do governo. No primeiro caso, os sinais eram por demais evidentes há muito tempo, para que não se tivessem tomado medidas preventivas. O segundo caso - a bóia de salvação a quem mais pode e menos merece -, foi um perigoso passo em falso que afinal, parece confirmar a total submissão do poder político aos interesses instalados. Atitudes apressadas - mesmo se ditadas por imperiosas necessidades de que os cidadãos não têm informações para julgar correctamente -, ditam o fracasso mediático que descredibiliza a política.
Há que ter bom senso e o eng. Sócrates deve seriamente advertir o seu grupo de trabalho. Pouca ostentação nas mordomias, mais interesse no desempenho das funções e sobretudo, dar o exemplo à população. Se eu fosse o primeiro-ministro de Portugal, teria exultado com um presente de Natal que ao invés de um cinto D&G ou de uns escarpins DKNY propiciados por um cheque-compra de uma grande superfície comercial, me fizesse degustar as delícias de um bom presunto, de um queijo da Serra de primeira categoria, figos secos, uma garrafa de vinho de reserva, doces conventuais tradicionais e mais uns quantos produtos que tornam conhecido o nome de Portugal no mundo. Tudo isto num cesto de vime, onde decerto não faltaria uma toalha com um bordado excepcional de uma das regiões do país. Isto sim, é sensatez, sentido prático das coisas e sobretudo, verdadeiro combate pela tal ambicionada imagem, deixando os adversários knock-out. Com a vantagem de se tornar moda entre nós e ajudar quem mais precisa: os que de forma teimosa e corajosa, ainda se atrevem a produzir. Por Portugal.
(1) Não sou filiado do PS nem sequer, habitual eleitor. Voto consoante o interesse nacional em certo momento e não ando à procura de coisa alguma. Para que conste.