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"Televisão: um perigo para a democracia"

por Samuel de Paiva Pires, em 04.02.09

 

É o título de um pequeníssimo livro de Karl Popper e John Condry, datado de 1993/94, no qual Popper alertava para os perigos da excessiva liberdade da televisão que levou à degenerescência no tipo de conteúdos fornecidos. Popper propunha, talvez utopicamente, que se criasse uma ordem que emitisse e retirasse licenças aos trabalhadores e produtores televisivos, que deveriam jurar uma espécie de código deontológico. Deixo aqui dois breves parágrafos de Popper, e um pequeno parágrafo do posfácio de Jean Baodouin. Depois de há uns tempos ter escrito um post indignado com certa degenerescência da televisão portuguesa, foi com agrado que li esta obra.

 

A proposta que aventei não tem apenas um carácter de urgência, corresponde também a uma necessidade absoluta do ponto de vista da democracia. Eis, resumidamente, a razão: a democracia consiste em submeter o poder político a um controle. É essa a sua característica essencial. Numa decmocracia não deveria existir nenhum poder político incontrolado. Ora, a televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal; pode mesmo dizer-se que é potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus. E será assim enquanto continuarmos a suportar os seus abusos. A televisão adquiriu um poder demasiado vasto no seio da democracia. Nenhuma democracia pode sobreviver se não se puser cobro a esta omnipotência. E é certo que se abusa deste poder hoje em dia, nomeadamente na Jugoslávia, mas esses abusos podem ocorrer em qualquer sítio. O uso que se faz da televisão na Rússia é igualmente abusivo. A televisão não existia no tempo de Hitler, ainda que a sua propaganda fosse organizada sistematicamente com um poderio quase comparável. Com ela, um novo Hitler disporia de um poder sem limites.
Não pode haver democracia se não submetermos a televisão a um controle, ou, para falar com mais precisão, a democracia não pode subsistir de uma forma duradoura enquanto o poder da televisão não for totalmente esclarecido. De facto, os próprios inimigos da democracia apenas possuem uma débil consciência desse poder. Quando tiverem compreendido verdadeiramente o que podem fazer com ele, utilizá-lo-ão de todas as formas, inclusivamente nas situações mais perigosas. Mas então será tarde de mais. É agora que devemos tomar consciência desse risco e submeter a televisão a um controle através dos meios que indiquei. (Karl Popper)

Se uma sociedade democrática tem necessidade de liberdade para neutralizar o poder devorador do Estado, também necessita da arma regulamentar para reduzir as más utilizações da liberdade. Popper sempre achou que a economia de mercado era a companheira mais ou menos insubstituível da democracia política. Porém, não aceita que ela generalize inconsideradamente as suas lógicas a todos os registos da vida social. Sobretudo quando, em nome da eficácia e da rendibilidade, submete as cadeias de televisão aos ditames cegos da concorrência, abrindo assim o caminho aos programas mais nefastos e mais deseducativos. Entre a hipótese obsoleta de um monopólio de Estado da radiotelevisão e o panorama actual da privatização e da concorrência selvagem talvez haja lugar para uma solução intermédia: a criação de uma ordem corporativa que emita licenças e possa, em qualquer momento retirá-las. Nem todo o poder ao Estado, nem todo o poder ao mercado. (Jean Baodouin)

publicado às 00:43


9 comentários

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De Silvia Vermelho a 04.02.2009 às 12:07

Lembro-me de no 11º ano, a Introdução à Filosofia, termos tido um debate, baseado precisamente em Popper e a televisão. As reacções foram as mais incríveis, desde a proposta da pura censura à proposta de uma "libertinagem" dos conteúdos televisivos.
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De Helena Branco a 04.02.2009 às 14:21

Sempre aqui venho beber ...compartilhar ideias... A propósito do " deseducativos" de Jean Baodouin e dos malefícios da televisão, deixo aqui uma nota sobre Educação. Então em vez de regular os excessos de poder com mais leis porque não resolvem o assunto pela base? EDUCAR O POVO erradicar a iliteracia...formar moldar novas consciências e assim provocar um grau de excelência, de exigência de molde a retirar "poder ao Estado e mercado ao poder"

A formação resultaria num voto consciente!
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De Silvia Vermelho a 04.02.2009 às 18:49

Há questões pertinentes a serem colocadas pelo seu comentário. A educação das bases como forma de evitar o hiper-controlo Estatal parece-me uma mera fantasia. Essa educação e a formação valorativa são meros braços do Estado, nunca daí resulta uma quebra do poder estatal. No fundo e na generalidade, o bottom-up é uma utopia. O caminho será sempre top-down.
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De Helena Branco a 04.02.2009 às 19:32

Tal como a Educação é regulamentada ainda pelo Estado claro que concordo quando qualifica de utópica a minha sugestão simplesmente o que quis dizer mais alto é que Urge uma REFORMA Uma REVOLTA se quiser, de mentalidades...mas pelos vistos só nos resta estar top-down.


Contudo...a cru sinto que o atoleiro aumenta pela ignorância...aproveitando assim aos Estados e aos Mercados

Obrigada contudo pelas verdades dispensadas!
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De Silvia Vermelho a 04.02.2009 às 21:50

Pois, aí o meu ponto - a reforma/revolta das mentalidades, mesmo que não institucionalizada, há-se ser sempre instrumentalizada... há sempre um ponto de partida de um topo qualquer.

Longe de o serem e a não serem verdades, são opiniões que vamos trocando e por isso obrigada pela conversa, Helena.
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De André Barros a 03.05.2020 às 15:05

Ideia romântica, mas demonstra que não faz a mínima ideia sobre a literacia e técnicas necessárias para criar este tipo de manipulação e desinformação através da televisão.
A mistura entre jornalismo, publicidade e política ao serviço de ideologias e servindo-se de segundas intenções nas suas mensagens, não é fácil de parar e deixa à mercê o mais instruído dos cidadãos que não tenha formação em comunicação social, publicidade ou marketing político.
Os conteúdos, obviamente não obedecem a regras éticas e morais da vida em sociedade, mas tão difícieis de provar como de criar, podem ser incluídos os conceitos objectivos da subversão e repetição, como forma de os observar, compreender e regular.
Como qualquer forma de censura está fora de questão mas são utilizadas segundas intenções nas mensagens, muito subjectiva a sua natureza e mais difícil a regulação legal assente em procedimentos objectivos de cumprimento de qualquer lei.
As multas pesadas, através de denúncias de cidadãos ou processos em órgãos reguladores não têm conseguido ser eficientes, e os interesses de quem se dispõe a utilizar canais de televisão funcionam com o conluio de uma maioria de pessoas influentes da esfera pública e também privada como um regime ditatorial de informação, pagando em publicidade no caso dos meios privados para comprometer a direcção de programação e conteúdos, de forma mais evidente ou mais discreta a influência nas pessoas em casa.
A televisão é um poder das nossas sociedades urbanas e globalizadas, uma oportunidade ao serviço da educação e democracia, mas nos últimos 30 anos em Portugal, meios para atingir outros fins, políticos e de interesses  económicos privados, como um regime de natureza duvidosa senão criminal.
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De Nuno Castelo-Branco a 04.02.2009 às 19:20

O desregramento a roçar o regabofe, conduziu Portugal para o 1ª de Fevereiro de 1908 e dois anos depois, o Estado não conseguiu defender-se da subversão.
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De Cristina Ribeiro a 04.02.2009 às 19:56

É por demais evidente que esse " poder colossal " em que se tornou a televisão conduz, fatalmente, à tal má utilização da liberdade- parece-me notório que muita da libertinagem a que hoje assistimos bebeu dela.
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De Inês Narciso a 04.03.2009 às 14:45

Afinal até que há algum conteúdo nessa bela cadeira :P

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