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"Sim sou liberal"

por Samuel de Paiva Pires, em 18.03.09

Ler o Henrique Raposo no Expresso:

 

 

A ignorância é atrevida, e, por isso, muitos lisboetas acham que eu já não posso ser liberal. A crise bancária, dizem estes videntes alfacinhas, deveria forçar todos os liberais a deixar de lado as ideias liberais. Esta opinião - que já ouvi mil vezes - revela que a actual crise está a recauchutar o velho antiliberalismo português. Neste ambiente demagógico, muita gente pensa que pode reduzir o 'liberal' a uma espécie de apêndice engravatado do 'fascista'. Lamento, mas um liberal não é um fascista que veste Armani. E, sim, continuo a ser um liberal à moda antiga.

Esta renovação do antiliberalismo está a produzir uma enorme falácia intelectual, que tem sido repetida até à exaustão por José Sócrates: a crise portuguesa, reza a falácia, foi causada pelo liberalismo; o "neoliberalismo", coitado, é o culpado da desgraça portuguesa. Só há um problema nesta tese neo-socrática: a realidade. Nos últimos 100 anos, nenhum governo português colocou em prática políticas liberais. Perante este facto, a pergunta é óbvia: como é que a culpa da nossa crise pode ser atribuída a algo que nunca existiu em Portugal? Alguém me explica este milagre da lógica?

Meus caros neo-socráticos, a crise no sistema bancário não representa a morte do liberalismo; esta crise determina, isso sim, o desaparecimento de um modo de vida assente no crédito barato. E este modo de vida, vamos lá ver se nos entendemos, foi partilhado por países liberais (EUA, Inglaterra) e por países socialistas (Portugal, França). Ou seja, esta crise foi provocada, em igual medida, pelo liberalismo e pelo socialismo democrático. Mais: o facto de o liberalismo perder vitalidade na "vida virtual" do sistema bancário não determina a falência do liberalismo ao nível da "vida real". Por outras palavras, a crise de Wall Street não significa a crise do liberalismo junto da Main Street. Um exemplo histórico comprova esta asserção: os suecos nacionalizaram - temporariamente - os bancos, mas liberalizaram o código de trabalho e o sistema de ensino.

Portugal deveria olhar para este exemplo nórdico. O nosso Estado, quando necessário, deve intervir na "vida virtual" dos bancos, mas essa intervenção na virtualidade bancária não retira legitimidade à seguinte ideia: Portugal precisa de reformas liberais no código de trabalho e no sistema de ensino. Portugal necessita de liberalismo na "vida real".

publicado às 21:58


2 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 18.03.2009 às 23:21

Bem pode espernear à vontade. No entanto, não tenho a certeza absoluta de podermos ter esse modelo "liberal". O empresariado português vive em demasia na dependência do Estado. Arriscam, mas na especulação, nos centros comerciais, casotas em betão, etc. E pouco mais.
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De Miguel Neto a 19.03.2009 às 17:19

Concordo com muito do que diz o dr. Henrique Raposo. Em Portugal, o Liberalismo nunca existiu com a república. E antes deu apenas uns tímidos primeiros passos.

Conscientemente os Estados (tinham que saber o que estavam a fazer), através de uma política socialista / social-democrata / democrata-cristã intervieram na lei da oferta e da procura. Criaram uma procura artificial que em termos puramente económico-financeiros nunca teria existido.

Assim a economia mundial cresceu demasiado, depressa demais, sem ser sustentada numa produtividade real. Esta crise é o reajuste da economia para valores que estejam de acordo com essa produtividade real.

Outros vícios deste Estado (providencial) são a tendência para a sua omnipresença e interferência em todas as áreas de actividade. Isso leva-o fatalmente para a criação de clientelismos, de que são exemplo esses empresários que se destacam não pelas suas qualidades de gestão ou empreendedoras mas principalmente pela capacidade de se relacionarem bem com o Poder e de fazerem as amizades e os contactos certos nas estruturas do Poder.

As leis da concorrencia, a boa gestão, a visão, a capacidade de previsão, a necessidade de arriscar e de inovar deixam de ter um papel decisivo na vida e no tecido empresarial.

Liberalismo, nunca o experimentámos verdadeiramente.

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