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Uma excelente crónica que se pode encontrar no livro do Henrique Raposo, "Os partidos fora do tempo" (os destaques a negrito são meus). E já agora, a quem lhe aprouver, aqui fica o convite para o lançamento do livro:

Os partidos estão desligados do país, eis uma sensação partilhada pela maioria dos portugueses. Às vezes, até temos a impressão de que os partidos pararam no tempo: vivemos em 2009, mas sentimos que o sistema partidário ficou emperrado algures nos anos 80. Apesar de inventiva, esta sensação fica ainda longe da realidade. Os partidos não pararam no tempo; os partidos estão é fora do tempo. Ou seja, os partidos portugueses vivem num tempo ahistórico paralelo ao nosso. Porquê? Porque são financiados pelo orçamento geral do Estado e não pela sociedade. Nesta III República, os partidos inverteram a máxima da democracia representativa: representam os interesses do Estado e não os eleitores. Como colonizaram o Estado, os partidos não necessitam da sociedade. A tal sensação de separação entre as pessoas e os políticos tem aqui a sua origem: os partidos não sentem as dores das pessoas comuns, porque, na prática, não as representam.
Se um partido não é capaz de se sustentar com o dinheiro que angaria - legalmente - na sociedade, então, não é representativo de coisas nenhuma, e o Estado não tem a obrigação de o financiar. Obviamente que dá mais trabalho abrir o partido à sociedade. Trabalhar para recolher os fundos necessários junto da sociedade não é tarefa fácil. Mas é assim que se faz política numa democracia representativa: junto das pessoas que se representa, pedindo dinheiro de porta em porta. Foi assim que Barack Obama dinamizou a democracia americana. Mas os partidos portugueses recusam fazer política desta forma. Os partidos portugueses não querem fazer política onde ela deve ser feita: no terreno, no meio do pó, onde as coisas acontecem. É mais seguro receber dinheiro do Estado (x por voto; x por deputado).
Os partidos só fazem sentido se partirem da sociedade para o Estado. Em Portugal, de forma aberrante, os partidos partem do Estado para a sociedade. O nosso sistema de partidos tem de ser «privatizado». É urgente separar os partidos do Estado. Os partidos só representarão as minhas preocupações quando forem obrigados a pedir-me dinheiro. É simples. Isto não é física quântica.
Henrique Raposo, Atlântico, 30 de Agosto de 2007