Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O populismo do BE ou os nossos Le Pen de esquerda

por Nuno Castelo-Branco, em 20.05.09

 

Ainda há uns poucos anos, todos os portugueses gemiam pelo desmesurado peso de uma TAP - Air Portugal que acumulava centos de milhão em prejuízos. Sucediam-se as más notícias onde a caótica gestão, estiolar da qualidade e depredação do património, eram concomitantes com os abusos de administrações nomeadas por diktat político-partidário. Automóveis de luxo, ajudas de custo dignas de nababos, cadeirões que custavam mil contos da época, surgiam semana sim semana não, na imprensa e tv.

 

Nomeou-se um gestor brasileiro - logo um parente próximo -, cuja competência levou a companhoia a um novo patamar. Modernizada a frota e os serviços, quase duplicou o número de aeronaves e abriram-se novas rotas. Conseguiu-se a paz social e num caso inédito na nossa história recente, administração e trabalhadores uniram-se  para benefício mútuo e contentamento dos contribuintes. É claro que as carpiderias do costume arrancaram os cabelos, arranharam as costas umas às outras e lançaram à fogueira do trípode, bonecos de cera com a representação antropomórfica do dito "gestor brasileiro". O problema era muito simples: provava-se a viabilidade das empresas do Estado, sem a intervenção dos partidos do sistema. Desta forma, o argumento base para o cerrado ataque à comprometedora situação foi o apelo à mais baixa, vergonhosa e mortal arma de recurso, ou seja, a inveja. O salário milionário auferido "pelo brasileiro" era escandaloso...  Dez ou quinze mil contos mensais? Uma enormidade! Mas esqueciam-se de dizer que os cofres públicos deixaram de assistir ao esbulho de cem milhões - ou ainda mais - todos os anos, numa autêntica extorsão de recursos melhor aplicáveis noutras áreas. Enfim,  as desprezíveis mesquinhices do costume.

 

1. Os noticiários de hoje dizem que o PS chumbou a proposta do BE que previa a forte taxação dos prémios auferidos pelos gestores. Inacreditavelmente, os nossos émulos esquerdistas do populismo à Le Pen, queriam sacar para os cofres do Estado - que já prevêem controlar dentro de pouco tempo - , 75% em receitas que bem podem ser consideradas extraordinárias. Como se os turiferários de Louçã, muitos deles içados através daquela desagradável expressão "tráfico de influências", a bem remunerados cargos de intelectualidade, pudessem apontar o dedo a alguém. Na verdade, o mérito faz medo.

 

Um dos graves problemas da economia de laivos comunizantes, é o desencorajar da iniciativa e do esforço pela excelência. Portugal tem produzido gestores de alto gabarito que no estrangeiro encontram quem lhes reconhece - e por isso mesmo lhes paga - o valor, dedicação, frescura na iniciativa e firmeza nas decisões. 

 

Bem fez o Partido Socialista em atirar para a fossa séptica tal despautério que mais não visa senão ameaçar  moralmente quem pretenda viabilizar as empresas, sejam elas públicas ou privadas. Esperemos agora que ao chegar a Belém, o presidente não caia na tentação de colocar obstáculos a este reconhecimento do princípio da recompensa pelo mérito. Em tempo de contradições e de luta inter-republicana, espera-se de tudo.

 

2. Um outro caso que dá que pensar, consiste na dualidade de critérios quanto à gestão dos casos BPN e BPP. Porque foi o BPN nacionalizado - cobrindo os contribuintes a gigantesca cratera deficitária - enquanto o BPP continua na saga da incerteza e do mais que certo prejuízo final dos depositantes?

 

A resposta é simples: no BPN, há que cobrir com a capa verde dos dólares off-shore  e o barrete frígio vermelho do politiquês, altos nomes da política partidária da nação. No BPP, o perigo de contaminação radioactiva que ameace o sistema instalado, parece ser bem menor.

 

Esta 3ª república cada vez mais se parece com a primeira, na sua fase final. A defunta de 1926 teve o caso Alves dos Reis, o terminal , a cloaca maxima da revolução de 1910. Aparentemente, os herdeiros do facho costista aprenderam a lição. Não existem nomes sonantes para "pagar". Apenas números, cifras e equações neste admirável mundo cibernético que tudo esconde ou faz desaparecer. Mas numa coisa este pequeno mundo não muda, pois serão exactamente os mesmos a pagar a consequente crise.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:07


3 comentários

Sem imagem de perfil

De tiago santos a 20.05.2009 às 23:49

É errada a ligação entre os salários e o mérito dos gestores...Os gestores portugueses recebem ao nível dos seus congéneres europeus, basta lembrar que os do BCP eram dos mais bem pagos da Europa mesmo...É obviamente um abuso os salários que os gestores auferem em Portugal, e se temos falta de competitividade é mais por erro dos gestores do que por erro dos trabalhadores...É por falta de gestão a sério...Não tenha dúvidas disso...

Quanto ao BPN nacionalizado, é óbvio que tinha de ser nacionalizado, já ouviu falar em risco de contágio?É que o banco com o gestor mais meritório de todos pode entrar em colapso pelas irresponsabilidades de outro banco...Ou esquece-se que o factor que mais fez acentuar a crise foi os EUA deixarem cair o Lehman Brothers?
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 21.05.2009 às 00:14

O Tiago deve entender mais dessas coisas , mas continuo a acreditar que o mérito deve ser recompensado. Quanto ao BPN, é por demais evidente o conúbio política-finança.
Ainda quanto aos prémios, no campo da iniciativa privada, o Estado não tem nada que se intrometer. Se os negócios derem para o torto, há legislação que prevê certas eventualidades. É preciso que a justiça então funcione. Coisa rara por cá.
Sem imagem de perfil

De rui de brito a 22.07.2009 às 18:06

Muito bem escrito. Um abraço.

Comentar post







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas