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Descobrir a pólvora? Eu?

por Samuel de Paiva Pires, em 04.06.09

Atente-se no calibre da cortesia deste comentário ao meu post sobre a General Motors:

 

"De pedro lopes a 4 de Junho de 2009 às 00:11
É assim, uma coisa são opiniões, outra coisa é dizer-se coisas que não se sabe e achar-se muito bom por isso...

Se calhar é altura de deixar de dar ouvidos aos economistas da treta que levaram a esta crise com os seus devaneios da liberalização e da privatização de tudo e mais alguma coisa...já ouviu falar em risco sistémico por exemplo? Sabe quantas pequenas empresas podem ir abaixo se se deixa ir uma empresa como a GM à falência sem intervir?Pensam que tem alguma coisa a ver com o mérito de alguém?Que culpa teve o Jorge Jesus que o Lehman Brothers fosse à falência e levasse de arrasto um banco tão reputado como o BPP era antes da crise?

Vá ler um bocadinho sobre a crise de 29-33...vá ler alguma coisa do Krugman ou do Stiglitz...

Não o critico por não saber nada de economia porque eu também não sei muito...mas esse ar de que descobriu a pólvora e que vem aqui dizer que os outros são todos estúpidos fica-lhe mal...experimente a dizer que "tem a opinião que..."
"

 

Bom, creio que o Pedro Lopes não será um habitual frequentador desta casa. Para começo de conversa, só quem não me leia regularmente pode achar que eu descubro a pólvora, que tenho certezas absolutas ou que detenho "a verdade". Eu que me inclino para a atitude académica anglo-saxónica de contrastar teses e de procurar incessamente a verdade sabendo que essa não existe, mas apenas verdades relativas. Acabo, por isso, por ser, em certa medida, um relativista - até certo ponto, o qual ainda estou para determinar, mas isso fica para outra altura, embora quem me leia saiba que a minha faceta conservadora me serve de limite e de referencial. Mais, não me viu chamar estúpido a ninguém e se fosse meu leitor habitual notaria que na esmagadora maioria dos meus textos as frases começam por "Parece-me que...", o que, creio, equivalerá à sua sugestão.

 

Sobre a economia, diz o Pedro que não percebe nada. Ora eu também não, e não o escondo de ninguém - veja-se a introdução deste meu post de há uns meses atrás: Aviso à navegação: não percebo nada de economia. Tudo o que eu escrever a seguir estará provavelmente errado ou terá pelo menos algumas incoerências ou incorrecções.

 

Já ao Pedro fica-lhe mal a sobranceria de achar que está revestido da verdade, ainda mais notável quando se junta à forma quasi-piedosa/paternalista da sua sugestão de leitura. No entanto, aceito-a de bom grado. Mas continuo a preferir Hayek. É que entre esses supra-sumos da economia de que o Pedro fala ninguém foi capaz de prever o que se passa na actualidade. E durante décadas andaram todos felicíssimos com um sistema que utilizaram para promover a teoria triangular da dinâmica entre Democracia, Desenvolvimento e Mercado a generalizar a todo o mundo. Agora é que viraram todos beatos preocupados com o bem-estar dos trabalhadores, que é como quem diz, deixaram-se ir na onda do politicamente correcto e adoptaram uns chavões e umas frases feitas porque não sabem muito bem como explicar os fenómenos económicos da actualidade. Juro que se tivesse oportunidade de estar numa conferência com qualquer um desses supra-sumos lhes perguntava directamente o que é afinal o neo-liberalismo, esse papão de que todos falam mas que ninguém sabe definir, sobre o qual ninguém se atreve a perguntar visto que isso seria acabar com a galinha dos ovos de ouro que vai servindo de bode expiatório - até quando, vamos ver.

 

Quanto às culpas ou méritos não percebi a invocação de Jorge Jesus ou do Lehman Brothers. É que se quer falar de risco sistémico, então digo-lhe eu que primeiro convém ler qualquer coisa sobre teoria sistémica. Deixo-lhe como sugestões de leitura light este texto, ou este, ou ainda este, todos da minha autoria e relacionados com a crise actual. Pouco ou nada percebo de economia mas julgo que o risco sistémico se aplica a instituições financeiras e não a empresas que perdem a competitividade no mercado - e que por isso não deveriam sequer ser salvaguardadas pelo dinheiro dos contribuintes, causando graves distorções de mercado - mas alguém mais versado na matéria poderá elucidar-me. E mesmo que se aplique, mais uma vez, ninguém conseguiu prever o que se passa na actualidade, até porque todo e qualquer instrumento de medida do risco sistémico não é inteiramente fiável porque o ser humano nunca conseguirá ter uma percepção holística e completa do funcionamento de um sistema tão complexo como o sistema financeiro internacional. O argumento do risco sistémico também foi muito usado por cá para nacionalizar o BPN e o BPP. Parece-me que é mais um desses chavões que passaram a integrar a falaciosa gíria justificativa do que outra coisa mas, novamente, eu não percebo nada de economia...

publicado às 00:29


6 comentários

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De Ana Paula a 04.06.2009 às 01:17

O Samuel é um rapaz coerente. Não responda a provocações. Jesus disse: "Perdoai-os que não sabem o que fazem", faça o mesmo
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De Paulo Soska Oliveira a 04.06.2009 às 04:49

Especialmente o caso do BPP, onde o que saíu com a crise foram as evidências da fraude cometida pela administração.

Nos EUA, o Madoff está atrás das grades, já julgado. Em Portugal.... palavras para quê?
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De Paulo Soska Oliveira a 04.06.2009 às 04:51

Corrijo, em prisão preventiva. O Julgamento já foi. A sentença será decretada no final do mês.
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De António de Almeida a 04.06.2009 às 12:19

Com o argumento do perigo de risco sistémico desviaram dinheiro da economia real para os Bancos, enquanto empresas continuam diariamente a encerrar por falta de liquidez. A GM encerra portas, e daí? Será preferível colocar os contribuintes a pagar o fabrico de automóveis obsoletos que ninguém compra?
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De pedro lopes a 04.06.2009 às 14:46

Sim, peço desculpa porque realmente não sou muito assíduo neste blog. Mas se não quiser ver alguma coisa sobre o Krugman ou o Stiglitz, respondendo às dúvidas levantadas neste post há outros economistas bons para se investigar: Keynes explicou muito bem a crise de 29-33...explicação que se adapta a hoje...polanyi explica bastante bem o que é o neo-liberalismo na própria altura em que hayek também expunha as suas teses...e nouriel roubini é considerado o economista que melhor previu a crise de hoje...

Risco sistémico porque milhares de empresas sem qualquer culpa ficam em dificuldades com a queda de uma grande empresa como a general motors...exactamente da mesma maneira que a queda do Lehman brothers levou à queda da AIG e consequentemente à queda de muitas outras... O Jorge Jesus apenas foi mais um sem qualquer culpa que se viu atrapalhado porque tinha do dinheiro no BPP...

Já agora, peço desculpa então pela exuberância no comentário...mas acho que será boa a discussão já que nenhum de nós parece ter certezas sobre nada...

muito obrigado pela atenção...
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De Samuel de Paiva Pires a 04.06.2009 às 23:47

Não tem que pedir desculpa Pedro :) E sim, eu também gosto de uma boa discussão, apesar de a economia não ser, de todo, o meu forte. Espero conseguir aprofundar um pouco mais os meus conhecimentos na área, logo que termine o curso, o que agora me ocupa demasiado tempo nesta recta final!

O meu ponto de vista relativamente ao risco sistémico incide sobre as dúvidas que tenho sobre o grau desse risco. Creio que quanto à AIG era bastante elevado, e o que aconteceu com o Lehman Brothers demonstrou que era bem mais elevado do que se julgava e isso também acabou por provocar algum pânico e decisões não muito reflectidas quanto às instituições/empresas a salvar. Mas se uma empresa perde competitividade no mercado, apesar de ter contratos e relações com milhares de outras empresas, a simples injecção de dinheiro dos contribuintes representa uma mera manutenção artificial de um sistema que já não é sustentável. Ainda há pouco tempo ouvi numa conferência, já não me lembro com quem, que o que se tem feito é tentar preservar um sistema (homeostase) que já está completamente desadequado da realidade e que teima em alterar-se (homeorese).

Quanto ao BPP, concordo perfeitamente com o Pedro, mas é um caso que em termos legais não me parece ter muito a ver com a crise, na medida em que a priori muitos dos clientes foram enganados, diria mesmo defraudados, e só o vieram a saber devido à perda de liquidez e à má gestão do Banco. Sendo assim, acho vergonhoso que o governo nacionalize um BPN que era mal gerido há anos, salvaguarde alguns compromissos do BPP injectando milhões de euros dos contribuintes e depois deixe as pessoas que tinham as poupanças de uma vida em depósitos (julgavam elas) na miséria ou perto disso.

Um abraço

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