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Arranjam sempre uma imagem que lhes oferece uma legitimidade que a Historia lhes nega.
Portugal é um país onde as elites políticas desconhecem por completo, o seu real posicionamento institucional. Se o actual governo parece alimentar ilusões acerca da necessidade de um "presidente independente", a realidade ditada pela prática, diz que os locatários de Belém são sempre lestos no claro favorecimento do partido de onde teoricamente saíram para desempenhar a dita suprema magistratura.
Soares beneficiou o PS. Inventou presidências abertas, calcorreou o país com cara de poucos amigos para com o governo que por vezes o acompanhava, gritou o "direito à indignação", criticou ferozmente o "seu" primeiro-ministro ACS sempre que lhe aprouve. Todos sabiam que Mário Soares abominava o governo e desprezava o P.M., pelo menos a partir da sua reeleição para um segundo mandato. Quis dar posse a um governo PS e conseguiu.
De Sampaio, pouco haverá para dizer, a não ser ter cumprido à risca o seu papel de marechal Carmona de Guterres. Sabemos o que se passou com o governo de Barroso e como tudo fez para derrubar uma maioria parlamentar que alegava querer governar. Favoreceu nitidamente o PS, armadilhou hábil mas descaradamente o caminho de PSL e criou um perigoso precedente constitucional .
Cavaco Silva sempre foi o oculto presidente do saco de gatos que é o PSD. Mesmo nos tempos de Barroso - um antigo ministro do seu governo - sabia-se da sua aquiescência quanto a este primeiro-ministro, assim como mais tarde publicamente se soube da sua chancela "escassamente qualitativa" atribuída a PSL. Os silêncios de ACS foram sintomáticos de um frio e exclusivo pensar do seu interesse pessoal, de um fim de carreira em auto-considerada glória.
Decerto não lhe lhe terá agradado a triste visão do seu partido em permanente guerrilha onde Menezes, Santana, Marques Mendes, Passos Coelho, MFL e outros que o tempo fez esquecer, limitavam-lhe as hipóteses de um projecto que corresponde quase exactamente ao dos seus patrocinadores eleitorais.
Resolvido o problema interno com a eleição de MFL, Cavaco parecia poder iniciar o trabalho de sapa que lhe compete. Obedeceria assim, à norma presidencial que faz arrastar os governos "hostis" para o caminho do penoso descrédito, ao mesmo tempo alçando os parceiros de agremiação à qualidade de única alternativa viável.
Não se entende agora a inquietação de Belém, quando descobre que os seus funcionários - que coincidem exactamente na simpatia partidária do PSD - andam a ser vigiados pelo temível adversário. Na verdade, o que se torna mais difícil de encarar, é o desvelar da clara existência de um elaborado sistema de escutas que decerto não é inédito. Mas alguém tem qualquer tipo de dúvidas acerca da preferência eleitoral de Cavaco Silva? Alguém questionou alguma vez o pendor de Soares e de Sampaio para o benefício do seu partido, o PS?
É esta a lógica da representação de Estado republicana. Quem agora parece não querer aceitar a inegável evidência, encontra-se no momento exacto para encontrar outras soluções.
Soares desconfiou do governo e o governo desconfiou de Soares. Sampaio apoiou o seu governo, desconfiou do governo do "outro" e derrubou-o com uma penada. Cavaco desconfia do governo e o governo desconfia de Cavaco. Meias palavras, críticas indirectas, fiscalizações de constitucionalidade, protecção aos amigos e companheiros de viagem. A elaboração "daquilo que convém" num programa de governo, consiste apenas num detalhe técnico.
Tudo normal.