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Sucatas, negócios e vergonhas

por Nuno Castelo-Branco, em 21.11.09

 

Eis o estado do nosso património (M4 Sherman) que vai - ou já foi - para a sucata

 

 

Portugal foi obra de soldados, com eles se expandiu e consolidou e se a nossa língua é hoje o terceiro idioma europeu no mundo, tal pode ser atribuído ao inesperado prolongamento de uma independência em que muitos acreditaram como inviável.

 

As Forças Armadas foram desaparecendo da visão de uma população civil que aprendeu a vê-las como fonte de despesa ou uma clique privilegiada de benefícios imerecidos. É este o mortal e interesseiramente teleguiado substracto que estabelece a base de uma sociedade civil que hoje desconhece os principais pilares da independência nacional. Controvérsias acerca da sobrevivência do Colégio Militar - com uns cheiros a interesses imobiliários -, o constante desprestigiar do papel cívico das F.A. na nossa história e paradoxalmente, o constante apelo aos seus serviços para "inglês ver e beneficiar os agentes civis", eis o actual panorama.

 

Terrenos de antigos quartéis - muitos deles confiscados após a Guerra Civil terminada em 1834 -que são hoje o objecto da especulação e a total incúria pelo património militar herdado do equipamento de outros tempos, contribuem em muito, para o amesquinhar desta instituição.

 

Surge agora o caso das sucatas. Pelo que parece, os lotes de material obsoleto são cedidos aos preços que se conhecem, obedecendo à "lei do mercado". No entanto, habituados como estamos ao malbaratar de recursos que além-fronteiras são olhados como preciosas peças de museu, convinha deixar uma ou outra questão que carece de pronta resposta. Há uns vinte anos, compradores israelitas vasculhavam os arsenais de reserva de outros países, adquirindo Sherman's que depois de modificados, serviram - e ainda servem - as IDF, poupando recursos escassos e prolongando a vida útil do equipamento. Em Portugal, tudo se envia para a sucata.

 

Qual será a razão pela qual, passado o tempo útil de operacionalidade dos equipamentos, não se faz qualquer tipo de esforço para a preservação de alguns exemplares que consolidem a memória de um dado momento histórico? Existirá ainda algum equipamento blindado dos anos 40, 50 e 60 que possa constituir um pequeno núcleo museológico? O que tem Portugal de tão diferente dos outros países, que nos impeça de exibir peças que serviram muito para além do seu esperado tempo de operacionalidade? Países há, como a França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos ou Rússia, que conservam ciosamente exemplares de todas as armas, exibindo-as em demonstrações internacionais que prestigiam o país, incentivam o espírito de conservação dos técnicos e mecânicos e enriquecem colecções que são vistas por turistas que visitam os museus militares?  Onde para o primeiro equipamento mecanizado importado à Itália, Alemanha e Reino Unido nos anos 30 e 40? Existirá ainda um único M3 Sherman operacional, um Chaffee, um M-47 ou um M-60? O que fizeram das já raríssimas peças de artilharia Krupp e as 25pdr. adquiridas durante a II G.M. e que serviram a NATO até há poucos anos, não esquecendo a sua importante participação no conflito africano dos anos 60-70? Os estrangeiros sabem exactamente qual a situação deste negligenciado património e comentam em sites especializados. Nos jardins públicos do Reino Unido e dos EUA - terríveis ditaduras militaristas, como se sabe -, assim como nas cidades russas, belgas, holandesas e até sul-africanas, encontram-se em exibição numerosos exemplares de artilharia e de blindados de outros tempos. Recordo-me muito bem que estando a passar férias em Joanesburgo (1971), costumava ir brincar para um jardim, onde com outros miúdos trepávamos por um blindado, passando tardes inteiras a "fazer de conta" em campanhas imaginárias. Ainda me recordo do nick do tanque, pintado na blindagem lateral: Fearnaught.

 

No nosso Museu Militar, se excluirmos alguns exemplares de armas ligeiras do período da Guerra de África, dir-se-ia que as Forças Armadas Portuguesas acabaram quando da derrota nacional consumada em 1918. À parte as preciosidades do período áureo da expansão - o montante de Vasco da Gama ou o actualmente ignorado e espectacular canhão de Diu - pouco mais existe para mostrar. Dir-se-ia que temos vergonha de ser quem fomos. As quase clandestinas comemorações da gesta da vitória popular e militar contra a França de Bonaparte, fazem parte deste inenarrável estado de coisas que aviltam Portugal inteiro. A comparação com o Primeiro Centenário da Vitória na Guerra Peninsular, realizado no Buçaco em 1910, é simplesmente abissal. Hoje, já nem sequer podemos ter oficialmente o Rei que a todos representa e sintetiza. Ainda impera de forma autocrática, o espírito da "Deputação a Baiona".

 

 

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publicado às 15:04


3 comentários

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De JJS a 02.12.2009 às 21:18

Caro Nuno, os meus parabéns, por mais este seu excelente artigo de opinião.

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