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Esta manhã, Bangkok. Uma cena que podia ser tirada da série do Canal de História, "A Vida Depois de Nós"
"Será hoje ? Amanhã de madrugada ? Amanhã à tarde ? Já não há outras questões relevantes. Tudo começa e acaba nos ponteiros de um relógio. Pelo caminho ficou a reconciliação generosamente estendida pelo governo, logo recusada pelos vermelhos. Pelo caminho ficou o movimento thaksinista, que poderia aceitar uma trégua política, ter as eleições que pedia, fazer o seu programa de reformas faseadas, acorrer às urnas e submeter-se ao veredicto popular e às regras da democracia que só aqui funciona e não existe em qualquer outro país do Sudeste-Asiático. Os estrangeiros, os seus lóbis, a sua diplomacia de canhoneira, o seu desrespeito pela soberania de um país livre e independente que falem, que se movimentem, façam as malas ou quedem-se, pois já nada disso é matéria relevante."
Leia mais, no COMBUSTÕES
"Agora, no já referido desespero de causa, e porque a derrota para além de certa é desonrosa, e para aqueles que duvidavam do papel do Monarca, é para ele todavia que os "vermelhos" se viram e apelam à sua intervenção. Em algum outro País do mundo opositores do Regime diriam isto?: “It’s time to ask for help from the beloved father of the nation in the same way as happened in May, 1982, when the King stepped in to stop the bloodshed” (Jatuporn Prompan). É o que sucede na Tailândia, por estranho que tal pareça a um conjunto de ocidentais para quem este tipo de mentalidade nada diz."
Leia mais, no CORTA-FITAS
"It's worth repeating: They wanted a House dissolution. They have one in September. They wanted a general election. They have one on Nov 14. That's democracy. Instead, they flushed democracy down the toilet.
So there's no negotiation other than the complete and total capitulation by the government to the UDD's every will and every whim. It's a total victory that will embarrass the government in the eyes of the Kingdom and of the world and may possibly bury the Democrat party. That's the game."
"And when there's a rebellion, the government must put down the rebellion. Otherwise, we have anarchy. The law must be swift, severe and certain _ any student of criminology can tell you that."
Leia mais, no BANGKOK POST
"Nesta artéria lutou-se a sério durante horas, com sucessivas cargas da infantaria investindo contra os vermelhos que retiraram palmo a palmo e se foram entrincheirar no fim da avenida onde se situa o grande complexo da embaixada dos EUA, que aqui tem mais de dois mil funcionários a servir os interesses da maior potência mundial."
Não perca tempo com copy-pastes apressados, prodigalizados via Reuters. Siga toda a situação no COMBUSTÕES
"Percorridos dois quilómetros, estou perto das barricadas. Aí tudo muda. Os grupos fardados e armados estão organizados, movimentam-se e saltam de máscara em máscara como o fazem as esquadras de infantaria. O tiroteio é permanente de um lado e outro. Do campo vermelho são disparadas granadas anti-carro RPG-7 e uma meia dúzia de M-79. Ao explodirem no campo adversário, ouve-se um surdo e prolongado estrondo e os combatentes gritam "iéééé". Os atiradores estão a uns trinta metros, mas não me deixam prosseguir. Impactos de munições de armas automáticas do exército atingem um homem e sou obrigado a retroceder".
"Não queria arriscar mais. Esta não é a minha guerra. Curioso, notei depois, não haver ali um só dos temerários "repórteres de guerra", pagos a peso de ouro pelas agências de informação e enviados a Banguecoque para fazerem corta-cola de noticiário velho. São essas torres de precaução que espalham rumores e que fazem um jogo muito pouco ilustre dos boatos e do alarmismo. Na próxima vez candidato-me à Reuters !"
O Miguel está a fazer a necessária reportagem que os línguas de cola dos jornais portugueses não conseguem realizar. Ele está no terreno, corre riscos, presencia os combates e tem o registo deste episódio da história tailandesa, sem artifícios ou copy-paste. Veja as fotos exclusivas e a narração dos acontecimentos, sempre em actualização no
De Bangkok chegam notícias desconcertantes. Durante umas semanas, falou-se muito das tropelias protagonizadas por um major-general renegado, com pretensões fidelistas. Organizava esquadrões armados com AK-47 e os seus lança granadas causaram alguns estragos, numa tentativa de se fazer notar pela imprensa internacional e pelos ávidos gulosos por revoluções fora de portas. Há uns trinta e poucos anos, tivemos um exemplar bastante parecido que corria pelas ruas de Lisboa, mas de uma forma infinitamente menos perigosa. Unia-os o gosto pela teatralidade, mas este tal Seh Deng era mais belicoso e um sério candidato a militarão ao estilo daqueles outros que fizeram as delícias do vizinho sr. Pol Pot.
Enquanto há notícias de deserções entre os sediciosos, a imprensa insinua que Seh Deng foi abatido por um sniper. Pelo que parece, a colossal paciência das autoridades está a chegar ao fim. No entanto, não se percebe bem quem afinal foi posto fora de combate, pois o nome noticiado sugere outra pessoa, uma tal Khattiya (Cátia). Afinal foi o major-general Seh Deng ou uma menina Cátia, provável acompanhante de futebolistas famosos? "Estórias" de danças de varão em Patpong...
Ontem, Abhisit dirigiu-se ao país, propondo o caminho que leve à pacificação social e ao afastamento de qualquer ameaça à integridade do Estado:
1. O ponto essencial e indiscutível, é a Monarquia.
Se este tema surgiu ao longo das semanas, tal se deveu a consistentes rumores acerca das intenções dos radicais da liderança vermelha, que mais não são senão o derrotado partido comunista dos anos 70. A parafernália estalinista que ostentavam, consistiu no fatal erro que despoletou a generalizada repulsa da população. Tal como no Nepal - onde os maoísttas tudo fizeram para aniquilá-la -, a instituição real consiste no intransponível muro que sempre impediu a assunção do poder pelos extremistas. Chavalit Yougchayudd, o general que foi 1º ministro e hoje surge como figura patriarcal dos "red", já afirmou publicamente que este ponto apresentado pelo governo, é também para ele, indiscutível. De facto, a Monarquia surge uma vez mais, como o elo imprescindível da unidade nacional. Embora observadores estrangeiros - obviamente ignorantes da realidade social tailandesa - estivessem desejosos de promover a mudança do regime no sentido dos interesses do grande capitalismo internacional, deverão agora repensar seriamente a estratégia para a conquista do poder num país que não lhes pertence. É seguro que regressarão aos seus projectos, mas noutros moldes. Urge tentar compreender a razão para tais ímpetos, provavelmente relacionados com a conquista de posições vitais na região. A situação geoestratégica na Ásia central e do sudeste, implica uma cuidadosa análise acerca do verdadeiro móbil desta insurreição que certamente não se deve a uma questão de escolas, centros de saúde ou estradas alcatroadas.
2. Um programa de reformas que mitigue as disparidades económicas e a desigualdade.
Uma das possíveis razões para a chegada das hordas vermelhas ao centro da capital, poderá dever-se ao previamente anunciado período de reformas que não deixarão de se fazer sentir nas zonas periféricas do país: educação, saúde, infraestruturas e assistência financeira, serão os essenciais tópicos da acção governamental. O anuncio antecipado, deverá ter estimulado a liderança vermelha a agir, temendo o completo esvaziamento do movimento. Um aspecto não negligenciável, consiste no forte endividamento de numerosas comunidades rurais, às quais o governo de Thaksin tinha atribuído créditos sem qualquer tipo de controlo, levando a um exacerbado consumismo que arruinou o mundo rural: jeeps, pick-ups, aparelhagens electrónicas sofisticadas e irrealistas planos de investimento, criaram a total dependência social de que Thaksin necessitava para o sucesso do seu projecto de poder pessoal. De facto, distribuindo créditos a rodos, Thaksin semeou a ruína de que hoje se aproveita, solidificando o seu sistema caciquista.
3. Moderação da imprensa, no sentido de evitar o exacerbar de conflitos.
4. Um comissão independente que analise as responsabilidades pelos actos de violência ocorridos no último mês, desde a invasão do centro de Bangkok pelos homens de Thaksin.
5. O processo de reconciliação deve contar com a cooperação de todas as partes interessadas.
Os subversivos perderam a partida e isso já era uma evidência desde a ocorrência dos primeiros confrontos de que resultaram mortos e numerosos feridos. A opinião pública nacional ultrajou-se pela visão de reminiscências "vietcong" em plena capital do Reino e os incomensuráveis prejuízos causados ao sector público e privado, concitaram a antipatia geral em todo o país. Os rumores acerca do verdadeiro alvo da insurreição - a eliminação da Monarquia -, tornaram inevitável a derrota vermelha, o que radicalizou ainda mais os sectores extremistas do conglomerado de interesses - internos e também externos - que conformam o "movimento". As hostes escasseavam a cada dia que passava e em desespero de causa, a razia no Hospital Chulalongkorn teve uma catastrófica tomada de consciência acerca dos perigos que ameaçavam a segurança pública. A população passou a exigir o imediato esmagamento dos sediciosos e a restauração do Estado de direito. Aos chefes "red" não restava outra saída, senão a procura do salvar da face. Foi isso que Abhisit veio ontem propor.
Consequências previsíveis? O governo não poderá fazer vista grossa quanto às inalienáveis responsabilidades dos principais vultos da liderança vermelha, porque o contrário consistiria num desastroso precedente que incitaria a mais organizadas e perigosas reincidências. O perdão não pode ser extensível a todos, significando a criteriosa avaliação das responsabilidades pelos numerosos actos criminosos cometidos, especialmente aqueles que conduziram à morte e ferimento de numerosas vítimas. O Estado deve defender-se e ser inflexível.
Derradeiro aspecto a considerar, será o do envolvimento externo que urge deixar a descoberto, esclarecendo uma opinião pública atónita pela cobertura a um grupo aparentemente tão pulverizado em posicionamentos irreconciliáveis.
Os sediciosos têm menos de 24 horas para decidir. Amanhã é um dos grandes dias de festa nacional, o Dia da Coroação.
Uma última palavra de agradecimento ao Combustões, pelo excepcional serviço de reportagem que incansavelmente prodigalizou a todos os interessados.
Para quem estiver interessado nos acontecimentos de Bangkok, recomenda-se a leitura do excelente artigo de opinião assinado por Kraisak Choonavan. Peça a peça, desmonta a engrenagem propagandística criteriosamente montada pela plutocracia thaksinista e pelos seus enigmáticos aliados operacionais de timbre retintamente maoísta. Choonavan torna assim perfeitamente irracional - ou pior ainda, suspeita -, uma certa cobertura dispensada pelos media e bureaus ocidentais ligados aos grandes interesses económicos.
"Thaksin’s government deployed populist policies to gain popularity among the people by giving them money to spend freely. In some cases, SDAO (Sub District Administration Organization) officers or heads of villages were aware of the need for accountability and opened special accounts for the villagers to invest in projects for the whole community. However, in most of the cases, the money was spent on non-sustainable issues, making people feel richer for a short while, but usually ending up further in debt.
Neither was Thaksin really interested in redistributing the wealth more fairly in Thailand. What Thaksin called “Asset Capitalization” is only a dead slogan. Genuine “Asset Capitalization” needs a systematic and concrete land tenure distribution policy because land is a basic component of production in the economic system. Thaksin’s government never launched such a policy. Instead, his family established SC Asset Corp. Of which the main policy was to consolidate and acquire large land plots. The company used Thaksin’s family preferences and the dominating power of policy-making to gain possession of large tracts of state land."
Leia o artigo completo aqui, no The Nation.
Ontem passou mais um 1º de Maio e as cenas ocorridas nas ruas das duas maiores cidades gregas, demonstram as diferenças subjacentes aos espaços geográficos e culturais. Em Bangkok, os acontecimentos que têm impedido o normal funcionamento da cidade, têm sido seguidos por um governo que procura evitar confrontos sangrentos. Estando em causa a segurança do Estado, não existe qualquer executivo no mundo que tolerasse uma tal contemporização, quando para mais, muitas dezenas de milhar de pessoas e postos de trabalho se viram gravemente prejudicados com o bambúrrio.
Em Atenas - 10.000 pessoas e Salónica - nesta última cidade reuniram-se 5.000 manifestantes, mais do que todos os "vermelhos de Ratchaprasong" juntos -, a policia desbaratou a concentração convocada pelos sindicatos e por grupos comunistas. Bastonadas, prisões, correrias e abundante utilização de gás lacrimogéneo. Imagine-se o que o inefável Papandreu faria se em vez dos gritos e ataques às montras, os "sediciosos"tivessem erguido barricadas, disparado metralhadoras e foguetes RPG.
A Europa democrática é assim e tem todo o direito de se defender. Bem pelo contrário, quando se tratam de assuntos fora de portas, as ameaças de subversão da segurança de um povo inteiro, são pelos yuppies de Bruxelas encaradas como "legítimas lutas". Duplicidade de critérios, atestando a mentalidade consagrada pela Conferência de Berlim (1884).
Os chefes do oculto partido comunista "da Tailândia", conseguiram a estulta proeza de numa semana terem atacado as duas instituições que para a esmagadora maioria do povo - inclusivamente aqueles que acampam nas ruas de Bangkok -, são absolutamente indiscutíveis. Além dos ensurdecedores rumores de tentativa de derrube da prestigiada Monarquia, inadvertidamente enxovalharam o outro pilar da sociedade: o budismo.
Bem à maneira dos seus especializados precursores do exército de Estaline de 1945, resolveram invadir o Hospital de Chulalongkorn, forçando a uma apressada evacuação do mesmo. Cenas de crianças a sair porta fora dentro de incubadoras, velhos doentes ligados a máquinas de sobrevivência e outras lamentáveis situações do género, atiçaram violentamente uma raiva generalizada que já crepitava em fogo brando. O insondáveis desígnios de Buda ditaram a completa desonra dos agressores, pois para azar destes, um dos evacuados que se encontrava internado, era Sua Santidade Somdet Phra Nyanasamvara, o Supremo Patriarca do Reino.
Para o kharma dos bandoleiros baixar ao nível de qualquer ratazana de esgoto, apenas lhes falta "vistoriar" o Hospital onde há meses se encontra internada Sua Majestade Bhumibol Adulyadej, Rama IX, por todos muito justamente cognominado de O Grande.
Não admira que a dissidência alastre no acampamento de Ratchaprasong. Tradicionalmente habituados a encontrar sinais que expliquem os acontecimentos nas suas vidas, os pobres camponeses ali encurralados pelo despotismo dos seus caciques, consideram o Rei e o Patriarca, nas alturas do Sétimo Céu. A partir de agora, a maioria terá finalmente visto a pegada de Buda.
O ataque ao Hospital Chulalongkorn - nome de Rama V, um dos heróis do país -, não consistiu numa notícia. Foi um acontecimento.
* Entretanto e como sempre, os "camaradas de serviço" tentam dar uma mão amiga aos subversivos.
A diplomacia dos nossos dias, parece encontrar-se num patamar infinitamente inferior ao de outros tempos. Invadida por gente profundamente interessada nas redes de negócios que desacreditaram os outrora imponentes edifícios estatais, em pouco se distingue dos centros de decisão empresariais. A deplorável, esdrúxula e patética actuação que tem tido em Bangkok, causaria calafrios a qualquer mediano embaixador de eras passadas.
Sem voltarmos a exaustivamente referir a longa série de atentados ao direito que os chamados "manifestantes vermelhos" têm prodigamente executado ao longo das últimas semanas, salientemos apenas o essencial do quadro que nos é apresentado: subversão da ordem constitucional, milícias armadas, desobediência civil, coacção física e moral sobre milhares de transeuntes, bloqueio de estradas e de serviços públicos, ataque às forças de segurança do Estado, posse de um verdadeiro arsenal bélico, tráfico de armas, etc. Todo este rosário de ilegalidades e prepotência, não parece ser um caso que mereça uma breve análise que aconselhe a prudência ao staff que ocupa funções de representação - do quê e de quem? - da chamada União Europeia. Para não vincarmos demasiadamente a notória irrelevância da "embaixada" - a UE não é e não parece poder vir a ser um Estado -, note-se apenas que as autoridades tailandesas estarão mais dispostas a dialogar com parceiros há muito conhecidos e potência a potência, consoante o peso de cada uma delas. Se algumas beneficiam da importante - mas não decisiva - influência que as relações económicas implicam, outras, como será o caso do antigo e permanente amigo português, poderão fazer valer a sua voz através daquele clássico princípio de não ingerência que tranquiliza quem justamente se sente agredido. A prudência acompanha a razão.
Num Ocidente à mercê de uma incendiária geração que caminha para a fase derradeira do seu percurso político, a informação imediatista e a total falta de uma base de preparação que o conhecimento da História facultaria, conduz ao atropelo de todas as normas internacionalmente aceites. Parecemos voltar ao período de entre-as-guerras, quando os Tratados e as relações internacionais nada mais eram senão "pedaços de papel" ou situações perfeitamente desrespeitáveis.
Esta rebelião não parece ser um simples tumulto protagonizado um punhado de políticos profissionais descontentes. É algo de muito mais vasto, de emaranhada rede de influências, perigoso e com evidentes semelhanças com outros processos que ocorreram um pouco por toda aquela região e que encontra sólidos fundamentos numa doutrina de assalto ao poder, que de tão conhecida dispensa qualquer dúvida na sua catalogação.
A imprensa internacional escrita - quase ausente e bastante lacónica -, foi suplantada, ainda que de forma sintomaticamente tímida, por rápidos flash! televisivos, onde todo o tipo de recursos são utilizados para atrair a atenção dos telespectadores. Assim, a milenar dicotomia "rico e pobre" surge exaustivamente, como se os magnatas que são a cabeça de cartaz do "movimento vermelho", não fossem uma disparatada e embaraçosa contradição que salta à vista do mais empedernido imbecil. O silêncio das organizações "de esquerda" europeias e latino-americanas, demonstra cabalmente a falta do essencial sentimento de "pertença à causa" que noutras circunstâncias, já teria conduzido à convocação de manifestações, movimentos de solidariedade e outras actividades concomitantes à tipologia. Nem Castro, nem Chávez se dignaram a tecer qualquer comentário e falhadas estas conhecidas pitonisas, quem lhes restará? Não parece existir qualquer equívoco acerca da verdadeira face escondida por detrás do thaksinismo, mas o modus operandi é indicador de uma realidade bem conhecida, embora negada. Falta-lhes um Tito, um Hoxha e de uma forma quase hilariante, Thaksin, o exigente e perdulário frequentador de spa's, tornou-se num embaraço para os seus próprios aliados.
A entrevistadora de uma BBC que tem estado muito desatenta, há poucos dias atrevidamente increpava o primeiro-ministro Abhisit, atirando-lhe em cara a recorrente pecha do ..."not elected by the people", com isto querendo dizer que o chefe do governo tailandês ..."has no mandate". A ignorante britânica, tagarela como poucas e no trilho da arrogância que noutros tempos foi timbre de uma outra arrivista muito mais esperta - a sra. Anna Leonowens -, esqueceu-se da actual situação do ocupante do nº 10 de Downing Street, o sr. Gordon Brown. Balsemão substituiu Sá Carneiro, tal como Helmut Schmidt ocuparia a chancelaria de Willy Brandt, no rescaldo do escândalo de espionagem G. Willaume. No Reino Unido, Brown tomou o lugar de Blair, sem que por isso a mais velha democracia do planeta se sentisse ultrajada por tal preenchimento do cadeirão vago. Este tipo de substituições de Premier, são uma constante na Europa e na própria capital da "Comissão Europeia", Bruxelas, o Rei Alberto II vê-se obrigado a gerir a cacofonia partidocrática e semestre após semestre, vão saltitando primeiros-ministros do arco das instáveis coligações.
A grotesca superstição populista do favorecimento de pretensos descamisados que acabam sempre por se tornar em carrascos de muitos milhões, conduz à elaboração de manchetes enganosas, mas capazes de atraírem pela exótica sordidez, a volátil atenção de leitores. Se isto é compreensível pela necessidade de criar noticiário que venda outros produtos subjacentes à existência das publicações, torna-se muito mais estranha e problemática, a extemporânea adesão, quase partisana, de membros que laboram numa entidade de direito internacional. A União Europeia é um aparelho de perfil variável, cuja solidez e credibilidade no campo diplomático é bastante fluída, deixando muito a desejar. Ninguém a toma a sério e pelos vistos, o próprio pessoal que a serve disso terá consciência. Os interesses particulares de cada um dos países que a compõem, naturalmente se sobrepõem ao desfiar de princípios vagos e de intenções de uma entidade que paira num limbo do qual poderá jamais sair. Assim, as actividades dos seus bureaus aconselhariam a prudência e a discrição.
Não tem sido o caso, antes pelo contrário.
Ruidosamente e com todos os salamaleques, o sr. David Lipman recebeu os líderes que se envolveram em todo o tipo de afrontas ao direito internacional - o caso da invasão do Hospital Chulalongkorn é o culminar de um processo que não conhece limites - e com eles se fechou durante quarenta minutos num gabinete da representação. Tendo sido anunciada a entrega de uma missiva dirigida a Bruxelas, o staff não se limitou à sua recepção, como seria de esperar e no estrito e inamovível princípio do escrupuloso cumprimento das regras subjacentes ao corpo diplomático. Quarenta minutos significam demasiado tempo, quase uma eternidade. São comprometedoras fanfarronadas e destroem qualquer possibilidade das autoridades locais, em atribuir qualquer dignidade a essa pretensa UE. Não nos espantaremos se o governo de Bangkok sabiamente preferir tratar directamente com Berlim, Londres, Paris, Roma e até - a CPLP começa a pesar -, com o velho aliado Portugal.
Atascada no ridículo, Bruxelas deverá rever criteriosamente a sua política de representação no exterior. Os seus escritórios não podem ser transformados em cantinas de recurso para o convívio com todo o tipo de bandos alucinados ou de bandoleiros, nem locais de reunião ou massage parlours de ocasião.
Tudo isto é vergonhosamente indigno e perfeitamente dispensável. Velhos tiques, servidos em termos neo-coloniais.
Abhisit reuniu-se ontem com Ramos-Horta, o amigo de Timor Leste
Imaginemos uma espécie de grupo Abu Nidal acampado em plena Praça da Concórdia e sujeitando a população de Paris a todo o tipo de abusos, desde cortes de estradas, revistas a veículos, interrupção do comércio, etc. À frente da barricada, umas largas dezenas de bebés e respectivas avós, impedindo o CRS de actuar em nome da defesa do Estado. O governo procura contemporizar e vencer a resistência pelo cansaço e inércia. Aos poucos, os "nidalistas" vão abandonando o campo, cujo perímetro se reduz para um terço daquilo que já foi.
Asneiras feitas e aflitos com a irritação generalizada da opinião pública, realizam uma ou outra acção esporádica e começam a encontrar uma forte oposição das forças de segurança. Falhou a chantagem, falhou a gritaria e a propaganda. E agora? Resta-lhes um derradeiro recurso.
Qual?
Vão até ao escritório de uma espécie de ONG, localmente menos influente que qualquer missão das Irmãzinhas da Madre Teresa e entregam uma petição a um tal David Lipman - um derivado de sr. "Rompói" - róseo "embaixador" de uma coisa vagamente fascista e que serve como regalo burocrático de pica-ponto. Compreende-se a iniciativa, até porque nesse tipo de ONG sempre pulularam entusiastas de revoluções alheias, desde que não lhes partam os vidros da casa. É a tal geringonça dos velhos tempos em que se atiravam umas pedras à policia na Bastilha e depois regressava-se ao apartamento Napoleon III no Seizième. Esta quinta-feira, os "anjinhos vermelhos de Patpong", agora protegidos pelos antigos soixante-huitards, resolveram invadir o Hospital Chulalongkorn para "uma busca". Lembram-se de cenas destas há mais de trinta anos?
Bom proveito, pelo tempo perdido. Entretanto, o ministro Kasit já respondeu como devia.
É que na sua terra e no escritório de ar condicionado e Benz 300SL à porta - com chauffeur pago pelos contribuintes -, o tal Lipman mandaria os "mitras" darem um giro. Melhor, teria a policia pronta para os deter logo à saída do elevador. Uma coisa é lá, mas outra, bem diferente, são as modas por cá, na tal ONG que dá pelo pretensioso nome de Europa*.
O neo-colonialismo sabe-lhes tão bem!
*Diz-se Óropa, à maneira deles.
As famosas latrinas que não são despejadas e que exalam vapores nauseabundos
Tive ontem o privilégio de ter passado uma boa parte do dia com a minha amiga Lena, uma luso-brasileira sempre linda e capaz de rivalizar comigo em memórias. Conhecia-a nos tempos da faculdade, quando durante uns dias, recolhemos umas largas centenas de assinaturas para uma petição que protestava contra a destruição de uma parte do Jardim da Gulbenkian. A Fundação iniciava a construção do bastante sofrível edifício onde alojou a sua colecção contemporânea e os montões de terra e o abate de centenas de metros quadrados de jardim, foram considerados por muitos como um atentado ambiental sem precedentes. Outros tempos.
Para meu espanto, a Lena acaba de chegar de Bangkok - lamentou não saber que o Miguel ali se encontra há anos -, após uma odisseia de voos cancelados, mudanças de hotel, tráfego cortado e claro, a perspectiva daquilo que nos primeiros dias aparentava ser uma "revolução". Curiosa e aproveitando a condenação a uma estadia que de forçada acabou por ter muito pouco, foi assistindo à evolução dos acontecimentos. Impressionada com os delírios dos primeiros dias, desistiu de uma semana de praia em Hua Hin e aproveitou para melhor conhecer a grande cidade. Pela primeira vez
viu uma outra Tailândia até então imperceptível e bem diferente do sabai-sabai (tudo bem, tudo bem) que a todos os visitantes cativa.
Estupefacta pelas movimentações ruidosas que ocupavam as ruas com muitas centenas de veículos onde sobressaíam as pick-up tão típicas das zonas rurais e alguns compactos cortejos de motoçai (motorizadas), não compreendeu a inicial passividade das autoridades que deixaram Bangkok à mercê do livre arbítrio da multidão, ou melhor, da decisão dos chefes do grande grupo. Eram às dezenas de milhar, talvez trinta ou quarenta mil, podendo variar consoante a hora do dia. Repartiam-se por alguns pontos da cidade, tal o espaço que a mole humana ocupava. A visita aos acampamentos mostrava uma imensa maioria de gente nitidamente de origem campesina, mas enquadrada por alguns chefes de grupo que lhe recordaram - não sabe porquê - alguns filmes japoneses que narram época gloriosa dos potentados samurais. Ao fim de poucos dias, o perímetro ocupado já se tinha transformado num imenso monturo de todo o tipo de imundícies, onde o odor de restos de comida apodrecida alternavam com os omnipresentes vestígios das necessidades fisiológicas vertidas em plenos passeios, estrada e zonas circundantes dos centros comerciais e hotéis de prestígio. Consistiu no ruir da ciosamente guardada reputação de limpeza extrema que todos os estrangeiros reconhecem nos tailandeses e viu-se perante uma situação nova. Efígies de Thaksin por todo o lado, comes e bebes em quantidades astronómicas e despejadas às famintas goelas de militantes que dia após dia torravam sob um sol inclemente. A música era ensurdecedora e limitava-se aos cha-cha-chas readaptados e que fazem a delícia naquelas paragens do mundo e claro está, recordou-se imediatamente de um outro tipo de melodias muito típicas do seu país natal e que nos confins rurais é conhecida por música sertaneja. É isso mesmo que a gente do Issan aprecia e as vozes mais ou menos langorosas dos artistas, falam de amores despedaçados e de possíveis reconciliações. Faz-se uma revolução com um espírito destes? Não. Afinal de contas, tudo parecia ser apenas uma imensa festa e os chefes obtinham a automática aprovação dos seus discursos, mesmo que a assistência estivesse mais ocupada a conversar, a comer ou a ouvir a sua música. Os líderes de grupo controlavam os seus contingentes, mas nem sempre conseguiam as pretendidas rajadas de palmas. Vivia-se como se podia e tudo aparentava nada mais ser senão uma gigantesca excursão à até então desconhecida capital.
A situação começou a mudar de forma sensível, quando a Lena notou o progressivo esvaziar de participantes no ininterrupto comício, precisamente no momento em que os populares da quilo a que se chama maioria silenciosa, começavam a sair à rua em defesa do Estado. Dia após dia, o perímetro ia encolhendo, até que há cerca de duas semanas, se resumiu a um ruidoso e muito mais agressivo resquício da onda que assustara nos noticiários e fizera crer na possibilidade de acontecimentos sem precedentes. Embora continuem presentes até hoje as crianças confiadas à guarda dos seus avós, o número é nitidamente menor, embora ainda bastante visível, uma vez que normalmente servem de primeira fileira que garante a contemporização das forças da autoridade. Na zona da Silom-Lumpini onde agora estão circunscritos, os ocupantes conseguiram devastar totalmente uma boa parte daquela movimentada área, amontoando-se colinas de pedras arrancadas aos passeios e muros circundantes de propriedades. Pneus, ferros de toda a espécie, madeiras, latas, pilhas e pilhas de garrafas de vidro e um nauseabundo fedor que já é sentido algumas centenas de metro de distância, a partir da entrada da AUA-American University que ambos já frequentámos. Tudo parecia bem diferente daquilo a que assistira há alguns dias. Os sorrisos rareavam, o aborrecimento notório e o aspecto do grosso dos homens que à frente tudo pareciam decidir e coordenar, aproximava-se bastante daquilo que imaginemos ser o grupo Abu Saiaf. Surgiram as primeiras bancas com merchandising que na Europa conhecemos em qualquer feira de rua em Berlim, não faltando crachás, bonés à Mao, alguns posters e o inevitável ícone à Xanana Gusmão, mais conhecido por Che Guevara. Ficou a pensar se aquela gente fará a mínima ideia de quem sejam as personalidades, embora umas mais conhecidas do que outras. Pelos vistos, até J.J. Rousseau já faz parte da encomenda, embora na nossa Europa se deva poder contar pelos dedos de uma mão, o número de alunos que em cada escola já terão ouvido falar do homem. Pois em Bangkok, já lá está, discreto e no meio de Deng Xiaoping, Mao, Lenine e os outros barbudos da praxe. Thaksin ainda vai resistindo aqui e ali, mas já sem um grande apego dos seus outrora entusiásticos e retornados a casa apoiantes. Parece um dia de Feira do Avante, mas com o solo minado por todo o tipo de obstáculos, onde os dejectos humanos são a parte escorregadia e mais perigosa.
A "Feira do Relógio/Avante", numa hora morta
Teve a sorte de não poder deslocar-se à Silom naquela fatídica noite dos rockets, mas o indignado pessoal do hotel esclareceu-a acerca do que se estava a passar, esquecendo momentaneamente todas as regras da usual compostura. O desejo de justiça pelas próprias mãos, o exaltado apelo à acção da autoridade que repusesse a ordem a todo o custo, fez de imediato desabar aquilo a que durante dias a CNN transmitiu a um mundo bastante desinteressado pelos acontecimentos e mais atento ao golpe de Putin no Quirguistão. Falou com os empregados de mesa, com a gente dos restaurantes de lojas de Pratunam e notou uma quase total unanimidade no sentido de se por cobro a uma situação que prejudica o normal funcionamento da cidade e pior que tudo, denigre a imagem do país aos olhos dos farangs (estrangeiros). No entanto, quando dos acontecimentos do final da passada semana, já a Lena tinha a certeza absoluta do fracasso daquilo que inicialmente pareceu ser uma insurreição, mas que cada vez mais aparenta ter-se tornado numa grande Feira do Relógio. Julga que a moderação do governo e a passividade das forças de segurança - que julga intencional -, acabaram por surtir o efeito pretendido, evitando o agravamento dos confrontos e desmobilizando uma militância já bastante diminuída numérica e animicamente. Por aquilo que ouviu da boca de um dos "dirigentes", a questão que se coloca é a da clássica "perda da face dos red" que deverá ser evitada por khun Abhisit. Trata-se de uma questão de um simples espectáculo de sombras chinesas, já sem a inicial presença dos órgãos de comunicação social ocidentais, hoje também residuais na zona do drôle de guerre.
Como lhe disse o tal Wichai, agora os vermelhos vêem em Abhisit, um tchorakê kwan klong (um crocodilo atravessado no canal) e no fundo, até o têm numa certa dose de consideração pessoal. Simplesmente, venceu.
Abhisit, tchorakê kwan klong. Bem visto!
O sol a bater em chapa na plasticaria (reservada aos mais notáveis), transforma o espaço numa grande sauna malcheirosa
Na Tailândia, não existirá nenhuma "república de Estado Novo"
Leia tudo AQUI, no Combustões. Texto e muitas fotos inéditas, tiradas por Miguel Castelo-Branco. Esta tarde, em Bangkok.
Um indivíduo acercou-se e identificou-se como professor do ensino secundário. É simpatizante de Abhisit mas deixou-me boquiaberto com a terminologia. "Sabe, 90% dos tubarões e exploradores deste povo são amigos de Thaksin. No campo democrático e daqueles que amam o Rei, a maioria são pessoas como nós, que trabalham, se levantam cedo e deitam cedo, que fazem ginástica orçamental para sobreviver". Feliz por ver que da boca de um homem que ganha duzentos Euro por mês saltam crepitantes as palavras que esperava. Disse-lhe que na Europa era o mesmo: quanto mais ricos, ociosos e metidos nas curibecas, mais pró-isto e pró-aquilo, conquanto nunca lhes metam as mãos na carteira.
Esta tarde, a multidão na Praça Real (Dusit Throne Hall)
A maioria trazia um grande autocolante destinado a enviar um recado para o mundo, infelizmente mal informado pelos media ditos de referência, que fazem clara campanha a favor do plutocrata Thaksin servindo-se exageros e semi-verdades misturadas com totais mentiras. Não [queremos] presidente, resume a natureza do conflito. Thaksin quer a república oligárquica e plutocrática, o poder absoluto para governar a seu bel prazer. Os tailandeses sabem que tal república, que os defensores do multimilionário crismaram já de Estado Novo, seria o fim da democracia e o fim da separação de poderes. Depois, há a repulsa profunda pelo terrorismo, pelo vandalismo e pela protecção que Thaksin tem recebido dos regimes autoritários ex-comunistas da região. Agora, para os defensores do governo, Thaksin é, apenas um traidor.
A multidão que se manifestava em defesa da legalidade constitucional. Foi bombardeada com rockets disparados pelos subversivos. Veja as inéditas e extraordinárias fotos exclusivas do COMBUSTÕES
Confirmando plenamente aquilo que há muito se sabe, agora chega a notícia de claras movimentações junto da "comunidade internacional" - leia-se, forças de pressão que têm intervindo na Tailândia -, no sentido da colocação de um contingente da ONU em Bangkok! Inacreditável, como se um Estado soberano pudesse admitir tal coisa, quando mesmo ao lado a Junta birmanesa - sob protecção de Pequim, tal como os "reds" - usa e abusa do poder das armas e de forma totalmente impune. Pretender-se colocar a Tailândia no mesmo patamar comparativo do terror chinês, laociano e a tantos outros da região, é um absurdo que desacredita quem recorre a este tipo de artifícios.
No pleno desespero de uma causa que já vêem perdida, apelam agora à descarada intervenção que salve os negócios de alguns e a colossal fortuna roubada por Thaksin, hoje parcialmente congelada por decisão judicial. É isto que essencialmente está em causa e a plutocracia de tudo se serve para se proteger.
O quadro torna-se cada vez mais nítido e as últimas notícias dão conta da detalhada confissão - que será televisionada - de um actor que participou no ataque armado de 10 de Abril, confirmando plenamente o que aqui foi dito. Thirachon Manomaipibul, o governador da capital, declarou hoje que as câmeras de vigilância do BTS - estação do metro aéreo - confirmam plenamente a origem dos disparos dos rockets M-79 que ontem atingiram a multidão: o Parque Lumpini, sítio da barricada "red". Previamente, a liderança sediciosa procurou ocultar a acção da origem do ataque, cobrindo com plásticos negros as câmeras de segurança (CCTV) da Administração Metropolitana de Bangkok, simultaneamente dirigindo o ângulo direccional dos aparelhos, para o céu. Torna-se muito difícil esconder a verdade e pasma-se pelos argumentos utilizados, como o "respeito pelas normas internacionais", por exemplo. Curiosa moderação esta, vinda de entidades que ainda há poucos dias cantavam já a vitória de "sublevações populares libertadoras" ou outras ladainhas da praxe, sempre susceptíveis de impressionar os observadores postados em escritórios com ar condicionado.
Foi esta a multidão ontem bombardeada na Avenida Silom.
Esta tarde, está prevista uma grande concentração de populares que na grande Praça Real se manifestarão em defesa do trono e da legalidade constitucional. Não deixaremos de publicar toda a informação que estiver disponível.
Como dissemos, a intervenção externa existe, é descarada e sem sofismas. Há que dar-lhe remédio.
Impressionou-me o grande número de muçulmanos distribuídos pela multidão que não parava de crescer. A resposta para essa interrogação foi-me esclarecida por uma rapariga de véu: "hoje, nas orações da manhã, os nossos líderes espirituais apelaram à mobilização de todos os cidadãos muçulmanos para esta luta pela liberdade e pelo nosso Rei".
As fotografias são de hoje e acabaram de chegar, via Combustões. Esta manhã saíram aos milhares para as ruas da capital tailandesa. Começou o movimento popular em defesa das instituições, da liberdade. A Coroa encontra o seu mais forte esteio no povo que não quer ver o país transformado num pasto para ditadores "à moda filipina, indonésia, laociana, norte-coreana, chinesa ou birmanesa".
A estranha coligação plutocrática-vermelha que se cuide. Não tardará muito até o Song Pracharon! - Viva o Rei! - se tornar ensurdecedor.
As informações que chegam de Bangkok, têm sido escassas. Na imprensa portuguesa, o noticiário é lacónico e a TVI menciona apenas os mandados de prisão dos 18 principais cabecilhas da subversão. Umas rápidas notas de rodapé passam intermitentemente nos telejornais, sem que surja uma única imagem ou comentário, remetendo-se a atenção para os acontecimentos no Quirguistão, palco da mais recente vitória russa na região. De facto, Putin suplantou os EUA e a China. Por outro lado, uma consulta às reportagens da BBC, propiciam uma visão geral dos acontecimentos, sem que possamos daí retirar qualquer claro indício de grave degradação da situação, até porque os números falam por si.
Dentro de poucos dias, iniciar-se-á o período do calor extremo e logo surgirão as primeiras chuvas da monção. Será o momento do retorno ao trabalho nos vastos campos, onde a principal fonte de subsistência espera os devidos cuidados. Prevê-se o inevitável regresso a casa da maioria dos participantes nos tumultos que têm ocorrido na capital.
Ao longo da sua história constitucional, o país tem assistido a passageiros períodos de luta de facções e nuns poucos casos, o extremar de posições e a violência que ameaçava atingir um grau inaceitável, levou a Coroa a tomar o seu papel moderador. De facto, o surgimento de Rama IX foi sempre decisivo para o rápido regresso à paz institucional e consagração entre as partes desavindas. Em 1992, uma chamada de Chamlong e Suchinda ao Palácio, liquidou uma situação que ameaçava fugir ao controlo da segurança do Estado. O mundo assistiu quase em directo pela televisão, ao momento em que os dois adversários se apresentaram diante do monarca, escutando atentamente o conselho que mostrava o caminho a ser seguido. A crise desvaneceu-se e o país iniciou o já longo período de desenvolvimento económico e de modernização do Estado e das suas instituições.
A situação vivida nesta semana, parece indiciar uma progressiva desmobilização que também pode ser ditada pela desorientação de uma liderança que agora não deve ter a certeza daquilo que ainda poderá fazer. Limitando-se a passeios pelas grandes avenidas e pontos de intersecção da cidade, o que pretendia passar por uma revolução, assemelha-se bastante a uma mera desordem com contornos de esporádicos motins inconsequentes. Alguns observadores mais alinhados com as antigas doutrinas agit-prop de outros tempos, decerto passarão a seguir escrupulosamente e folha por folha, o clássico manual desculpabilizador "dos seus". Não será muito difícil atribuírem-se agora responsabilidades a "grupos desconhecidos", "agentes provocadores", "infiltrados", "mercenários a soldo do governo e do exército", etc. A falta de imaginação e o apego a doutrinas de acção correspondentes a um tempo que morreu, obnubilam a realidade das coisas. Não se pode transplantar de um país para todos os outros, a previsibilidade das reacções, estímulo de grupos e a inevitabilidade de acontecimentos. A Tailândia é muito diferente do Portugal de 1974 e nada em comum tem com o Nepal, o Quirguistão, o Ceilão ou as Filipinas. A sua estrutura político-social - e económica -, obedece a séculos de autonomia política onde o actual Estado encontra profundos alicerces difíceis de destruir. Outro caso será a intervenção mais ou menos velada, de interesses internacionais que lutam pela obtenção de vantagens políticas e económicas, disputando a primazia naquela área do planeta. Como anteriormante dissemos, a Ásia parece estar a substituir a África como principal ponto de intervenção das grandes potenciais: EUA, Rússia e China, uma vez que a Europa se encontra por demais dividida pelas naturais rivalidades que a impedem de qualquer acção consequente. Para pouco mais interessa, senão para alguns negócios de exportação e para o sempre bem-vindo fornecimento das torrentes de turistas que enchem os principais monumentos, resorts balneários, discotecas, bares e os luxuosos Mall da capital.
Em Bangkok não se assistiu a qualquer grande incêndio, desrespeito pela propriedade, assalto a arsenais, feridos graves ou mortos. Existem militares e policias nas ruas e avenidas, sem que se dispare um tiro ou se maltrate a gente que se manifesta nesta época de festa, quase um antecipado Songkran. Os seguidores de Thaksin, querem agora apelar aos recursos propiciados pelo sistema de Justiça do próprio Estado que até há poucos dias pretendiam conquistar na rua. Isto é um claro sinal de evolução e prevê-se um próximo acatar da Lei.
Se Rama IX ainda não falou, isso apenas poderá querer significar que a situação está controlada, não é muito grave como alguns querem fazer crer e não merece o exercício público do Poder Moderador. Oxalá assim seja e que a perigosa cascavel não passe de uma dócil jibóia.
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Há alguns anos, encontrava-me em serviço naquele país do sudeste asiático. Em plena época da monção, todo o vale do Menão - corruptela portuguesa do rio Mae Nam, ou Chao Phraya -, foi inundado por uma massa de água de proporções bíblicas. Enquanto cidadezinhas de província, aldeias e quintas eram irremediavelmente isoladas como ilhas num oceano, o sítio histórico de Ayuthaya, bem no epicentro do desastre, assistia a uma devastação sem precedentes desde que a cidade caíra diante da fúria de ferro e fogo birmanês.
Aflitiva era a situação da população rural. Sem caminhos de fuga, totalmente dependente do fornecimento de víveres a partir dos grandes centros distribuidores, ficou reduzida à total impotência, esfaimada e temerosa do prosseguimento da intempérie. Pior, as quintas produtoras de bens de consumo de primeira necessidade, viram a labuta de meses desaparecer sob o lodaçal, enquanto outras, destinadas à produção de peles de crocodilos, não puderam impedir uma maciça fuga dos répteis que galgaram as cercas, em direcção ao grande rio e à miríade de canais que pontilham o mapa do velho Sião. Subitamente, deixámos de ver as crianças a exibirem as suas técnicas de mergulho à frente do Wat Phra Keaw - o Grande Palácio - , sempre à cata das moedas com que os turistas recompensavam as prodigiosas habilidades acrobáticas. Era o medo pelo choraké, o grande lagarto de dentes afiados. Alguns foram capturados, enquanto outros iniciavam uma nova vida nos klongs situados nas imediações do grande centro urbano. Era o regresso do medo de outros tempos, em que as gentes olhavam a natureza e os seus bichos como a parte integrante das suas vidas, quando não os carrascos que as cerceavam sem apelo, num necessário forçar do equilíbrio.
A capital dos então oito milhões de habitantes, também via as suas grandes thanon e soi transformadas em braços de rio, desaparecendo quase por completo o caótico, ruidoso e por vezes insuportável tráfego rodoviário. Contra todos os avisados conselhos, era com grande satisfação que caminhei de calções e chinelos, por locais onde a água facilmente ultrapassava a altura dos joelhos. Como visitante, tudo aquilo nada mais era senão um complemtento à aventura asiática, remetendo-me para outros horizontes perdidos pelo tempo. Gostava da sensação e a civilização do ocaso do triste século XX parecia desaparecer e dar lugar aos barquinhos a remos, canoas e outras embarcações profusamente decoradas com ramagens, flores e laços votivos dedicados às divindades. Naquele momento, todos viam a vantagem que os antepassados encontraram na vida embarcada, nas casas sobre palafitas e imunes aos caprichos das marés.
Decorridos quatro dias, a apreensão substituiu o negligente prazer pelo inaudito. As imagens que os canais de televisão mostravam, eram terríveis. Centenas de milhar de pessoas apenas sobreviviam refugiadas com os seus preciosos animais, amontoando-se nos telhados das suas casas e quintas, ou em montículos de terra no meio de um deserto de água, onde os esverdeados dos limos apenas alternavam com o avermelhado castanho da terra ensopada. Uma população sem comida e sempre fustigada por bátegas de água que teimavam em não partir para outras paragens, a ameaça da fome e do surto de doenças, atemorizou o país inteiro. O governo do 1º ministro Barnharn Silapaarcha não teve qualquer capacidade de resposta global, limitando-se a pequenas medidas paliativas, evacuando algumas localidades. Helicópteros distribuíam sacas de arroz, sem que isso significasse algo mais, senão uma patética tentativa de auto-satisfação pelo "dever cumprido" na assistência aos aflitos. O problema era vasto e de quase impossível resolução, enquanto as águas não fossem gradualmente baixando.
O descontentamento generalizou-se e os ataques desferidos na imprensa e na tv contra o governo, ameaçavam a tradicional pacatez da sociedade tailandesa, pouco dada a violências que se verificam noutros países da região.
O rei Bhumibol Adulyadej, tomou então a raríssima iniciativa de pedir a autorização parlamentar para se dirigir ao país. Monarca constitucional com os poderes materiais limitados desde 1932, dificilmente faz ouvir a sua voz nas contendas políticas que dividem as forças partidárias, sempre voláteis e ciosas da defesa dos seus interesses. Desta vez, a majestade apresentou-se à população durante o horário nobre das notícias e diante de um grande mapa de toda a região central do país, deu a sua opinião acerca dos procedimentos urgentes. Sugeriu a convocação das Forças Armadas para os serviços de engenharia imprescindíveis à abertura de canais de escoamento de água e mostrou qual a direcção que os esforços deviam tomar, tendo em atenção as cotas dos rios e afluentes, depressões no terreno e valas de retenção. O que ninguém esperava era a resposta maciça, impressionante e voluntária que a população deu ao apelo do rei. Centenas de milhar colaboraram com os soldados, sem qualquer tipo de enquadramento de "Partido". Sem rutilantes bandeiras, sem hinos de louvor à impiedosa e brutal sageza de Grandes Timoneiros. Nem um policia ou um único comissário que zelasse pela correcção processual e metódica da "Ideia", mas apenas uma enorme manifestação de trabalho em prol do bem e do interesse geral.
Em três dias os rios recolheram aos seus leitos e as avenidas de Bangkok voltaram à sua habitual cacofonia de buzinas, acelerações de motocicletas, tuk-tuk e ao impecável serviço de transportes públicos.
Bhumibol Aduliadej estava no trono já há mais de meio século e conhecia cada quilómetro do seu reino, desde as mais recônditas vilas do nordeste, até às frescas províncias do velho reino tributário do Lana Thai, a noroeste. Conhece as turbulentes províncias do sul muçulmano, assim como as paradisíacas estancias balneárias que cobrem toda a costa do Golfo do Sião e do mar de Andamão. Ao longo de décadas sentara-se no chão poeirento e falara com as populações rurais e da montanha, inteirando-se dos seus problemas e recolhendo in situ as mais diversas experiências e recomendações que dirigia ao governo central. Era o rei fotógrafo que compilava milhares de imagens e enchia cadernos com anotações. Distribuiu ou criou iniciativas reais de aproveitamento de recursos e viabilizou actividades que se consideravam em vias de extinção. Escolas, centros de saúde, quintas agrícolas experimentais, centros de artesãos que preservam o património artístico, projectos de drenagem e irrigação. A defesa da floresta, a protecção da vida selvagem e o sempre lancinante alerta quanto à depredação que a apressada e lucrativa urbanização imposta por uma megalópole em que a capital se tornou, eram escutadas como fazendo parte das suas normais atribuições de tradicional Senhor da Terra, título honorífico que lhe chegara pelo desfiar de séculos de passadas grandezas.
Aquele momento de dilúvio, consistiu numa súbita tomada de consciência por parte milhões que desesperavam pela ineficácia da acção daqueles em que ciclicamente depositavam o seu sufrágio. O poder transitório e materializado pelo texto constitucional, se satisfaz o princípio do "poder do povo para o povo", não conseguiu na hora da verdade e das grandes decisões, esconder a evidência da existência de um outro, apenas moral, simbólico e de teórica união das mais díspares gentes que formal o país. O poder real era afinal aquele para o qual todos se voltaram na hora da suprema necessidade colectiva. Sem prepotência ou arremedos de liderança despótica, pediu a autorização ao povo - as instituições representativas - para falar ao próprio povo. Pairando acima dos interesses materiais dos grupos económicos e mantendo bem firme a tradição filosófica que mantém a coerência da sociedade conformada em Estado, é também o defensor a quem acorrem todas as minorias, sejam elas étnicas ou religiosas.
É um dos derradeiros, senão o último dos dirigentes mundiais de outros tempos. O seu poder não se cabouca nos biliões proporcionados por uma praça financeira, ou nas baionetas de milhões de soldados em pé de guerra. A bem conhecida honestidade e total assunção do dever, é a sólida base sobre a qual se ergue a generalizada confiança da Tailândia.
Embora não me agradem tiradas encomiásticas e muito menos ainda, panegíricos destinados a personalidades vivas, neste caso há que reconhecer a evidência: grande homem é Rama IX, cujo nome Bhumibol (lê-se Pumipon) significa Força da Terra, enquanto Adulyadej (lê-se Aduniadet) o torna em Poder Incomparável, naquelas sugestões que só uma Ásia milenar consegue fazer perdurar como atributos históricos de uma filosofia tornada como religiosa norma de conduta geral.
Força de uma terra que se resume no corpo de todos os tailandeses e no incomparável poder de uma vontade que se manifesta sempre que convocada por quem de razão e de direito chama à responsabilidade.
Jamais teve veleidades imperialistas e quis expandir fronteiras ou ameaçar vizinhos. Não é um potentado que se exibe nos palcos cerimoniais do mundo, nem faz valer a sua presença em conferênciais ou cimeiras internacionais, raramente saindo das fronteiras do seu reino. É conhecido como um homem discreto e escrupuloso cumpridor de protocolos de antanho, agradando ás massas orgulhosas de uma pageantry que tem origem num passado que jamais se submeteu a qualquer tipo de colonização ou ditame de ocupantes, fossem eles brancos, indianos ou pardos. Amado como homem bom que jamais deixou ser, eis a síntese de uma vida já ocotogenária.
Os governos, os chefes de clã e de interesses e os Partidos, vão e vêem nas marés da moda, do contexto internacional e dos acasos decorrentes da crise que alterna com a prosperidade económica e financeira. De uma coisa estão todos os tailandeses certos, enverguem eles as camisetas vermelhas, amarelas ou si-chompu (rosa): o rei fica e parece ser sempre o mesmo, pouco importando o numeral.
Bhumibol Adulyadej, merece bem o cognome que há muito os mais humildes lhe atribuíram: o Grande.
Leia as notícias completas acerca da situação tailandesa A Q U I
"Há cerca de três horas foram detonados dois engenhos explosivos, o primeiro na sede da Comissão Nacional Anti-Corrupção, a instituição que tem desenvolvido infatigável trabalho de investigação sobre os crimes cometidos por Thaksin durante os anos em que foi chefe do governo e o segundo no Ministério do Interior. As agências tailandesas informam, entretanto, que o governo estuda a possibilidade de declarar o estado de sítio e a entrada em vigor de leis de excepção."
Os "manifestantes" pagos ao dia, como a imprensa gosta de ver...
Ontem aqui deixámos um alerta acerca de um certo tipo de jornalismo que se faz em relação à verdadeira situação na Tailândia. Apenas a preguiça mental e a apressada análise, poderão dar à estampa o infindável rol de lugares comuns e parvoíces surgidas nos últimos dias. Assim, para que não subsista qualquer tipo de dúvidas:
1. Thaksin é um energúmeno da pior espécie e foi o responsável pela destruição de bens públicos, locupletando-se escandalosamente às custas do erário nacional tailandês. A violência a que sempre recorreu para abafar qualquer tipo de oposição, conduziu a um banho de sangue nas províncias do sul do país, cujos representantes apelaram directamente à intervenção do Rei, como protector constitucional das minorias e de todas as religiões do reino.
2. As imagens que têm surgido demonstram à saciedade a total liberdade de movimentos da oposição organizada pelos partidários de Thaksin. Mais, permite-se-lhes - erro fatal - a circulação com catanas e outras armas de guerra, numa clara manifestação intimidatória e contrária à Lei. Como reagiriam os jornalistas portugueses e europeus, perante este tipo de exibições no nosso território?
3. O video divulgado em primeira mão pelo Pedro Quartin Graça, é exemplificativo do tipo de "militância" conseguida pelo magnata Thaksin. Todas as deslocações são pagas ao dia, assim como o transporte, fornecimento de alimentos e parafernália de propaganda. Nada é deixado ao acaso. Trata-se do mais abjecto tipo de caciquismo, à imagem do século XIX dos países do sul da Europa e de certos regimes da actual América latina. Entretanto, as divisões no "campo vermelho" começam a manifestar-se.
4. Na Tailândia, existe uma grande apreensão pelo estado de saúde do Rei Bhumibol. Com o seu desaparecimento conta Thaksin e os seus aliados externos, pois se tal acontecer a breve trecho, será previsível um momento de desorientação que propicie um golpe de força e a instalação de um tipo de regime que se aproxime daqueles que Pequim tem tentado semear em toda a região. Thaksin é um tardio émulo do antigo ditador filipino Ferdinando Marcos.
5. Não existe já qualquer tipo de dúvida acerca da manipulação externa, onde a China e alguns interesses ocidentais parecem apostados em desestabilizar o país, tradicionalmente avesso a qualquer tipo de colonialismo.
E agora, aqui está a prova final. Contentem-se, senhores jornalistas de Portugal! Video recebido via Pedro Quartin Graça