Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Bitte schön

por Nuno Castelo-Branco, em 30.06.14

Se vivêssemos normalmente, este seria apenas um jogo tão relevante como uma jantarada com alguns amigos. Não é assim. Esperemos que esta noite os Fritz zelosamente façam aquilo que se tornou imperioso, eliminando certos delírios. É desejável um resultado muito folgado, arrogante e sem margem para dúvidas. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:21

O mundial não acaba aqui

por Samuel de Paiva Pires, em 16.06.14

Sim, a selecção nacional fez uma pobre exibição. Mas a Alemanha também não jogou nada por aí além - teve uma eficácia tremenda, claro. Sim, faltou velocidade, garra e eficácia a Portugal, e houve jogadores que em determinados momentos nem pareciam lá estar. Sim, Paulo Bento é um seleccionador teimoso e que errou ao não levar jogadores como Quaresma e Adrien ao Mundial.

 

Mas os meus amigos crédulos que não querem ouvir falar nos árbitros ou os que acham que não nos devemos queixar dos árbitros terão de me desculpar. É que o futebol tem regras que devem ser garantidas pelo árbitro, um ser humano e, logo, falível, susceptível a erros e manipulações. Portanto, colocar os árbitros num plano de soberania neutral é, no mínimo, uma valente ingenuidade. É, em analogia, o mesmo que achar que o Tribunal Constitucional é absolutamente imparcial e, de repente, perceber que, afinal, é um orgão político, não apenas jurídico - isto, claro, para quem acredita na carochinha, como se o Tribunal Constitucional pudesse não ser um orgão político, mas parece que temos umas quantas alminhas que ainda não tinham percebido isto.

 

Agora, coloquem-se no lugar dos jogadores da selecção nacional, por pior que tenha sido a exibição. Entram em campo depois de já terem assistido a vários jogos e arbitragens suspeitas, com penáltis altamente duvidosos a serem recorrentes, e sabendo que há notícias de que a Interpol estará a investigar jogos alegadamente combinados. O jogo começa equilibrado e aos 12 minutos o árbitro marca um penálti muito forçado contra Portugal, cujo critério, se fosse efectivamente imparcial, implicaria assinalar um penálti evidente sobre Éder na segunda parte. A desmoralização é, inevitavelmente, imediata. Pouco depois, Pepe comete um erro imperdoável, mas que em parte alguma do mundo seria motivo para o cartão vermelho que viu - e, novamente, não deixa de ser questionável tanto rigor por parte do árbitro para um dos lados em contenda, e tão pouco para o outro, com várias faltas por assinalar.

 

Ninguém diz que a selecção nacional não tem responsabilidades pelo que aconteceu. Mas há mais variáveis que contribuíram para o resultado final. E o árbitro foi uma variável determinante.

 

Posto isto, o mundial não acaba aqui. Há, para já, dois jogos para ganhar. Força, Portugal!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:25

A reactivação da crise europeia

por Samuel de Paiva Pires, em 29.05.14

Viriato Soromenho-Marques, "Entre o abismo e o milagre":

 

"A expressão "terramoto" usada pelo primeiro-ministro francês Manuel Valls para classificar a vitória esmagadora da Frente Nacional de Marine le Pen em França não é uma metáfora. Apenas uma descrição realista. Atravessando o canal da Mancha em TGV, quem desembarcar na estação de Waterloo encontrará uma Grã-Bretanha onde o arqui-inimigo da União Europeia, Nigel Farage, líder do UKIP, encostou à rede os donos do sistema bipartidário que reina há muitas gerações na Velha Albion. Estas eleições europeias iniciaram uma reativação da crise europeia, com duas diferenças. Em primeiro lugar, a crise que até agora estava localizada essencialmente na periferia europeia (de Portugal até à Grécia) passou para o núcleo duro carolíngio do projeto europeu, para os países centrais da Declaração Schuman. Em segundo lugar, a crise que era capturada por um discurso dominantemente económico e financeiro vai agora traduzir-se numa linguagem política sobre o poder, os direitos, as instituições. Até que ponto é que o governo da chanceler Merkel percebe a mensagem que lhe está a ser enviada pelos novos e bizarros bárbaros do Ocidente? Será que ela perceberá que se persistir na atual "Europa alemã", baseada na austeridade, irá acelerar a destruição da própria ideia da unidade europeia, por muitos e dolorosos anos? Não basta dizer que importa criar emprego. É preciso rasgar o império do Tratado Orçamental, com o seu calendário de destruição económica e sofrimento social, sob pena de enlouquecer os europeus com o velho vírus da doença autoimune que, se não for combatido, acabará por incendiar a Europa."

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:13

Do diagnóstico errado à receita da austeridade excessiva

por Samuel de Paiva Pires, em 11.05.14

No primeiro semestre do doutoramento, no âmbito da cadeira de Temas Aprofundados de Economia Política Internacional, escrevi um ensaio sobre a crise do euro que, eventualmente, virá a público até ao fim deste ano. O argumento central é o de que o diagnóstico alemão da crise é errado e, logo, a receita da austeridade também. Afirmo ainda que é politicamente insustentável manter o status quo e que ou acabamos com a zona euro como a conhecemos (partindo-a em duas ou acabando com o euro) ou há que aprofundar a integração europeia, provavelmente por via do federalismo. Boa parte das considerações económicas fundamentam-se em Paul De Grauwe (vide este artigo e a obra Economics of Monetary Union, já na sua 10.ª edição, embora eu tenha recorrido à 9.ª, a mais recente à altura), e as considerações de ordem política resultam essencialmente das minhas observações.  Claro que os Maçães desta vida - o governo português - , discordarão. E, nos últimos meses, sempre que, recorrendo a argumentos que utilizei no ensaio, debati estas questões com economistas, alguns, talvez para disfarçar a falta de argumentos ou a incapacidade de duvidar das suas próprias perspectivas, não hesitaram em atacar-me apenas por não ter qualquer grau académico nessa magna ciência que é a economia. Dado que este ensaio foi avaliado em sede própria com 19 valores, por alguém doutorado em economia, nunca me preocupei muito com este tipo de críticas. Mas, nem de propósito, permitam-me dedicar-lhes uma entrevista a um economista formado na LSE, Philippe Legrain, que foi conselheiro de Durão Barroso. Pode ser que, sendo um economista a dizê-lo, consigam finalmente vislumbrar que há mais vida para lá da perspectiva alemã e que esta é profundamente errada e prejudicial não só a Portugal como à União Europeia. E, já agora, pode ser que também percebam a falácia da autoridade em que têm incorrido. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:47

Vítor Bento:

 

"O excedente global pressiona a apreciação do euro criando um ‘loop’ adverso sobre os países periféricos. Estes, para recuperarem a competitividade perdida na década anterior à crise, têm que baixar os custos internos. À medida que esse ajustamento se reflecte na melhoria da sua balança externa e porque os países excedentários não fazem o seu próprio ajustamento, tal melhoria fortalece o euro, acabando por lhes minar (cambialmente) a competitividade, forçando-os a ter que voltar a baixar os custos. Não é difícil perceber como este ‘loop' tem um efeito deflacionário e, portanto, contraccionista em toda a Zona Euro."

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:23

Há outros que lá vão pensando no futuro da União Europeia. Trata-se de um artigo que não traz nada de particularmente novo ao debate, mas cujo valor simbólico é inegável, dado ser assinado por George Osborne e Wolfgang Schäuble.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:58

Monroe sem Marilyn

por Nuno Castelo-Branco, em 17.03.14

 

Da esq.para a dir.: Portugal, a França, Espanha, a Alemanha e a Inglaterra advertidos pelo Tio Sam, o protector dos países latino-americanos

 

Desde o Outono de 1939 e até à declaração de guerra enviada por Berlim em Dezembro de 1941, a US Navy dedicou-se a escoltar os comboios de reabastecimento da Grã-Bretanha. Partindo do Canadá, estes eram ameaçados por unidades submarinas e de superfície da Kiegsmarine. A USN  significou um enorme alívio para as necessidades de defesa do Reino Unido, mitigando as perdas de tonelagem mercante e permitindo a sobrevivência do seu esforço de guerra na Europa e no norte de África. Era esta uma forma de interpretar extensivamente a Doutrina de Monroe, alargando o espaço da sua acção até às imediações da Irlanda. Os almirantes alemães impacientavam-se, mas Hitler interditou qualquer tipo de confronto com a marinha americana. Sabia que este era o pretexto bélico que faltava a Roosevelt.

 

Nos finais do século XIX, os EUA atacaram a Espanha, arrebatando-lhe Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas. Tornaram-se numa potência colonial e tal situação prolongar-se-ia até aos nossos dias. Pouco depois, correram rumores acerca  de uma possível ocupação dos Açores, pela imprensa americana considerados como parte da hemisfério ocidental e "dentro dos limites" impostos pela Doutrina de Monroe. A Visita Régia aos Açores e à Madeira terá tido algo a ver com estes ímpetos expansionistas dos EUA, sendo os portugueses ostensivamente apoiados pelos britânicos e sucedendo-se as visitas de esquadras da Royal Navy aos portos nacionais.

 

Curiosamente, já declarada a guerra após Pearl Harbour, a administração Roosevelt  ansiosamente procurou ocupar os arquipélagos portugueses - Açores, Cabo Verde e Madeira -, sendo a agressão refreada pelo acordo geral estabelecido sob auspícios do Reino Unido. 

 

Todos conhecem o caso dos Mísseis de Cuba e a longa série de intervenções militares na América latina. Era a salvaguarda dos interesses dos EUA que estava em causa e disso mesmo os próprios soviéticos deram conta, agindo em conformidade. A uma grande potência, é sempre tacitamente reconhecida uma zona de segurança.

 

O que se tem passado no leste e sudeste europeu, pode ser considerado como um paralelismo russo à aplicação da Doutrina de Monroe, mas num âmbito geopolítico muito mais reduzido. Se em Washington não conseguem entender este facto ditado por uma história anterior à própria existência dos EUA, então haja alguém que de Londres envie um oportuno esclarecimento. Sem este tipo de contemporização pelos mais próximos interesses do imaginado adversário, pode acontecer que alguém em Berlim se lembre do reactivar das teses de Haushofer, desta vez com a plena colaboração russa. 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:31

Estórias ucranianas

por Nuno Castelo-Branco, em 24.02.14

 

1941, os alemães entram na Ucrânia

 

É verdadeiramente cataclísmica, a torrente de disparates que por estes dias é possível lermos e ouvirmos a propósito dos acontecimentos ucranianos. Reage-se sempre segundo as impressões transmitidas pela televisão, numa eterna recriação dos gloriosos dias que em boa hora derrubaram Ceausescu e com ele, toda a restante tralha que durante décadas esmagou a Europa central e oriental.

 

Este é um caso muito diferente, implicando para uns tantos, o quase imediato el dorado dos bons negócios que simultaneamente arruínam aqueles que aparentemente seriam os primeiros interessados numa idílica adesão europeia. No outro campo, o do status quo, estão os russos, bem cientes às suas próprias custas, daquilo que potencialmente significa uma Ucrânia aberta a forças que um dia poderão ser hostis. Se a isto juntarmos a difícil gestão de um país que pende entre o ocidente e o leste e a não menos importante alínea do controlo da energia que passa pela Ucrânia em direcção à Europa central, temos então um quadro ainda mais complexo. 

Há setenta e três anos, muitos dos soldados da Wehrmacht, cuidadosamente camuflados nas imediações da fronteira delimitada pelo pacto Germano-Soviético de 23 de Agosto de 1939, estavam piamente convencidos de fazerem parte de um corpo expedicionário que iria ocupar a Ucrânia arrendada por Estaline à Alemanha. Os soviéticos eram pródigos na ajuda material concedida ao Reich, justificavam todas as acções militares - Escandinávia, Bélgica, Holanda, Grécia - até então decididas por Berlim e eram bons anfitriões dos seus mais recentes aliados. Assim sendo, nem para os soldados alemães, nem para o Kremlin, existia qualquer justificação para o desencadear da guerra.

 

O conflito tornou-se num facto e os russos não esqueceram. A questão que naqueles dias de tórrido verão de 1941 se colocava a muitos dos dirigentes de Moscovo, era esta:

 

- E se tivéssemos perdido a Ucrânia em 1920?

 

 Este artigo é esclarecedor acerca do que verdadeiramente está em causa. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36

Não é apenas o Tribunal Constitucional da república portuguesa que pode desferir golpes nos intentos do respectivo governo nacional. O Tribunal Constitucional do governo federal da Alemanha pode, de facto, fazer a mesma coisa e ir mais longe ao pôr em causa o sistema operativo da própria União Europeia (UE). O que está em discussão é o poder conferido ao Banco Central Europeu (BCE) para que este compre títulos de tesouro de países-membros da UE que estejam em apuros. Acontece que essa acção alegadamente viola o artigo 123º do Tratado da União, que não autoriza o financiamento (directo ou indirecto) de governos nacionais. Somos deste modo confrontados com mais uma das precariedades da UE; a não concordância entre constituições nacionais, o tratado da UE e o Tribunal de Justiça da União Europeia. Se quisermos ir mais longe e realizar um mero exercício de extrapolação jurídica, porventura as regras impostas pela Troika possam ser consideradas ilegais. E há mais no domínio do contraditório. Estas funcionam no campo da imposição orçamental e pela sua severidade poderão eternizar o conceito "violador" de assistência financeira a estados-membros em apuros. Ou seja, quanto mais me dás mais precisarei. Por enquanto a porca não torce o rabo, mas quando começar a haver subida da taxa de juros desses mesmos títulos de tesouro, quero ver quem é que paga a factura. Este evento também serve para demonstrar a força política dos diferentes tribunais constitucionais por essa Europa fora. Bonito bonito seria o Tribunal Constitucional português ser capaz de barrar iniciativas nascidas no centro de decisão política da Europa. Ou seja, receitas passadas pelos curandeiros da Comissão Europeia e afins. Assistimos deste modo a dois pesos e duas medidas conforme os actores envolvidos; mais rapidamente o Tribunal Constitucional da Alemanha pôe cobro ao esvaziamento dos cofres federais daquele país do que o Tribunal Constitucional de Portugal trava as medidas orçamentais impostas de fora. Em última instância, e quase paradoxalmente, o Tribunal Constitucional da Alemanha pode vir a ser considerado campeão da verdade económica por obrigar os países em dificuldades a andar pelos seus próprios pés e, se for esse o caso, então o fim da Austeridade terá de ser contemplado. Tudo isto faz lembrar a conversa que um pai oferece ao filho: "Olha, acabou-se a papa doce. Faz-te à vida, está bem?". Mais coisa menos coisa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:08

À atenção de camilo-lourencistas e afins

por Samuel de Paiva Pires, em 27.01.14

Como diria o Dragão, "há marasmos mentais que eu, de todo, dispenso." Um deles, muito em voga, tem a ver com a tão propalada necessidade de aumentar a produtividade, que por sua vez contribui para aumentar a competitividade, o que levará, inevitavelmente, ao crescimento económico. Ora, na prática a teoria é outra, por uma razão muito simples: nós estamos inseridos numa zona monetária incompleta e frágil, na terminologia de Paul De Grauwe. Em qualquer zona monetária deste tipo, i.e., onde não existe uma união orçamental nem mecanismos que permitam, por via da redistribuição, disseminar a actividade económica de forma a corrigir desequilíbrios e a evitar ou, pelo menos, tornar menos dolorosos os choques assimétricos a que uma zona monetária destas está por defeito sujeita, a economia mais forte torna-se dominante e gera excedentes à custa dos défices das economias mais fracas. Tal como no Sistema de Bretton Woods os EUA tornaram-se o hegemon, e no Sistema Monetário Europeu esse papel foi desempenhado pela Alemanha, com o Bundesbank a definir as políticas monetárias que eram do interesse da Alemanha, obrigando os restantes países a ajustarem-se a estas, na União Económica e Monetária é novamente a Alemanha o país dominante, consequentemente, sendo o único país com uma política monetária autónoma - com a agravante de, na UEM, termos uma moeda única.

 

Ora, como ainda recentemente assinalou Andrew Moravcsik, o euro está subvalorizado em cerca de 40% em relação à economia Alemã. Quanto aos países da periferia, é razoável estimar que esteja sobrevalorizado também em cerca de 40%. As implicações da entrada do euro foram diversas nestes dois tipos de países. Enquanto na Alemanha aumentou muito a competitividade externa, no caso português diminuiu-a acentuadamente, conforme Luciano Amaral faz notar, colocando ainda a dívida externa portuguesa numa trajectória insustentável, como Ricardo Cabral evidencia

 

O que é que isto significa? Que não há, por muito que queiram, reformas estruturais - por mais que estas sejam necessárias e devam ser encetadas, o que não contesto, bem pelo contrário - e aumentos de competitividade que nos valham se a UEM (e a UE) não for reformada ou pura e simplesmente dissolvida, ou se nós não nos retirarmos desta. Nem sequer uma reestruturação da dívida, mantendo-se tudo o resto igual, resolverá os nossos problemas, podendo apenas adiá-los e a uma nova crise por mais alguns anos. A Alemanha está muito confortável com a sua posição económica dominante, que Hans Kundnani caracteriza como narcisimo económico, e sendo também a potência que, como Ulrich Beck assinala, manda na União Europeia, não é de esperar que altere a sua linha política. Acreditar que, com estes apertados garrotes, é possível aumentar a produtividade e a competitividade e gerar um crescimento económico que leve a uma diminuição acentuada do nível de desemprego e a gerar excedentes que nos permitam pagar a dívida, ou seja, acreditar que podemos tornar-nos iguais à Alemanha, é apenas, como Peter Hall afirma, "outra daquelas miragens que se atravessa no caminho de soluções genuínas para os problemas."

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:49

Antes que a Maria Luís Albuquerque e o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho cantem vitória em relação ao sucesso da emissão de dívida a 5 anos com juros perto dos 4,6%, convém olhar para ambos os pratos da balança, e não apenas para os aspectos favoráveis que têm grande utilidade política. Sem dúvida que é uma boa notícia conseguir realizar um bom negócio a um preço mais baixo do que o esperado, mas mesmo que as necessidades de tesouraria estejam cobertas neste período de maturidade, não deixa de ser dívida. Para além deste facto isolado, respeitante ao comportamento do mercado internacional em relação a Portugal e a percepção optimista que tem para com este país, somos invariavelmente obrigados a realizar a leitura do quadro económico, financeiro e social num contexto mais alargado. O dinheiro, como se sabe, obedece parcialmente à lei de Lavoisier. Embora possa ser criado através da impressão por bancos centrais mundo fora, este não se perde, mas fica sujeito a processos de transformação, que em maior rigor deveriam ser chamados de mecanismos de transferência. E é precisamente esse movimento de dinheiros e percepções que está a acontecer. A periferia que se encontrava no fundo da classificação, com o pior comportamento económico possível, apenas tem uma direcção a percorrer - o caminho da melhoria gradual. Contudo, essa expressão não acontece sem que hajam vítimas noutras paragens económicas e monetárias. Neste sentido, o que começa a acontecer em França e na Alemanha deve ser acompanhado com atenção, uma vez que os juros de dívida desses dois países correm em sentido contrário aos ponteiros de Portugal ou da Irlanda. Neste dia em particular, um ligeiro efeito de anulação fez-se sentir, se atendermos ao agravamento dos juros  naqueles países. Não devemos esquecer, por um instante sequer, que a União Europeia, funciona de acordo com esse princípio de lastro financeiro, de transferências de uma paragem para a seguinte. Parece-me que à medida que a periferia melhora do seu estado clínico, o núcleo da União Europeia começa a sentir os efeitos secundários desse esforço. O mercado é uma dama caprichosa, que muito embora a queiram domesticar, acaba por revelar a sua verdadeira intenção. Existe até uma expressão que capta, de um modo imperfeito, a volatilidade que resulta das percepções, da procura e oferta do mercado, da reflexologia a que estamos todos sujeitos, mas não sei se se adequa aos tempos de incerteza que vivemos, por isso não a irei alvitrar. Só começarei a acreditar na recuperação firme quando vir o crescimento do emprego a entrar no esplendor das equações, dos resultados. Enquanto isso não acontece, parece-me um prémio menor o sucesso da emissão de dívida. Prefiro ser realista do que enbandeirar no arco da promessa do fim dos tempos difíceis. Deixo isso aos outros. Aos profissionais. Àqueles que precisam de ser eleitos ou reeleitos. Aos que seguem para candidaturas e recandidaturas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:48

Como devemos chamar Portugal?

por John Wolf, em 16.12.13

Não me chamem o que quiserem como diz o outro. Não me chamem de pessimista nem de optimista. Não me chamem de todo (tolo), mas chamem os nomes que entenderem àqueles que afirmam que dobramos a esquina, que a recessão acabou e que a festa está prestes a começar. Não é preciso ser um génio para perceber que estamos longe dos tempos de prosperidade e bem-estar. De nada serve o entusiasmo ejaculatório das comunicações governamentais e das estatísticas que proclamam o fim da recessão, quando quem manda ainda não está satisfeito com o esforço nacional e o nível de desemprego em que nos encontramos. E para além disso, não está satisfeito porquê? Porque a Reforma do Estado ainda não aconteceu nos termos em que deveria acontecer. Porque um entendimento entre as diferentes forças políticas não passa de uma utopia. Porque existe uma Constituição da República que ainda não foi revista. Porque existe um Tribunal Constitucional que decide de acordo com a mesmíssima Constituição. Porque existe em Portugal uma alegada Esquerda que assenta a sua luta na dictomia entre capitalismo e função social. Porque existe uma suposta Direita que fundamenta o seu esforço na preservação de certas vantagens corporativas ou empresariais. Porque vivemos num país onde as palavras entendimento, consenso e acordo de nada valem. Porque Portugal é um país que não consegue produzir alternativas políticas que sejam provenientes da sociedade civil. Porque existe nesta nação uma alegada elite intelectual e cultural que prefere garantir a sua sobrevivência em vez de demitir as premissas que sustentam os seus privilégios. Porque todos estes vícios já estão enraízados em Portugal há décadas, senão séculos. Porque Portugal ainda acredita que existem atalhos para evitar medidas cautelares ou um 2º resgate. Porque Portugal prefere atribuir a responsabilidade do seu destino a terceiros. E sabem que mais? É precisamente isso que está a acontecer. Portugal está a entregar de mão beijada as decisões sobre o seu futuro a terceiros. O atavismo nacional que resulta do corpo e anti-corpo político, da zanga de comadres, e da eternização de compadrios é o que está mal. Por outras palavras, está tudo mal. Enquanto esta tragédia decorre, a Alemanha prepara a sua equipa para a gestão dos assuntos político-económicos dos outros países-membros da União Europeia e os EUA salvam propostas de governação através de compromissos entre Democratas e Republicanos. A Europa está encalhada. E no meio de tudo isto não sei onde colocar Portugal. Mas que está metido em sarilhos, está.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:27

A ilusão de uma era alemã em Kiev

por Nuno Castelo-Branco, em 16.12.13

 

Nas semanas que antecederam o início da Operação Barba Ruiva, os soldados alemães, conscientes da grande colaboração existente entre o Reich e a URSS, dedicavam-se a aventar as mais mirabolantes fantasias justificadoras daqueles preparativos bélicos. Muitos duvidavam da possibilidade de um conflito entre ambas as potências e dizia-se que Estaline teria arrendado a Ucrânia à Alemanha, garantindo assim o abastecimento de matérias primas ao Reich em guerra com os ingleses e seus aliados. Uma guerra contra os russos parecia inacreditável aos soldados da Wehrmacht, conhecedores da estreita colaboração entre ambas as lideranças. No campo Aliado e após o ataque soviético à Finlândia, chegava-se ao ponto da URSS ser considerada como um membro informal do Eixo. 

A propósito da situação a que já há muitos anos temos assistido na Ucrânia, Daniel Oliveira deixa-nos o seu ponto de vista num artigo no Expresso. Passando sobre as considerações acerca da política portuguesa que vão servindo como justificação comparativa a tudo o que mexe sobre o planeta Terra, o artigo destaca o regresso alemão à zona leste da Europa, neste caso uma Ucrânia que após a I Guerra Mundial, era encarada por Berlim como um apetecível espaço fornecedor de matérias primas industriais e de produtos agrícolas. 

 

A queda dos Romanov permitiu que durante os anos subsequentes se gizassem alguns projectos de construção de novos estados, principalmente quando a Europa receava o poder de contágio do regime soviético saído vitorioso da guerra civil. O traçado das fronteiras a leste também obedeceu à necessidade de um ao tempo chamado Cordão Sanitário que significasse uma barreira a um proselitismo leninista já demasiadamente activo na Alemanha e Hungria.  A Polónia foi reconstituída da forma que sabemos, desde logo incluindo numerosas minorias nacionais que desmentiam os 14 Pontos proclamados por Wilson como fautores da futura paz universal. Além de terras com alemães a ocidente e no norte, a Polónia anexou a Galícia oriental até então parte integrante do império austro-húngaro, território este povoado por ucranianos. A sul, a nova Checoslováquia - tal como a Polónia e a Jugoslávia, mais uma construção retintamente francesa -, também recebeu um território ucraniano, a Ruténia, enquanto uma engrandecida Roménia beneficiava das derrotas de húngaros e russos. Estavam assim criadas as condições para o inevitável revisionismo de tratados que nada mais foram senão imposições alheias aos pressupostos pelos quais os Aliados alegaram combater  os Impérios Centrais.

 

Após a sua tomada do poder, o regime de Estaline foi por Trotsky - ele próprio um responsável por todo o tipo de brutalidades perpetradas sob seu comando durante a guerra civil - denunciado como centralista e burocratizante, encarando os territórios não russos como colónias ou semi-colónias, enfim, precisamente aquilo que durante décadas se denunciaria no ocidente dos tempos da Guerra Fria. De facto, em todo o espaço compreendido pelas fronteiras daquilo que internacionalmente foi conhecido como URSS, a afirmação de Trotsky não deixava de ser verdadeira, prosseguindo-se as políticas de colonização, desenraizamento e transferência de populações, as limpezas étnicas e a produção obrigatória segundo as conveniências ditadas por Moscovo. Holodomor não foi um caso único, sendo apenas o mais conhecido.

 

Quem escute as reportagens vindas de Kiev, será tentado a considerar o problema ucraniano como mais um episódio do imperialismo moscovita e nem por isso muito diferente do que há vinte anos aconteceu nos países bálticos ou no Cáucaso. A verdade é que se trata de um caso muito diferente, confrontando-se aqueles que hoje encontram referências libertadoras da hegemonia russa em Stepan Bandera e os pan-eslavistas que inevitavelmente tenderão para a continuidade da situação que já vem desde os tempos de Catarina A Grande. Partindo da suposição de que "os inimigos dos meus inimigos, meus amigos são", Bandera faria precisamente um simulacro daquilo que Estaline e o regime soviético não hesitaram em encetar de forma muito mais decidida, ou seja, uma intermitente colaboração com a Alemanha. Os ucranianos  - a Crimeia é uma caso diferente - encontram-se então divididos entre aqueles que a ocidente tenderão para encarar a Europa como um destino seguro que conduz à prosperidade e os não menos numerosos pró-russos, sem dúvida atraídos pela imagem de firmeza transmitida pelo regime de Putin e sem dúvida, pelo eslavismo e consciência da clara dependência económica e estratégica em que a Ucrânia se encontra. Imaginemos então o que para países como Portugal, já fustigado pelo ainda recente ingresso dos estados do leste europeu na UE, representaria a entrada da Ucrânia? Estão permanentemente estilhaçadas todas as suposições internacionalistas da esquerda europeia, enquanto o socialmente restrito mundo dos negócios decerto olhará com esperança para mais esta hipótese de mão de obra barata - muita da qual é qualificada - e um grande potencial económico no que a matérias-primas se refere. Muito há para dizer quanto a este assunto que não se circunscreve apenas a lutas pelo predomínio económico na região. O próprio Putin consiste num sério factor a ter em conta, conhecendo-se a sua declarada antipatia para com aquilo que se verifica em muitos países da Europa ocidental onde o islamismo levanta cabeça. Aqui Putin encontrará muitos tácitos aliados na direita política e numa esquerda musculada que minimizará os traumas provocados pelo derrubar de estátuas e o picar das estrelas, foices e martelos dos edifícios públicos russos. Se para aqueles o dirigente russo até poderá restaurar a Monarquia, para estes não deixou de ser um homem forte dos tempos da extinta URSS. 

 

No caso ucraniano, não se trata de um mero confronto entre os desejos de predomínio de alemães e russos, até porque a aproximação entre ambos parece sólida e com perspectivas de durabilidade. Por muito que isto desagrade aos memoralistas dos tempos do Reich, a Alemanha dos nossos dias encontra-se numa situação muito inferior àquela que se lhe reconheceu até 1945. Na Europa ocidental, muitos já entenderam o cada vez maior interesse da Alemanha na sua tradicional área de influência na Europa central e de leste, secundarizando os problemas que a ocidente já parecem irremediáveis. O alargamento da União Europeia a leste apenas consolidou esta perspectiva. Ninguém seriamente imagina um aberto confronto entre Berlim e Moscovo a propósito da hegemonia sobre a Ucrânia, pois os alemães  nem sequer dispõem dos recursos políticos - a memória da II GM é forte - e militares - a Alemanha é militarmente quase nula - para tal aventura que pressagiaria um desastre a curto prazo. Talvez se possa antever algum desejo de mitigar a retoma do expansionismo russo, obtendo-se algumas concessões que o ingresso da Ucrânia poderia significar, num primeiro passo a dar para uma ainda muito longínqua entrada russa na união. É isto mesmo o que há a reter daquilo que Daniel Oiveira aponta como ..."um confronto económico entre a Alemanha (que quer o acordo de parceria) e a Rússia (com a sua união aduaneira)." A Alemanha parece estar a usar a arma política - não descurando a apetecível tecnologia - para a obtenção de vantagens económicas não apenas na Ucrânia, mas também na própria Rússia. Quem julgue existir alguma pretensão a domínio territorial ou militar, encontra-se perdido num passado de impossível revisitação. Aos alemães, a Ucrânia apresenta-se então como um facto consumado da influência russa e a menos que ocorra uma catastrófica revolução em Moscovo, não se vislumbram alterações quanto a esta situação. Deverão então os alemães estar bem conscientes da sua força económica - aliás sublinhada pelo Euro fatalmente exigido pela França - e a sua fraqueza histórico-política e militar. Quanto a isto, não terão quaisquer dúvidas. Merkel e Putin sabem-no tão bem como qualquer outro comum mortal e a proposta da entrada da Ucrânia para o Zollverein delineado por Moscovo, decerto trará claras reminiscências de uma história de unificação que a Alemanha muito bem conhece e aproveitou. 

O acordo germano-russo, já pressupõe uma radical alteração geoestratégica de uma Europa durante três gerações fortemente ligada aos EUA e consequentes políticas atlanticistas. Muitas são as razões a apontar para o declínio daquilo que um dia se chamou CEE e o seu desmesurado alargamento não deixará de configurar o lugar cimeiro daquelas. Enquanto a Europa foi essencialmente ocidental - com a própria existência de uma Alemanha dividida -, jamais se colocou em causa a solidariedade atlântica, servindo o expansionismo russo-soviético como instrumento de coesão e de todos os tipos de solidariedade. A derrota sem apelo de todos os regimes comunistas de leste alterou profundamente essa mesma ideia de Europa, sendo impossível negar a polacos, checos, romenos ou bálticos, aquilo que era um dado adquirido para dinamarqueses, franceses, italianos, belgas ou portugueses. O problema passou então a radicar nas relações que esta subitamente vasta união europeia teria com os novos vizinhos russos, ao mesmo tempo que uma NATO também alargada trazia outros tipos de problemas  que a presença americana implicava no diálogo com o Kremlin. Tudo dependerá então da forma como europeus e americanos quiserem encarar uma Rússia que não se conforma exactamente ao mesmo modelo democrático que nas últimas duas décadas tem vingado de Lisboa a Varsóvia. Querermos ver a Rússia como uma potência exactamente como qualquer outra - seja ela a França, o Reino Unido, a Itália ou a Alemanha -, consiste num evidente erro que antes de tudo é liminarmente rejeitado pelos próprios russos, estando estes conscientes da sua grandeza territorial, potencial militar e imensos recursos económicos.  Pede-se apenas a resolução de um difícil equilíbrio entre o ocidente e o leste, estando desde já certos que Moscovo não deixará de exigir a não intromissão na sua tradicional esfera de influência, i.e. os territórios que um dia pertenceram à soberania czarista e correspondente sucessora soviética. Isto supõe uma certa liberdade de acção russa na Bielorrússia, no Cáucaso e uma forte influência na Ucrânia. Aos desejos alemães de obtenção de vantagens económicas na Ucrânia, contrapõem-se outros que se estendem ao domínio militar - o Mar Negro e o Cáucaso -  e da segurança interna: os da Rússia. A ninguém estranhará a praticamente inevitável preponderância desta última. O mais curioso será observar que estes desejos servem plenamente a segurança europeia. 

 

Qual a alternativa que a Europa, ou melhor, a Alemanha poderá propor aos ucranianos fortemente dependentes quanto ao abastecimento energético e que partilham milhares de km de fronteira e redes de comunicações com a Rússia? Como poderá a Europa, hoje paulatinamente se distanciando dos EUA que cada vez mais se interessam pelo Extremo Oriente, explicar a manutenção do antagonismo com a Rússia que se apresenta ela própria como europeia e defensora do perímetro de defesa do continente? Para os entusiasmados continentalistas da esquerda europeia, no momento em que se conhecem grandes dificuldades na contenção da chegada de contingentes humanos que representarão o fim do próprio conceito de Europa, torna-se muito difícil rejeitar o estreitamento da cooperação com a Rússia, mesmo que a muitos o regime de Putin surja como algo de insólito - quando foi precisamente a esquerda europeia quem contemporizou com o sistema soviético - e de contrário à ideia que a ocidente se tem acerca daquilo que é ou deverá ser uma democracia. Além do modelo económico que até à globalização se conformou ao bem-estar social, o vertiginoso desarmamento a que os países europeus se sujeitaram ao longo de muitas décadas, também será um dos factores a considerar para este mais que certo resvalar para a crescente influência russa, aliás nada que já não tivesse sido previsto pelos políticos que cercavam o Kaiser no alvorecer do século XX. 

 

Aquilo que os nossos comentadores agora deveriam estar a congeminar, é a possibilidade do afastamento de alguns países europeus do supra-centro dirigido por Berlim. Existem factores que poderão influenciar esta suposição e o alargamento do Canal do Panamá - conducente a mais uma enxurrada chinesa - decerto obrigará os EUA ao regresso do seu interesse pelos seus fiáveis aliados em Londres, Lisboa e outros. Pensem no assunto, é coisa para os próximos quinze anos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:19

A martelada dos juízes da austeridade

por John Wolf, em 12.11.13

Por vezes é necessário estar distante do local onde os eventos decorrem para ter a visão da totalidade do quadro. Começa a tornar-se evidente para os decisores políticos de outras paragens, e designadamente dos EUA, que a política europeia preconizada pela Alemanha está a contribuir para criar desequilíbrios económico-sociais à escala global. Para além dos efeitos da centralidade europeia na periferia, com a receita de austeridade que se conhece, o resto do mundo começa a questionar os efeitos da política alemã. A austeridade alemã também é uma questão doméstica - os trabalhadores estão a receber de acordo com a tabela salarial mínima, o que tem beneficiado o nível de exportações daquele país. Com a retoma económica dos EUA em marcha, a Europa está a ficar para trás na competição global que está em curso. Rapidamente o tabu do estímulo às economias europeias deve ser afastado, assim como os fantasmas da inflação. O orçamento comunitário de 2014 que acaba de ser aprovado, aponta no sentido da continuidade da austeridade. E esse facto eterniza os malefícios que já se conhecem. O orçamento de Estado português depende, em larga escala, dos princípios e da dotação dos dinheiros do orçamento comunitário. Infelizmente, as movimentações domésticas estão condicionadas pela super-estrutura que vai pelo nome de União Europeia. A Troika para além de ter acorrentado os decisores políticos nacionais, já tomou conta das ocorrências no plano comunitário. A situação económica e social é grave, mas agravar-se-á ainda mais em 2014, 2015 e os anos que se seguem. Quem decide em Bruxelas, acaba de passar um atestado para se continuar com a mesma receita - uma cura que esmaga como um martelo. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:34

Ainda o filme protagonizado por Zizek

por Samuel de Paiva Pires, em 06.11.13

No seguimento deste post, permitam-me salientar mais um exemplo de outro erro crasso de Zizek. Afirma o dito filósofo que os nazis eram tradicionalistas, que a sua revolução visava restaurar uma ordem tradicional. Limito-me a citar Leo Strauss, em "German Nihilism", onde, a dada altura, evidencia que no pós I Guerra Mundial existia um confronto entre os jovens alemães niilistas, muitos dos quais viriam a ser Nazis, e os progressistas, que, paradoxalmente, defendiam os ideais da civilização moderna: 

 

"Thus it came to pass that the most ardent upholders of the principle of progress, of an essentially aggressive principle, were compelled to take a defensive stand; and, in the realm of the mind, taking a defensive stand looks like admitting defeat. The ideas of modem civilisation appeared to the young generation to be the old ideas; thus the adherents of the ideal of progress were in the awkward position that they had to resist, in the manner of conservateurs, what in the meantime has been called the wave of the future. They made the impression of being loaded with the heavy burden of a tradition hoary with age and somewhat dusty, whereas the young nihilists, not hampered by any tradition, had complete freedom of movement - and in the wars of the mind no less than in real wars, freedom of action spells victory."

 

De resto, recomenda-se fortemente, a Zizek e aos que, como ele, pensam que os Nazis eram tradicionalistas, a leitura do artigo na íntegra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:35

Nunca se viu tal coisa

por Nuno Castelo-Branco, em 22.10.13

 

Portugal teve grandes estadistas e outros que não passaram do anonimato que a sua mediocridade mereceu. Nem durante o descalabro da 1ª república,  a Portugal foi servido um deplorável espectáculo como aquele a que desde há uns quatro dias temos assistido.

 

O que neste fim de semana tivemos foi algo de bastante diferente,  inaudito. Um ex-chefe do governo que demonstrou a preto sobre papel branco, o baixíssimo nível de uma classe política que trouxe o país para uma situação inextricável. O ainda mais profundo acanalhamento da situação para a qual todos fomos empurrados, a ordinarice mais rasteira, as afirmações descerebradas e extremamente lesivas do interesse nacional na desesperada hora em que o país luta pela sua sobrevivência, desnudam um estado de coisas que todos há muito conhecemos e fingimos não existir. É esta uma canga colectiva, a tal schuldig que nos é apontada além-fronteiras.

 

Na política, a maledicência faz parte do jogo, não há como fugir-lhe. O que no âmbito da  partidocracia portuguesa se zurra entre antigos ou actuais chefes de partido, não passa de fait-divers, de ajustes de contas sem consequências de maior.

 

No entanto, este é um caso diferente, vimos, ouvimos e lemos. 

 

O nosso principal parceiro europeu é, por muitas e variadas razões, a Alemanha. Foi este o caminho que o actual regime escolheu, resvalando para opções contraditórias com a nossa tradicional posição no mundo. Não será necessário explicarmos a razão para tal afirmação, pois todos a conhecem.

 

Tudo isto a que temos assistido é anormal, indecente. A reles, a vergonhosa tirada em relação ao ministro Schäuble e pior ainda, a tentativa de provocar uma quezília entre este e a Chanceler, definem a grotesca personagem a quem à boca pequena se apontam caricatos episódios a que jamais demos demasiado crédito. 

 

A partir deste momento, tudo aquilo que dele se tem dito parece cada vez mais, não apenas uma possibilidade ou fantasiosas alegações, mas infalíveis certezas. Este obcecado homem vive cheio de si mesmo, engendrando estranhos Casos Gleiwitz a torto e a direito. 

 

O comunicado emitido por Berlim, coloca a histriónica criatura no devido lugar: na sarjeta. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:50

A ascensão das águias

por Nuno Castelo-Branco, em 24.09.13

 

É deveras surpreendente a total falta de discernimento no que respeita àquilo que é a Alemanha e qual o seu poder na Europa. Mesmo se apenas pudéssemos contar com o seu peso demográfico - o dobro da população espanhola e mais vinte e seis milhões de habitantes que a França -, este país seria o mais importante da UE. Se a isto juntarmos a sua centralidade, a economia e o enorme peso cultural que influencia profundamente toda a Europa central e do leste, estamos perante aquela sentença que um dia Franco ditou, considerando a Alemanha como essencial à ideia de Europa. Segundo o Generalíssimo, não podíamos esperar que uma coligação de estónios, lituanos, polacos e letões (?) pudesse servir de tampão às tentativas hegemónicas russas. Franco tinha razão e mesmo depois de morto continua a tê-la. 

 

Catarina II

Os laços germano-russos são antigos e determinaram a aproximação do grande país de leste à Europa. O próprio nome da antiga capital, S. Petersburgo, confirma a suposição de uma permanente influência cultural alemã que foi extensível à organização dos exércitos dos czares e ao estabelecimento de uma importante comunidade de empreendedores germânicos na Rússia. Dividida numa miríade de pequenos Estados muitas das vezes em aberto antagonismo entre si - o alinhamento com Viena ou Berlim era determinante -, a Alemanha geográfica consistiu num alfobre de potenciais alianças que fortalecessem a expansão russa para ocidente e para sudoeste, permitindo também a captação de contingentes populacionais capazes de colonizar os vastos territórios colocados à disposição dos Romanov pela conquista. Camponeses, mercadores, artífices, militares e cortesãos alemães, integraram a vida desta nova Rússia europeia que chegaria à segunda metade do século XVIII com uma soberana autocrata oriunda de um minúsculo principado da Alemanha central. Sofia de Anhalt-Zerbst, convertida em Catarina II, A Grande, trouxe definitivamente a Rússia para o concerto dos Estados da Europa e não foi pelo mero acaso de um inverno rigoroso que o sonho napoleónico soçobraria ao fim de pouco mais de uma década. A imensidão das estepes, os recursos económicos e a massa populacional, ditavam a nova ordem vigente no velho continente e a poucos terá surpreendido a visão do czar Alexandre I desfilando na Paris conquistada. A Rússia foi determinante no Congresso de Viena, como determinante seria no alvorecer das novas nacionalidades nos Balcãs e no progressivo ocaso do poder otomano na Europa. A própria unificação alemã de 1866-71, também foi possível mediante a abstenção de S. Petersburgo, coerente na sua antipatia por aquilo que a França de Napoleão III representara, enfim, aquela reminiscência dos acontecimentos de 1789-1815 que ameaçaram a ordem interna do império do leste. O entendimento com a Alemanha era natural e para os alemães, no seu período de pleno fulgor industrial e financeiro, uma promessa de tranquilidade nas suas fronteiras orientais. O caso polaco unia russos, alemães e aqueles outros alemães fora do Reich e que devido ao conglomerado dinástico que era o império austro-húngaro, justificavam a sua plena independência face a Berlim. 

 

As relações entre a Alemanha unida e a Rússia passaram por diversas fases e podemos verificar facilmente o paradoxo de duas realidades onde o poder central ainda obedecia a critérios bastante diversos daquele que o liberalismo impusera à Europa ocidental, encontrarem-se subitamente em campos opostos no desencadear da I Guerra Mundial.

Guilherme II e Francisco José I

O Dreikaiserbund sofreu os primeiros abalos aquando da investida austríaca em direcção aos eslavos do sul, numa área que a Rússia considerava como a sua natural  esfera de influência. Pior ainda, a composição heteróclita do império dos Habsburgo supunha um progressivo aproximar de checos, eslovacos, rutenos, eslovenos e croatas da influência russa, nela vendo a melhor garantia para a sua almejada autonomia face a alemães e húngaros. De facto, a necessária aliança que Berlim teve de estabelecer com Viena, acabou por envenenar o tradicional eixo há muito estabelecido com S. Petersburgo, disso se aproveitando a sempre ansiosa diplomacia francesa. A entrada de vultuosos créditos franceses nos cofres russos, destinou-se antes de tudo, à garantia do erguer de uma frente a leste que fosse susceptível de contrariar ou mitigar o esmagador peso demográfico e industrial que a Alemanha poderia apresentar numa futura guerra franco-alemã, tornada inevitável após o episódio de Sedan e da proclamação do II Reich alemão em Versalhes. As condições para essa súbita prosperidade nos negócios da industrialização, eram muito claras. A Rússia deveria aplicar todos os seus esforços nas forças armadas - exército e marinha -, na indústria pesada e como se tornou demasiadamente evidente ao Estado-Maior alemão, numa rede de caminhos de ferro conducentes às fronteiras do Reich, acelerando as possibilidades oferecidas pela maciça capacidade de mobilização do exército russo, o rolo compressor do leste. Não foi qualquer diferendo respeitante às fronteiras comuns na antiga Polónia, o rastilho conducente ao conflito que oporia Guilherme II e Nicolau II. Os alemães estavam interessados nas regiões do sudeste, naquele Médio Oriente que já era uma promessa dos recursos energéticos que marcariam todo o século XX. Simultaneamente, a conquista de mercados ultramarinos tornou-se noutra das prementes necessidades da indústria alemã, passando a ser o Reino Unido visto como o natural e mais perigoso concorrente em África, na América do Sul e na Ásia. Se a crescente influência alemã em Constantinopla - uma das velhas reivindicações territoriais russas - era de molde a preocupar os ambiciosos ministros do czar, uma Alemanha que rivalizasse com a talassocracia britânica apenas poderia beneficiar o status quo a leste, desviando o expansionismo germânico para o ultramar. O problema consistiu essencialmente na aliança que unia alemães e austríacos, pois Berlim sabia que o desmembramento do império de Francisco José significaria uma enxurrada russa na Europa central, desde Lemberg a Praga e de Cracóvia à fronteira com a Grécia. Nem a Alemanha ou a Áustria-Hungria eram autocracias que se pudessem comparar com o regime de Nicolau II, mas os dois soberanos germânicos gozavam de prerrogativas muito diferentes daquelas atribuídas aos monarcas constitucionais do ocidente. Embora existissem parlamentos eleitos - o Reichstag de Berlim e o Reichsrat de Viena -, os imperadores decisivamente intervinham em matéria de polítca externa e de defesa, assim como influenciavam poderosamente os governos que eram pelo detentor da coroa nomeados. Assim sendo, o Kaiser ainda se julgou capaz de demover o seu primo Nicolau, afastando-o da aliança francesa que naquele momento era crucial para o processo de desenvolvimento e segurança da Rússia, suposição essa confirmada aquando do episódio de Björkö (1905) e da anexação austríaca da Bósnia-Herzegovina (1908).

Guilherme II e Nicolau II

Guilherme II optou pela proximidade e lealdade a Viena e já sem grandes ilusões erradamente arriscou na abstenção russa em 1914, também sabendo que o enorme crescimento industrial e militar verificado após a derrota frente aos japoneses em Tsushima (1905), pressagiava uma Rússia muito diferente daquela que conhecera no início do seu reinado. A verdade é que a I Guerra Mundial e a Revolução impediram a aproximação russa a um modelo monárquico-constitucional e o seu afastamento  dos destinos da grande Europa que inevitavelmente surgiria no prazo de algumas décadas. Como curiosidade de rodapé, poderemos então sugerir uma circunspecta apreciação das razões pelos quais o capitalismo financeiro nova-iorquino carinhosa e generosamente ajudou Trotsky e em simultâneo se verificou um grande interesse alemão pelo rápido transporte de Lenine até à caótica S. Petersburgo de Kerensky. 

 

A fase do período de entre as guerras, colocou a Alemanha e a Rússia na desagradável e contingente posição de potências párias, sendo por isso natural uma aproximação que ocasionaria vivos debates nos países da Europa ocidental, receosos daquilo que poderia resultar da colaboração russo-alemã. Os receios confirmar-se-iam anos mais tarde, pois na Rússia encontraram os industriais e militares alemães o terreno propício à instalação de indústrias interditas pelo Tratado de Versalhes, assim como campos de experiências de armas também vedadas pelos vencedores. Mesmo a violenta animosidade verbal agravada pelo advento de Hitler à Chancelaria, não impediu a prossecução de negócios e a troca de informações técnicas entre os dois aparentemente inimigos Estados totalitários. A política de appeasement gizada por Londres e Paris, decisivamente consistiu no factor primeiro para a aproximação de Estaline a Hitler, aliás bastante auspiciosa quanto aos desígnios de expansão territorial cultivados por Moscovo: após a assinatura do Pacto de Não Agressão Germano-Soviético, os Estados Bálticos, o leste da Polónia, a Finlândia - que garantiria a sua independência aquando da Guerra de Inverno de 1939-40 - e a Bessarábia, passaram directamente para a esfera de influência russa, sendo em boa parte estes territórios anexados na primeira oportunidade que Estaline teve. 

 

Estaline e Ribbentrop (23 de Agosto de 1939)

Criado um sistema continental  que remotamente fazia recordar aquele outro outrora imposto por Napoleão à Europa, os alemães julgaram ser possível eliminar todas as ameaças que a leste poderiam surgir durante o combate que travavam com o império britânico e a médio prazo, de uma inevitável guerra com os americanos. O ataque a uma Rússia que durante dois anos enviou uma inimaginável quantidade de bens e matérias primas para o Reich, ditaria o final de um nunca completamente abandonado Drang Nach Osten, ou seja, aquele eixo essencial que sempre  conduzira a política de segurança da Alemanha unificada. O resto da história é conhecida, permanecendo  a Alemanha central ocupada e logo depois conformado-se na RDA segundo os desígnios do Politburo do PCUS, enquanto a Alemanha oriental definitivamente desaparecia dos mapas mercê uma radical limpeza étnica que beneficiaria polacos, checos e russos. 

 

No início dos anos setenta, já era perceptível o esboroar do sistema económico soviético, nele imperando a falsificação de números, os galopantes défices produtivos, a vetustez dos equipamentos industriais e a total derrota face a um ocidente onde o consumo apresentava uma maravilhosa montra  à qual as economias centralizadas não podiam ripostar.  Na aparência o poder soviético surgia como imparável, tendo já obtido uma grande vitória face à catastrófica, totalmente desnecessária e irrealista política americana no Vietname, Laos e Camboja. Sucediam-se os regimes pró-soviéticos, num processo subitamente acelerado aquando da chamada "descolonização portuguesa" que trouxe a influência de Moscovo até às margens do Atlântico, para bem perto daquele perímetro de segurança ocidental que tinha Cabo Verde como posição estratégica de incalculável valor. A Etiópia, a Somália, a Tanzânia, a Zâmbia, o Zimbabué e o Congo ex-francês, acompanharam esta tendência de consolidação da presença russa, precisamente no momento em que o espoletar do episódio afegão marcaria um rápido colapso imperial, ao qual também não foi estranho o incontrolável poder da informação.

 

A reunificação alemã aconteceu também por decisão russa, permitindo Moscovo a confirmação daquilo que muitos suspeitavam, ou seja, de ser a RDA um mero e dispensável artifício da política de blocos da Guerra Fria. Umas tantas manifestações e a abstenção do governo de Gorbachov foram suficientes para o eliminar da absurda construção decorrente da partilha da Europa em Ialta e Potsdam. Era uma época de muitas promessas de paz e eterna prosperidade num continente subitamente liberto de constrangedoras peias estabelecidas pelo equilíbrio do terror. Se excluirmos o caso romeno - a Jugoslávia consistiu noutro tipo de problema - , o colapso do bloco leste foi pacífico, quase inaudível e a ninguém estranhou aquele derradeiro arriar da bandeira vermelha que durante setenta anos ondulou sobre o Kremlin. Se é bem sabido ter sido um período de extrema dificuldade que confrontou os russos consigo próprios e fez recuar as suas fronteiras ao estipulado pelo Tratado de Brest-Litovsk, também é verdade que as duas décadas seguintes ao desaparecimento do comunismo, marcariam um progressivo regresso da Rússia como potência determinante na Europa e no mundo. Os Estados Unidos não entenderam aquelas óbvias necessidades de segurança determinantes para a forma como os russos encaram a Ucrânia, a Bielorrússia, o Cáucaso e a Ásia Central, os seus "quintais das traseiras". Um caso paralelo poderá ser a Doutrina de Monroe que os EUA ainda hoje consideram válida e sem correspondência em qualquer outro país do mundo. 

 

Angela Merkel e Vladimir Putin

A liberalização do comércio mundial, o advento do extremismo islâmico e o enfraquecimento industrial e financeiro do ocidente, pressupôs uma realidade totalmente diversa daquela a que nos habituáramos durante o século passado e há que considerar seriamente o facto de a Rússia ser hoje uma parte integrante da grande Europa, sem que isso necessariamente signifique o corte ocidental com os EUA e a NATO. Pelo contrário, parece persistir uma certa indiferença - aliás bastante consciente, deliberada - por parte dos nossos aliados norte-americanos, perante as dificuldades que se apresentam aos russos. A China é hoje erradamente vista como uma aliada táctica de Moscovo, mas as aparências iludem, pois os interesses de ambas as potências são divergentes, quando não potencialmente conflituosos. Apenas o ocidental não-reconhecimento da necessidade russa de segurança nas suas fronteiras, impede uma mais apertada colaboração leste-oeste e a  garantia de mútuos benefícios económicos e securitários. A total inabilidade com que os ocidentais lidaram com os conflitos no Cáucaso faz perigar a evolução desse relacionamento que desejavelmente deveria ser visto em bloco. Disso ter-se-ão apercebido os alemães - é a realpolitik traduzida em ostpolitik -, no preciso momento em que voluntariamente se apresentam perante o mundo como um país escassamente armado e desejoso da manutenção de um certo status quo nas relações internacionais. Mais alto falam os argumentos dos negócios, dirimindo-se diferenças entre promessas de lucros e de desenvolvimento. Tal foi o caso do controverso gasoduto Nordstream, construído apesar das exigências desmesuradas do governo dos irmãos Kaczinsky. Este foi apenas um claro sinal enviado pela mais poderosa economia europeia, a todos aqueles que demasiadamente contestam a urgência da necessidade de satisfação da demanda energética. Ao gasoduto seguir-se-ão outros negócios e empreendimentos e a explicação para esta aparente cedência alemã em toda a linha, prende-se com um factor que muitos conhecem e que decidindo-se pelo acatar do princípio do politicamente correcto, não mencionam: a segurança da Europa. Escassamente armada, sempre dependente do guarda-chuva americano, a Europa está completamente à mercê de ameaças cada vez mais próximas e que a queda dos regimes laicos outrora vigentes na África do norte, apenas confirmam. Paralelamente, há que contabilizar os terríveis danos ocasionados na Europa Social pela catástrofe demográfica que não pode ser colmatada pela súbita recepção de populações provenientes da África e da Ásia. A verdade que a muitos é difícil reconhecer, consiste na impossibilidade de a Europa se manter como Europa - social, democrática, tolerante, pacífica -, se a estrutura populacional interna de cada Estado dela componente não obedecer esmagadoramente àquilo que tradicionalmente sempre foi. O completo falhanço das sucessivas políticas de integração - vejam-se os casos belga, francês, holandês e tantos outros - que os russos decerto não desconhecerão, apenas atestam a rejeição pelos recentemente chegados, de culturas que nos consagrados direitos do homem estabelecem a essencial base civilizacional. Por muito difícil que isto seja de reconhecer, para os novos residentes de primeira, segunda ou terceira geração, todo o espólio político e cultural amontoado em países como a França, Inglaterra, a Alemanha, Portugal, Itália, Holanda, países nórdicos e outros, consiste num aspecto desprezível e a rejeitar liminarmente, apenas importando o sempre acenado Estado Social que se cinge no único e exclusivo objectivo, por muito quimérica hoje nos possa parecer essa promessa. 

 

A Alemanha parece ter desistido da política de total abdicação de consciência perante os desígnios norte-americanos, enquanto a Rússia se  apresenta uma vez mais como um profícuo campo aberto a todas as hipóteses de prosperidade e quiçá, de poder. Já descrentes num alargado projecto europeu ao qual a cidade de Lisboa deu o nome, a muitos alemães resta o regresso à sua tradicional área de influência, desta vez não tendo que temer qualquer reacção russa perante uma Alemanha militarizada. Antes pelo contrário, tal colaboração apresenta-se como cada vez mais desejável.

 

Não parece credível o total desaparecimento daquele conjunto económico, político, territorial e militar que um dia ofereceu alguma segurança à Europa. Decerto por algumas décadas manter-se-á a NATO, se atempadamente os norte-americanos se aperceberem que estão em causa outros elementos que não os da simples conquista de mercados e de fontes de matérias primas. A gente do hemisfério norte, i.e europeus - russos incluídos - canadianos e alguns norte-americanos, estão conscientes daquilo que a chamada civilização ocidental supõe e da política necessária para a preservar. Quanto a Portugal, desde sempre um país europeu que ao longo da sua história sempre acompanhou todos os períodos de transformações que marcaram o continente, não se coloca a permanência ou não numa Europa da qual não nos podemos física e culturalmente separar. No entanto, o decidido regresso ao ultramar, encarado este no sentido mais amplo e não imperial do termo, é a melhor garantia do nosso contributo para a segurança e prosperidade do conjunto europeu. Pouco valerão as impertinentes observações de um quase desconhecido Martin Schultz. Sim, Portugal deve continuar a regressar rapidamente e com a força possível a Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde, S. Tomé, Timor e todos as outras áreas do globo onde possamos servir. Só pode ser esta, a nossa pequena e insignificante resposta à política "germano-russa". 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:21

Esmagado

por Pedro Quartin Graça, em 24.09.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:32

Onde está a Merkel de Portugal?

por John Wolf, em 23.09.13

Onde está a Merkel de Portugal? Não será concerteza Passos Coelho e muito menos um opositor frouxo como Seguro. Mas Merkel também ganha outros prémios de carreira para além destas eleições propriamente ditas. A questão de longevidade política da chanceler alemã deve ser colocada numa perspectiva comparativa e internacional. Margaret Thatcher está prestes a ser destronada enquanto lider com mais anos de serviço. Com uma breve passagem de Maria de Lurdes Pintassilgo pela chefia de um governo nacional, entre 1979 e 1980, Portugal nunca conheceu um outro perfil feminino capaz de liderar um país (Ferreira Leite? Leonor Beleza? Belém? não me parece). Mas a questão não deve ser colocada em termos sexistas, para desdém de machistas ou gáudio de feministas. Esse facto estatístico é uma mera curiosidade do livro de Guinness político. O único critério que deve pontuar as lideranças é a competência e a capacidade de integrar consensos. As eleições alemãs são um bom exemplo de fair-play político. Angela Merkel sabe, logo à partida, que terá de procurar parceiros de um modo natural, procedendo a uma operação siderúrgica de fusão para formar um governo uníssono. A partir desse momento o exterior deixa de ouvir falar em dissidências e contrariedades internas. A Europa e o resto do mundo não será testemunha de processos negociais e ajustamentos que acontecem nos bastidores do governo alemão. O executivo anterior, composto por rivais e competidores políticos, será como o que se segue - comprometido com o futuro do país e da Europa. E isso decorre de um modo distinto, de acordo com uma cultura política afinada ao longo de décadas de autocrítica e marcada por ousadia económica e social. A população de países europeus sob programas de ajustamento precipita-se ao sentenciar Merkel enquanto madrasta da austeridade. Um desfecho eleitoral distinto poderia ter sido bem pior, se elevasse a voz daqueles com disposição para atirar para fora do Euro países sob a batuta da troika. A continuidade de Merkel significa que o governo de Portugal sabe, de um modo genérico, com o que vai contar. Não irá haver uma inversão de marcha ou uma mudança de direcção muito acentuada. O que acontecer à Grécia nos próximos tempos servirá de powerpoint para outros destinatários. Mas a Europa será o eixo central da política alemã. A nação germânica sabe que a sua regeneração demográfica está em risco e o seu refrescar passa por acomodar uma visão transnacional, que não tem tanto a ver com uma lógica de supremacia política, mas sobretudo  com a necessidade de garantir a sua própria sustentabilidade económica e social. A Alemanha está mais dependente do sucesso de países como Portugal, Grécia ou Irlanda do que pode parecer. O caos dos outros não faz bem à saúde do motor da Europa e essa percepção terá efeitos nos limites da austeridade que se pode impor aos amigos do Sul. O problema que se coloca a Portugal, e que contrasta com a pessoa política que Merkel representa, tem a ver com a falta de competência intelectual e académica dos lideres nacionais. Passos Coelho pouco ou nada percebe de física, e Seguro não serve para alquimista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:21

Merkel obtém maioria absoluta

por Samuel de Paiva Pires, em 22.09.13

Considerando que se trata da Alemanha, não pode deixar de ser um pouco surpreendente que um único partido obtenha maioria absoluta, embora já se adivinhasse que Merkel sairia reforçada internamente em virtude da política de austeridade estendida por esta Europa fora, que é possivelmente o sinal mais claro do domínio alemão sobre a União Europeia. Mas verdadeiramente surpreendente é ouvir Martim Cabral dizer que Merkel não tem política externa, para uns minutos depois afirmar que é ela que manda na Europa. São uns ases, certos comentadores da nossa praça. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:47






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas