Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A economia como ideologia da vida moderna

por Samuel de Paiva Pires, em 21.09.15

Scruton - How to be a Conservative.jpg

 

Roger Scruton, How to be a Conservative:

There is another reason, too, why our politicians have succumbed to the bureaucrats in this matter, and that is the rise and triumph of economics, and its transformation from the science of instrumental reasoning to the ideology of modern life. As a science, with its roots in decision theory, economics involves the valid application to everyday life of indisputable mathematical theorems. As an ideology, however, describing the behaviour of Homo oeconomicus, it involves the replacement of everyday life by a more manageable caricature. As I suggested in the previous chapter, conceived as an ideology, economics describes a world in which value is given in advance of our associations, in which the goals of life are clear and predetermined, and in which the task of politics is simply to assess the costs and benefits and choose the ‘optimal’ solution. When economics triumphs over politics, the sole ‘experts’ consulted are those who promise to replace the difficult, because human, questions of political choice with the easy, because mathematical, questions of economics, starting from assumptions that no one would ever make were he not in the grip of a self-aggrandizing obsession.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:13

Greek refer end? um...I wonder.

por John Wolf, em 04.07.15

EU-rejects-extension-as-referendum-looms-400x255.j

 

Tsipras e Varoufakis assumiram que o conceito de liberdade e dignidade lhes pertencia. Interpretaram de um modo ruinoso a vontade do povo grego. Declararam unir um país, mas a escassas horas de um Referendo histórico com impacto para os demais cidadãos da Europa, a Grécia está efectivamente dividida. Amanhã saberemos se estes governantes são autores de um memorando conducente a pânico, caos, quiçá guerra civil. Numa óptica de custos/benefícios para o cidadão helénico saem perdedores. Se era este o modo de forçar a alteração do status quo da União Europeia, serão bem sucedidos, mas à custa de prestações de forasteiros, o desgaste de nações distantes. Serão os membros da União Europeia a suportar a mudança induzida por catalisadores positivos ou de ruptura. A teoria de jogo, o dilema de prisioneiros, ou qualquer outro mindgame que tenham elegido como instrumento de aquisição de vantagens económicas e políticas, parte de um pressuposto eticamente questionável - a ideia de que o sacríficio alheio deve ser promovido para granjear vantagens domésticas. Quando Tsipras invoca a Europa unida e solidária, fá-lo de um modo teórico e abstracto. Enuncia princípios, mas lança dissensão na sua própria casa. Ou seja, nem filosoficamente oferece um bom exemplo.  Ao fim e ao cabo das tormentas do povo grego e de cinco meses de negociações, sabemos que a Grécia irá necessitar de pelo menos 50 mil milhões de euros para continuar a sobreviver e porventura reclamar ainda mais. Há alguns dias houve quem tivesse comparado a Grécia à União Soviética no limiar do descalabro desta. Em dose hiper-concentrada, a Grécia do Syriza, qual bolchevique anão, é uma espécie quase soviética a caminho do descalabro ideológico. Os soviéticos em 1992 já estavam a viver dias de controlo de capitais, falta de alimentos, enquanto emergiam actores da penumbra sinistra da sociedade. Foi nesse ambiente de ruptura que nasceram oligarcas e capitalistas com um particular sentido democrático. A Grécia, berço dos Estoicos entre outros, quer emular-se na invenção filosófica. Mas convém relembrar que a racionalidade e a ética não caminham necessariamente de mãos dadas. O povo sabe-o. E o Referendo reflictirá a verdade. A verdade será o que acontecer e não o que foi prometido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:24

A hora grega, o tempo europeu...

por John Wolf, em 21.06.15

wall_clock_with_flag_of_european_union-ra3a082e5c9

 

O dia de amanhã pode ser igual aos restantes, mas a Grécia pode de facto determinar o futuro da Europa. Na qualidade de extra-comunitário, passageiro da aventura unionista do continente, torna-se-me relativamente fácil ver as falhas e as lacunas do projecto europeu. A União Europeia (UE) não é uma união do espírito dos povos e dificilmente aspirará a se tornar numa federação. Não foi concebida a partir de uma pirâmide de valores sustentáveis. Foram os mercados que determinaram os tratados e os regulamentos. Foi a ideia de uma bloco económico competitivo que esteve por detrás dos sucessivos momentos de aprofundamento comunitário. E na senda dessa cegueira de ganhos e proveitos, os pilares de justica comunitária e de uma política externa e de segurança comum foram obviados. Para já, são as finanças dos países da zona euro que têm servido para acentuar divergências ideológicas e alimentar considerações de ordem geopolítica. Aguardo com expectativa a coragem ou não dos decisores europeus. Se a Europa, no seu desdobramento institucional corporizado no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia, no Eurogrupo ou no Fundo Monetário Internacional, cede à chantagem grega, então será inaugurado o início do processo de desagregação da UE. Uma conquista de Tsipras servirá de mote para os demais demandantes da zona euro e enfraqueçerá a centralidade política da Europa. A Grécia sai a ganhar. A Rússia tira proveito. Por outro lado, se a UE mantiver a intransigência da sua posição, deve contar com uma nova fronteira geopolítica na Europa. A Grécia encostar-se-á ainda mais à Rússia, sendo que estes dois países partilham estirpes distintas de austeridade. Ou seja, têm bastante em comum para forjar uma aliança firme de párias. Pela parte que me toca, deixarei de respeitar as instituições europeias se estas se deixarem torcer pelas ameaças de caos que Tsipras tão ideologicamente postula em nome da Democracia que apenas ele parece entender. Em todo o caso, a Europa, a partir de amanhã, deixará de ser o que era, ou o que nunca foi.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:00

António Costa: "mon ami Piketty"

por John Wolf, em 27.04.15

piketty.jpg

 

Todos sabem que a Austeridade não é coisa boa. Todos sabem que a mesma assenta na contracção e no apertar do cinto. Esse diagnóstico é fácil de fazer depois da receita ter sido aviada. E é escusado Thomas Piketty vir alimentar falsas esperanças a António Costa, ao proclamá-lo como "reorientador da Europa". O que o francês diz é muito bonito e faz todo o sentido, mas só funciona em ambientes macro-económicos em que haja controlo sobre políticas monetárias. Imaginem um marceneiro a oferecer a ferramenta-maravilha ao colega canalizador - é mais ou menos isto sem tirar nem pôr. Não serve, a não ser que me escape alguma coisa. Ou seja, que no tal documento da "década para Portugal" venha consagrada a criação de um banco central no Largo do Rato. Uma máquina de impressão de dinheiro cor de rosa para combinar com os sonhos que emanam da mesma casa. Grande economista que me saiu este Piketty. Era suposto a disciplina servir para encontrar meios para gerar dinâmicas de criação de riqueza e emprego. O melhor que conseguem é a brilhante ideia de criar um imposto sobre as grandes heranças. E isso confirma a máxima negada pelos socialistas. Sim, são excelentes a tratar de destruir o dinheiro dos outros. Neste caso nem sequer olham para o futuro. Metem a mão no bolso do passado. Em termos económicos este género de socialismo de ocasião posiciona-se no lado da procura agregada - a procura intensa dos meios financeiros dos outros. Isto era a última coisa que faltava. Aparecer um francês das escolas do iluminismo económico para dar alento a um visionário como António Costa. São muito bons a descrever os males. Quanto a oferecer respostas válidas, isso é outra história. Mário Soares também tinha vários amigos franceses.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:34

Cada um tem direito à sua lista VIP

por John Wolf, em 21.03.15

ant_feno_portugal_65.jpg

 

Cada português tem direito à sua própria lista VIP. Fizeram a revolução dos cravos para quê? Assim que esgotarem os ingressos deste espectáculo teremos certamente novo passatempo. Um caso de plágio na revista Maria, uma mochila Disney abandonada à porta da sede do Partido Socialista, um espião infiltrado na cantina do Instituto do Mar e da Atmosfera. Enfim, mais moelas deploráveis servidas para distrair dos reais tormentos que afligem os cidadãos deste país. Se eu fosse o António Costa teria algum cuidado. Não vá algum sucedâneo de Sócrates surgir no enredo de uma outra bronca. Quando o putativo candidato a primeiro-ministro diz: "Temos de ter um sistema fiscal justo, e não de tratamento VIP para uns e de intransigência sobre os outros" parece esquecer que foi ministro da justiça em tempos não tão longínquos. Ou seja, demarca-se da responsabilidade colectiva que deve assistir a todos os políticos. Cada um dos governantes, do presente e do passado, assina os termos do contrato ético e moral que condiciona esta nação. O partidarismo, qualquer que seja a preferência ideológica, assenta na ideia de discriminação, da importância atribuída a uns em detrimento de outros. Ao oferecer-se para ser guarda-nocturno da devolução da confiança aos cidadãos, António Costa expõe-se às contrariedades do seu percurso político, seja na Câmara Municipal de Lisboa, seja nos entroncamentos dos vários governos socialistas de que fez parte. A consanguinidade de interesses foi o que permitiu a sua respiração no pelourinho de Lisboa ou na capelinha do Rato. Por outras palavras, este senhor tem a sua própria listinha VIP, como terão todos os outros políticos, agentes da alegada segurança económica e social dos portugueses. Afinal, o Araújo dos sabonetes tem razão. Isto cheira mesmo muito mal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:48

Dos manuais no ensino moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 14.03.15

Eduardo Lourenço, "Da filosofia e da sua relação com a ideologia":

Em lugar das obras a escolaridade secundária serve de preferência manuais. O manual tornou-se assim no ensino moderno (curiosa correspondência com o mundo económico das “sociedades anónimas de responsabilidade limitada) uma espécie de terra de ninguém da sabedoria, que não é outra coisa que uma sabedoria degradada. Em vez dos mestres são-nos servidos compiladores. O ensino moderno é o ensaio incrível de fazer compreender o mais pelo menos, o superior pelo inferior. É a inversão da ordem natural, a inversão da educação antiga, comunicação dos que sabiam aos que sabiam menos ou não sabiam.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:57

O congresso do PS ou como pensar pequeno

por John Wolf, em 01.12.14

think_small

 

O congresso do Partido Socialista (PS) confirma o que nós já sabíamos, e o que certamente transcende aquela unidade política. Os lideres não estão à altura dos desafios que enfrentamos. Este fim de semana fomos agraciados com prestações de nível intelectual medíocre. O que está em causa é muito maior do que saneamentos internos, escândalos socráticos, viragens à Esquerda, rejeições da alianças ou maiorias absolutas. O que está em causa é areia demais para a camioneta destes protagonistas. Ou seja, a capacidade de pensar um modelo societário profundamente diferente daquele que nos conduziu ao descalabro. António Costa, Ferro Rodrigues, e os outros recrutas, simplesmente não têm a visão e a cultura para repensar a sua condição. O congresso do PS eterniza os mesmos vícios que definem a política. Os arranjos internos são mais importantes do que uma abordagem integrativa de soluções trans-políticas, para além da ideologia. Por outras palavras, a fonte da ideologia já não serve de um modo pertinente para encher as medidas das pessoas carentes de soluções "civis" - respostas económicas e sociais desprovidas de assinatura programática ou ideológica. Pelo que escutamos ontem, podemos afirmar que o PS deseja (mais uma vez) reclamar o estatuto de fundamentalista da verdade política. Os socialistas não conseguem esconder o vazio que permeia o seu espírito. Servem-se da mesma cartilha para enfrentar um mundo radicalmente diferente. São vítimas dos mesmíssimos paternalismos que enfermam os seus processos de pensamento. Definitivamente, a filosofia e a política estão divorciadas. De nada serve o lirismo bacoco de Alegre ou o apelo ao rasgo visceral da violência doméstica. A política, quando é eticamente movida, parte de uma base racional, metódica e autocrítica. Quando as emoções se tornam arma de arremesso sabemos que pouco ou nada resta. A agremiação deste fim de semana foi um mero exercício de austeridade de pensamento, ou simplesmente, um caso de pequenez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:57

António Costa e o concílio do Rato

por John Wolf, em 29.06.14

Nunca fui de me apoiar no paizinho, de me servir de pergaminhos familiares para avançar as minhas causas. Aliás, a ruptura talvez me caracterize com maior precisão. No entanto, não sou político e porventura não saberei apreciar o valor da tradição, a importância dos anciões, o respeitinho pelos progenitores. Acho triste que o jovem António Costa se tenha de servir dos fundadores do Partido Socialista (PS) para validar as suas aspirações. O que dista entre o acervo socialista original e aquilo em que o mesmo se transformou é assinalável e nem sempre positivo. Mas este processo de aprovação faz parte de uma matriz comportamental mais ampla. Faz parte de um alegado juízo conservador, de um conceito museológico, que atribui grande importância ao legado, ao passado. Embora o incentivo dos fundadores do PS possa servir a agenda interna de Costa e arrumar com o desreferenciado António José Seguro, a verdade é que é apenas algo que se passa no quintal do Rato. Mais valente e imortal seria se Costa angariasse os seus apoios numa colecta independente de filiações partidárias, da disciplina ideológica, dos da casa. A maioria absoluta com que sonha para governar é uma contradição genética. O pantano em que os socialistas se encontram poderia servir para refundar a expressão do partido sem comprometer os seus valores basilares. Os socialistas cometem o mesmo erro de sempre. Procuram renascer das cinzas, mas praticam a consanguinidade partidária; cruzam-se entre si para reproduzir velhas máximas e dar à luz conhecidas fórmulas. O PS teve muitas oportunidades, mas não soube criar um departamento de R&D (research and development) para integrar soluções excêntricas disponíveis em todo o espectro ideológico. O PS poderia centrar a sua acção na cidadania e no magistério civil, mas prefere invocar a sua superioridade moral, a paternidade da democracia portuguesa que viu nascer, e que em grande medida foi traída pela acção de alguns dos seus governos da república.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:06

O PS é Portugal

por John Wolf, em 16.06.14

O que está a acontecer ao Partido Socialista (PS) é realmente muito positivo. Os políticos vêm sempre com aquela conversa de abrir os partidos à sociedade civil, da regeneração, do alargamento das bases, sem esquecer a máxima da sua importância na história da democracia em Portugal. Sem o ter planeado de um modo estratégico ou programático, o PS está a braços com um processo de saneamento. Mas há motins que são bem-vindos. O conflito visceral que opõe Seguro a Costa está a servir objectivos diversos, entre eles a falsa purificação do partido. Por mais voltas fratricidas que o PS dê, não se afastará do seu core-business. E a sua actividade nuclear (à semelhança dos outros partidos) consiste em redistribuir o poder pela rede de apoiantes que fazem com que os candidatos cheguem ao poder. No próprio partido as falanges esfregam as mãos pelas migalhas maiores ou menores que serão lançadas como prémio pelo apoio incondicional. Vozes desconhecidas, de norte a sul do país, começam a dar a cara na expectativa de participar na OPA lançada por António Costa sobre as bases distritais. A velha-guarda, depositada a longo prazo no capital ideológico do partido, não precisa de se mexer, de se fazer ao piso. Está presa aos valores que sempre lhe granjeou dividendos. Uns a favor do actual secretário-geral, outros a amparar aquele que almejam que chegue a primeiro, mas todas estas voltas não passam de um mesmo caminho batido, da mesma alvenaria que eterniza essa ideia de superioridade moral, política - como se os socialistas fossem os únicos bons de Portugal. E, nesse processo de clarificação, temos sabores para todos os gostos. Diria que o espectro ideológico de Portugal entornou-se todo na casa socialista. Se o Rato representasse a totalidade do espectro político de Portugal, António Costa seria um partido de direita, alicerçado em valores e processos conservadores - seria o CDS do PS. António José Seguro o BE do PS e Sócrates/Soares o PS do PS. Podemos, sem nos afastarmos dos socialistas, ler Portugal na sua íntegra. Aquele microcosmos, no seu presente estado de ebulição, serve de exemplo, de tabela períodica de como o processo político decorre em Portugal. Não sai dali. É como um toiro encrençado nas tábuas. Que se afasta um pouco, mas que regressa sempre à sua natureza. E enquanto decorrem as faenas na arena, Portugal resvala ainda mais para um beco sem saída. As frases feitas já não servem de consolo, quanto mais para um programa de governo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:55

A idade da emoção política

por John Wolf, em 14.01.14

A idade da razão foi tomada de assalto pelo calor do momento, pelas emoções à flor da pele. Nos últimos tempos, em relação aos quais tenho dificuldade em estabelecer um marcador para o seu início, as nossas sociedades têm sido instigadas a exercer o magistério dos instintos primários. A falência económica e social do sistema capitalista, tal e qual como o conhecíamos, determinou, em larga medida, a deslocação da racionalidade para o campo aberto da luta pela sobrevivência, do salve-se como entender. O desespero dos indivíduos gerou comportamentos assimétricos, de tudo ou nada, de extremismos, de vaticínios, fundamentalismos ou devoção cega. Assistimos, neste quadro de desmoronamento, a expressões de desequilíbrio, de anulação e validação no mesmo gesto. A dialética foi preterida em nome da certeza absoluta. Esta clivagem entre extremos radicalizou posições e antagonizou a própria noção de compromisso societário, alicercado no diálogo, na condição humana enquanto valor maior. Um sem número de eventos e factos terá contribuído para engrandecer a desordem e ampliar a dimensão emocional da condição existencial. A maioria dos acontecimentos inscritos no campo negativo, e a menor parte, no campo do tendencialmente positivo. Sem o desejarmos, ou controlarmos os seus efeitos, estaremos à mercê dessa panóplia de estímulos que apelam a respostas instantâneas, viscerais. A tômbola de doutos e antídotos tem gerado náuseas e um sentimento de insegurança em relação ao futuro. De Snowden aos caprichos de Wall Street, aos casos do BPN e do Freeport, da morte de Eusébio às conquistas de bolas de ouro de Ronaldo, dos protestos de rua dos últimos dois anos, ao mais recente caso de vingança tributária do leitão da Bairrada (sem esquecer a garfada de Hollande); tudo isto contribui para reforçar o domínio do caos, da dependência em relação ao reagente que se segue, o speed emocional que se confunde com a matéria política porosa. Uma vez tombados nessa dependência, os indivíduos prescindem dos requisítos mínimos de racionalidade. E, na minha opinião, isso constitui uma séria ameaça. Porque, no contexto desse ambiente propício ao populismo, as mais radicais ideias encontram o terreno propício para serem readmitidas. Refiro-me a laivos substantivos de anti-semitismo, fascismo e corporativismo, registados sem agrado um pouco por toda a Europa debilitada. A euforia dos últimos tempos faz pendular os mais indefesos entre a glória e a desgraça, como se fossem marionetas. Reitero, de um modo humilde e pequeno, a salvaguarda de uma parte do juízo, para podermos separar o trigo do joio, o essencial do perdulário. As emoções devem comandar a vida, a poesia, a arte, mas não necessariamente a prosa política. Tenhamos atenção ao espectáculo que se nos têm oferecido nos últimos tempos, qualquer que seja a arena da nossa preferência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:47

A Constituição da República Portuguesa (edição de 1976, com revisões subsequentes em 1982, 1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005) merece ganhar o prémio de livro do ano em 2013. Nunca uma obra política havia estado no centro da vida dos portugueses de um modo tão intenso e polémico. Por essa razão, convém proceder a uma leitura mais atenta da substância da sua narrativa. A mesma tem sido tratada como bíblia sagrada pelos trabalhadores de Portugal, por formular e eternizar a expressão consubstanciada em "direitos inalienáveis" ou ainda "liberdade de expressão". Contudo, os cidadãos do país parecem omitir convenientemente que a mesma magna carta também serviu de cobertura para as excedentárias práticas de transgressão, perpetradas por um sem número de agentes económicos, grupos de interesse, partidos políticos, indivíduos e colectividades. Foi no decurso da sua força constitucional, da sua existência efectiva e da sua vigência desde 1976, que todas as malfeitorias contemporâneas tiveram lugar e que derrearam Portugal, colocando o país na situação em que actualmente se encontra. Por esse facto, há que tirar ilações e também atribuir responsabilidades ao enquadramento jurídico concedido pela Constituição da República Portuguesa. Se a falência técnica, económica, social e moral que retrata o Portugal do presente aconteceu, a mesma decorreu ao abrigo dos valores alegadamente definidos e defendidos na carta constituinte de 1976 (e suas subsequentes alterações em sede de revisão constitucional). Ou seja, a própria constituição também "autorizou" os devaneios dos prevaricadores e fomentou a noção de impunidade jurídica. Deve ser, por isso, também considerada uma colaboradora do regime de descalabro, da demise nacional. Não foi uma outra constituição que serviu de pano de fundo para as ocorrências. Não foi uma distinta constituição, de cariz menos ideológica e mais utilitária, que gerou os desequilíbrios. Não foi uma constituição escrita sem fervor revolucionário que ditou a apropriação indevida por forças de bloqueio económico ou social. Não foi nada disso. Foi sob a batuta desta mesma constituição que os crimes económicos aconteceram, que o fosso entre poderosos e indigentes se cavou, que os sindicatos nasceram mas não evoluíram para avançar a sua missão de protecção de trabalhadores, que os partidos políticos se transformaram em lobbies-sombra para partilhar privilégios e favores e que a soberania foi posta em causa de um modo tão leviano com a assinatura do tratado de adesão às comunidades europeias. Ou seja, Portugal "aconteceu" debaixo da parábola da Constituição da República Portuguesa, e, por essa razão, torna-se urgente ajuízar se a mesma é ainda capaz de defender o país dos seus inimigos endémicos e das ameaças exteriores. Por estas razões, e outras que me escapam, mas que igualmente nos afligem, a Constituição da República também deve ser entendida como uma jangada de pedra. Com o naufrágio à vista, seria sensato analisar em detalhe a carta de marear. O mapa que também contribuiu para desviar Portugal da sua rota - destino malfadado, sina, sorte ou azar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:32

Um frio inconveniente

por João Quaresma, em 17.12.13

Em Setembro, fotografias de satélite da NASA mostraram um crescimento da camada de gelo do Ártico de 60% em relação à mesma altura do ano passado. Nos últimos invernos, em ambos os hemisférios, registaram-se recordes de baixas temperaturas e, na semana passada, foi anunciado - note-se: com três anos de atraso! - que em Agosto de 2010 foi registado um novo record da temperatura mínima global, na Antártida. E entretanto, no Egipto nevou pela primeira vez em mais de um século. 

Nos anos 70 e 80, a previsão catastrofista em voga era de que se estava a caminho de uma nova era glaciar. No princípio dos anos 90, foi a vez do buraco na camada de ozono que, dizia-se, crescia descontroladamente, que era consequência da industrialização e que atiraria o Mundo para um inferno de temperaturas altas, raios ultra-violeta e cancros de pele. Depois de anos de alarmismo, provou-se que esse buraco sempre existiu sobre o Pólo Sul, que é normal que exista e que não é consequência da acção humana. Mal a mentira sobre o buraco da camada de ozono foi desmentida, surgiu a do aquecimento global, provocado (de novo culpando a industrialização) pelas emissões de dióxido de carbono (CO2).

Só que desta vez o mito criado assumiu proporções de autêntica ideologia, quase totalitária: recorrendo à manipulação de factos científicos, ao medo e à invenção de uma ameaça à sobrevivência da Humanidade, ao sentimento de culpa, ao terrorismo informativo protagonizado por oportunistas como Al Gore - vale a pena rever o trailer do seu filme - e ao silenciamento das opiniões contrárias. E, sendo uma ideologia, instalou-se nos poderes políticos condicionando não apenas as opções de governação como também a simples legitimidade politica. Questionar a ideologia verde passou a valer a marginalização política aos "hereges". E gerou um sistema politico-económico que obrigou os países desenvolvidos (e "culpados") a despenderem uma parte importante da sua riqueza para financiarem as soluções alegadamente inadiáveis para este suposto problema. Surgiram as ecotaxas, os aumentos dos impostos para penalizar as emissões de carbono, o Protocolo de Kyoto, as suas quotas de emissões de CO2 (e multas avultadas para os infractores) e o mercado do carbono. Surgiu a pressão para substituir prematuramente equipamentos existentes e perfeitamente funcionais por outros novos pelo facto de emitirem menos dióxido de carbono, ou diminuir o consumo de electricidade numa proporção muitas vezes insignificante. Surgiu a desculpa para perseguir o automóvel particular, limitando a liberdade individual na mobilidade («usem transportes públicos ou andem de bicicleta»). E surgiu também o pretexto para fazer disparar os preços da electricidade e dos combustíveis. Duas das fontes de energia eléctrica mais caras e ineficientes, a eólica e a solar - tecnologias perfeitamente dominadas desde os anos 80 e que desde essa altura se sabe serem comercialmente inviáveis por si próprias - tornaram-se obrigatórias, sendo pagas pelos consumidores e contribuintes através de um autêntico sistema feudal justificado com os pressupostos e os mitos da ideologia verde. E já se avança para soluções ainda mais caras e ineficientes como a energia das ondas, ou a eólica em alto-mar, enquanto nem sequer se menciona a energia geotérmica, uma fonte renovável e infinitamente mais barata. A mito do aquecimento global também movimenta muito dinheiro público despendido por organismos estatais, grupos ditos ecologistas, investigação científica (2 mil milhões de dólares por ano só nos EUA) e o sector dos media, comprando lealdades e opiniões.

O documentário abaixo, realizado em 2007 pelo canal britânico Channel Four, dá uma ampla visão sobre todo este fenómeno.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:31

The Pervert's Guide to Ideology

por Samuel de Paiva Pires, em 03.11.13

 

Alguns apontamentos interessantes, outros altamente discutíveis e demasiadas interpretações abusivas que Zizek tenta passar como verdades alicerçadas na psicanálise de Jacques Lacan compõem The Pervert's Guide to Ideology, um filme que irá provavelmente ser um sucesso de bilheteira num Ocidente cada vez mais à deriva e em que a larga maioria dos espectadores provavelmente não terá recursos intelectuais para o desmontar e criticar, especialmente quanto a erros de palmatória (por exemplo, Zizek afirma que Kant defende a ideia de nobre mentira de Platão, quando, na verdade,  Kant é um dos poucos grandes filósofos a ter defendido que mentir é sempre moralmente errado, estando na companhia apenas de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino). Mais uma lança avançada do marxismo cultural contra o capitalismo, mas que acaba numa mão cheia de nada em que aquilo que me parece mais importante reter, especialmente em resultado do óbvio viés ideológico e de várias deficiências intelectuais de Zizek, é que este alegado filósofo é extremamente sobrevalorizado. Que seja um dos mais reputados intelectuais mundiais diz muito da degenerescência intelectual do Ocidente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:06

Porto Moreira

por John Wolf, em 30.09.13

Se eu tivesse de eleger o vencedor absoluto das autárquicas, esse homem seria, sem margem para dúvida, Rui Moreira. As suas primeiras frases de declaração de vitória não servem apenas a cidade do Porto, devem servir o país: "pela primeira vez, o partido que venceu na cidade foi o Porto". Esta simples linha política é mais do que um mero chavão de ocasião e não será esquecida tão facilmente. A afirmação - uma espécie de primeiro tijolo do processo político -, tem implicações para a totalidade do território. É um aviso sério à navegação partidária dos compinchas e um estímulo para todos os movimentos alternativos ou independentes. Portugal viu nascer um político com um sistema operativo totalmente novo - não é um upgrade de um modelo já existente no mercado. É um design original com a folha limpa, com futuro pela frente e sem passado duvidoso. Os detractores e delatores da bola, invocaram desde o primeiro minuto dos festejos do independente Moreira, que este representava uma mera extensão figurada do CDS, como se este fosse uma marioneta ao serviço dos centristas. Mas não se trata disso. Rui Moreira tem o seu quadro-base de valores, mas soube afastar-se da catequese doutrinária para granjear a confiança da sociedade civil. Em duas penadas de inteligência demonstrou que é o extremo oposto de Seguro - é competente e sabe transmití-lo -, e ao fazê-lo inspira confiança muito para além da cidade do Porto. Penso que estamos diante de alguém com carisma suficiente para servir Portugal de um modo muito mais substantivo. Ainda bem que não tem percurso político. Ainda bem que não é um notável recauchutado de um município para o seguinte, de um partido para outro. Nos próximos dias seremos surpreendidos com a inclusão na sua equipa de indivíduos sem cadastro político mas com perfil adequado para servir um Porto em crise, um Portugal em descalabro. Se Costa foi o vencedor incontestado de Lisboa, Moreira será mais do que um "simples" vencedor do Porto. Será, se assim o desejar, o embaixador de um Portugal que quer acreditar no futuro. Os socialistas que cantam vitória em todas as categorias, assentam a sua existência numa matriz de apoio tradicional que conhece os seus limites e define a sua doutrina com muita convicção e auto-suficiência. Rui Moreira, que não é partido e não é nada, apenas depende de si, mas já declarou que irá incluir uma panóplia de protagonistas para atingir os objectivos da sua missão. E é aqui que reside a sua vantagem. Os outros, os partidos, têm valores de referência e notáveis, mas que deixaram de o ser de um modo inequívoco. O movimento dos indignados e os protestos de rua não estão necessariamente por detrás de Rui Moreira, mas têm uma quota importante de responsabilidade na sua eleição. Agitaram as águas políticas e alertaram para a corrosão dos partidos políticos. Mas Moreira fez o que fez, sem se aproveitar de marchas por avenidas com aliados ou por alamedas da liberdade. Foi suave e inteligente, sabendo interpretar o mood social e político dos portuenses. Neste caso em particular, foi o Porto a centralidade da sua acção, mas o que invocou serve um manifesto geral. Lentamente começamos a vislumbrar uma nova disposição política em Portugal. Não sei se Costa aguenta os quatro anos de mandato que a população de Lisboa lhe conferiu, mas terá seriamente de pensar nas agruras que um dirigente como Seguro pode trazer. Moreira, sem o desejar, é uma pedra no sapato de Seguro, por demonstrar de um modo abismal que há certas pessoas que parecem ter nascido para a política e outras não. Contudo, como já havia referido antes, os resultados das autárquicas não desequilibram as contas da troika nem servem para afastar a expressão dos juros da dívida. A vida negra decorrerá debaixo das mesmas nuvens de contrariedades. Mas o que aconteceu no Porto é de aproveitar. É uma tocha à entrada do túnel. A contagem dos votos ainda decorre, mas podemos afirmar de um modo paradoxal, que nada e tudo mudou em Portugal. No Porto e quem sabe nos arredores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:06

Os púlpitos do senhor reitor Seguro

por John Wolf, em 22.06.13

António José Seguro parece não entender que o mundo encontra-se em processo de transformação profundo. Os púlpitos, mesmo que espalhados por dezenas e dezenas de palcos, não correspondem ao exercício transversal que a democracia parece exigir. São pedestais para vozes da casa, socialistas do norte, desnorte ou sul do país. São caixões de ideias colocados na vertical para tentar levantar os olhos de eleitores semi-mortos pelos sucessivos enganos a que foram sujeitos. Este partido, e os demais, deveriam já ter entendido a importância dos movimentos de rua que deram a voz a defensores de equidade e justiça. Os reservatórios ideológicos dos partidos contêm águas paradas, infectadas com bactérias que promovem um quadro clínico grave. Uma espécie de cepticismo gratuito para quem está de passagem e se mantém indeciso na orientação a dar ao seu voto. A mobília pulpítica pertence a uma outra geração de carpintaria política. A caixa de fruta posta em sentido já não oferece o sumo que as pessoas querem. Um novo conceito não pode nascer num local chamado Coliseu dos Recreios. O recreio, que todos conhecem enquanto o intervalo das aulas, não será o local nem a hora indicada para levar por diante um novo programa eleitoral que integre os civis sem filiação ideológica, os cidadãos com enfoque político mas que dispensam os partidos. António José Seguro ao puxar as senhas do rolo e ao oferecê-las aos "camareiros" para que dêem à manivela da sua voz, quer dar a impressão de homem de grande abertura, mais um simples camarada do partido. Se a cúpula socialista decidiu atribuir mais tempo de antena aos candidatos autárquicos, eu teria algum cuidado. António José Seguro corre o perigo de ser confrontado com alguém da sua rama ideológica com uma ideia para o país. Porque até ao momento, Seguro não foi capaz de convencer o país que existe para além do Rato, que tem a capacidade para gerir o que quer que seja. Embora em Almodóvar o papel de parede diga TUDO, estamos de facto a lidar com NADA - mais uma vez nenhuma ideia de jeito foi escutada. Se ele acha que os últimos dois anos de governo lembram dois séculos. No seu caso, sem ser governo, lembra uma grande seca. Um bombeiro que diz vai apagar o fogo, mas que não tem água no camião-cisterna. E os incêndios do verão ainda nem sequer deflagraram. A madeira dos púlpitos poderia ter outro destino. Cadeiras para esperarmos sentados, zangados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:19

Ainda a respeito da co-adopção por homossexuais

por Samuel de Paiva Pires, em 21.05.13

Deixo um artigo de Roger Scruton, "This 'right' for gays is an injustice to children" (negritos meus):

 

«Western societies have, in recent decades, undergone a radical change in their attitudes to homosexuality. What was once regarded as an intolerable vice is now regarded as an "orientation", no different in kind, though different in direction, from the inclinations that lead men to unite with women, and children to be born. This radical change began with the decriminalisation of homosexual conduct, and with a growing readiness not just to tolerate homosexuality in private, but to talk about it in public. We saw the emergence of the "public homosexual", the flamboyant propagandist for that "other" way of life who, like Quentin Crisp, tried to persuade us that "gay" is after all the right description. There followed the movement for "gay pride" and the "coming out" of public figures —to the point where it is no longer very interesting to know whether someone is or is not of the other persuasion.

 

For the most part, the people of this country have gone along with the changes. They may not be comfortable with its more demonstrative expressions, but they are prepared to tolerate the homosexual way of life, provided it keeps within the bounds of decency, and does no violence to fundamental norms. However, this attitude does not satisfy the activists. For to tolerate is to disapprove. It is only when conduct offends you that you need to exercise your toleration, and the activists want people to treat homosexuality as normal. Through the slippery notions of discrimination and human rights, they have used the law to advance their agenda. Homosexuality is now treated by the law as a tendency comparable in almost every way to heterosexuality, so that any attempt to distinguish between people on grounds of their "orientation" — whether as applicants for a job, or as recipients of a privilege — is regarded as unjust "discrimination", comparable in its moral heinousness to discrimination on grounds of race or sex.

 

On the whole we have accepted that laws against discrimination might be needed, in order to protect those who have suffered in the past from hostile prejudice. Every now and then, however, we wake up to the fact that, although homosexuality has been normalised, it is not normal. Our acceptance of the homosexual lifestyle, of same-sex couples, and of the gay scene has not eliminated our sense that these are alternatives to something, and that it is the other thing that is normal. This other thing is not heterosexual desire, conceived as an "orientation". It is heterosexual union: the joining of man and woman, in an act which leads in the natural course of things not just to mutual commitment but to the bearing of children, the raising of a family and the self-sacrificing habits on which, when all is said and done, the future of society depends. The propaganda that has tried to rewrite heterosexuality as an "orientation" is really an attempt to persuade us to overlook the real truth about sexual union, which is that it is, in its normal form, the way in which one generation gives way to the next.

 

This truth is recognised by all the great religions, and is endorsed in the Christian view of marriage as a union created by God. This explains, to a great extent, the reluctance of religious people to endorse gay marriage, which they see as an attempt to rewrite in merely human terms the eternal contract of society. To put it in another way, they see gay marriage as the desecration of a sacrament. Hence the growing conflict between the gay agenda and traditional religion, of which the current dispute over "adoption rights" is the latest sign. According to the Christian perspective — and it is one that is shared, I believe, by Muslims and Jews – adoption means receiving a child as a member of the family, as one to whom you are committed in the way that a father and mother are committed to children of their own. It is an act of sacrifice, performed for the benefit of the child, and with a view to providing that child with the normal comforts of home. Its purpose is not to gratify the parents, but to foster the child, by making him part of a family. For religious people that means providing the child with a father and a mother. Anything else would be an injustice to the child and an abuse of his innocence. Hence there are no such things as "adoption rights". Adoption is the assumption of a duty, and the only rights involved are the rights of the child.

 

Against that argument the appeal to "anti-discrimination" laws is surely irrelevant. The purpose of adoption is not to gratify the foster parents but to help the child. And since, on the religious view, the only help that can be offered is the provision of a real family, it is no more an act of discrimination to exclude gay couples than it is to exclude incestuous liaisons or communes of promiscuous "swingers". Indeed, the implication that adoption is entirely a matter of the "rights" of the prospective parents shows the moral inversion that is infecting modern society. Instead of regarding the family as the present generation's way of sacrificing itself for the next, we are being asked to create families in which the next generation is sacrificed for the pleasure of the present one. We are being asked to overlook all that we know about the fragility of homosexual partnerships, about the psychological needs of children, and about the norms that still prevail in our schools and communities, for the sake of an ideological fantasy.

 

To oppose homosexual adoption is not to believe that homosexuals should have no dealings with children. From Plato to Britten, homosexuals have distinguished themselves as teachers, often sublimating their erotic feelings as those two great men did, through nurturing the minds and souls of the young. But it was Plato who, in The Laws, pointed out that homosexuals, like heterosexuals, must learn the way of sacrifice, that it is not present desires that should govern them, but the long-term interests of the community. And it is surely not implausible to think that those long-term interests are more likely to be protected by religion than by the political ideologies that govern the Labour Party.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:19

Uma vaga ideia da crise

por John Wolf, em 02.05.13

 

Em 1980, Alvin Toffler publicava o livro A Terceira Vaga, o segundo volume de uma saga iniciada em 1970 com Future Shock, a que se seguiram outros títulos, e mais recentemente Revolutionary Wealth (2006), considerado uma continuação da Terceira Vaga. Em 1980 tinha apenas 10 anos de  idade e tive de esperar 5 anos para pegar no livro com olhos de semi-adulto e tentar entender algumas das suas ideias. À época recordo-me que o livro espelhava já um brave new world, a emergência gradual da sociedade de informação que hoje vivemos em pleno, com todas as contradições tecnológica-existenciais que conhecemos. Naqueles tempos da aurora digital, Toffler tinha tido a capacidade de ser ousado no desenho que fez das futuras etapas do desenvolvimento humano. Apenas em 2006 voltei a estabelecer contacto com Toffler, mas nesse período que percorri, deambulei por diferentes autores que avançavam com aquilo que designamos por Grandes Teorias das sociedades humanas. No fundo, são quadros que tendem a simplificar o caos e estabelecer uma ordem conceptual. Outros autores, como Francis Fukuyama e a sua obra  O Fim da História e o Último Homem (1992)  ou Samuel Huntington e o Choque de Civilizações (1993) oferecem também distintas arquitecturas de explicação do mundo. E eis que chegamos a 2013, a um mundo em convulsão real, um palco intensamente contraditório, que confirma a ineficiência de modelos de execução, pensados academicamente, mas distantes do corpo social onde os impactos se fazem sentir. Nem sequer entro em detalhe sobre a falência dos modelos económicos que ambicionaram a exactidão das ciências, quando deveriam se ter dedicado a outra arte, como procurar entender o homem na sua acepção mais complexa que transcende a riqueza ou o estatuto. As prerrogativas económicas tomaram a dianteira sem olhar para trás, mas sabemos agora que foi um engano, que algo deveria ter contrariado esse fenómeno de esvaziamento. E que algo deve ser feito para redesenhar o quadro conceptual subjacente à construção das nossas sociedades. Para esse efeito, gostaria de chamar à liça Paul Feyerabend (1924-1994), um filosófio Austríaco, que quase paradoxalmente conviveu com os advogados da Escola Austríaca de economia. Uma das suas ideias centrais tem a ver precisamente com as contrariedades do método científico, a sua alegada consistência argumentativa. A forma como a solução nova valida a anterior, mesmo que esta seja deficiente, numa expressão questionável da revolução de paradigmas, explicada, embora de outro modo, por Kuhn. Deixo à consideração dos leitores a investigação que considerem adequada para que formem o vosso próprio juízo. Não é o meu intento leccionar cadeiras sem o vosso assento. Não estou habilitado para tal. O que me traz aqui hoje, neste encadeado de ideias sobre Grandes Teorias, tem a ver com a inevitável aparição de uma panóplia de aplicações cuja soma não perfaz um modelo estável - um simplificador de angústias, um paradigma no sentido clássico em que o definimos há largos anos. Vivemos o momento histórico da desmontagem de premissas, da desconstrução dolorosa de certezas. Estamos a meio do exame que sublinha a vermelho frases inteiras de cadernos ideológicos e doutrinários. Receitas  para a existência em sociedade, que formataram o nosso modo de ver o mundo, e a nossa teimosia na oferta das mesmas soluções. Iremos assistir, na minha confusa opinião, a um caldeirão de pertinências, a uma amálgama de resquícios de doutrinas neo-liberais e amostras de receitas marxistas. Todos os termos operativos que cuspimos sobre as mesas redondas, deixaram de significar. Tornáram-se obtusos, quadrados. A simbologia que empregamos já não tem nexo, não conhece a paternidade da sua alma fundadora. A plataforma de mediação, designada por consenso político, nada mais será do que um processo de repetições de tiques de demandas e raras cedências. A clivagem que opõe a riqueza à miséria, não encontrará resposta na Social-Democracia ou na Esquerda tal como as entendemos. Será algo de novo que irá emergir. E é aí que nos encontramos. No núcleo efervescente de lava política, que vai expelindo consternações e pequenas curas. A residência estável de uma grande teoria não acontece de um modo célere. Temos de aprender a viver no dia a dia. Com os restos de considerações ideológicas que se encontram por aí em marés de esperança e depressão. Tem tudo a ver com vagas. Ideias vagas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:22

Autismo político

por John Wolf, em 18.02.13

 

O filósofo Francês Michel Foucault referiu-se à "guerra" enquanto modelo para entender as relações sociais. No actual contexto da divisão que opõe os governos aos povos, diria que as batalhas a que assistimos têm servido para melhor identificar os diferentes corpos sociais que integram a realidade. A Austeridade terá servido para nivelar um país historicamente caracterizado pela distinção social. E agora, a auto-intitulada ou a alegada burguesia tornou a sua linguagem mais proletária, sacando os chavões de opressão utilizados habitualmente pelos trabalhadores, como se não dispusesse de um código próprio de protesto. Essa transformação não acontece por vocação. Realiza-se porque os direitos e privilégios mantidos sem justificação, estão agora a ser questionados e retirados em nome de um bem maior que corre o risco de se tornar num mal maior. Assistimos à substituição do conceito de preservação de posição dominante pela noção de sobrevivência. As categorias económicas e sociais que serviram para arrumar os diferentes grupos humanos, estão a ser revistas para integrar existências híbridas. Há muito que somos testemunhas do divórcio entre a cultura e o poder económico, do mesmo modo que registamos o vazio da inteligência doméstica, a inacção das elites intelectuais, que tentadas por um discurso intensamente populista, acabam por revelar os seus dogmas de um modo intransigente, quase fanático e próximo de um fundamentalismo desprovido de escola ideológica. No meu entender os vira-casacas são uma espécie especial a ter em conta. Nunca cultivaram as doutrinas colectivistas ou a partilha utópica, mas agora são convenientemente de Esquerda. Desse modo ninguém os chateará e poderão prosseguir a sua actividade num sistema contagiado pela mesma falsidade corporativista. A questão crítica que se coloca, e que observamos com alguma facilidade, relaciona-se com a justificação dos meios. Com que direito se invocam argumentos abstractos de justiça social para defender interesses particulares? Assistimos a sucessivas encenações de propaganda de bolso. Custa-me assistir à ausência de introspecção, o descartar de uma epistemologia política, que clarifique os conceitos operativos que são utilizados de um modo oportunista. Os axiomas extraídos de clássicos instigam paixões e despertam o medo, e o medo tem sido convenientemente utilizado para justificar a intensidade dos meios utilizados. Enquanto destinatários de mensagens emitidas pelo governo e que não encerram em si carga programática, mas que se inscrevem na realização técnica, torna-se claro que a resposta popular assentará em pressupostos quase diametralmente opostos - a falsa ideologia à flor da pele. Neste vai-vem de acusações e refutações registamos o derradeiro fôlego de uma linguagem política herdada de um paradigma abalroado pelas suas próprias insuficiências. As grandes convulsões que assolam as nossas sociedades turvaram as águas e necessitamos de algum tempo de acalmia, para que efectivamente possamos perceber que o nosso léxico mudou, o que dizemos já não faz sentido ou já não responde às questões mais prementes. Pensar sobre o que está acontecer enquanto está a acontecer obedece a uma lógica de tentativa e erro. Contudo, torna-se obrigatório colocar as questões sempre e sem excepção, nem que seja para causar uma interrupção no processo de pensamento dos outros. Nas convicções abaláveis de tantos e tantos políticos que padecem da mesma forma de autismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:31

Deo-Socialismo, Neo-Socialismo...

por John Wolf, em 04.02.13

 

Desde que a crise económica e financeira eclodiu em todo o seu negro esplendor em 2008, um processo de revisão do Socialismo tem vindo a ser efectuado aqui e acolá, aos poucos, mas de um modo seguro, sem querer dar muito nas vistas e sem abalar a alma mater da bandeira. Os homens da rosa sabem que a sua sobrevivência ideológica está em causa. Como forma de se eximirem de responsabilidades morais, os socialistas procuram sacudir a água do capote como se não fossem neo-liberais, como se não tivessem apoiado o funcionamento desregulado dos mercados que conduziu a este estado desgraça, como se não estivessem no poder quando as chatices aconteceram. Como se não tivessem transformado a sociedade em algo corporativo com amigos distribuídos por posições de grande inflluência na vida económica e social do país. Temos assistido à utilização intensa de um código sacado de um mapa ideológico que já não faz parte deste mundo. Estes senhores também borraram o fato de macaco do trabalhador e agora afirmam trabalhar na lavandaria de esquina. Porém, independentemente de levantarem a voz e vestirem outra farda, sabem que algo mais profundo está a abalar o significado do Socialismo, e por essa razão se torna urgente aparecer com a cara lavada, cortando com o Socialismo da antiguidade clássica que tantos males trouxe ao bairro dos compadres. A Internacional Socialista encontra-se na Riviera Portuguesa para discutir crescimento sustentável e emprego mas enganou-se no título da conferência. Acho notável que um agrupamento de falhados não aproveite a oportunidade para analisar as causas do desmoronamento. Há um fio condutor que liga as famílias políticas destes senhores ao que está a acontecer na Europa. A declaração de intenções consubstanciada na frase vamos procurar uma saída para a crise, diz tudo sobre ausência de ética e responsabilidade política, e por isso deveria ser editada, em nome da verdade.  Substituída por; queremos encontrar a saída para a crise que ajudamos a fabricar, ao que poderiam também acrescentar; não somos socialistas no sentido inaugural da doutrina, somos iguais aos outros neo ou ultra-liberais. Depois há outra dimensão caricata que desconhecia, que não ajuda a promover a ideia de cantina solidária. Não sabia que a sede do PS também é um restaurante. Alguém me pode dizer, se ali no Rato, há uma cozinha secreta? Ou será catering? Será que os cozinhados são preparados na Casa da Comida e trazem tudo em tupperwares lavados? E porque razão o Bloco de Esquerda não foi convidado? Afinal foram eles que lançaram o mote de uma nova corrente de Socialismo. Se fosse eu, teria cuidado com o que está a passar. Assistimos há já algum tempo a deslocações de sentidos políticos que nos baralham por completo. Por vezes as Esquerdas aparecem na ala Direita, as Extremas ao Centro, os que estão por baixo por cima, e tudo isto em defesa de um princípio subjacente à condição política, o acesso ao poder seja qual for o preço a pagar. Paga o contribuinte. Mas restringindo-me ao Socialismo, não me surpreenderia se uma nova doutrina fosse inaugurada como uma novidade de mercado, um perfume para desinfestar e afastar os maus cheiros provocados pelos próprios. Deo-Socialismo, Neo-Socialismo...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:09

A ideologia é má. Excepto quando é de esquerda

por Samuel de Paiva Pires, em 13.12.11

É curioso que a esquerda ultimamente tenha descoberto que temos uma coisa chamada ideologia. A ideologia é má. Excepto quando é de esquerda. Porque quando é de esquerda é científica e não apenas ideologia. Quando é de esquerda é "a verdade". Quando é de esquerda, governar com défices e dívidas públicas galopantes é uma coisa boa. Excepto quando é a direita a fazê-lo; aí já é uma coisa má. Mesmo que a direita também seja socialista. É como diria Ortega y Gasset, ser de esquerda ou de direita é apenas uma das múltiplas formas de hemiplegia moral. Particularmente agravada num quadro de cinzentismo e indistinção entre os vários componentes do centrão. O que não impede a esquerda de gritar "fássistas", "neo-liberais" e, a nova moda, "ideológicos". Onde o que mais interessa aos comensais interesses vigentes é ter certos idiotas (in)úteis - de Cavaco Silva a Daniel Oliveira - que não só ainda não perceberam o que nos aconteceu como defendem que se continue a permitir aos governos ter ideias muito adultas como sobre-endividar 3 ou 4 gerações ainda por nascer. Como diria Thatcher, o socialismo termina quando acaba o dinheiro dos outros. Mas eles ainda não perceberam.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:15






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas