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É suficiente?

por Nuno Castelo-Branco, em 26.09.14

 

Bem verificados os calamitosos precedentes, parece legítima alguma suspeita quanto à intervenção dos EUA na Síria. Apresentando-a como o único recurso para a destruição dos terroristas do pretenso "Estado Islâmico", os nossos aliados poderão de facto tentar servir-se deste móbil para conseguirem aquilo que há muito querem: o derrube de Assad e a sua substituição pela incógnita que tememos. Municiaram e generosamente subsidiaram - ajudados por sauditas e alguns emiratos - boa parte daqueles que agora surgem como a mais directa ameaça à Europa, não nos podendo esquecer dos crimes cometidos pelo "ISIS" nas comunidades locais - cristãs e outras - que este grupo de bandidos considera como elimináveis. 

Estamos então perante a possibilidade de uma guerra em duas frentes. Quando aqui se diz estamos, isso deve-se à inevitável situação que a nossa pertença à NATO implica, apesar da fortíssima suspeita que leva a crer estar a imensa maioria dos europeus contra a aventura de uma guerra no leste. Apesar de paulatinamente vender-se  a  ilusória possibilidade de um conflito localizado, a verdade  implica o reconhecimento desta suposição como totalmente falaciosa. Um conflito que implique a entrada directa da Polónia e de outros países limítrofes da Rússia em operações militares no âmbito do contencioso russo-ucraniano, conduzirá inevitavelmente a uma escalada. São tragicamente risíveis, os sonhos quanto a uma residual utilização táctica de armas nucleares, ousando alguns menosprezar esta evidência. A acontecer o desastre, esperam circunscrevê-lo ao campo de batalha europeu, acreditando serem os russos incapazes de caírem na tentação de uma resposta num alvo além-Atlântico.  Seria aconselhável uma conscienciosa avaliação da situação, estudando-se  alguns precedentes históricos que indicam sem sofismas, qual o modus operandi russo quando em situações de desespero. 

Estamos no plano das hipóteses e é impossível prever o alastrar ou não do conflito a outras áreas do globo, onde regimes como o norte-coreano poderão tomar iniciativas de âmbito regional. Muitas interrogações ficam sem resposta, sendo a posição da China, aquela que mais pesadamente apresentará consequências até no delinear de uma nova ordem territorial. Não existe qualquer espaço para alegadas traições ou cobardias, mas tão só o ponderado considerar dos interesses de uma Europa demasiadamente sacrificada ao longo de mais de cem anos de constante declínio. Qualquer intencional projecto ocidental de conflagração no leste europeu, poderá significar danos letais na aliança que desde 1949 tem garantido a paz, prosperidade e solidariedade no amplo espaço euro-atlântico. Putin poderá estar a contar com este factor. Conhecendo-se a aversão alemã a mais desastres que a teriam como alvo primordial, também pouco se espera quanto a um alinhar francês numa nova campanha da Rússia. A estes dois países juntar-se-ão todos os países próximos da Alemanha do pós-1990, talvez sobrando para a constituição de uma frente de incondicionais, a Polónia, os Estados Bálticos e com escassa, dir-se-ia mesmo nenhuma certeza, a Roménia. É pouco, para não dizermos mais. Ninguém decerto esperará entusiasmos italianos, espanhóis, nórdicos e até, pasme-se, portugueses, pois todos sabemos que a verdadeira guerra a ser urgentemente ser travada, é outra

Quanto à aventurosa  campanha ucraniana, fala Helmut Schmidt, apresentando algumas similitudes entre a actual situação e a Crise dos Mísseis de Cuba:

"Devido a estes mísseis ameaçarem a segurança dos Estados Unidos, isto colocou o mundo inteiro à beira de uma terceira guerra mundial (...) nem B. Obama ou Putin querem uma guerra, os europeus não querem qualquer guerra (...) A solução para a crise dos mísseis de Cuba tornou-se possível, porque ambos os lados estiveram cientes das suas responsabilidades. Este ensinamento deveria servir os diplomatas para o futuro (...) a anexação da Crimeia é um facto consumado, sem possibilidade de retorno".

Schmidt tem razão, querendo apenas referir-se a uma situação que tal como a presente, parecia insolúvel a não ser pelo recurso ao confronto armado. Embora não o diga, o antigo Chanceler decerto pensa na insistência americana em incluir a Ucrânia na NATO, algo que alguns militares aliados consideravam como uma séria possibilidade, quando exibiam Sebastopol como uma necessária base para a USN. Não parece estar em causa - por enquanto - a colocação de mísseis nucleares americanos nas proximidades da fronteira russa, embora os progressos tecnológicos conseguidos nos últimos quarenta anos, sejam suficientes para colocar a situação estratégica num patamar muito diferente daquele existente no início da década de setenta. Seria uma comparação anacrónica, descartável. Trata-se antes de tudo, de uma questão de delimitação de áreas de influência e da óbvia vontade russa de afastar o mais possível da proximidade do seu centro administrativo, qualquer presença militar ocidental. Funciona como sempre, o complexo adquirido após a esmagadora derrota  de Briansk-Viazma, a sempre presente lição que paira nos espíritos dos responsáveis políticos e militares russos, em perfeito paralelo com os ensinamentos dados pela doutrina da defesa elástica concebida pelo marechal Von Manstein, cuidadosamente estudada pelos Aliados ocidentais.

 

Tal como a França dos anos vinte gizou o chamado Cordão Sanitário - Polónia, Checoslováquia, Roménia e Jugoslávia - que conteria a possibilidade de um revanchismo alemão, hoje estamos perante o ensejo russo de pelo menos garantir a neutralização da Ucrânia, servindo-se Moscovo das  minorias nacionais russas, como uma arma de pressão para conseguir os seus fins. A não-finlandização militar da Ucrânia, poderá significar a pesada contrapartida do eternizar do conflito naquele país, assim como a já quase certa perda ucraniana de importantes territórios limítrofes do Mar de Azov e Mar Negro. O assunto é desagradável para nós, os ocidentais, mas nem por isso deixará de ser colocado desta forma. 

 

Outro caso a considerar é a posição da Alemanha. Potência sem um real peso militar - airosamente beneficia das bem implícitas exigências aliadas como compensação pela reunificação -, não aparenta querer  aderir sem condições, à continuidade da sua pertença cheque em branco, à Aliança Atlântica tal como ela existiu ao longo de décadas. A Europa é hoje muito diferente daquela existente em 1988 e as mais directas ameaças à segurança geral apresentam-se noutros possíveis teatros de operações. Em suma, com ou sem exército que se veja, sem a Alemanha não é possível qualquer tipo de frente coerente. Se os outros europeus e os norte-americanos aceitam esta realidade, essa é a grande incógnita. 

 

Em referência às conclusões tiradas após Estalinegrado, o general Francisco Franco declarava a Sir Samuel Hoare - um conhecido appeaser que paradoxalmente bastante contribuiria para manter os espanhóis fora do Eixo - , embaixador britânico em Madrid: "se o curso da guerra não se transformar de maneira decisiva, os exércitos russos penetrarão profundamente no território da Alemanha (...) existirá na Europa central, um bricabraque de raças e nações desunidas (...) uma potência capaz de se opôr eficazmente às ambições de Estaline?  É esta a pergunta que a mim próprio faço. Não, não existe (...) se a Alemanha não existisse, nós deveríamos criá-la. É ridículo acreditar que uma federação de letões, de polacos, de checos e de romenos poderia substituí-la. Semelhante liga de Estados cairia rapidamente sob o poder dos russos. (Guderian, Heinz: Memórias Dum Soldado, Paris, Plon, 1954, pág. 288)


Recorrendo ou não ao informal "pacto de Visegrado", amalgamando melhor ou pior todos os países Bálticos, a Polónia e a Roménia, será isto suficiente para alguém falar ou até agir em nome da NATO? Não é, até porque para disfarçar-se uma acção unilateral com uma aliança, podem os interessados recorrer à boa vontade de Andorra, S. Marino e Mónaco. 

publicado às 18:05

Atomium Walesa

por Nuno Castelo-Branco, em 25.09.14

 

 Nada mais nada menos, senão bombas atómicas emprestadas ou alugadas (sic), tallvez num sistema lend & lease ou rent a car.

 

O Nobel da Paz Sr. Walesa, ainda não entendeu algo que parece evidente a qualquer aluno do ciclo preparatório: a utilização de uma arma nuclear,  por muito táctica que esta seja, poderá advir de um momento furtuito ditado pelo desespero. Enganam-se aqueles que julgam impossível uma escalada. Ou anda alguém a acicatar o  Sr. Walesa a ouvir empolgantes discursos bomben mit bomben, ou então, pretenderá o ex-sindicalista-presidente uma Polónia ainda mais deslocada para ocidente, com capital em Móstoles, Voisins-le Bretonneux ou no Cacém? 

publicado às 11:43

O império da União Europeia

por John Wolf, em 16.09.14

A matriz cultural europeia assume, de um modo irrefutável, que ocupa um papel de relevo em termos civilizacionais. Ao longo dos séculos, e em particular, a partir das correntes de Iluminismo que se verteram em Inglaterra, na França e na Alemanha, foi-se aceitando com naturalidade a ideia de superioridade moral, de desígnio quase teológico da Europa. E essa ideia, expansionista e conquistadora, consubstanciou-se, por exemplo, quer no império napeolónico quer na expressão ultramarina do império britânico. Em suma, os impérios não são um exclusivo dos oponentes, dos inimigos. O império Prussiano, assim como os demais, podem equiparar-se ao império Russo no que diz respeito aos seus intentos e aos próprios métodos: anexaram, mataram, integraram, arrasaram as estruturas políticas existentes - criaram novas ordens. Contudo, enquanto a Rússia seguiu uma via autónoma, baseada numa cultura distinta, a Europa Ocidental procurou estabilizar um conjunto de regras. O grande legado da Europa dos tempos presentes reside na força da lei, nas doutrinas de legalidade que estabelecem limites para a actuação, quer numa lógica interna quer numa abordagem externa. A invenção que a Comunidade Económica Europeia representa, e mais tarde a União Europeia aprofunda, será a versão moderna de um conceito imperial de perfil suave. Pela via positiva e de atracção, a Europa encontrou uma fórmula para se alargar económica e socialmente, mas ignorou a importância da sua expressão política e militar. A Europa, embora tenha tido projectos de auto-suficiência militar, como foi a falhada União da Europa Ocidental, nunca procurou efectivamente consolidar o seu corpo e braços armados. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) havia sempre funcionado numa lógica de blocos, de jogo a dois, de guerra fria. Mas esses tempos findaram, mas certas dinâmicas não foram interrompidas, mas meramente atrasadas por novas nomenclaturas. Nessa medida, a Rússia escolheu o seu momento com grande sentido de precisão. A crise económica europeia, a indefinição dos EUA no que diz respeito à sua política externa proactiva ou a ameaça do fundamentalismo islâmico devem ser entendidos como catalisadores da política externa russa, dificilmente interpretada pelos quadros operativos convencionais e pelos processos de pensamento transatlânticos. A tése de defesa do espaço vital natural da Rússia colide com uma outra ideia tida a seu respeito; o (re)assumir da sua expressão imperial, de superpotência. A pergunta que se coloca ao Ocidente e em particular à União Europeia, prende-se com o modo de travar os avanços russos quando o engagement da Rússia parece ser cada vez mais difícil. A construção europeia deve rapidamente pensar do mesmo modo que a Rússia, mas servindo-se do seu maior património: a sua expressão democrática positivista e pacífica. Numa lógica de alargamento, a União Europeia (UE), talvez possa procurar circumnavegar a zona de fricção, os pontos de contacto onde distintos interesses nacionais colidem. A UE deveria realizar um salto indutivo e pensar uma configuração que transcenda o mainland do seu pensamento. A Europa poderia, de um modo estratégico, pensar num alargamento a sul, obviando o paradigma continental clássico, e abraçar novos parceiros em regiões não contíguas ao continente europeu. Nessa medida, o reino de Marrocos poderia ser um bom candidato para consolidar a expressão política e económica de uma Europa fustigada por razões endémicas agravadas. Um país islâmico moderado como Marrocos, ao ser "fraternizado" pela UE, serviria o processo de relacionamento com o desafio islâmico radical que se nos apresenta. Um conceito de "se não os podes vencer, estende-lhes a mão" poderia servir para tratar problemas considerados insanáveis e que residem na centralidade europeia. Quer a França quer a Alemanha terão de lidar a breve trecho com a intensa expressão de comunidades muçulmanas residentes nos seus países. A Rússia, por outro lado, já entendeu que pode extrair força dos seus cidadãos onde quer que estes se encontrem. A Europa continua atada a velhos pressupostos e tarda em avançar para algo realmente surpreendente. Para desarmar Putin dos seus argumentos e intentos, há que pensar de um modo excêntrico, seguindo linhas de orientação emancipadas do passado. Se realmente quisermos, sabemos o que nos reserva o futuro. Procurar no passado talvez não sirva de grande coisa.

publicado às 09:03

Putin e a independência da Escócia

por John Wolf, em 14.09.14

Os movimentos falsamente separatistas ou de anexação que se têm vindo a desenovolver nos limites da Europa convencional ou para além da sua matriz política, instigados e levados a cabo pela Rússia, na Geórgia, na Ucrânia, com uma nítida expressão na Crimeia em tempos mais recentes, embora desligados dos pressupostos nacionais europeus, podem ser reconduzidos aos mesmos. O referendo escocês, respeitante à sua independência, intensificou reinvindicações antigas e certamente fará eclodir novas solicitações de autonomia. Ambrose Evans-Pritchard releva, de um modo abrangente, quais os candidatos à fragmentação da Europa. Uma interpretação excêntrica e ousada destes eventos de dispersão, obriga os decisores da União Europeia a ter de pensar uma lógica inversa na (de) construção europeia. A haver expressão democrática e positiva no sentido da independência nacional de um conjunto de povos residentes na União Europeia, o Tratado da União Europeia torna-se parcialmente obsoleto ou conceptualmente irrelevante. As forças centrifugas e de concentração política que se acham firmadas na constituição europeia, estão a ser ultrapassadas pela realidade. Embora seja impensável uma intervenção britânica para proteger os direitos dos cidadãos que residem na Escócia, Putin lança no seio da Europa ocidental o perfume dos seus argumentos e da sua acção. De um modo pensado ou não, a verdade é que a analogia entre um cenário e outro, poderá ser resgatada para plantar divisões nas hostes da centralidade da União Europeia. Existem muitos modos de levar a guerra ao inimigo, e a Rússia não hesitará em partilhar os seus métodos com as partes interessadas. Numa lógica ainda mais ultrajante, imaginemos o apoio que a grande Rússia poderia emprestar aos diferentes movimentos nacionais que se encontram espalhados pelo mainland da Europa ocidental. Eu sei que talvez seja uma extrapolação exagerada, a roçar os limites da racionalidade teutónica, mas todas as possibilidades devem ser colocadas em cima da mesa. De Berlim a Londres, da Catalunha ao reino dos Algarves.

publicado às 09:52

No, Sir!

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.14

 

Andamos todos amnésicos de uma história que a maioria dos actualmente vivos não conheceu, mas sem dúvida bastante documentada e à disposição da sua descoberta por quem nela se interessar. Se o pós-II Guerra Mundial foi registado por milhares de documentários para sempre testemunhando a miséria e o sofrimento, imaginemos então o que seríamos forçados a passar, no caso de sobrevivermos, após um conflito entre os EUA e a Rússia. 

 

Nestas danças da chuva que em tan-tans e círculos anuncia a mobilização, há que recorrer a expressões em inglês, pois consiste numa boa forma de vincarmos bem  a urgência da situação. Por muito que tentemos resistir ao patético sacrifício, este é o mundo em que vivemos.

Ninguém conhece concretamente quais os objectivos russos, pois a queda da União Soviética implicou a rápida desagregação do império construído pelos Romanov e ciosamente conservado pelos seus sucessores do PCUS. O estabelecimento da Comunidade de Estados Independentes, poderá ter parecido como um anúncio de uma correspondente russa da Doutrina de Monroe, mas a realidade da volátil política internacional nos anos noventa, bem depressa implicou o total ignorar dessa clara delimitação de uma esfera de interessas. Logo foram surgindo bases aliadas em territórios outrora integrantes do império russo-soviético, assim como convites endereçados a alguns dos novos Estados - algo até agora sem efeito -,  fazendo-os crer nas inegáveis vantagens de pertença à NATO. Conhecem-se bem as dificuldades vividas na Rússia pós-comunista, também não sendo estranhas as notícias acerca da crescente frustração local perante o ostensivo desprezar dos seus interesses, por parte de um ocidente que inicialmente se apresentava como um horizonte de esperança. Não valerá a pena repetirmos a longa lista de eventos que progressivamente foram separando os parceiros do desanuviamento, hoje em quase aberta hostilidade.

 

No verão de 1939, o ministro Ciano visitou o seu homólogo alemão. Ribbentrop recebeu-o em casa e numa conversa no jardim, o italiano, confundido pelas evasivas e manobras de diversão do seu colega, perguntou-lhe frontalmente:

- Mas afinal o que querem vocês? O Corredor? Dantzig?

 

Olhando-o friamente, Ribbentrop foi lapidar:

- Wir wollen den Krieg!

 

O governo do Reich queria a guerra e não se contentaria com qualquer reedição de Munique. Um ano antes, Mussolini tinha impedido Hitler de atacar a Checoslováquia e tal contratempo não se repetiria.

 

A quem se aplica hoje a expressarão Wir wollen den Krieg? A John Kerry, a Sergei Lavrov ou a ambos? Se esta suposição poderá ser abusiva e anacronicamente transportada para os nossos dias, ficamos tão confundidos como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, não sabendo apontar o dedo a quem verdadeiramente pretenderá despoletar um conflito. Os sinais parecem de difícil destrinça e o subir da parada uma constante, aplicando-se tanto a americanos como aos russos. Além de serem conhecidas as dificuldades internas que Putin parece estar a enfrentar - cercado por falcões ao estilo de Jirinovski e correspondentes relíquias do infelizmente mal-soterrado passado comunista -, também teremos então de atender ao democrático rufar de tambores cujo eco nos chega do lado de lá do Atlântico. Passando sobre o grotesco de certas pretensões que visavam transformar Sebastopol numa espécie de Subic Bay do Mar Negro, a verdade é que ainda poucos de nós entenderam até onde os nossos aliados pretendem chegar, quando anunciam a colocação de forças militares num possível cenário de conflito, a tal deterrence force da salvação. Ninguém acredita na eficácia da criação de um dispositivo militar na Polónia, um dos países da NATO, pois tal exercício de segurança seria naturalmente encarado pelo possível contendor. Algo de muito diferente será a presença de forças militares da Aliança dentro do próprio território ucraniano, seja essa presença devida a um súbito impulso justificado por garantias a caridosamente concedermos - sim, somos aliados na NATO -, seja ela decorrente de um daqueles habituais pedidos de assistência hipoteticamente enviados a partir de Kiev.  Se querem a guerra, então esta é a melhor forma de a obterem: coloquem tanques, soldados, canhões, mísseis e aviões na Ucrânia e de preferência, utilizem-nos nos combates contra os rebeldes.

 

Há quem pense poder iniciar um conflito de forma controlada, nem por isso temendo o epíteto de warmonger. É praticamente inevitável o rápido descambar para uma escalada envolvendo armamente táctico nuclear, relegando as trocas de granadas entre os Abrahms e os T-90, para a condição de algo bastante irrisório, previsível e rotineiro. Mesmo sendo esta uma infeliz eventualidade talvez já considerada pela gente do Pentágono e do correspondente edifício ministerial russo, há sempre que contarmos com a esperança do lamentável incidente se circunscrever ao espaço europeu, deixando a parte mais importante da aliança fora do raio de acção retaliatório. Por muito pueril que tal coisa nos possa parecer, é mesmo um wishful thinking despreocupadamente cultivado. Aparentemente, a Sra. Palin pode hoje ser considerada como uma genial visionária digna de todos os encómios. Dadas as circunstâncias, a dita personagem  poderia mesmo ser a directa candidata a sucessora republicana de Obama. Para os mais entusiastas pelo início de uma Operação Barbarossa 2, o actual mapa proporciona-lhes o ponto de partida numa frente tal como ela surgia nos inícios de 1943. Dali a Kursk, é apenas um salto. 

 

Não é necessário ou desejável qualquer mútuo appeasement, mas tão só o conhecimento de quais os limites pretendidos por russos e americanos. Quem hoje poderá indicá-los de forma concreta e credível? Ninguém. Quanto aos europeus que aparentemente beneficiaram do estiolar dos seus deveres de auto-defesa, russos e americanos arriscam-se seriamente a não encontrarem simpatizantes ou alinhados numa Europa sumamente preocupada consigo própria e por aquilo que vai acontecendo a sul.

 

Já não estamos nos tempos do "Yes, Sir!"

 

publicado às 14:37

O mundo infantil das primárias

por John Wolf, em 12.09.14

Enquanto uns realizam testes primários, outros demonstram ao mundo o valor da ausência da palavra. Enquanto uns discutem IVAs e restaurantes, outros redesenham mapas de continentes. Enquantos uns estão à janela, outros organizam respostas concretas a ameaças substantivas. Enquanto uns falam de traições, outros dão facadas. Enquanto uns estão focados em si, outros sabem que deixaram de ter importância. Enquanto uns angariam simpatizantes, outros inscrevem combatentes. Enquanto uns pensam em tachos, outros aumentam a pressão da panela. Enquanto uns dormem, outros estão acordados. Enquantos uns são o que são, outros nem isso conseguem ser.

publicado às 14:26

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

publicado às 08:16

Ucrânia e o vazio português

por John Wolf, em 04.09.14

Não sei que nome dar ao fenómeno. Mas parece haver um desligamento preocupante entre o que se passa em Portugal e o que está a acontecer lá para para as bandas da Ucrânia. Existe um plano de contingência para o caso de um conflito armado ocorrer e que envolva um dos países fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)? Refiro-me a Portugal como é óbvio. Quais os impactos expectáveis para a economia portuguesa? Que implicações militares, tácticas e logísticas se reservam para Portugal? Existe alguma plataforma de coordenação no plano interno por forma a oferecer uma resposta tendencialmente racional? Será Portugal um porto seguro para células do Estado Islâmico que queiram ampliar o seu espectro de actuação? Mesmo que estejam a decorrer movimentações nos bastidores da administração e processos de brainstorming que procurem o elencar de cenários possíveis, existe uma dimensão que não deve ser alienada: o modo de envolver a sociedade civil na tomada de consciência da gravidade da situação. As televisões nacionais, assim como os outros meios de comunicação social, também contribuem para uma apatia generalizada. Não cumprem os requisitos mínimos de jornalismo sério que deve servir para acordar a sociedade civil e pôr em marcha processos intelectuais. Mas há mais que nos deve preocupar. Seria expectável, face ao grau de emergência em que nos encontramos, que pudéssemos contar com o desempenho competente dos nossos lideres e das organizações que zelam pela defesa nacional e a segurança interna. Qual a posição portuguesa a defender na Cimeira da NATO, mesmo que esta ainda não tenha a sua própria fórmula definida? Ao não haver comunicação, e partilha da relevância deste momento histórico (na intensidade que se exige), Portugal corre ainda maiores riscos. Os impactos negativos que um possível conflito europeu provocará, devem ser salvaguardados sem demoras. É de uma tristeza atroz que não haja noção dos tempos que estamos a viver. Os actuais governantes, assim como os putativos lideres, têm a obrigação de estabelecer a ligação entre os desafios económico-sociais nacionais e o quadro geopolítico internacional. A abordagem ao sistema internacional não pode ser realizada de um modo primário. Portugal partilha fronteiras com a Rússia, a Ucrânia, os EUA e a NATO. Portugal não é uma ilha remota, afastada das decisões tomadas pelos grandes senhores. Quanto às primárias que ocupam os escaparates da política nacional, nem sequer lhes dedico uma linha. São crianças que se encontram a uma distância enorme do mundo real. São peixes que não nadam no aquário. Nada.

publicado às 09:54

Califas, NATO e Remember the Maine

por Nuno Castelo-Branco, em 04.09.14

 

O anúncio da ordem de trabalhos da Cimeira da NATO, parece privilegiar os casos afegão e ucraniano, ambos passíveis de rápida secundarização quando comparados com o problema maior para o Ocidente, precisamente aquele que nos chega às portas de casa, no  Médio Oriente. Ontem foi a vez do regime de Putin ser directamente visado, enquanto a ameaça dirige-se também, via Zawahiri, à Índia. Provavelmente iludidos pelo inebriar da omnipresença na abertura dos noticiários, os radicais estão a erigir uma até agora imprevista coligação internacional que num ápice poderia congraçar potências desavindas. O inestimável serviço prestado ao Ocidente - para eles a Rússia também faz parte do inimigo -, é talvez fruto das grandes esperanças depositadas nos até agora  condescendentes sistemas jurídicos europeus, sempre lestos nas garantias conducentes ao laissez-faire e à impunidade de meliantes dos mais variados tipos.

Cameron disse algo que decerto será contestado nas instâncias que vigiam o Estado de Direito, como se este não se encontrasse em causa pela intervenção despudorada daqueles que nele se resguardam. O primeiro-ministro britânico deveria ser obrigatoriamente secundado por todos os seus pares da Aliança Atlântica, numa clara manifestação de solidariedade que sirva de mensagem enviada urbi et orbi. É mesmo este o dilema em que nos encontramos e que para Al Qaeda - o ""califado" não passa de um elo da mesma cadeia - consiste num trunfo que não hesita em manobrar a seu bel prazer. Conta para isso com os prestimosos serviços de uma boa parte da esquerda europeia ferozmente anti-ocidental, precisamente aquele pendor suicidário que encontra no Cavalo de Tróia o eterno exemplo por todos facilmente identificável. Embora seja este um tema passível de apressadas interpretações conducentes às ladainhas da discriminação, os dirigentes da subversão contam ainda com a chantagem emocional exercida sobre as comunidades formalmente muçulmanas existentes em numerosos países europeus. Num misto de despeito histórico pelos há séculos extintos fulgores de Bagdade e de Córdova, os rancores decorrentes do passado colonial e a progressiva ruptura das políticas de integração - aliás rejeitadas por amplos sectores daqueles que deveriam ser os principais interessados nas mesmas -, estas comunidades poderão a breve prazo assistir ao desencadear de um processo de intensa propaganda veiculada pelos radicais, na própria Europa designando um terreno arável pela jihad


Deveria ser este o assunto principal a tratar pelos parceiros da NATO, desde já aproveitando-se a oportunidade de estender o diálogo ao Kremlin, à Ucrânia e porque não?, aos agora directamente ameaçados indianos. Por muito pueris que possam parecer estas inciativas, não deixariam, contudo, de significar o início de algo que preencheria o vazio, ou pior ainda, o atoleiro em que o Ocidente se encontra.

 

O "outro lado" tem um longo historial de mentiras, abusos, negação ou incumprimento de tratados e reserva mental? É verdade, não se trata de uma suposição ou de mera propaganda alardeada pelo negregado imperialismo. No entanto, uma mais moderada recíprocidade existe, desde os tempos em que alegámos a existência de armas de destruição maciça - nunca encontradas, mas decerto transportadas para jamais vislumbradas grutas da Ali Babá -, até ao engenhoso encontrar de inimigos perversos pelos Pulitzer e Hearst do nosso mundo, os capazes de tudo para a obtenção não se sabe de qual fim.

A mensagem deve ser nítida, sem a menor possibilidade de duvidosas interpretações. Não poderá ficar a impressão de um mero regresso ao bandoleirismo internacional um dia enunciado por Theodore Roosevel: "dou as boas-vindas a qualquer guerra, porque acho que este país necessita de uma".

Não, desta vez não pode ser desta forma.

 

publicado às 09:46

O longo telegrama de Putin

por John Wolf, em 03.09.14

Coloquem no mesmo saco Realpolitik, estratégia, processos de tomada de decisão, política externa, propaganda, comunicação, poder económico, capacidade bélica, a história imperial da Rússia, a ex-superpotência União Soviética, o controlo dos média, os métodos políticos não convencionais,  a repressão política interna, a condição geopolítica hibrída europeia-euro-asiática do país em causa, uma oligarquia, a Esquerda, a Direita, Capitalismo,  Socialismo e Comunismo, e agitem muito bem, e terão o campeão de pesos-pesados de seu nome Putin. Não pensem por um instante que estamos a lidar com um louco que acordou para aí virado. Não se deixem enganar pela pausa forçada sobre as potências ocidentais e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Para começar a entender Putin, há que pensar como Putin. Para poder antecipar a Rússia, há que saber antecipar a sua antecipação. Para quem se deixa levar pelo brinde de um cessar-fogo acordado a escassas horas do início da cimeira da NATO (que amanhã tem início no País de Gales), relembro que Putin é hábil na transferência do ónus da questão. A NATO que já vinha preparando uma linha dura de resposta à Rússia e as suas incursões ucranianas (e outras que decerto se seguirão), pode vir a ser vislumbrada como a má da fita nesta história. No jogo de espelhos e percepções, Putin passa de agressor a vítima - a campeão da paz alcançada com a Ucrânia e a destinatário da mensagem agressora da NATO. A formulação da política externa dos EUA, e por arrasto dos países nucleares da União Europeia, parece não aproveitar lições dadas há décadas. Não peço um conselho de sábios, mas um George Kennan dos anos noventa aos dias de hoje teria dado algum jeito. No longo telegrama enviado do seu posto diplomático de Moscovo em 1946, Kennan refere a urgência da contenção dos desígnios expansionistas da União Soviética. Embora a história não se repita, a mesma pode ser alvo de desejos revisionistas (ou revanchistas ). Putin desenhou uma estratégia que vai muito para além da estância balnear da Crimeia ou do último reduto de Kiev. Os lideres ocidentais, que partilham o património atlântico e uma parte da história, se desejam efectivamente tirar o tapete por debaixo dos pés de Putin, devem pensar com grande avanço sobre os intentos russos. Devem estar adiantados no tabuleiro. Devem desejar o melhor, mas esperar o pior. Devem esboçar diversos cenários que envolvam resquícios de dominós em queda, porque a pequena paragem que Putin se nos oferece, não serve para inverter a direcção da sua marcha. Servirá apenas para deslocar o ângulo de vista de algo, que para alguns constitui um problema, mas que para outros será a única solução.

publicado às 14:49

By the rivers of Babylon

por Nuno Castelo-Branco, em 01.09.14

A mensagem que passa para a generalidade da receosa opinião pública ocidental, apenas indica algo de muito embaraçoso: desespero.

Num ápice, os guerreiros curdos passaram a ser uma das rações de emergência a tomar por quem se sente ameaçado pelo pretenso califado. E quem tem então essa sensação de insegurança? Todos, desde Assad aos governantes de Bagdade, seguindo-se-lhes o rei Abdalá, o rei Abdulá, os EUA, toda a Europa e talvez, Israel.

 

Nos Estados Unidos da América, é praticamente consuetudinária uma expressão que indica um programa tendente à obtenção da vitória: Peace on Earth. Quem queira um dia sentar-se no cadeirão da Sala Oval ou no trono de Miss USA, infalivelmente a pronunciará. 

 

O Prémio Nobel da Paz, o Sr.  Obama, não julga oportuna a deslocação de forças de combate para o prolongamento daquilo que foi a campanha do Iraque. Queiramos ou não queiramos aceitar este facto, os actuais acontecimentos são indissociáveis daqueles ocorridos há uma década. Britânicos - os verdadeiros e não os Omar, Karim e Moamedes das notícias trágicas -, os alemães, australianos e outros, declaram todo o interesse no envio de armas aos até agora incipientes peshmergas. A ser assim, apenas duas questões:

1. Conhecendo-se a até agora férrea oposição turca - e Síria e iraniana - a qualquer concessão ao grupo curdo que ameaça as fronteiras gizadas após a queda do Império Otomano, como reagirá Ancara - ou melhor dizendo, os seus militares - a este súbito e desvelado amor aos combatentes curdos? Não temerão a repetição dos iniciais entusiasmos pelos mujahedin dos tempos da guerra russo-afegã? 

 

2. Uma hipotética vitória curda, mesmo que poderosamente apoiada pelo Ocidente, não poderá deixar de ter reflexos políticos em termos de organização territorial, ou seja, o fim da sagrada intangibilidade das fronteiras. 

 

A proclamação da independência do Curdistão iraquiano será algo de pacífico para a Turquia, Irão, Síria e para a própria ficção que hoje é o Iraque? 

 

À primeira vista, a ingrata solução apenas poderá ser aquela que todos temem e ainda vão negando: a colocação de um importante contingente internacional naquele teatro de operações, significando isto a resolução de vários outros problemas aparentemente insolúveis: a relevância do interesse do apoio russo e as incontornáveis negociações com Assad. Com a situação criada na zona a norte do Mar de Azov, até poderíamos de forma anacrónica e irrealista, traçar um paralelo: Suez e o praticamente simultâneo cerco e destruição de Budapeste, em 1956. É que nestes casos da grande política, ao oportunismo chama-se oportunidade. 

publicado às 15:41

Putin decide mais Austeridade para a Europa

por John Wolf, em 30.08.14

A grande maioria dos comentadores ou analistas políticos tende a pensar dentro de uma caixa. Elege um conjunto de elementos operativos, convenções e pressupostos, e disponibiliza a sua visão do mundo. E existe um perigo assinalável quando nos deixamos repousar em determinados conceitos intelectuais, como se os mesmos fossem intocáveis. Recentemente têm surgido alguns académicos suficientemente ousados para abalar as suas próprias fundações. Nassim Taleb será um deles - o inconveniente professor de incerteza da Universidade de Nova Iorque -, que entre outros feitos, definiu o conceito de "extremistão": a dimensão onde factos tidos como improváveis acontecem. Vem esta dissertação a propósito da evolução do conflito que opõe a Ucrânia à Rússia e as consequências do seu agravamento para o resto do mundo. Ontem escutei atentamente outro analista que merece a nossa consideração por ter sido capaz de prever muitos acontecimentos que abalaram o frágil equilíbrio do sistema financeiro-económico. Dennis Gartman é mundialmente conhecido pela publicação diária de um relatório sintético que serve de alimento para processos de reflexão nos campos político, financeiro e económico- The Gartman Letter. Na entrevista que concedeu ao não menos hábil Tom Keene no programa de rádio Surveillance da Bloomberg, Gartman alerta a Europa para uma distinta e nova forma de austeridade imposta pela Rússia à Europa. No fogo-cruzado de sanções que parece estar a entrar numa fase mais aguda, a União Europeia sofrerá os efeitos da política externa destemida de Putin. Embora não resulte de um processo político convencional, ou de uma Troika dirigida com intenções claras, em termos práticos, o resultado será o mesmo. São implicações deste cariz que parecem não constar da consciência política da Europa, e, à sua escala, de países com a dimensão de Portugal. São cenários de excepção como estes que me preocupam, não tanto pelos factos em si, mas por termos ao leme dos destinos das nossas nações, governantes ou prospectivos lideres com um atroz grau de ingenuidade, um nível de preparação insuficiente. Portugal, mesmo sendo a derradeira fronteira ocidental da Europa, não ficará à margem deste processo. A haver uma guerra europeia, a mesma será de um género inédito, combinando factores de guerrilha convencional com outros meios igualmente devastadores. Há quem acredite que a Rússia esteja a fazer bluff para granjear alguma vantagem táctica, mas num quadro maior de percepções a Rússia procura readmitir o seu Lebensraum, por variadíssimas razões históricas ou histriónicas de Putin. A Europa que se convenceu da estabilidade da paz, necessita rapidamente de repensar os pressupostos do jogo. Portugal,  infelizmente,  será um pequeno mexilhão, mais espectador do que interventor capaz de alterar a força das dinâmicas que já se fazem sentir. Tenhamos algum medo.

publicado às 12:28

Sir Neville Henderson

por Nuno Castelo-Branco, em 28.08.14

 

O caos que parece instalado na Europa oriental, consiste numa boa oportunidade para um revisitar de eventos ocorridos há mais de sete décadas e nos quais alguns procuram encontrar algumas semelhanças, agitando a necessária propaganda mediática de horário FOX/CNN. É possível traçar uma linha paralela entre os procedimentos e factos  que se acumulam com o passar das últimas semanas, mas aquela sugestão de um ponto de encontro numa diagonal política, é totalmente abusivo, porque absurdo. Na aparência semelhantes, as situações conformam adversários muito afastados daqueles actores que nos finais dos anos trinta conduziram a Europa a uma guerra. A própria posição da Rússia é hoje bem diversa daquela ocupada pela URSS de Estaline e quanto ao poderoso capítulo da informação à disposição do escrutínio das opiniões públicas, a realidade é incomparável. Quanto à hegemonia ocidental, essa terminou em 1945.

 

 

von Neurath

 

Sir Neville Henderson foi durante dois anos, o embaixador do Reino Unido em Berlim. Como seria conveniente a uma grande potência, a sua nomeação não decorreu apenas da necessidade do natural preenchimento do lugar que a sua longa carreira de diplomata impunha, mas também por ser um conhecedor não apenas da língua alemã, mas também de influentes sectores da sociedade do Reich. Ao longo da sua interessante obra "Dois anos com Hitler" *, dá-nos a conhecer as profundas dicotomias existentes entre os perenes funcionários da administração alemã que já provinham dos tempos do Império caído em 1918 e aqueles outros que alçados ao poder em Janeiro de 1933, vieram desorganizar o que há muito se considerava como regras elementares e geralmente aceites da conduta entre Estados. Deverão alguns apontar as notas de um certo snobismo de classe que o diplomata vai desfiando a propósito de figuras como Goering, von Papen, o marechal Hindenburg, os amigos von Neurath e Weizsäcker e o outro lado, o dos adventícios do regime - o bem informado Goebbels, Himmler e o incompetente Ribbentrop à cabeça dos demais - que compunham o círculo de próximos do Führer. Henderson não poupa nos epítetos, mas um dos aspectos mais surpreendentes deste seu testemunho, consistirá na evidência do texto não parecer ter sido reformulado após os acontecimentos do verão de 1939. Considerado como um appeaser, Henderson correspondia ao pulsar da imensa maioria da opinião pública ocidental, fosse ela britânica, americana, francesa, belga, italiana ou dos países nórdicos. Era comummente aceite a grave distorsão de uma paz concebida através da imposição daquilo a que oportunamente foi designado como Diktat, paz essa tão diferente de uma outra celebrada um século antes e conseguida após a derrota e queda de Bonaparte. Sir Neville concede crédito às evidentes contradições estabelecidas pelos vários textos condicionantes estabelecidos na zona da Grande Paris, genérica e erradamente designados por Tratado Versalhes: Versalhes, St. Germain, Trianon, Neully e Sévres. Nos anos vinte, as perturbações verificadas na Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e Jugoslávia - não esquecendo o desrespeito relativo à vontade austríaca, a Deutschösterreich, quanto ao seu ingresso na Alemanha -, conduziram a Europa à premente necessidade da manutenção, mesmo que provisória, de um status quo territorial que por sinal correspondia perfeitamente ao termo Armistício. A verdade é que sem qualquer negociação, a Versalhes não podia  ser atribuída a categoria de uma Paz outrora aposta aos acordos da Vestefália, Pirinéus, Amiens ou Viena. Desta forma era tacitamente aceite uma situação cujo carácter provisório apenas adiava as alterações que num período pretendidamente longínquo, inevitavelmente chegariam. 

 

 

Ribbentrop, Estaline e Molotov, 23 de Agosto de 1939

 

Quais foram então os aspectos que mais chocaram um diplomata da velha escola - afinal, a única concebível - quando chegado à Alemanha, iniciou os seus serviços no sentido da defesa dos interesses britânicos, obviamente coincidentes com os da maioria dos países vizinhos do Reich? Em primeiro lugar, o modus operandi do novo titular dos Negócios Estrangeiros que por infelicidade substituiu Neurath. Hitler lobrigava em Ribbentrop um "novo Bismarck", quando a quase todos saltava à vista a evidência de o novo ministro representar  o posto do homem de Estado que foi o Chanceler de Ferro. No dito jocoso de H. Goering, ..."Ribbentrop conhece a França através do cognac e a Grã-Bretanha pelo whisky". Sendo a Alemanha uma grande potência - e ainda hoje  aufere desse estatuto - a sua diplomacia e a correspondente acção do seu governo não podia escapar ao crivo dos procedimentos normais que garantiam a fiabilidade junto dos interlocutores, por muito desconfiados que estes estivessem desde a ascensão de Hitler à Chancelaria. A partir de 1937, Berlim enveredaria por um tipo de política impulsiva e de clara chantagem militar prontamente seguida pelos vizinhos soviéticos e em boa parte ditada por considerações ideológicas às quais o oportunismo imprimia uma tal marca que tornava impossível qualquer negociação atempada e a necessária base de confiança para a mesma. A Áustria e os Sudetas quiseram fazer parte da Alemanha do pós-Grande Guerra? Sim, não era uma suposição, tratou-se de uma vontade impedida pelos interesses regionais da França e dos belicosos novos Estados saídos de partes do império austro-húngaro, nomeadamente a Checoslováquia, a Polónia, a Roménia e a Jugoslávia. O Princípio das Nacionalidades que servira como catalisador do discurso anti-Impérios Centrais, foi assim desacreditado pelos paladinos do mesmo, oferecendo no decorrer dos dificílimos anos vinte e trinta, poderosos argumentos aos revisionistas de fronteiras, fossem eles alemães, húngaros, soviéticos, italianos ou até, os largamente beneficiados polacos. 

 

A execração do appeasement tem então início já no seu período final, precisamente aquele coincidente com o processo de anexação da Áustria e na vincada opinião de Henderson, após a Noite de Cristal. Não foi aquela absorção o móbil para o levantar de oposições nos parlamentos e imprensa dos países ocidentais - Churchill começou a ser mais escutado e seguido -, mas sim a fórmula sob a qual foi o Anschluss (1938) conseguido. Pesando as possibilidades e perante a ameaça que Schushnigg representava quanto a uma restauração dos Habsburgos - algo que poderia irreversivelmente alterar a correlação de forças em presença, dada a situação da Hungria e os problemas nacionais na Checoslováquia -, os acontecimentos foram deliberadamente precipitados. Verificada a situação desastrosa em que se encontrava económica e socialmente a Áustria, é bastante provável que a celebração de um imediato plebiscito tivesse consagrado a vitória dos integracionistas, mas a agenda de afirmação do nacional-socialismo, impeliu o governo alemão à política do tudo ou nada que fatalmente conduziria à guerra. O Ja ou o Nein a manifestar no boletim plebiscitário, foram opções após o facto consumado. Hitler pretendia tornar bem nítido o império da sua vontade, fazendo passar a mensagem de tudo lhe ser permitido, porque razoável e de direito, enroupando a política externa numa confusa Babel de racialismo e de Lebensraum. Aplicava-se então um sucedâneo da política leninista da salamização, exigindo-se sempre mais e mais, estando a informação interna cuidadosamente organizada para a identificação do inimigo de um dado momento. Mesmo os sacrossantos fundamentos nacional-socialistas de união do todo nacional alemão, ficaram destruídos com a incorporação dos checos da Boémia-Morávia, quebrando qualquer hipótese de reedição da até então imparável política de apaziguamento. 

 

 Emil Hacha e Hitler, Berlim, 14 de Março de 1939

 

Os encontros entre Hitler e Schuschigg e mais tarde, com Emil Hacha, ultrapassaram os limites do mais ténue decoro. As conferências celebradas entre o Führer e os representantes da França (Daladier) e da Grã-Bretanha (Chamberlain), também foram exemplos do advento da grosseira guerrilha psicológica à mesa das negociações diplomáticas, sendo estilhaçadas todas as normas de conduta até então vigentes. A má fé onde o capricho e o rasgar de documentos recentes parecia ser a regra, desvaneceram todas as ilusões quanto a um acordo geral que conformasse as partes e salvasse a periclitante paz do Armistício.

 

Sir Neville Henderson falhou a sua missão em Berlim. Falhou porque ao contrário dos diplomatas que vinham dos tempos do Kaiser e de Weimar, teve como interlocutor um arauto do programa do Partido que nos postulados do Mein Kampf conhecia o único rumo possível. Sabe-se que naquele momento, a rainha Isabel, mãe da actual monarca, aconselhava os políticos britânicos a lerem o livro escrito por Hitler, pois não fazê-lo consistia num tremendo erro, ignorando-se assim um detalhado programa político que estava a ser paulatinamente cumprido. Este é um daqueles aspectos  tardiamente apercebidos por Sir Neville e que no teoricamente arqui-inimigo de Hitler, o mundo soviético, encontrava perfeito correspondente quanto à submissão a imaginadas infalibilidades que à época se traduziam na acção do Komintern. Logo isto se confirmaria no pacto de 23 de Agosto de 1939, no ataque russo à Polónia (Setembro de 1939), na guerra de espoliação feita à Finlândia (1939), na invasão e anexação da Estónia, Letónia e Lituânia (1940) e no Ultimatum enviado a Bucareste, conduzindo ao forçado abandono romeno da Moldávia e da Bucovina (1940).

 

Miguel I, rei da Roménia

 

Este tipo de política alicerçada  em factos consumados, mais tarde virar-se-ia contra os próprios interessados nas mesmas e se quisermos um bom exemplo, o golpe executado pelo rei Miguel I em 23 de Agosto de 1944 - exactamente cinco anos após a assinatura do Pacto Germano-Soviético - , subtrairia ao Eixo aquele que tinha na Roménia, o seu aliado militar mais forte. O problema da continuidade de procedimentos estranhos à tradicional compostura nas relações entre Estados, verificar-se-ia como uma constante nos anos subsequentes à guerra e uma vez mais na Roménia se repetiram episódios muito próximos das ameaças e coacção moral outrora impostas ao presidente Hacha. Ainda hoje, decorridas sete décadas, Miguel I de Hohenzollern continua a mostrar aos seus convidados - Putin entre eles -, a marca deixada na secretária do palácio Elisabeta pela coronha da pistola de Groza, actuando a mando de Vichinsky. Enviado por Estaline e Molotov a Bucareste, aquele que ficara famoso durante a purga de 1936-38, conseguira assim a imediata abdicação do monarca. 

 

Chamberlain, Henderson e Hitler em Munique, 30 de Setembro de 1938

 

 O que é então possível encontrarmos nesta obra, como referências a acontecimentos que nos são temporalmente próximos? Antes das situações a comparar - ao contrário daquilo que a sra. Clinton quer fazer crer, o caso dos Sudetas não pode ser equiparável à Crimeia, a Donetsk e a Lugansk - , talvez seja prudente avaliarmos os métodos utilizados pela generalidade das chancelarias envolvidas no caso ucraniano, sejam as ocidentais, seja a de Moscovo. Todo o processo tem radicado em erros que se vão acumulando de forma aparentemente irreparável, desde aqueles cometidos aquando da implosão da União Soviética - o aceitar das artificiais fronteiras das ex-pretensas repúblicas componentes da URSS -, até à cegueira manifestada perante os interesses em campo. A nenhum ocidental deveria passar despercebida a necessidade de manutenção da sensação de segurança de um país que não deixou de ser um império, ou seja, a Rússia. Tal não foi feito, desaproveitando-se a colossal oportunidade apresentada no início da década de noventa. Liquidado o comunismo, logo surgiu uma miríade de bases militares no próprio espaço que compusera a URSS e ainda, ao contrário das expectativas dos mais pró-ocidentais agentes políticos e militares russos, alargámos a NATO aos Países Bálticos e a todos aqueles que outrora tinham pertencido ao Pacto de Varsóvia. Dada a necessidade de garantir a independência daqueles Estados existentes em 1939, poderíamos ter ficado por aqui, mas não foi esta a opção que se impunha. Tal como uma U.E. em indefinido alargamento, o mesmo ocorre com a NATO. Ainda há pouco meses, o almirante Stavridis declarava a necessidade de Sebastopol passar a pertencer ao  rosário  de bases navais ao serviço da US Navy, quando a situação da Rússia já é bem diversa daquele caos que diante de todos se apresentava há quinze, vinte anos. A desnuclearização da Ucrânia - e a sua independência - também tiveram um preço tacitamente aceite por ambos os campos, numa daquelas clássicas manobras da diplomacia da confiança que nos últimos anos foi escaqueirada em múltiplos cenários vizinhos, desde o Iraque até aos Balcãs e ao norte de África. 

 

 S. Lavrov e J. Kerry

 

Perdido parece estar o tempo em que os titulares dos negócios Estrangeiros eram internacionalmente conhecidos. Durante muitos anos era normal os ministros continuarem no cargo, servindo chefes de governo oriundos de partidos diferentes. Era este o caso Hans Dietrich Genscher que passou por vários governos do SPD e acabou servindo o democrata-cristão da reunificação alemã, o chanceler Helmut Kohl. Tudo mudou e nem sempre para melhor. Fica então, a estranha sensação de o Ocidente não saber com quem está, ou pretende fazer política na Rússia. S. Lavrov não é propriamente uma réplica dos descartáveis Kerry, Ashton ou Fabius. Mesmo que o regime russo correspondesse aos que naturalmente vigoram para aquém do Vístula, jamais a Rússia poderia deixar de ser encarada como uma entidade que  junto do seu povo, nunca perdeu a condição de superpotência. Foi, ainda é e será um império. Aqui está um dos erros, entre uma infinidade de outros, dos nossos inconscientes aprendizes de Ribbentrop -  no seguimento das mirabolantes descobertas químicas  de G. W. Bush, conhecerá o sr. Kerry este nome?  -, sabendo-se que como interlocutores têm, na melhor das hipóteses um S. Lavrov e o bastante condicionado V. Putin. Com quem pretende o Ocidente dialogar? A política do querer mais e mais, do tudo ou nada, encontra a resposta correspondente numa direcção política sob o fogo de múltiplos interesses, desde os saudosistas representados pelo fanado Partido Comunista e respectiva gerontocracia militar, até aos febris nacionalistas entre os quais V. Jirinovsky não passará de um, entre muitos. Há ainda que contar com a condicionante representada pela formação de mentalidades ao longo de décadas cultivadas pelo desaparecido hiper-nacionalista regime soviético da Grande Rússia, sob o disfarce de um edílico e jamais confirmado internacionalismo. Infelizmente, é agora óbvia a falta de interesse que para o Ocidente representaria uma Ucrânia neutral, mesmo que internamente organizada segundo o contentamento das minorias russas que também a compõem. 

 

Não existe qualquer benefício a retirar de uma política de appeasement, seja ela em benefício do bloco NATO, ou da Rússia. Há que iniciar um processo muito diferente dos procedimentos habituais, pois a segurança da Europa - e dos EUA - está em risco. Chegámos a um ponto de difícil retorno, pois nem sequer a evidência da necessidade de uma apertada cooperação da NATO com a Rússia nos cenários de conflito próximo, será suficiente para limitar os desastrosos efeitos que parecem sem remédio. É por isso mesmo aconselhável, a leitura do testemunho de Sir Neville Henderson. 

 

* Deux ans avec Hitler, Sir Neville Henderson, 1940, Flammarion, Paris

publicado às 22:00

Há setenta anos, em Moscovo. Ontem, na Ucrânia oriental

por Nuno Castelo-Branco, em 25.08.14

 

"Os garotos apupavam, assobiavam e, mesmo, lançavam objectos à passagem dos alemães; mas os adultos intervinham imediatamente. Os homens mantinham um silêncio feroz. No entanto, numerosas mulheres, sobretudo as mais velhas, manifestavam compaixão (algumas exibiam, mesmo, lágrimas nos olhos) perante aqueles Fritz tão mal vestidos. Recordo-me de ter ouvido uma velha murmurar: "são como os nossos pobres rapazes... roje pugnali na vainou (também eles foram mandados para a guerra)"

Alexander Werth, correspondente do Sunday Times em Moscovo, in "A Rússia na Guerra. De Estalinegrado a Berlim", Paris, Stock, 1965, p. 203

 

***

 

Há setenta anos e após a catástrofe alemã da Rússia Branca, Estaline fez desfilar 57.600 prisioneiros da Wehrmacht, encaminhando-os depois para o degredo e matadouro siberiano de onde apenas um escassíssimo punhado regressaria dez anos após o fim da II Guerra Mundial. Foi um triunfo à romana com aqueles que seriam prontamente escravizados e abatidos. Desonrando a sua vitória, o ditador soviético organizou um espectáculo que Hitler jamais ousara encenar em Berlim, mesmo quando nos anos anteriores os alemães tinham capturado milhões de soldados polacos, franceses, belgas, holandeses, jugoslavos e gregos (1939, 1940,1941) e apenas numa batalha de cerco, mais de 600.000 prisioneiros capturados ao Exército Vermelho (batalha de Viazma-Briansk).

 

Quando há duas décadas a Ucrânia se separou da Rússia, os seus dirigentes preferiram arriscar-se à repetição dos mesmos erros cometidos em 1919. Como se o exemplo da Checoslováquia - ao qual se acrescentava o da Polónia e da Jugoslávia - não tivesse bastado (aglutinando checos, alemães, eslovacos, húngaros, polacos e ucranianos), Kiev aceitou fronteiras muito dilatadas, herdando-as das convenções dos tempos tempos soviéticos onde o mero pro forma ditava a lei. O resultado está à vista.

 

Ontem os russos patrocinaram uma exibição deplorável, fazendo desfilar diante do bronzeo mamarracho de Lenine - miraculosamente ainda de pé na praça do mesmo nome -, prisioneiros do exército ucraniano. Ao contrário dos mais comedidos espectadores da parada ocorrida na Moscovo do verão de 1944 - onde, como o video demonstra, também eram visíveis alguns dos habituais sorrisos imbecis de oficiais norte-americanos -, os cativos foram vergonhosamente insultados e agredidos por gente dos sete aos setenta e sete anos de idade. Ao contrário dos alemães em 1944, os ucranianos caminharam amarrados! O espectáculo foi cuidadosamente copiado do precedente, nem sequer faltando os camiões lava-estradas. Escandaloso. 

 

As imagens transmitidas pelos noticiários não oferecem a menor dúvida. Pior ainda, as autoridades russas atreveram-se mesmo a declarar que não se tratou de qualquer humilhação. Por muita compreensão que se manifeste quanto aos legítimos interesses de segurança da Rússia - uma incontornável cooperante do ocidente -, há que colocar uma questão: dado o que ontem se viu, até onde poderá Moscovo chegar? Irá, tal como Estaline fez, utilizar vagões de mercadorias para deslocar os prisioneiros para o destino do costume?

publicado às 15:30

Criminosas sacanices soviéticas

por Nuno Castelo-Branco, em 05.08.14

Destruída, mas há uns anos reconstruída.

publicado às 21:00

O vídeo que confirma a autoria do atentado

por Pedro Quartin Graça, em 18.07.14

publicado às 19:42

 

Um vídeo desconhecido com as chocantes imagens que abalam o mundo. Aqui, no seu ESTADO SENTIDO !

 

Nota: Apenas imagens aéreas

publicado às 18:53

Uma oportunidade

por Nuno Castelo-Branco, em 21.05.14

Não é preciso ser-se um Talleyrand de café, para de imediato nos apercebermos do potencial de revisão de política que as dificuldades de entendimento entre russos e chineses, poderão representar para o ocidente. Urge um rápido entendimento leste-oeste, precisamente quando a Moscovo surgem perspectivas de uma encruzilhada geoestratégica. A política ditada pelo país tutelar da NATO, tem  produzido as mais desvairadas decisões que em muito enfraquecem e colocam em risco os interesses da Europa. A inegável derrota militar na Síria, soma-se à precipitação quanto ao tratamento a dar ao caso ucraniano, tendo sido sempre privilegiados os ímpetos para a obtenção do sonhado tudo, esse escusado, final e tardio ajuste de contas da já por muitos esquecida Guerra Fria.

 

À Europa interessa uma Rússia cooperante e estabilizada, mas para isso urge convencer os nossos aliados norte-americanos. Não podem ser ultrapassados os limites que a história claramente indica como fundamentais para a sensação de segurança dos russos. Status quo nas áreas de influência estabelecidas após 1991, neutralidade ucraniana e o imperioso evitar de mais focos de fricção no Médio Oriente e na Ásia Central. 

publicado às 09:52

Putin na China

por Nuno Castelo-Branco, em 30.04.14

Consta que V. Putin visitará a China, com este país assinado um contrato de fornecimento de gás natural. É esta a resposta conseguida pelo ocidente e aqui está uma excelente oportunidade oferecida a alguns polos industriais portugueses. Poderemos acelerar a produção de edredões, lanifícios e pijamas-Kispo  destinados à Europa central, oriental e do norte. Será que ainda temos alguém capaz de fabricar escalfetas e braseiras? Prevê-se alguma procura internacional.

publicado às 10:19

Boa noite e boa sorte

por Salvador Cunha, em 25.03.14

Antes de mais quero agradecer ao Samuel pelo simpático convite para me juntar à equipa do Estado Sentido. Espero que enquanto aqui estiver possa trazer contributos interessantes, vocês saber-me-ão dizer se o consegui.

 

Não é a minha primeira experiência na blogosfera, mas para já fiquemos por aqui. Como o Samuel disse trabalho na área de comunicação, embora, neste momento, não esteja ligado à comunicação política, mas sim, empresarial. Nos próximos tempos irei andar aos encontrões e apalpadelas, à procura do meu estilo, espaço e tempo.

 

Espero que tenham paciência e que caso queiram rebater algo, façam-no na certeza de que só vale a pena partir para uma discussão se estivermos dispostos a mudar de opinião. Prometo fazer o mesmo. Não responderei a comentários anónimos.

 

Para começar queria chamar a atenção para um pormenor interessante que li no outro dia, sobre a crise na Ucrânia. Não é de todo o mais relevante aqui, nem procura ser um ponto de partida para qualquer teoria que explique os acontecimentos que dominam a agenda mediática, mas interessou-me...

 

Falo de comunicação num lugar aparentemente improvável, a Praça Maidan. Segundo um trabalho bem interessante do Público, uma das prioridades de quem lutou contra o anterior governo ucraniano é a criação de um gabinete de relações públicas.

 

«Michailo reconhece: “A nossa prioridade agora é criar um departamento de Relações Públicas, para controlarmos o que se diz nos media. Isto é uma guerra da informação. E nós perdemos a guerra da informação com Putin”.»

 

Os acontecimentos na Crimeia foram rápidos a desviar atenções da Maidan, impondo-se na ordem do dia por si próprios, mas também pelo facto daquela ter conseguido o que se tornou no seu objectivo primeiro- a destituição do Presidente Viktor Ianukovitch.

 

Um “departamento” de Relações Públicas pode ser sem dúvida uma boa ideia embora duvide da sua utilidade dado o timming. Porém como se pode ler na mesma peça do Público «a Maidan não está satisfeita com o Governo. E uma segunda vaga da revolução pode começar a qualquer momento.»

 

Se assim for, fará certamente sentido (e julgo que abrirá um precedente), embora duvide que se consiga “controlar” os media. Se nem na “ordem” se consegue, muito menos na “subversão”. Para além de que, dificilmente uma hipotética “segunda vaga" da revolução” seja mais moderada que a primeira o que só iria prejudicar as almas bem-intencionadas. Nesse caso a percepção (não partilhada por mim) de que, a mudança de poder, e tudo o que esta desencadeou se deveu à acção da extrema-direita, será demasiado forte para ser contrariada por qualquer gabinete de relações públicas. Mas boa sorte!

 

 

publicado às 22:07






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