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Samuel, a premissa central do teu texto - que percebo a ser a antecedência do homem face a Deus -, da qual resulta a noção de que Deus é uma criação humana, bem como o deísmo antropomórfico que caracterizas, parece-me padecer de um problema de base, brilhantemente sumariado em Being John Malkovich. Se nós vemos o mundo pelos olhos de Malkovich, o corpo de Malkovich age de acordo com o que cada um de nós quer experimentar. A realidade de "ser John Malkovich" torna-se assim no paradoxo do relativismo absoluto: John Malkovich passa a ver e agir como cada um de nós quer.

Serve a metáfora para dizer que tudo pode ser entendido como uma construção humana, se entenderes que por ser visto pelos teus olhos, humanos, passa a ser uma realidade construída por ti. Naturalmente que foi o homem quem escreveu sobre Deus, porque a escrita é um exercício humano. Faz isso de Deus uma criação humana? Da mesma forma faria de cada mesa uma mesa diferente, consoante quem passasse pelo interior da mente de John Malkovich, e olhasse para a dita mesa. A falácia "post hoc ergo propter hoc" enviesa o conhecimento: não é por a reflexão humana sobre Deus, e a escrita do homem sobre Deus, anteceder uma epifania que admitas como válida, que essa epifania passaria a ser uma construção tua. Ou todo o conhecimento se tornaria relativo, e, como tal, nulo. O que não é o caso! 

No domínio da geometria euclidiana, o Teorema de Pitágoras é uma verdade à espera de ser descoberta, que não muda por ter sido Pitágoras a descobri-la. Fosse outro qualquer, mudasse o nome ao teorema, ele continuaria a conter uma relação indesmentível entre os comprimentos dos lados de um triângulo rectângulo, inscrito num plano.

O Teorema de Pitágoras foi verbalizado por homens. Tornar-se-ia diferente a cada um que passasse pelos olhos de John Malkovich? Não me parece, e por isso não me parece também que toda a verdade seja humana como afirmas. A Matemática é uma colecção de verdades que existem e da qual nos é dado vislumbrar pedaços da sua beleza de tempos a tempos. As verdades ainda não descobertas não são verdades inexistentes. E as existentes são idênticas para qualquer olhar que sobre elas se debruce. Mesmo o último teorema de Fermat sobreviveu séculos, apesar de não demonstrado até recentemente.

 

Se a Verdade existe então, para além do humano, o Absoluto tem também de existir. Porque a Verdade é absoluta. A nossa missão muda radicalmente. Tentamos apreender a verdade, como dizia Newton, trabalhando como anões nas costas de gigantes. Santo Agostinho separava de forma clara a matéria criada da que não o foi. Deus cria. Não é ele próprio matéria criada, e por isso antecede a matéria criada. A concepção humana de Deus pode-lhe ter conferido, em muitos cultos, rostos humanizados. Da mesma forma que estilizamos as representações de extra-terrestres a partir do nosso universo de conhecimento morfológico. Mas o Cristianismo, no que me parece ser um ponto que ilude a tua reflexão, não o faz. Jesus Cristo não é a humanização de Deus, nem a representação de Cristo pretende ser a representação de Deus. Cristo é Deus que veio ao mundo como Homem. E para interagir com os homens. Por isso, numa forma reconhecível pelos homens. Nenhum Homem, diz-nos Jesus, alguma vez viu Deus, na sua vida terrena. Quando muito, alguns tiveram a Fé para reconhecer Deus no homem Jesus Cristo.

Vale a pena recordar o episódio da sarça ardente, em que Moisés interage com Deus na montanha. Pede-lhe para o ver, para o poder apresentar ao povo que tirara do Egipto. E Deus permite-lhe apenas ver a sombra de umas costas numa pedra. Santo Agostinho, em Da Trinidade, conclui que essa sombra é a sombra das costas de Jesus, pois será essa a forma humana que Deus tomará quando vem ao nosso encontro no Novo Testamento.

Não podemos, por isso, confundir antropomorfismo deísta com Cristianismo. É assumido no Cristianismo que não conhecemos o rosto de Deus, nem sabemos se o tem. Foi-nos dado, pelo Seu Amor, conhecer a Cristo, Deus que veio a nós na forma humana. Mas que não consiste na forma (se o conceito se aplica?) do próprio Deus, pois Ele não é matéria criada, nem se situa neste plano de morfologias reconhecíveis. O Deus dos Cristãos é a Trindade Santíssima: uma união perfeita de três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que são uma só, pois cada uma está em todas as outras e são consubstanciais. O Deus é uno e trino. Consubstancial porque todo é Amor. Só se distinguem nas relações recíprocas, mas todos um mesmo Deus.

Convirás, Samuel, que há pouco de antropomórfico, na percepção de um Deus uno e trino, pois essa é uma realidade desconhecida e mesmo misteriosa no nosso plano vivencial....

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publicado às 18:31

 

Como alguns leitores terão notado, nos últimos tempos, especialmente desde que decidi assumir publicamente o meu agnosticismo, tenho-me debruçado, ainda que não tão aprofundadamente como gostaria, sobre a temática da religião, deixando por aqui excertos de autores como Scruton, Jung e Mark Vernon. Na lista de leitura constam ainda obras de Nietzsche, Kierkegaard, Feuerbach, Russell, William Rowe, Hitchens e dos mesmos Scruton, Jung e Vernon. Disto procede, como bem apontaste, Carlos, no primeiro texto em que respondias a um excerto de Vernon, que a verdade é que a minha abordagem à religião é essencialmente filosófica. Mais, eu padeço da mesma incultura religiosa de Camus, ou talvez mais apropriadamente, incultura em relação à religião católica, e é por isso que, embora a Bíblia também faça parte da minha longa lista de leitura, não sou capaz de responder nos mesmos termos simbólicos que utilizas. 

 

Ainda assim, permite-me uma breve réplica para dizer que o ponto que levantas relativamente à ausência do utilitarismo na religião católica - e não é surpreendente a crítica que fazes ao utilitarismo de Vernon, ou não tenha este sido padre da Igreja Anglicana - parece-me poder ser disputado em dois sentidos. O primeiro, é que quando se fala em Salvação somos obrigados desde logo a colocar a questão "o que é a alma?" - que recentemente Edward Feser abordou-; o segundo, é que como Hayek, também ele agnóstico, mostra em The Fatal Conceit, a religião tem, de facto, uma utilidade, mais imanente que transcendente. Distinguindo entre as práticas de comunidades primitivas e das modernas sociedades ocidentais, o autor austríaco salienta que instituições, sistemas morais e tradições evoluíram de forma a gerar e manter um número elevadíssimo de indivíduos, através de uma selecção natural competitiva mas pacífica das tradições de diversos grupos, tradições estas que muitos não entendem ou não apreciam e que até combatem, mas que são fundamentais para a sobrevivência destes grupos. Contudo, quanto ao porquê destas terem sido preservadas contra instintos e até contra o racionalismo construtivista, Hayek assinala que a religião desempenha/ou um papel fundamental (tradução minha): "Devemos parcialmente a crenças místicas e religiosas e, acredito eu, particularmente às principais crenças monoteístas, que tradições benéficas tenham sido preservadas e transmitidas pelo menos o tempo suficiente para permitir a estes grupos que as seguiam crescer e ter a oportunidade de se espalharem através da selecção natural ou cultural. Isto significa que, gostemos ou não, devemos a persistência de certas práticas, e a civilização que resultou destas, em parte ao apoio de crenças que não são verdadeiras – ou verificáveis ou testáveis – no sentido em que são as afirmações científicas, e que certamente não são o resultado de argumentação racional. Eu às vezes penso que pode ser apropriado chamar-lhes, pelo menos como gesto de apreciação, “verdades simbólicas”, visto que elas ajudaram os seus aderentes a ser “frutíferos e multiplicarem-se e reabastecerem a terra e subjugá-la” (Génesis 1:28). Mesmo aqueles entre nós, como eu próprio, que não estão preparados para aceitar a concepção antropomórfica de uma divindade pessoal, têm de admitir que a perda prematura do que consideramos como crenças não factuais, teria privado a humanidade de um poderoso apoio ao longo desenvolvimento da ordem alargada que agora gozamos, e que mesmo agora a perda dessas crenças, quer sejam falsas ou verdadeiras, criaria grandes dificuldades."1

 

Também Jung nos traz alguma luz a este respeito, quando faz a distinção entre credo e religião, que é também útil para responder ao Corcunda. Diz-nos Jung (tradução minha) que "Um credo dá expressão a uma determinada crença coletiva, ao passo que a palavra religião exprime uma relação subjectiva com certos factores metafísicos, extramundanos. Um credo é uma confissão de fé destinada principalmente ao mundo em geral e é, portanto, um assunto intramundano, enquanto o significado e o propósito da religião recaem na relação do indivíduo com Deus (cristianismo, judaísmo, islamismo) ou no caminho da salvação e libertação (budismo). A partir deste facto básico é derivada toda a ética, o que, sem a responsabilidade do indivíduo perante Deus pode ser chamado de nada mais do que moralidade convencional."2

Atendendo à moderna morte de Deus,  quando, em A Gaia Ciência3, Nietzsche aborda o assunto, fá-lo, como Vernon salienta, contando uma história que é ilustrativa da tragédia que, para ele, foi a proclamação da morte de Deus. Diz-nos a personagem do louco (tradução minha): "Como havemos de nos consolar, os assassinos de todos os assassinos? O que era mais sagrado e mais poderoso de tudo o que o mundo já possuiu sangrou até à morte sob as nossas facas: quem vai limpar esse sangue de nós? Que água existe para nos limparmos a nós mesmos? Que festivais de desagravo, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza deste acto demasiado grande para nós? Não deveremos nós próprios tornar-nos deuses simplesmente para parecermos dignos dele?"3 "O homem como o novo Deus", diz-nos Vernon, "quão assustador é este pensamento."4

Nietzsche percebeu claramente o que o Corcunda salienta, tal como Jung, no que diz respeito à ausência de um critério transcendente de verdade: "Ser o aderente de um credo, portanto, não é sempre uma questão religiosa, mas mais frequentemente uma questão social e, como tal, não faz nada para dar ao indivíduo qualquer fundamento. Para suporte ele tem que depender exclusivamente da sua relação com uma autoridade que não é deste mundo. O critério aqui não é a aprovação de um credo, mas o facto psicológico de que a vida do indivíduo não é determinada exclusivamente pelo ego e as suas opiniões ou por factores sociais, mas em igual medida, se não mais, por uma autoridade transcendente. Não são princípios éticos, por mais elevados, ou credos, por mais ortodoxos, que estabelecem as bases para a liberdade e a autonomia do indivíduo, mas simples e unicamente a consciência empírica, a experiência indiscutível de uma intensa relação pessoal e recíproca entre o homem e uma autoridade extramundana que actua como um contrapeso ao "mundo" e a sua "razão."5

Dito isto, importa afirmar que um agnóstico, ou melhor, um pensador ou filósofo agnóstico (aspirante, no meu caso), não é necessariamente irreligioso. Pelo contrário,  enquanto muitos, se não mesmo a maioria dos aderentes a um credo, limitam-se a existir e não a viver, já que aceitam dogmaticamente o que a Igreja do credo lhes diga que está certo e errado, não chegando sequer a debruçarem-se sobre as grandes questões da existência humana, como a existência de Deus, um agnóstico que o seja no sentido que a palavra tomava na Época Vitoriana, ou seja, que tenha a convicção de que nada pode ser conhecido com absoluta certeza mas que se dedica à busca pelo conhecimento com a plena noção dos limites deste e da sua ignorância, não pode deixar de repudiar o fundamentalismo quer dos credos quer do ateísmo, colocando-se numa posição de dúvida que dá corpo ao seu pensamento e à sua forma de estar na vida. Aliás, a sua relação com uma entidade extramundana, exercitando a dúvida, pode inclusive ser mais rica e intensa que a de um crente, como foi o caso de Sócrates. Mais, se o agnosticismo e o ateísmo são até mais velhos que o cristianismo, como pode este clamar estar em contacto ou saber o que é a verdade? E de que verdade falamos em concreto? E por que é que esta tem que ser necessariamente um sub-produto do Divino? Ademais, se aceitarmos que foi o Homem que criou Deus - como eu tendo a aceitar -, temos que a sacralização ocorre(u) do mundano para o extramundano pelo que, em última análise, estamos sempre a aceitar verdades que têm apenas origem humana. Não creio que a modernidade tenha transformado a verdade numa percepção humana, creio que sempre o foi, e que o Iluminismo apenas veio revelá-lo - reforçando o temor em relação à antropomorfização da Vontade Divina. Neste contexto, que outra hipótese temos que não virar-nos para a imanência, mas sabendo que esta não deixa, contudo, pelo menos para mim, de ter ligação à transcendência - na tal posição de dúvida -, e que individualmente cabe-nos adoptar princípios, valores e comportamentos que nos pareçam moralmente correctos, que em última análise, até podem derivar, e em larga medida derivam, da religião - de que as ideologias são, elas próprias, os melhores exemplos, no que à conduta política diz respeito?



1 - F. A. Hayek, The Fatal Conceit: The Errors of Socialism, Indianapolis,Liberty Fund, 1991, pp. 136-137.

2 - Carl Jung, The Undiscovered Self, New York, Back Bay Books, 1957, pp. 20-22.

3 - Friedrich Nietzsche, The Gay Science, New York, Vintage Books, 1974, pp. 181-182.

4 - Mark Vernon, How to be an Agnostic, Basingstoke,Palgrave Macmillan,2011, p. 8.

5 - Carl Jung, Ibid., pp. 22-23.

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publicado às 01:41

Samuel, reconhecendo a valia da reflexão do Mark Vernon, não deixo de sentir perplexidade com a abordagem quase utilitarista que tem da religião. A Fé não tem um propósito em si mesmo, no sentido em que não é proclamado que "o sujeito A deve ter Fé, para poder fazer uma melhor introspecção de si". Reconheço a valia do exercício, e admiro o exame de consciência e a noção das limitações que a proposta do texto potenciam. Mas não é um caminho de validação da religião: conferir-lhe uma utilidade. Precisamente porque a verdadeira Fé não procura ter uma utilidade.

Daí o meu desconforto com o texto anterior em que se citava o mecanismo: a salvação. Pobre daquele que tem fé porque acha que assim se salva. Tem-se Fé, no meu enquadramento religioso, que sabes ser católico romano, porque se adere à Graça: Deus confere-nos a possibilidade de acreditar, e acreditamos. Não esperando nenhum tipo de recompensa por acreditar. A Salvação é a aspiração de uma comunhão eterna com o Deus que amamos: o perpétuo mergulhar da alma no Seu Amor, nas palavras de Bento XVI. E deverá decorrer de uma vida em que se caminhe na imitação da vivência da Caritas. No modelo do Bom Samaritano, que, enquanto teólogo, Joseph Ratzinger, identificou com o próprio Cristo: Deus que se fez homem para vir assistir a sua criatura caída na estrada nesta existência terrena, vergada pelos pecados e males do mundo.

As limitações do humano face ao Criador são enquadráveis no seio da própria religião. Seria interessante, a meu ver, que Vernon reflectisse também sobre a natureza do pecado original. Que contrariamente ao senso comum, não tem uma acepção estritamente sexual: antes resulta do homem, Adão, que tentado a comer da Árvore da Sabedoria, não resistiu, porque iludido de que assim seria conhecedor das mesmas coisas que Deus. A tentação de Adão é querer substituir-se a Deus, podendo governar o mundo com o conhecimento de Deus. Vernon aponta correctamente para a percepção da humildade do homem face ao divino, mas ignora que a tradição judaico-cristã assimila desde o Génesis, essa mesma necessidade de humildade. Nas Escrituras, a condenação do homem não é pela percepção da nudez, mas pela necessidade de se substituir a Deus.

 

 

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publicado às 18:50

Do sentido da Esperança e da Vivência Cristã

por Carlos Santos, em 29.05.12

A abordagem de Camus ao Mito de Sísifo é atravessada da mesma incultura religiosa que marca muitos dos existencialistas do seu tempo. Camus não inventa nada, nem coloca em Sísifo nenhuma questão nova a que o Cristianismo não tivesse já respondido, da forma mais sublime, nas Sagradas Escrituras. A questão da "falta de significado" dos padecimentos do homem no mundo é respondida precisamente por Jesus Cristo: Deus toma a forma da sua criatura eleita, o homem, e vem, como verdadeiro Homem, experimentar as agruras da condição terrena. Ensina-nos S. Tomás de Aquino que Deus cria por Amor, e por Amor vem verificar, na pele de Homem, o suplício das misérias terrenas. Enquanto verdadeiro homem, Cristo, como o Sísifo de Camus, é livre: pode recusar, nada lhe é imposto. Só que o que os Evangelhos nos mostram é que Cristo une, pela oração, a sua vontade humana à vontade divina, pois é também verdadeiro Deus. E com isso suporta todo o padecimento da sua vivência no mundo, que culmina na Paixão e na Cruz. O grito lancinante que replica o Salmo 22, mostra até que ponto o Deus compreende a condição humana! No alto da Cruz, Cristo cita o salmista, "Meu Deus, porque me abandonaste?", dando voz a todas as agruras que no mundo levam o homem a questionar-se da sua sorte. Mas cumprindo com a vontade de Deus, e ressuscitando no terceiro Dia, Cristo responde ao sentido da existência Cristã: Deus não abandonou o Homem, pois o sentido da vivência humana ultrapassa esta efémera passagem terrena.

 

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publicado às 17:47

Mark Vernon, How to be an Agnostic:

 

«What is missing is meaning. A materialistic humanism finds it hard to address the questions of morality, values and spirit. Following the scientific rationalism it holds in high regard, it tends to boil it all down to a discussion of mechanism, rules and laws. This may create an illusion of understanding and a sense of purpose. But meaningless keeps rearing its head because, well, mechanisms, rules and laws are actually not very meaningful. This is why atheism felt like a poverty of spirit to me. This is why ‘Why? Is the cry of our age and we are no longer quite sure who we are. Sisyphus is our hero: forcing the boulder of his humanity to the top of a mountain, hoping to lend it the authority of a high place, only to see it roll down again. In truth, it’s absurd, as Camus realized – and only a few can honestly stomach that thought. ‘Thus wisdom wishes to appear most bright when it doth tax itself,’ says Angelo in Shakespeare’s Measure for Measure.

 

What is doubly distressing is that contemporary Christian discourse often sounds the same way too. It readily loses its humanity and resorts to the same discussion of mechanisms (being saved), rules (being good) and laws (being right). In so doing, it empties itself out.»

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publicado às 13:01

Religião, prazer, morte e razão

por Samuel de Paiva Pires, em 14.05.12

Tarrou, descrevendo Orão em A Peste, de Albert Camus:

 

«Todos se precipitam, pelo contrário, para qualquer coisa que conhecem mal ou que lhes parece mais urgente do que Deus. Ao princípio, quando julgavam que era uma doença como as outras, a religião estava no seu lugar. Mas, quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos dissolve-se então, no crepúsculo ardente e poeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desusada que inflama todo um povo. E também eu sou como eles. Mas quê! A morte nada é para os homens como eu. É um acontecimento que lhes dá razão.»

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publicado às 18:15

A certeza absoluta dispensa provas antropomórficas

por Samuel de Paiva Pires, em 24.03.12

Carl Jung, The Undiscovered Self:

 

"That religious experiences exist no longer needs proof. But it will always remain doubtful whether what metaphysics and theology call God and the gods is the real ground of these experiences. The question is idle, actually, and answers itself by reasons of the subjectively overwhelming numinosity of the experience. Anyone who has had it is seized by it and therefore not in a position to indulge in fruitless metaphysical or epistemological speculations. Absolute certainty brings its own evidence and has no need of anthropomorphic proofs."

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publicado às 19:09

Das verdades estatais às neuroses do homem moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 12.03.12

Carl Jung, The Undiscovered Self:

 

«Whereas the man of today can easily think about and understand all the “truths” dished out to him by the State, his understanding of religion is made considerably more difficult owing to the lack of explanations. (“Do you understand what you are reading?” And he said, “Ho can I, unless some one guides me?” Acts 8:30.) If, despite this, he has still not discarded all his religious convictions, this is because the religious impulse rests on an instinctive basis and is therefore a specifically human function. You can take away a man’s gods, but only to give him others in return. The leaders of the mass State cannot avoid being deified, and wherever crudities of this kind have not yet been put over by force, obsessive factors arise in their stead, charged with demonic energy – for instance, money, work, political influence, and so forth. When any natural human function gets lost, i.e., is denied conscious and intentional expression, a general disturbance results. Hence, it is quite natural that with the triumph of the Goddess of Reason a general neuroticizing of modern man should set in, a dissociation of personality analogous to the splitting of the world today by the Iron Curtain. This boundary line bristling with barbed wire runs through the psyche of modern man, no matter on which side he lives. And just as the typical neurotic is unconscious of his shadow side, so the normal individual, like the neurotic, sees his shadow in his neighbour or in the man beyond the great divide. It has even become a political and social duty to apostrophize the capitalism of the one and the communism of the other as the very devil, so as to fascinate the outward eye and prevent it from looking at the individual life within. But just as the neurotic, despite unconsciousness of his other side, has a dim premonition that all is not well with his psychic economy, so Western man has developed and instinctive interest in his psyche and in “psychology”.»

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publicado às 23:18

A diferença entre religião e credo (Igreja)

por Samuel de Paiva Pires, em 28.02.12

Carl Gustav Jung, The Undiscovered Self:

 

"The religions, however, teach another authority opposed to that of the “world.” The doctrine of the individual’s dependence on God makes just as high a claim upon him as the world does. It may even happen that the absoluteness of this claim estranges him from the word in the same way he is estranged from himself when he succumbs to the collective mentality. He can forfeit his judgment and power of decision in the former case (for the sake of religious doctrine) quite as much as in the latter. This is the goal the religions openly aspire to unless they compromise with the State. When they do, I prefer to call them not “religions” but “creeds.” A creed gives expression to a definite collective belief, whereas the word religion expresses a subjective relationship to certain metaphysical, extramundane factors. A creed is a confession of faith intended chiefly for the world at large and is thus an intramundane affair, while the meaning and purpose of religion lie in the relationship of the individual to God (Christianity, Judaism, Islam) or to the path of salvation and liberation (Buddhism). From this basic fact all ethics is derived, which without the individual’s responsibility before God can be called nothing more than conventional morality.

 

Since they are compromises with mundane reality, the creeds have accordingly seen themselves obliged to undertake a progressive codification of their views, doctrines and customs and in so doing have externalized themselves to such an extent that the authentic religious element in them – the living relationship to and direct confrontation with their extramundane point of reference – has been thrust into the background. The denominational standpoint measures the worth and importance of the subjective religious relationship by the yardstick of traditional doctrine, and where this is not so frequent, as in Protestantism, one immediately hears talk of pietism, sectarianism, eccentricity, and so forth, as soon as anyone claims to be guided by God’s will. A creed coincides with the established Church or, at any rate, forms a public institution whose members include not only true believers but vast numbers of people who can only be described as “indifferent” in matters of religion and who belong to it simply by force of habit. Here the difference between a creed and a religion becomes palpable.

 

To be the adherent of a creed, therefore, is not always a religious matter but more often a social one and, as such, it does nothing to give the individual any foundation. For support he has to depend exclusively on his relation to an authority which is not of this world. The criterion here is not lip service to a creed but the psychological fact that the life of the individual is not determined solely by the ego and its opinions or by social factors, but quite as much, if not more, by a transcendent authority. It is not ethical principles, however lofty, or creeds, however orthodox, that lay the foundations for the freedom and autonomy of the individual, but simply and solely the empirical awareness, the incontrovertible experience of an intensely personal, reciprocal relationship between man and an extramundane authority which acts as a counterpoise to the “world” and its “reason.”"

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publicado às 16:21

Re-ligare

por Samuel de Paiva Pires, em 10.01.12

Com o debate sobre a maçonaria surgiu novamente uma discussão em torno da temática religiosa no blog. Neste sentido, e porque já de há algum tempo a esta parte que esta temática vem surgindo em vários debates por aqui e não só, entendo por bem realizar aqui algo que está na moda por estes dias, uma assumpção.

 

Há alguns anos que ando às voltas com as minhas crenças religiosas e esta discussão voltou a fazer-me pensar nisto. Quando em criança/adolescente acreditava em Deus, mas nunca fui particularmente católico. Apenas acreditava e acredito em algo superior a nós, independentemente dos termos que as instituições humanas utilizem. Daí preferir o protestantismo ao catolicismo, que corta os intermediários que frequentemente levam à antropomorfização da Vontade Divina. Isto, aliás, pode ser facilmente compreendido a partir da minha posição política liberal.

 

Durante a redacção da tese de mestrado, escrevi aqui que a existência de Deus pode ser justificada como uma ordem espontânea, pelo que Deus seria a mão invisível de Adam Smith. Tomei isto como nota mental para desenvolver posteriormente. Ainda não envidei esforços que considere suficientemente satisfatórios para teorizar isto, que poderá ir eventualmente no sentido do panteísmo.

 

Porém, com o passar do tempo, tenho vindo a caminhar no sentido de definir melhor as minhas crenças. E entendo que é chegada a altura de assumir aquilo que mais convictamente sinto, pois se há uns anos procurei ignorar esta questão e separá-la do meu pensamento político, com o aprofundamento de algumas leituras e ensinamentos de mestres vários, entre os quais o Corcunda, tenho vindo a perceber que é fundamental que quem pretende teorizar a política se defina religiosamente, dadas as relações óbvias entre as duas.

 

Desta forma, para que não me tomem por algo que não sou, como tem acontecido em diversas ocasiões, e para que eu possa sentir-me livre para teorizar e justificar o meu pensamento político em virtude do que religiosamente sinto e, portanto, não ter que me justificar perante pensamentos políticos que decorrem de crenças religiosas que não possuo, assumo aqui que não sou católico. Sou agnóstico. Não só por temer a antropomorfização da Vontade Divina, mas também porque convictamente sinto que não posso provar a existência nem a inexistência de Deus. Julgo que é a atitude mais humilde a ter perante a magnificência e a complexidade do Universo e da ideia de Deus.

 

Entendo que já estava na altura de deixar aqui expressa esta minha posição. De resto, continuarei a estudar estes assuntos cada vez com mais afinco, para que possa melhor tentar compreender-me a mim próprio e ao mundo em que vivemos, sempre com as ideias de liberdade e tolerância em mente e sem dogmatismos. 

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publicado às 22:47

Maçonaria, metodologia e religião

por Samuel de Paiva Pires, em 10.01.12

 Algumas breves notas numa réplica 2 em 1 ao Corcunda:

 

1 – O individualismo metodológico está relacionado com o subjectivismo e partindo da área económica que postula a teoria subjectiva de valor, obviamente compreende que aos homens assiste a capacidade de conferir valor. Além do mais, o individualismo metodológico tem diversas correntes, as quais, genericamente, conforme sintetiza Kenneth Arrow, partem do pressuposto que todas as explicações devem ser feitas tendo como variável determinante as acções e reacções dos indivíduos, cuja interacção produz resultados que determinam, por exemplo, o funcionamento da economia e a alocação de recursos. O que não significa, portanto, que o individualismo metodológico descure as instituições, até porque entre as várias correntes deste existe precisamente uma fundamentada inicialmente por Popper e complementada posteriormente por Joseph Agassi que é o individualismo institucional. Eu nunca afirmei que os homens são desligados das instituições, apenas que estes são os únicos que verdadeiramente têm personalidade e capacidade de raciocínio moral.

 

2 – Também não disse que esse erro metodológico, de tomar a parte pelo todo, ou seja, realizar uma inferência cientificamente falsa, significava que se um padre fosse pedófilo, toda a Igreja seria. O que disse é que não se pode precisamente afirmar isso, pois é falso. Mas também é certo que se pode afirmar que há padres pedófilos. O que não faz com que todos sejam. O mesmo é dizer que, perante o caso com que nos deparamos na sociedade portuguesa, há maçons que alegadamente terão incorrido em práticas ilegais, o que não significa que outros maçons o tenham feito. Ademais, quanto a estas práticas, cabe ao Estado de Direito, nomeadamente ao Ministério Público, investigá-las e, caso se comprovem, condená-las. Porque nenhum indivíduo pode estar acima do Estado de Direito, muito menos os que são maçons, pois a tradição maçónica contribuiu precisamente para a criação, fundamentação e implementação do Estado de Direito.

 

3 – É errado dizer que a maçonaria se fundamenta na compreensão do Universo não-revelada, sem Graça. Isso acontece eventualmente na irregular, como pode não acontecer, visto que não é obrigatório. Já a maçonaria anglo-saxónica, regular, não só se fundamenta como obriga a que os maçons tenham uma religião revelada.

 

4 – Quanto ao resto, remeto para o artigo de Fernando Pessoa que já referi, salientando aqui apenas isto:

 

«(…) toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia - a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama "doutrina maçónica" são opiniões individuais de maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São diversíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Athur Edward Waite, ambos eles tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos antimaçons consiste em tentar definir o espírito maçónico em geral pelas afirmações de maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má-fé. O segundo erro dos antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias - as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode porvir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.» 

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publicado às 22:43

Do autismo ou o que o conservadorismo não é

por Samuel de Paiva Pires, em 13.10.10

Michael Oakeshott, On Being Conservative:

 

It is said, for example, that conservatism in politics is the appropriate counterpart of a generally conservative disposition in respect of human conduct: to be reformist in business, in morals or in religion and to be conservative in politics is represented as being inconsistent. It is said that the conservative in politics is so by virtue of holding certain religious beliefs; a belief, for example, in a natural law to be gathered by human experience, and in a providential order reflecting a divine purpose in nature and in human history to which it is the duty of mankind to conform its conduct and departure form which spells injustice and calamity. Further, it is said that a disposition to be conservative in politics reflects what is called an “organic” theory of human society; that it is tied up with a belief in the absolute value of human personality, and with a belief in a primordial propensity of human beings to sin. And the “conservatism” of an Englishman has even been connected with Royalism and Anglicanism.

 

Now, setting aside the minor complaints one might be moved to make about this account of the situation, it seems to me to suffer from one large defect. It is true that many of these beliefs have been held by people disposed to be conservative in political activity, and it may be true that these people have also believed their disposition to be in some way confirmed by them, or even to be founded upon them; but, as I understand it, a disposition to be conservative in politics does not entail either that we should hold these beliefs to be true or even that we should suppose them to be true. Indeed, I do not think it is necessarily connected with any particular beliefs about the universe, about the world in general or about human conduct in general. What it is tied to is certain beliefs about the activity of governing and the instruments of government, and it is in terms of beliefs on these topics, and not on others, that it can be made to appear intelligible. And, to state my view briefly before elaborating it, what makes a conservative disposition in politics intelligible is nothing to do with natural law or a providential order, nothing to do with morals or religion; it is the observation of our current manner of living combined with the belief (which from our point of view need be regarded as no more than an hypothesis) that governing is a specific and limited activity, namely the provision and custody of general rules of conduct, which are understood, not as plans for imposing substantive activities, but as instruments enabling people to pursue the activities of their own choice with the minimum frustration, and therefore something which it is appropriate to be conservative about.

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publicado às 23:36

John Gray e a natureza humana

por Samuel de Paiva Pires, em 19.07.10

 

Retirado da introdução, que podem encontrar aqui:

 

Contemporary humanism is a religion that lacks the insight into human frailty of traditional faiths. In envisioning the universe as the work of a divine person Western monotheism has always been anthropocentric, but it has preserved a sense of mystery, the insight that the nature of things is finally unknowable. In contrast secular rationalists have promoted a type of solipsism. Like the Tlonists of Borges’s fable, examined in Chapter 5, they think the real world and their intellectual constructions are — or can be made to be — identical. Hence the ornate theories of justice devised by credulous philosophers, the elaborate systems of incentives designed by bien-pensant economists and the recondite schemes for taxing emissions advanced by Greens — just the latest of many attempts to reorder human life by the use of reason.


Humankind is not a collective agent that can decide its destiny. If humans are different from other animals it is chiefly in being governed by myths, which are not creations of the will but creatures of the imagination. Emerging unbidden from subterranean regions, they rule the lives of those they possess. Many of the worst crimes of the last century were the work of people possessed by what they believed to be reason. Science is believed to confer a superior rationality on its initiates, but science cannot make us into a rational animal of the kind imagined by humanist philosophers. Humans can anthropomorphize anything, except themselves.


A little realism would surely be useful. Accepting that we are flawed and our problems not fully soluble need not be paralysing; it could make us more flexible and resourceful. But no realist will try to convert the world. The myth-free civilization of secular rationalism is itself the stuff of myth. Myths are fictions, which cannot be true or false; but fictions can be more or less truthful depending on how they capture human experience. No traditional myth is as untruthful as the modern myth of progress. All prevailing philosophies embody the fiction that human life can be altered at will. Better aim for the impossible, they say, than submit to fate. Invariably, the result is a cult of human self-assertion that soon ends in farce.

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publicado às 23:03

Have a nice weekend

por Samuel de Paiva Pires, em 10.07.10

Fundamentar a monarquia através da doutrina do poder divino dos Reis é, no mínimo, anacrónico. Tal como recorrer à fundamentação de Bossuet. É que, absoluto é precisamente a mesma coisa que arbitrário. Desconstruindo, absoluto, do latim absolutus, significa à solta (*). Dizer que o Rei ou o Princípe está enquadrado pela Divindade é de uma arrogância suprema (que Saramago, em Caim, demonstra), e é abrir a porta à escravidão - para evitar o que o Manuel considera como democracia, a vontade das massas. A democracia rousseauniana, sim. Mas há uma Teoria e Prática da Democracia muito mais complexa que isso. Dahl, Sartori, Bobbio e Schumpeter são referências clássicas.

 

Aliás, o Manuel ao reduzir a democracia à tirania da maioria de que falava Tocqueville, cai no mesmo reducionismo dos republicanos portugueses para quem a chefia de Estado republicana é que é verdadeiramente democrática, porque assente no voto. A democracia é muito mais que votar. E por isso mesmo é que historicamente democracia e liberalismo se alinharam. Não sei se isto é um erro ou se é uma concepção que o Manuel tenta fazer passar deliberadamente. Seja como for, quem tem capacidade para mudar de opinião radicalmente - contra o que não tenho nada contra, muito pelo contrário - também presumo que tenha capacidade para aprofundar aquilo que diz, para não cair neste tipo de erros. Eu, como Conservador, continuo a preferir a máxima popperiana de que o que interessa em democracia é saber limitar o poder de quem manda, assumindo ainda a ideia de Churchill de que a democracia é o pior regime, exceptuando todos os outros.

 

A tentativa de procurar o Bem em Deus é a tentativa de sacralizar e tornar intocáveis valores que são terrenos e não divinos, para deixarmos de nos responsabilizar pelas nossas acções, ao externalizar para o transcendente as referências. Quando levamos isto para o campo das lideranças políticas, torna-se perigoso, dado que fundamenta fenómenos como os assentes no carisma dos líderes ligado ao transcendente, de que falava Max Weber. Fundamentar o Governo nisto é não só anacrónico, como o comunismo, como deixa antever todo um novo leque de idotices. Basta lembrar uma, a de George W. Bush que dizia falar com Deus e que as suas acções eram ordens deste.

 

Dito isto, e porque por ora não tenho tempo para escrever muito mais, deixo os caríssimos e caríssimas leitores e leitoras com um magnífico sketch de George Carlin. Bom fim-de-semana.

 

 

(*) inicialmente tinha escrito ab solus, para o que o Manuel me chamou a atenção na caixa de comentários. O significado é praticamente o mesmo, mas absolutus é mais correcto.

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publicado às 14:34

Ao correr da pena

por Samuel de Paiva Pires, em 25.08.09

 

Porque estou demasiado ocupado em termos de trabalho e de finalização do relatório de estágio/tese, até à próxima semana pouco, para não dizer mesmo nada, andarei por aqui. Aproveito apenas para responder muito brevemente ao Tiago e ao Afonso Miguel.

 

1 - Tiago, utilizei o mesmo texto apenas porque me pareceu adequado ao artigo do Daniel Oliveira. Este, obviamente, nem sequer se dignou responder. De qualquer das formas apraz-me registar e agradecer o excelente contributo do Manuel para este debate.

 

2 - Afonso, respondendo directamente ao que está latente na sua pergunta: a democracia não é uma ideologia, é uma forma de regime. Já agora, essa coisa do crepúsculo das ideologias pode ter efeitos devastadores em certas ideias. É que como explica John Gray, as ideologias não são mais do que meros sucedâneos da religião.

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publicado às 00:28

A ler

por Samuel de Paiva Pires, em 24.01.09

O Manuel, no Café Odisseia:

 

Na América a Religião é um sinónimo de Liberdade. Foi a grande liberdade de culto que alimentou inicialmente o espírito e ideais republicanos daquela terra, foi a religião que permitiu aos intelectuais daquele tempo perceber as sábias palavras dos iluministas que preconizavam uma igualdade inspirada, entre várias coisas, no Cristianismo.


O que mantém esta simbologia cristã nas cerimónias públicas dos americanos é a Tradição, mas não somente pelos seus valores de imitação e continuidade (já aqui falei no que acontece às Tradições caducas). Todos esses valores inspirados pelo "God Bless America" ou "One Nation Under God" têm um significado intrinseco que os americanos usam para glorificar os que já passaram, muitas vezes morrendo por esses valores, e inspirar toda uma nova geração a abraçá-los e adoptá-los. Não se trata de um esforço para criar um comportamento-modelo por parte do Estado, mas sim da Tradição de um povo, com todo o seus significado para manter a sua dignidade e especificidade histórica. A Tradição, quando encontra nos seus símbolos os nobres valores que sempre representou, deixa de ser uma arma política e passa a ser um sinal de individualização dos povos, e os Americanos sabem-se únicos, e sabem que é isso que os torna a nação mais poderosa e provavelmente mais livre à face do planeta, capaz de se curar das mazelas governamentais de um mau executivo para ressurgir como terra prometida, sem usar de revoluções fracturantes, ao contrário do que é costume na Europa. É esta harmonia Povo-Estado-Indivíduo-Verdadeira Tradição que reforça a América.


Em Portugal não faz sentido usar este tipo de vocabulário nas cerimónias de investidura, por uma simples razão. O republicanismo português não tem qualquer simbolismo que o ligue ao povo português e à sua cultura, seja religiosa ou pagã (que a há). As cerimónias presidenciais, desde os tempos da Iº República, sempre foram realizadas em privado, na presença dos partidos ou entre os membros dos Conselhos, nunca foram motivo de júbilo para a sociedade. Assim, se o Presidencialismo Americano tem a força simbólica de uma coroação, o presidencialismo português é uma transição cuja espectativa se desmorona no momento da investidura.

 

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publicado às 00:12

Os irmãos mais velhos

por Cristina Ribeiro, em 11.11.08

tinham nascido ainda na freguesia cujo Patrono se festeja hoje. Embora não tivesse sido esse o meu berço, foi em São Martinho de Sande que fiz a catequese, primeira comunhão e comecei a ir à missa: naquela igreja que tinha pintado no tecto um oficial romano a cavalo,partindo a capa que trazia, para com ela cobrir o pobre que, tremendo de frio, lhe pedia esmola.

            Só alguns anos mais tarde, aquando da minha primeira viagem a França, soube que aquele cavaleiro que via no tecto da igreja tinha sido bispo da terra que então visitava, Tours, e que nascera na Hungria, e não em Sande.

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publicado às 17:58

Fiquei a saber aqui na blogosfera

por Cristina Ribeiro, em 05.11.08

 

que a  missa que irá inaugurar a igreja restaurada da paróquia dos meus pais, no Domingo, porque o Dia do Patrono, onze de Novembro, calha numa Terça Feira, será transmitida via internet; também eu fiquei surpreendida, mas porque não vi o óbvio: foi a pensar nos muitos emigrantes da freguesia, que já terão dito do seu contentamento: poderão assim ver a sua "nova" igreja...

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publicado às 14:59

Observações

por Pedro Fontela, em 23.07.08

Se há coisa curiosa no discurso político é reparar como os sectores reaccionários da sociedade de apossaram de certos elementos da nossa cultura comum e reclamam usufruto exclusivo quer dos nomes quer dos conceitos – história e religião são os dois exemplos mais óbvios mas por certo haverá outros. Será que esses senhores já pensaram que muitos dos que fizeram história e viveram no passado não partilhavam a sua mundivisão? Será que também já lhes ocorreu que muitas figuras religiosas por esse mundo fora foram tudo menos conservadoras como eles são? Tudo isto lhes parece escapar quando esta simplificação demagógica lhes dá jeito em termos políticos para tapar a sua falta de ideias.

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publicado às 18:23






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