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Fássistas!!!

por Samuel de Paiva Pires, em 23.03.09

 

(Mural datado de 1975. Fotografia de Henrique Matos picada daqui)

 

Por estes dias, foi-me dito que o Estado Sentido é por algumas pessoas visto como um blog de "fássistas". Já não é a primeira nem a segunda vez que me dizem que por aí se diz à boca cheia que somos "fássistas". Não que eu tenha quaisquer problemas com o epíteto, já estou habituado a que me chamem "fássista", mas há qualquer coisa de muito errado na sociedade portuguesa no que diz respeito à ciência política, mesmo naqueles que deveriam perceber alguma coisa dessa. É que, logo para começar, nunca houve fascismo em Portugal - façam lá favor de se despir de preconceitos, toda a gente sabe que há por aí muitos "anti-fascistas" porque assim lhes convém para continuar nas graças do regime cuja legitimidade ainda em grande parte se baseia na luta "anti-fascista" (não se preocupem em arranjar algo melhor e depois admirem-se se isto cair de podre) e procurem ser intelectualmente honestos e academicamente rigorosos, é ler as obras do Professor Jaime Nogueira Pinto, ou para aqueles que preferem os estrangeiros, é ler The Anatomy of Fascism de Robert Paxton. Nunca poderei é sequer pegar numa obra que para aí anda sob o título de O nosso século é fascista porque o seu autor não saberá sequer o que é o fascismo.

 

No que à minha pessoa diz respeito, e porque falar de fascismo em Portugal é falar de Salazar, permitam-me uma breve nota esclarecedora. Nunca escondi a minha admiração por Salazar, muito pelo contrário, é pública e tem-me muitas vezes granjeado o tal epíteto de “fássista”, o que, tendo em consideração o meu sentido de humor e gosto pela ironia, tem uma certa piada e dá-me um certo gozo em muitas situações, até porque quem me lê e/ou conhece bem, sabe que sou um ferrenho adepto da liberdade de expressão, logo nunca poderia ser fascista. Sendo um estudante de Relações Internacionais e tendo como uma das minhas áreas de estudo preferenciais a Política Externa, julgo, ter algum sentido de Estado (daí o trocadilho do nome do blog, que inicialmente era para se chamar mesmo Sentido de Estado), coisa que vai faltando a grande parte das elites políticas cancerosas do actual regime e que Salazar tinha para dar e vender. Aliando-se esse sentido de estado de Salazar a um tremendo pragmatismo, cálculo realista e execução eficaz em matéria de Política Externa, bem como a um génio financeiro que permitiu sanear e colocar ordem nas finanças públicas e restante aparelho estatal português, parece-me apenas normal considerar Salazar como um grande estadista.

 

Agora, Salazar era tudo menos fascista, era um tradicionalista, conservador, integrista que pretendia manter a população calma, contrariamente à excitação que o fascismo advoga se provoque nas massas, e ainda que tenha utilizado instrumentos emprestados de regimes fascistas, como a censura e a repressão que, obviamente, porque sou um humanista, um liberal e politicamente incorrecto, me repugnam e repudio veementemente, foi o próprio Salazar quem reprimiu os que realmente eram fascistas, os nacionais-sindicalistas de Rolão Preto.

 

Basta atentar em dois breves parágrafos da obra de Paxton (Penguin Books, 2005) para perceber o que aqui escrevo:

 

The Estado Novo of Portugal differed from fascism even more profoundly than Franco’s Spain. Salazar was, in effect, the dictator of Portugal, but he preferred a passive public and a limited state where social power remained in the hands of the Church, the army, and the big landowners. Dr. Salazar actually suppressed an indigenous Portuguese fascist movement, National Syndicalism, accusing it of “exaltation” of youth, the cult of force through so-called direct action, the principle of superiority of state political power in social life, the propensity for organizing the masses behind a political leader” – not a bad description of fascism.” (p. 217)


Fascism may be defined as a form of political behavior marked by obsessive preoccupation with community decline, humiliation, or victim-hood and by compensatory cults of unity, energy, and purity, in which a mass-based party of committed nationalist militants, working in uneasy but effective collaboration with traditional elites, abandons democratic liberties and pursues with redemptive violence and without ethical or legal restraints goals of internal cleansing and external expansion. (p. 218)

 

Apenas admiro Salazar por aquilo que teve de bom, assim como o repudio por aquilo que teve de mau, ou seja, a repressão, a censura, a PIDE e o tal resistir aos ventos da história, portanto, praticamente tudo aquilo que se passou no pós-II Guerra Mundial. E não deixa de ser curioso o culto a Salazar nos últimos anos, os imensos livros que utilizam o seu nome para vender, livros como um recente em que até se diz que Salazar afinal era maçon.

 

Ora, na sociedade portuguesa criou-se o mito de que qualquer coisa que mexa à direita é automaticamente fascista. Seria o mesmo que eu ser intelectualmente desonesto e achar que tudo aquilo que mexe à esquerda é comunista, que é precisamente o outro totalitarismo do século XX que a par com o fascismo e nazismo vitimou milhões de pessoas, ideologias essas completamente incompatíveis com a prática da democracia liberal, da qual sou acérrimo defensor e simultaneamente crítico para com as imperfeições desta. E como há tempos me disse um professor meu, o espírito lusitano não é compatível nem com a prática do fascismo nem com a prática do comunismo real. Tentem implementar um regime assente em qualquer uma dessas ideologias e logo verão a reacção dos portugueses.

 

No que a este blog diz respeito, não se pratica a censura (moderação de comentários), não temos uma linha editorial, sempre fomos um projecto despretensioso e em que cada qual está à vontade para falar do que bem lhe aprouver, apenas sendo responsável pelas suas opiniões aquele que as expressa, temos pessoas de esquerda, de direita, monárquicos, republicanos, católicos, agnósticos, liberais, conservadores, liberais-conservadores e pessoas que não se revêem sequer em qualquer destes rótulos. Digam-me, haverá blog mais plural na blogosfera lusa?

 

O Estado Sentido tem vindo a crescer em número de visitas e consequentemente em termos de âmbito de intervenção, o que muito temos a agradecer aos nossos amigos, leitores e comentadores. Parece que isso anda a chatear muita gente, uns que nos devem achar muito liberais, outros que nos devem achar muito conservadores, e à maior parte dos quais deverá fazer uma confusão tremenda a maior parte das coisas que escrevemos por aqui com pontos de vista tão diferentes, mas será que não encontram nada mais original para nos denegrir? Até porque, bad publicity is always good publicity, mas "fássistas" já está um pouco ultrapassado. Dou prémio a quem conseguir propor o epíteto mais original!

 

É pena que muita gente só consiga ver o mundo a preto e branco, um mundo em que aqueles que não se enquadram nos rótulos vigentes causam confusão nessas pessoas, um mundo em que os que são acérrimos defensores da liberdade de expressão  e preferem caminhar no seu próprio caminho individual são vistos com desconfiança, um mundo em que há uma crescente falta de correspondência entre o conteúdo dos conceitos e os contextos em que são aplicados, para além de uma total falta de autenticidade e honestidade intelectual. Perdoai-lhes Senhor que eles não sabem o que dizem.

publicado às 01:28

Nem mais!

por Samuel de Paiva Pires, em 06.02.09

A anunciada série televisiva sobre a vida amorosa e sexual (?) de Salazar merece o meu maior desprezo. Mas, por outro lado, esta série vem demonstrar bem o carácter desta gentalha que hoje governa e se governa em Portugal. Esta gentalha que polula nas televisões e nos jornais. Possivelmente, estes, que agora fazem esta série reles, totalmente especulativa e de mau gosto, sobre a vida de uma das maiores figuras da história recente de Portugal, serão os mesmos que em Santa Combadão fazem manifestações contra a construção de um museu a ele alusivo. Será o contra-ponto ou a desinformação/intoxicação que acharam necessário fazer depois de Salazar ter ganho o programa da RTP sobre a figura mais importante na história de Portugal (com os votos dados pelo povo, ahh, grande povo!)? E, caro Sr. Balsemão, o dinheirito (ou a perspectiva de o amealhar) vale mesmo tudo, hem!? Pois bem, que se masturbem miseráveis, e façam bom proveito! Por muito baixo que vão, a história prevalecerá.

 

Subscrevo na íntegra o Diogo, no Esplanada ao Sol.

publicado às 14:11

Nunca me tinha acontecido...

por Samuel de Paiva Pires, em 11.09.08

...chorar pelo meu país. Aconteceu esta noite, depois de terminar a leitura de determinada obra sobre a figura principal do século XX português. Não sei para onde caminhamos actualmente mas sei que não deveria ser em direcção ao abismo para que nos vamos quotidianamente precipitando.

publicado às 05:51

Resposta a indignados "antifascistas"

por Nuno Castelo-Branco, em 20.08.08

 

O tema Salazar continua a sua senda de controvérsias, despertando paixões arrebatadas ou demencial repulsa. Decorridos precisamente quarenta anos desde o fim do seu consulado como Presidente do Conselho de Ministros, é estranhamente difícil proceder a qualquer tipo de consideração - julgamento seria pretensiosamente descabido -  acerca das políticas prosseguidas durante as diversas fases do regime do Estado Novo. Como já suspeitava, o post relativo ao posicionamento de Portugal na II Guerra Mundial, ocasionou algumas reacções via e-mail a que me vejo obrigado a responder de forma sucinta. 

 

1. João Leitão.

Este nosso leitor acusa-me de "criptofascismo", como se a minha pobre pessoa tivesse algo a perder no campo dos negócios ou vida social. Enfim, esse alegado cavernicolismo cerebral é facilmente conectado com hipocrisia ou carácter ínvio e de duvidosa credibilidade. São estas grosso modo, as suas palavras.

O fascismo teve o seu tempo e surgiu num contexto económico, logo político e social, que é bem conhecido. Consistiu numa lógica reacção - e para muitos dos seus entusiastas - , num refúgio perante ameaças que se vinham acumulando desde meados de oitocentos. Como bem sabe, a ordem social do liberalismo, com o seu edifício constitucional de liberdades instituídas por Lei, permitiu a ascensão de sectores sociais ao poder, acelerou as grandes transformações  na indústria e comércio, libertou os espíritos de peias  tacitamente aceites durante séculos. Essa ordem burguesa, garantindo a forma representativa de governo, reconheceu também e de forma bastante clara, a perenidade das instituições tradicionais, das quais hoje, as monarquias belga e espanhola são lídimas representantes. O papel do Chefe do Estado foi salvaguardado, a Igreja - para os crentes e para os não crentes - foi considerada respeitosamente como legado de um passado que permitiu os novos e ansiosamente irrequietos presentes. O negregado "sistema liberal oitocentista" viu eclodirem novas formas de manifestação artística e a sua transposição às grandes oportunidades oferecidas pelas maravilhosas inovações tecnológicas da revolução industrial, desde os químicos, à electricidade ou à construção em ferro. Desta forma, torna-se compreensível a estupefacção perante a emergência de sectores iconoclastas desse alvorecer da Belle Époque - 1848 e 1871 foram alguns dos mais audíveis sinais de alarme - e na profícua sementeira nacionalista do bonapartismo, foram colher o alimento ideológico que evoluindo também mercê dos condicionalismos impostos pela situação política internacional, fizeram irromper o fascismo. Na realidade, este movimento não obedeceu nem surgiu ao  sabor do desejo ou impulso deste ou daquele Chefe, mas sim, foi lentamente evoluindo ao longo de décadas, cristalizando-se sob este nome, na Itália de Mussolini. É certo que os horrores da revolução bolchevique precipitaram a sua tomada do poder como partido organizado aliás, à semelhança dos seus congéneres vermelhos. Não me alongando, o fascismo teve a sua época.

Em Portugal, nunca existiu Fascismo tal como o italiano ou alemão. Mesmo o caso alemão pode ser considerado como uma variante mais identificável pela forma ritual, que pelo verdadeiro conteúdo da ideologia racista ao movimento inerente, ambições de colonização dentro do espaço europeu e total repúdio pela ordem diplomática/internacional consagrada pelos Tratados e pela tradição. O regime do Estado Novo obedeceu à imperiosa necessidade de saneamento de uma situação absolutamente caótica e hoje dificilmente compreensível pela nossa sociedade. Habituados a uma prolongada paz social, à praticamente ausente inflacção e a uma já resignadamente aceite forma de rotativismo - tal como acontecia na Monarquia -, é quase impossível imaginar a situação vivida pelos nossos avós e bisavós, onde a coacção, o medo, as perseguições e uma ameaçadora miséria, faziam-nos desejar a instauração de uma "situação de normalidade".

O caso do posicionamento de Salazar perante a guerra, é paradigmático daquilo que o interesse nacional sempre foi, é e continuará a ser, acima de qualquer luta partidária ou ideológica. Muito provavelmente teria sido a política de uma Monarquia Constitucional que não tinha caído em 5 de Outubro de 1910. Teria sido também a única política de uma 1ª república que tivesse a duvidosa oportunidade de se regenerar e "viver habitualmente", isto é, sem a recorrente violência nas ruas e nos espíritos. A nossa neutralidade perante a Guerra, foi benéfica e honrosa e se o João Leitão se interessar, poderá consultar aquilo que as diversas chancelarias, desde a alemã à britânica e italiana, tinham a dizer da política portuguesa. Quando das negociações do armistício italiano de 1943, Lisboa foi o local privilegiado para os contactos entre a Casa de Sabóia - a soberania - e os Aliados e não são segredo para ninguém, as movimentações lisboetas dos diplomatas do rei Miguel da Roménia e do regente Horthy da Hungria. Se escolheram Portugal como porto seguro para a saída de uma situação catastrófica, isso quer dizer algo, pois poderiam muito bem ter optado pela consagrada neutral Suíça ou pela social-democrática Suécia. Quanto a estes neutrais, sabe bem que foram activos colaboradores do esforço de guerra do Reich, pois a par do vital minério de ferro sueco, a Wehrmacht foi abundantemente servida de munições suíças e suecas, canhões Bofors suecos, etc. Este comércio foi muitíssimo mais comprometedor que o envio de conservas e de umas toneladas de volfrâmio ou de alguns produtos coloniais, aliás com o pleno conhecimento dos ingleses. Não, Portugal foi eleito como ponte entre dois mundos desavindos e a figura austera de Salazar foi uma referência.  Quanto ao alegado - o J.L. diz mesmo Sieg Heil! - de Salazar perante a Alemanha, muito se pode dizer, desde as negociações para as Lajes - um tremendo desastre para os U-Boot -, até às múltiplas distinções de que foi alvo por parte dos britânicos que o condecoraram durante a guerra pelas mãos do próprio irmão do rei Jorge VI  e o nomearam doutor Honoris Causa pela mais prestigiada universidade inglesa. Portugal seria também, um membro fundador da NATO, afinal um prolongamento da Grande Aliança anglo-americana de 1941-45. 

Nasci muito depois do fascismo ter sucumbido em Roma ou se preferir, na Chancelaria de Berlim. É um mundo ou uma forma de estar e organizar gentes e mentes que nos são hoje tão remotas, como o próprio oitocentismo liberal, com o qual, apesar de tudo, ainda temos muitas afinidades nos nossos comezinhos quotidianos de consumismo ou sobrevivência. Estamos aqui a dialogar por isso mesmo e é bom que disso o João Leitão não se esqueça.

 

2. Maria José Lopes 

 

A cartilha da "colaboração portuguesa" com a Alemanha nacional-socialista, tem para si - uma assumida comunista -, algumas características que decerto lhe agradarão. O seu partido, logo após a assinatura do pacto Molotov-Ribbentrop, dedicou-se durante dois anos, aos mais desabridos ataques à posição inglesa no conflito, omitindo convenientemente os intuitos claramente expansionistas de índole imperial do Reich. Se por milagre conseguir encontrar e ler alguns exemplares do Avante! (1939-41), ficará edificada com o conteúdo da prosa claramente pró-Eixo (nas entrelinhas, pois isso convinha aos tutores soviéticos) e com um pouco de sorte,  deleitar-se-á com a opinião de um certo trânsfuga que dá pelo nome de Álvaro Cunhal. 

O seu "partido irmão francês", o PCF,  forneceu o núcleo duro da colaboração durante o drôle de guerre e do seu seio sairiam os fundadores - Jacques Doriot, por exemplo -  do PPF, a sucursal do NSDAP em França. Para não falarmos dos embaraçosos e conhecidos casos de sabotagem comunista nas fábricas de material de guerra, preciosa ajuda moral e material à Alemanha.

Como curiosidade e apesar de se encontrar nos antípodas da sua paixão política, a própria Dinamarca, com um governo socialista, colaborou com o Reich sob o regime de ocupação, sem que as autoridades democráticas de Copenhaga vissem nisso qualquer problema. Pelo contrário, furtaram-se desta forma à administração de um gauleiter  ou de um Reichsprotektor nomeado por Berlim. E muito mais há para dizer e principalmente, quanto à descarada colaboração soviética-alemã antes de Junho de 1941.

 

A sua última preocupação: saber se eu tinha sido membro de alguma "organização fascista" do Estado Novo.  

Como já caracterizou apressada e alarvemente o Estado de Novo de "fascista", terei que ceder nesse ponto tão crucial para o julgamento da minha insignificante pessoa. Sim, de facto fui, como todos os meninos a partir dos seis anos de idade, membro da MP de Moçambique, que, caso lhe seja facto desconhecido, era uma organização de cariz marcadamente cívico e que nivelava pela igualdade todos os seus membros, fossem eles brancos, negros, indianos, mestiços ou chineses. Graças a esse alegado "fascismo", existia a Caixa Escolar para os mais carenciados. Graças a esse "fascismo" tínhamos aquilo a que hoje risonhamente - porque se trata de facto de uma farsa - se chama OTL's. Existiam actividades tão diversas como ginástica, escultura, pintura, música, teatro de fantoches, modelismo, canoagem, aulas de natação, caminhadas, campismo, etc. Jamais tivemos qualquer aula de doutrinação e o mais longe que os monitores foram, consistiu na promoção da ideia de igualdade dos portugueses de todas as raças, como então se dizia. Tudo isto nos remete para um outro universo bem conhecido (?) da Maria José Lopes, para os "Pioneiros" dos países comunistas, onde a par das actividades lúdicas que mantinham as crianças longe da ociosidade, existia a lavagem cerebral e o incentivo patriótico à denúncia dos seus. Mais lhe digo, para seu final contentamento, que ainda possuo alguns elementos daquele uniforme que me ficava tão bem: o cinto e o emblema em tecido, da camisa (pendão de D. João I). Console-se com este crime.

 

* Para conhecer um Salazar inédito para muitos, recomendo a leitura do livro que surge na imagem.

 

 

publicado às 11:34

O re-escrever tendencioso da História

por Nuno Castelo-Branco, em 18.08.08

Neste aborrecido e nublado fim de semana, passei distraidamente os olhos pelo Portugal na Segunda Guerra de António Telo. Além da atenta e exaustiva enumeração de factos ocorridos antes e durante o conflito, o livro oferece uma perspectiva de interpretação da política externa portuguesa durante os difíceis anos da Guerra Civil de Espanha e do progressivo desmoronar do edifício versalhesco de segurança das potências vitoriosas em 1918. 

 

Inevitavelmente, a obra tem como figura central o Presidente do Conselho Oliveira Salazar que foi quem verdadeiramente conduziu os negócios estrangeiros nacionais durante o conflito. Desde o início da quebra dos laços de submissão que mantinham Portugal refém da indulgente política do Foreign Office, Salazar conseguiu talvez, a reputação  de integridade e de inegável patriotismo que indelevelmente marcariam a sua acção de homem político. Não apenas na vertente interna - onde efectivamente enterrou o longo desvario fratricida da I república -, mas também na política externa, gozou do reconhecimento dentro e além fronteiras, mesmo por aqueles que se encontraram em campos opostos durante o conflito mundial.

 

A posição do Estado português é internacionalmente conhecida, sendo a aliança inglesa - hoje atlântica - , o pilar fundamental para a manutenção de uma independência que não encontra qualquer  contestação de relevo internamente. A consolidação da fronteira terrestre e a desmesurada expansão no Ultramar, granjearam o reconhecimento internacional, solidificaram a consciência nacional e garantiram a Portugal, uma permanente presença nos mapas. 

 

Após a vitória de Franco - aliás gostosa mas discretamente celebrada em todo o Ocidente -, poucos meses decorreram até à eclosão da grande conflagração ,na qual o principal e único aliado do nosso país - a Inglaterra -, se envolveu. Tendo recentemente saído de uma profunda crise económica e social que se arrastou por mais de dez anos, o Reino Unido jamais recuperara da posição privilegiada anterior a 1914 e apesar da vitória contra os Impérios Centrais, foi duramente atingido na sua solidez de hegemónica potência imperial. A sua marinha já tinha rivais, o seu comércio declinou e Londres foi substituída por Nova Iorque como principal praça financeira planetária. Esse declínio fez-se sentir igualmente em todas as forças armadas britânicas que em 1938, não podiam obstar aos avanços alemães na Áustria e indicaram ao governo, a necessidade de contemporizar em Munique. 

 

Para Portugal, a fraqueza britânica  trazia imediatas consequências, pois, se por um lado afrouxava o nó górdio que reduzia o nosso país a um sub-Império da Commonwealth, por outro, expunha o nosso património colonial às investidas dos novos imperialismos que poderiam tentar uma nova partilha de África, adiando uma vez mais, a eclosão da guerra na Europa. Contudo e apesar dos rumores quanto a uma entrega forçada de pelo menos uma parte de Angola aos alemães, Hitler jamais mostrou um verdadeiro interesse na recuperação de um espaço colonial. Influenciado por doutrinas como as de Haushoffer, considerava o espaço euro-asiático como o natural campo de expansão de uma Alemanha que pela sua população e potencial económico, inevitavelmente dominaria o continente.

 

A guerra confirmou aquilo que todos sabiam, porque as fulminantes vitórias da Wehrmacht devastaram  os campos de batalha, aterrorizaram as cidades expostas  e à mercê da nova arma aérea e pior que tudo, provaram a inutilidade da velha ordem internacional garantida por tratados ora caducos.

 

O dilema que se apresentava ao governo de Lisboa, não  era de molde a forçar a intervenção na guerra, mas punha-se sobretudo, quanto à política mais acertada a adoptar para a preservação dos territórios além-mar. Jamais considerada a hipótese de integração no Eixo - apesar da irritante  e abusiva insistência com que certos e muito parciais estudiosos de História querem fazer crer -, Portugal permanecia dentro da esfera de interesses britânicos e a simples verificação no mapa das possessões ultramarinas demonstrava essa dependência. A extensão de fronteiras comuns em Angola e Moçambique, tornavam inevitável a estreita colaboração com as autoridades coloniais britânicas, principalmente com as da África do Sul, onde existia uma corrente pró-intervencionista em Moçambique, no caso de Portugal de alguma forma se furtar à sua tradicional política exterior.

 

Nas horas subsequentes ao início do conflito, Salazar proferiu um discurso na Assembleia Nacional, onde a aliança inglesa foi reafirmada, apesar da manifestação da neutralidade portuguesa.  É este talvez, um acto que caracterizará toda a movimentação diplomática nacional durante a guerra e mais relevante se torna, quando foi universalmente anunciado. Hitler e Mussolini tomaram conhecimento do teor daquele discurso e decerto compreenderam a inevitabilidade do mesmo. A primeira fase das hostilidades no ocidente, pareceram tranquilizar muitos daqueles que, devido às claras afinidades existentes entre o franquismo espanhol e as potências do Eixo, receavam o envolvimento do país vizinho o que infalivelmente conduziria ao ataque e ocupação de Portugal, dada a sua fundamental posição estratégica e a privilegiada situação dos portos nacionais, essenciais à guerra naval alemã.

 

Alguns factores contribuíram para o progressivo afastamento da ameaça de guerra, desde a derrota na Batalha da Inglaterra, aos pesados reveses italianos no norte de África e na Grécia. A consequente dispersão de forças alemãs em novos e imprevistos teatros de operações, tiveram um reflexo imediato na Península, onde Hitler não conseguiu convencer um nada entusiasta Caudilho, a permitir o desencadear de uma série de operações que conquistariam Gibraltar e mercê de um rápido ataque pelo Alentejo - Operação Isabella -, Portugal. 

 

Com a Europa ocupada dos Pirinéus ao Niémen e dos gelados fiordes noruegueses ao Mar Jónio, o governo português via reduzir-se substancialmente as suas alternativas no campo da política externa. A Inglaterra fora vencida em França, na Noruega e na Grécia. Um após outro, os Estados balcânicos integraram o Eixo e a Grécia, apesar dos esforços dispendidos pelos ingleses, foi rapidamente conquistada, ficando desta forma ameaçado, todo o conjunto defensivo britânico no Mediterrâneo, essencial à prossecução da luta, dadas as directas e rápidas ligações que propiciava À Índia e aos cruciais recursos energéticos do Médio Oriente. 

 

Salazar conhecia bem a realidade do poder terrestre-continental alemão, mas confirmara igualmente, a prevalência britânica no mar, do qual Portugal totalmente dependia para o controle das suas possessões ultramarinas e de onde chegavam os bens de consumo a uma população pesadamente atingida pelo racionamento. Desta forma e com perfeito conhecimento da situação por parte dos aliados ingleses, o governo português procurou desde o início do conflito, impedir a entrada da Espanha no campo do Eixo e as vantagens que Lisboa pôde apresentar em Madrid - especialmente no campo económico -, foram decisivas. 

 

Paradoxalmente, os estudiosos desta época insistem em vislumbrar fragilidades, contradições e posições irrealistas por parte da política externa salazarista, confundindo a paixão ideológica, com a difícil realidade que era apresentada a um pequeno país sem grandes recursos bélicos ou financeiros que susceptibilizassem a tomada de decisões de forma autónoma e com inevitáveis consequências para o todo nacional. A aproximação económica com a Alemanha, foi talvez um preço pouco excessivo para compensar uma aparente neutralidade que afinal, se sustentava na esperança de uma vitória final aliada que garantiria o status quo no Ultramar. No seu livro Roosevelt, Churchill e Salazar, José freire Antunes vem igualmente tentar uma interpretação da história, desta feita à luz da visão norte-americana e em claro detrimento daquilo a que na altura unanimemente se considerava ser o interesse nacional. O constante rebaixar das atitudes do MNE do qual AOS era o titular, alia-se ao menosprezo das dificuldades inerentes a uma situação calamitosa em termos mundiais. Para alguns autores, a visão dos factos e a prática política dos Estados - neste caso Portugal - terão que coincidir perfeitamente com as intenções e caminhos políticos, económicos ou militares de potências que tutelam as suas mentes ou situação pessoal. É a auto-negação da credibilidade do pretenso investigador, parcial na análise, cumprindo um programa político ou ideológico. Enfim, é o re-escrever da História a que já nos habituámos e que tão prejudicial tem sido ao mundo académico português.

 

Apesar das privações económicas e de longos anos de receio perante o espectro da intervenção no país, os portugueses chegaram a 1945, incólumes na sua integridade física, pois apesar dos acontecimentos decorrentes da invasão japonesa em Timor, nenhum dos territórios sob soberania nacional foi atacado ou invadido, nem se perderam cidades e populações sob dilúvios de fogo vindo dos céus.  Portugal  não podia ter procedido de outra forma. Conservou intactos canais de comunicação entre potências em conflito, não cedeu naquilo que era essencial - a soberania - e condescendeu no acessório. Quando o desfecho da II Guerra Mundial ainda não era absolutamente previsível (1943), Salazar permitiu a recondução da política ao claro alinhamento com as potências atlânticas e a cedência de facilidades nos Açores, foi o factor decisivo para a conclusão da Batalha do Atlântico, vital para exércitos e países que dependiam sobretudo da logística. A neutralidade colaborante portuguesa beneficiou o país, em contraste com aquilo que se passara durante a Grande Guerra, onde o mesquinho interesse de uma minoria política ansiosa de reconhecimento internacional, precipitou Portugal no desastre económico-social e na derrota militar.

 

Aos detractores contumazes da "política de neutralidade do Estado Novo", conviria deixar algumas questões para reflexão. O que teria sucedido no teatro de guerra europeu/norte-africano, se com Portugal ocupado e os seus portos abertos às marinhas da Alemanha e da Itália, a Inglaterra tivesse perdido Gibraltar e consequentemente, o Egipto e os recursos petrolíferos do Médio Oriente? Como teria o Reino Unido sobrevivido ao corte dos abastecimentos marítimos, agora sob o controle férreo dos cardumes de submarinos que decididamente infestavam o Atlântico norte e que das costas de Marrocos às da Noruega, impunham a lei do vencedor antecipado? Como teria evoluído a guerra a leste, se empenhado a ocidente na liquidação do esforço britânico, Hitler tivesse decidido adiar sine die o início as hostilidades com a URSS?  Mais tarde, iniciando-se a "Operação Barba-Ruiva" em condições estratégicas e logísticas muito favoráveis, teriam os Estados Unidos prosseguido a política tendente ao intervencionismo, ou render-se-iam à evidência do estabelecimento de uma Nova Ordem mundial? Os militares do nosso tempo, não deixarão de ter a última palavra na análise de uma situação estratégica, tornada insustentável pela conquista pelo Eixo, das principais vias de comunicação com a Europa. O mundo seria hoje muito diferente.

 

Tentar encontrar indícios criminalizantes nas relações com o Eixo, não deixa de ser extemporâneo e completamente contrário à decência do estudo da história tal como ela foi e não podia deixar de ser. Desacredita o historiador e rebaixa-o à condição de panfletário de uma facção. Infelizmente, esse tipo de curiosos ou serviçais de alguns interesses ou complexados ansiosos de protagonismo no mundo do "politicamente correcto", ainda abundam entre nós. Até quando?

 

 

 

 

publicado às 15:26

Recorde pessoal

por Samuel de Paiva Pires, em 10.07.08

Numa frequência, 5 folhas de teste, 20 páginas completas. O recorde anterior eram 5 folhas mas 18 páginas. Pelo meio fica a explicação que daqui a uns dias talvez aqui deixe quanto à brilhante estratégia de Salazar em termos de política externa no que concerne ao período de 1936 a 1945, atravessando a Guerra Civil Espanhola e a II Guerra Mundial. Possivelmente a última vez que fomos determinantes para os destinos da Europa e do Mundo, considerando o nosso papel crucial para o desenlace verificado na II Guerra Mundial.

publicado às 00:48

Do Sentido de Estado

por Samuel de Paiva Pires, em 24.06.08
(imagem tirada daqui)

Porque também nutro uma especial admiração de teor académico pelo homem do século XX português, quero notar aquilo que escrevia em 1936/37 no ensaio "Como se reergue um Estado" (ed. Esfera do Caos). Se paralelismos podem ser traçados entre o sistema do rotativismo monárquico do século XIX e o que se revela hoje em dia, é também de notar a forma precisa como Salazar diagnostica algo que tem levado à decadência dos regimes políticos em Portugal, tão presente na I República como talvez na actual III. Tirem as ilações que quiserem:

A seriedade é, em primeiro lugar, a conformidade dos sentimentos com as ideias e a conformidade dos actos com os princípios. Tanto na vida pública como na vida privada, a falta de sinceridade desmoraliza e cansa: nenhum regime político que emprega a mentira como método de governação ou que se contenta com verdades convencionais pode ter crédito na alma popular.

Para nós, não há falsas acusações como arma política, nem factos para além daqueles que foram controlados, nem promessas que não sejam a antecipação de um desígnio amadurecido ou de um plano realizado com segurança.


Se somos contra os abusos, as injustiças, as irregularidades da administração, o favoritismo, a desordem, a imoralidade, é porque isso corresponde a uma ideia séria de governação e não a uma atitude política, à sombra da qual cometemos os mesmos abusos e as mesmas injustiças.


(...)


A gravidade da vida não implica necessariamente o luto da tristeza, o pessimismo, o desencorajamento; ela é, pelo contrário, muito compatível com a alegria do povo, as brincadeiras, a graça e o riso. Exige simplesmente que as coisas sérias sejam seriamente tratadas. Eis porque é que as pequenas conspirações de passeata, os planos dos revolucionários desempregados, os projectos que trarão felicidade e abundância apenas porque são publicados no Boletim Oficial, os gabinetes de amigos, as combinações de nepotismo, a distribuição de lugares e a criação do caos de onde sairão depois, espontaneamente, a ordem e a luz, deixam de lado as profundas realidades nacionais e não passam em geral de jogos infantis, de pequenas tragédias familiares, sob o olhar vigilante dos pais.

publicado às 02:04






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