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O mexilhão a caminho do socialismo

por Nuno Gonçalo Poças, em 11.05.16

Imagine-se que um particular abre uma escola numa área geográfica onde o Estado não tem nenhuma escola. Como não havia oferta estatal, o Estado financiava essa escola privada de forma a que os alunos sem condições económicas a pudessem frequentar. Esta escola, propriedade de um privado, não seria, na verdade, menos que uma verdadeira escola pública, isto é, que presta serviço público, sob propriedade e gestão privadas. E isto, na República Portuguesa a caminho da sociedade socialista, é impensável.

Imagine-se, então, que o Estado, face a esta loucura que é ter um privado a prestar serviço público, resolve multiplicar o esforço dos contribuintes e ordena a construção de uma escola do Estado na mesma zona. Multiplica-se, assim, ainda mais o esforço de quem paga impostos, na medida em que, além do custo da construção, acresce a despesa com salários e com custos de manutenção do edifício. E o Estado, sempre a caminho do socialismo, enceta uma luta contra o particular que ali investiu e que se encontrava a prestar serviço público.

Imagine-se agora que as populações daquela localidade preferiam a escola particular à escola estatal. De um lado, um plano curricular atractivo, uma série de actividades extracurriculares, melhores condições, melhores professores, melhores contínuos.

Aquilo a que estamos a assistir é a uma guerra ideológica contra o privado, levada a cabo, por um lado, por dirigentes partidários e governantes cujos filhos estudam no ensino particular, e, por outro lado, por dirigentes sindicais que vêem a sua esfera de poder atacada com a existência de escolas com contrato de associação. Significa isto que o debate a que estamos a assistir reduz-se a isto: quem manda no Ministério da Educação é a FENPROF (e é assim há décadas) e o ódio ao privado vem daqueles que, recorrendo ao privado, são incapazes de aceitar que um qualquer cidadão, sem capacidades económicas, possa recorrer ao mesmo privado.

Não temos de imaginar nada, porque os factos são claros. Este país a-caminho-do-socialismo, sempre refém dos sindicatos e do seu poder, é incapaz de aceitar a prestação de serviço público por privados, ainda que essa prestação de serviço público se revele mais barata para o contribuinte, se mostre mais apta a satisfazer as necessidades das famílias e dos alunos, se exiba mais livre de grupos de pressão, focando-se naquilo que é realmente mais importante: a satisfação das necessidades das pessoas.

Com este Governo é assim em tudo. O consumidor perde sempre para o reforço dos grupos de pressão. Perde para os táxis, a quem o Governo ofereceu 17 milhões de euros dos contribuintes; perde para a FENPROF, a quem o Governo se prepara para oferecer um exercício de poder mais alargado. O consumidor perde sempre.

Se ao anterior Governo se apontava a falha de favorecer os grandes grupos económicos, é tempo de apontar a este Governo a falha de favorecer os grandes, médios e pequenos grupos de poder. E, como se sabe na Soeiro Pereira Gomes, no Rato e na cabeça de Catarina Martins, o poder vale muito mais que o dinheiro.

A guerra ideológica a que estamos a assistir não é mais do que isto: favorecer grupos de poder contra os direitos do consumidor e contra a prestação do serviço público de forma não centralizada. Pelo caminho, uns ferros na Igreja Católica – como não podia deixar de ser. Do outro lado da barricada, claro, fica sempre o mexilhão.

 

publicado às 16:09

Solteiros e bons rapazes

por Nuno Gonçalo Poças, em 05.05.16

É vê-los, do Saldanha à Avenida da Liberdade. Uma massa uniformizada de proletários de fato e gravata, de sapatos compensados e blazer, barbas aparadas, cabelos arranjados, que entra nas consultoras e nas sociedades, de smartphone em punho, fazendo rolar o ecrã com os polegares, de auscultadores nos ouvidos. Trabalham de manhã, almoçam nos restaurantes ou nos doentios centros comerciais da zona, trabalham à tarde, jantam nos mesmos centros comerciais, trabalham à noite, saem tarde, esgotados, bebem um copo com os amigos, publicam fotografias nas redes sociais. No dia seguinte tudo se repete. Quem quer sair às seis da tarde, pede autorização ao superior hierárquico com uma semana de antecedência – mesmo sabendo que essa autorização pode ser alterada em cima da hora. Não há motivos que os façam não trabalhar. O trabalho é essencial. Vem sempre primeiro.

Tens a tua mãe doente? Sim, está muito bem, mas como não és médico tens aqui um prazo urgentíssimo, que já devia estar feito há dias, se o trabalho fosse devidamente organizado, e que vais ter de ficar a despachar até à meia-noite. O teu irmão casa-se amanhã? Pois, então que seja muito feliz, mas como quem se casa não és tu, tens de vir trabalhar amanhã, porque temos aqui um closing muito urgente e tu és indispensável. Ai amanhã é sábado? Pois, pá, mas isto o trabalho não conhece dias da semana. É no trabalho que uma pessoa se realiza, pá. O teu irmão que não fosse um imbecil – não se casasse, tivesse ido trabalhar. A tua mulher está a ter o vosso primeiro filho? Sim, claro, os filhos são uma grande coisa, claro, mas tens de sair imediatamente do hospital e vir para o escritório, que estamos aqui aflitos com uma coisa muito mais urgente. O quê, a tua mulher está em casa com um recém-nascido e a empresa não lhe está a pagar salário? Isto realmente há gente má no mundo. Ainda bem que nós te damos a oportunidade de trabalhar nesta fantástica empresa, rapaz, onde podes trabalhar umas parcas 12 horas por dia e onde ainda te damos o privilégio de levar trabalho para casa, para que possas chegar ao teu sofá à uma da madrugada e responder a emails. O que seria de ti sem nós. Alguém tem de pagar contas, não é, filho? Não te sentes feliz com esta oportunidade que te demos de gozar dois dias de licença de paternidade? Pudeste trabalhar em casa, descansado. Isto é um favor que te fazemos, rapaz, tudo por um bom salário, por bons prémios que te vamos dar, pela progressão idílica que estás a ter nesta empresa. Precisas de sair mais cedo porque o teu filho está doente? Mas tu queres uma mulher para quê, afinal? Podias ter uma vida muito melhor se não te tivesses casado. Se não tivesses filhos. Agora que tens filhos e mulher, para que raio queres tu ir para casa com um filho doente? Para cuidar dele? Casasses melhor. E tu, mulher que se queria evoluída, por que diabo me pedes tu férias quando te demos o privilégio de ficar três meses em casa a ganhar 50% do salário e a trabalhar todos os dias, logo depois do parto? Para que raio engravidaste tu, mulher do século passado?

Enquanto houver, numa grande parte do tecido empresarial urbano, a apologia dos solteiros – que não engravidam, que não têm compromissos pessoais que não possam desmarcar, que não casam, que não descansam; enquanto houver, numa grande parte do tecido proletário-chique das grandes cidades, a aceitação desse paradigma; enquanto houver gente que aceita ficar no trabalho até às oito da noite, quando está a ler jornais desde as seis, porque “é mesmo assim”; enquanto houver gente que acha que o trabalho é a única coisa que as realiza pessoalmente; enquanto houver gente que só encontra felicidade, para lá do trabalho, em fotografias de paisagens ou de pratos de comida que possa publicar nas redes sociais; enquanto houver situações profissionais híbridas, entre o contrato de trabalho e a profissão liberal, que não conferem nem liberdade, nem regras; enquanto houver tudo isto, não há políticas de natalidade que nos valham.

publicado às 14:50

Quando chegares à Velha Europa, amor

por Nuno Gonçalo Poças, em 28.04.16

Praga, Abril de 2016. Uma das cidades europeias que menos danos sofreu durante as duas Guerras Mundiais, grande centro cultural do Velho Continente, terra de Kafka e de Dvorák, postal de arquitectura conservadora, resiste imóvel e impávida ao frio primaveril e ao vento que sopra forte nos edifícios. Os turistas passeiam, fotografam o relógio astronómico sem especiais cuidados com carteiristas, insignificantes delinquentes num País que vive a paz e o cosmopolitismo europeu. De repente, um quiosque improvisado ostenta bandeiras da Ucrânia e da NATO, caricaturas de Vladimir Putin e frases que são bombas-relógio. "Putin, hands off Ukraine". "Putin is the Devil". Os rostos dos manifestantes não são pacíficos. O Secretário-Geral da NATO, depois de reunir com representantes da Rússia, anunciava o caminho feliz das negociações: há esperança num futuro pacífico. Nas ruas da Europa Central, fora dos circuitos turísticos, sente-se o contrário. Sente-se o fio de pólvora. E da paz podre.

Enquanto os líderes europeus negoceiam, os povos falam como podem. Como em 1991. Há 25 anos, enquanto os líderes da Europa comunitária se sentavam para elaborar o Tratado de Maastricht, rebentava a luta pela independência na Eslovénia e na Croácia. E o Tratado que anunciava paz e prosperidade para todo o sempre na Europa acabaria por ser assinado no ano seguinte, de braço dado com o início da guerra na Bósnia. Passados 25 anos, a União Europeia não tem mãos a medir com tantas crises. A moeda única, os refugiados, a Síria, a Ucrânia e a omnipresente Rússia, a quem o Velho Continente ofereceu um gás metafórico em 2008, na Geórgia. A união da União, por outro lado, vai sendo ameaçada pelo Reino Unido, mas permanece. Mas Espanha tem a Catalunha. E a Bélgica, pacemaker das Comunidades, vive permanentemente sob a ameaça da secessão. A unidade europeia assegura-se pelo paradoxo que é ter medo do passado e amnésia.

A União Europeia, Nobel da Paz em 2012, anuncia-se como o garante da paz e da estabilidade no Continente, um papel assumido desde 1992, conquistado graças à queda da União Soviética e ao desinteresse americano, e perdido em 2008, graças aos conflitos na Ossétia do Sul e à crise financeira internacional. E os europeus do pós-Segunda Guerra, em negação, vão acreditando na resolução dos problemas. No regresso do crescimento económico, na resolução dos conflitos militares e migratórios que temos por temporários. E continuam a fingir que a Alemanha tem capacidade para manter a União.

Em 2016, em Praga como em Kiev ou em Sarajevo, a Europa aquece, num lume brando que nos vai fazendo ferver. Até ao dia em que Franz Ferdinand deixe de ser só uma banda charmosa de escoceses para passar a ser o nome do arquiduque assassinado em 1914 que devemos relembrar. Até ao dia em que a Alemanha entre na sua própria crise económica. Até ao dia em que os conflitos internos dos Estados-membros se tornem mais do que referendos. Até lá, Barack Obama vai pedindo à Europa que permaneça "forte e unida", como um tonto pede a um careca que se penteie.

Quando chegares à Velha Europa, amor, tira uma foto com um bom compositor, como na canção. É o que podemos ir fazendo para manter as aparências.

 

publicado às 16:10

Para lá do canal do Panamá

por Nuno Gonçalo Poças, em 08.04.16

Alguns sectores liberais foram rápidos a criticar a existência de infernos fiscais para justificar a honestidade de quem recorre a offshores para não pagar impostos. Mas não, a história dos papéis do Panamá não é a simples demonstração de que se cobram demasiados impostos em determinados países. Claro que há gente que legitimamente leva o seu dinheiro para paraísos fiscais porque, de facto, nos seus países se cobram impostos absurdamente elevados. É óbvio que a competitividade fiscal se conquista e que o capital só permanece se a percentagem dos rendimentos cobrada pelo Estado for razoável - isto é, baixa. É nessa medida que só há paraísos fiscais por comparação. A Holanda ou a Suiça, por exemplo, são paraísos fiscais em comparação com Portugal. Não precisamos de ir para ilhas de areia branca e mar transparente para descobrir paraísos fiscais. Onde há impostos baixos há mais liberdade, há mais respeito pela propriedade privada, há mais investimento, há maior capacidade de gerar riqueza, há mais igualdade de oportunidades, há mais elevador social. Isto não é condenável. Querer não perder rendimento é racional e legítimo. Mas esse é só o lado claro do "Panama Papers". Existem lados negros que não podem ser ignorados. E se não percebemos que esses lados negros existem, então é sinal de que o capitalismo é um sistema moralmente falido. E que quem ganhará com isso serão precisamente os seus adversários. É por isso que é urgente recentrar o capitalismo, recuperar padrões morais dentro de um quadro de economia de mercado.

Em primeiro lugar, a opacidade e o obscurantismo dos offshores não se justificam com a existência de infernos fiscais. Os impostos elevados e injustos não se resolvem com sociedades veículo, com directores fiduciários, com esquemas pouco claros e transparentes elaborados na penumbra e nas zonas cinzentas do Direito.

Em segundo lugar, aquilo que se vai percebendo é que esta zona de ninguém jurídica serve, em grande medida, para processos de lavagem de dinheiro, de branqueamento de capitais, de saneamento de casos de corrupção, de fraude, de tráfico de estupefacientes e de armas. Há de tudo. Desde o sentimento egoísta mais positivo, que é o de não perder rendimentos, à simples lavagem de rendimentos obtidos de forma ilícita, há de tudo. Mas a argumentação que purifica o offshore não é compatível com a sobrevivência de um capitalismo transparente, legítimo e que ainda é a única forma de assegurar condições de bem-estar social a uma grande maioria da população mundial.

Em terceiro lugar, existe também nesta história um problema de disparidade de rendimentos. A argumentação que purifica o offshore é a mesma que desculpa a desigualdade absurda de salários. Alguns sectores têm santificado os salários milionários de presidentes de grandes empresas com o fundamento mais simples de que essas empresas são privadas, que a responsabilidade dos seus CEO é muito grande, que a margem de lucros potencia e dá cobertura moral ao facto de o CEO auferir anualmente milhões de euros enquanto os seus trabalhadores ganham pouco mais que o salário mínimo. Este argumento roça a racionalidade. Mas aprofunda o sentimento de injustiça, fomenta a luta de classes, gera ódios sociais. A sensação, na maioria das populações do mundo capitalista, é a de que não existe de facto igualdade de direitos. E esta desigualdade é sentida também quanto ao mundo dos offshores. O trabalhador do salário mínimo não sente, legitimamente, qualquer igualdade de direitos, quando o dono da sua empresa ganha milhões de vezes mais o seu salário e que coloca esse rendimento fora da alçada do Estado e da máquina fiscal a que o trabalhador não consegue escapar. Também é por aqui que o capitalismo morre. Porque as pessoas podem começar a preferir o Estado à liberdade. Sobretudo quando a liberdade é exercida desta forma.

Se o socialismo julga que os homens são iguais nas suas necessidades e que, por isso mesmo, tudo lhes deve ser concedido na exacta medida das suas necessidades (o que, na verdade e segundo os casos conhecidos, acaba sempre em cenários de miséria generalizada), o liberalismo puro julga-os iguais em direitos. É disto que se trata, no fundo. E é verdade que os homens devem ser iguais em direitos e em oportunidades de forma a que tenham todos os mesmos meios de ascender social e materialmente. Mas esta igualdade e esta ascensão precisam de um centro moral. Se as escolhas devem ser feitas pelos indivíduos e não pelo Estado, na medida em que são os indivíduos que determinam mais acertadamente o que é melhor para as suas próprias vidas, não se descure que essas escolhas devem ser pautadas por padrões morais. O homem já egoísta por natureza. É esse egoísmo que nos permite alcançar uma série de resultados positivos na nossa vida. Mas querer transformar esse egoísmo natural no padrão (a)moral que prevalece é que me parece profundamente errado. O capitalismo salva-se por aí. Não é pela anarquia, pelo salve-se quem puder. É pela moralização do dinheiro. Pela transparência. E, acima de tudo, por uma direita política que defenda as liberdades, o capitalismo e o mercado, mas que também se bata pela moral, pela transparência e que defenda uma coisa tão simples: só porque se pode fazer, não quer dizer que seja legítimo.

 

 

publicado às 11:20

Em linha recta

por Nuno Gonçalo Poças, em 31.03.16

Vargas Llosa, em ‘A civilização do espectáculo’, diz que Tolstoi, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, que sobrevivessem a eles próprios, ao passo que as telenovelas brasileiras, os filmes de Hollywood ou os espectáculos da Shakira não pretendem durar mais que o tempo da sua apresentação. Desaparecem, dão lugar a outros produtos de enorme sucesso e efemeridade. Para Llosa, hoje a cultura é diversão, e o que não é divertido não é cultura. Mas, décadas antes, já T. S. Eliot nos falava dos ‘homens ocos’ (“We are the hollow men / We are the stuffed men / Leaning together / Headpiece filled with straw”), na sequência da sua ‘Canção de Amor de J. Alfred Prufrock’, em que um mundo de homens sem personalidade e sem pujança se rendia ao niilismo, abandonava a vida interior e se refugiava no conforto da estética, da aparência e da mansidão ideológica. Eliot escreveu entre guerras mundiais, entre ameaças de comunismo e de nazismo e de aristocracias moribundas. Llosa escreve no tempo das redes sociais, entre ameaças de novos extremismos e de conflitos entre civilizações.

Trazer o contexto de Eliot para um texto que pretendia abordar a perspectiva de Llosa é evitar o saudosismo. Não, não era antigamente que era bom. Mas é nos tempos em que o homem tem medo do tédio, da história, da fé, da morte e do imperfeito que nos devemos preocupar. Para Llosa, a cultura é uma espécie de consciência que impede o voltar de costas à realidade, que hoje funciona como mero fenómeno de distracção e entretenimento. Partindo do pressuposto de que o homem tem uma tendência natural para se divertir, para ocupar o seu tempo, o que Llosa critica é a transformação desta tendência num bem supremo da civilização.

Esta cultura de entretenimento estabeleceu o critério do preço em detrimento do valor, do comercial em detrimento do simbólico. Transformou-nos em turistas perfeitos, potenciados pelas redes sociais. Entretemo-nos. Filmamos e fotografamos para partilhar, para que vejam que nós vimos. O tecto da Capela Sistina tem o valor de um parque de diversões porque o preço é semelhante. É entretenimento. E sorrimos para as fotografias, já não porque a fotografia é uma raridade, mas porque os outros nos vão ver nas fotografias. E o turista perfeito sorri. Está aparentemente feliz.

Enquanto esta civilização niilista, cínica, gerada na ressaca de um conflito mundial, se entretém, vai-se deparando também com novas realidades, com novas ameaças de conflitos. E vai lendo os tabloides, na esperança de que algo mais a entretenha. Um atentado, um suicídio, um escândalo de corrupção. Talvez Foucault tivesse razão quando dizia que as civilizações sempre foram movidas, umas vezes mais e outras menos, por uma pulsão de morte e de sangue. Talvez. Hoje, que somos nós as vítimas dessa pulsão, vinda de outros, estamos só a entreter-nos. A tirar auto-retratos enquanto as paredes da nossa vida e do nosso mundo vão criando fissuras. Sem saber o que fazer. Mas aparentemente felizes. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, como no 'Poema em linha recta' de Fernando Pessoa. Julgo que é isto. Não, antigamente não era bom. Mas futuramente pode ser pior.

publicado às 12:38

Tanto para tão pouco

por Nuno Gonçalo Poças, em 24.03.16

O problema dos consensos, em Durkheim, apontava a necessidade de crenças comuns por parte da sociedade ocidental, numa fase em que se acreditava que a religião já não seria capaz de as proporcionar. Os construtores do projecto federal europeu acreditaram, muito mais tarde, que essa crença comum seria o caminho de paz e de prosperidade que Maastricht prometia. A cidadania europeia daria corpo a essa crença comum. A verdade é que essa construção falhou desde sempre, na medida em que a cidadania europeia, enquanto conceito colectivo e mecanismo de construção de um povo uno, falhou. Os povos recusaram sempre alcançar uma crença comum maior do que a liberdade mínima de circulação de pessoas, bens e capitais. Recusou a Dinamarca, por referendo. Recusaram os britânicos, umas vezes mais, outras menos. De uma forma ou de outra, os eleitorados da Grécia, da Alemanha, da Hungria, de França, de Espanha também a vão recusando. A própria União Europeia esforçou-se por fomentar este cepticismo, nomeando Governos ilegítimos em Itália ou no Chipre. Falharam todos. O que finalmente uniu os europeus em torno de um projecto comum foi o terrorismo islâmico. O terrorismo que foi existindo na Europa ao longo do século XX não foi um terrorismo contra europeus. Foram vários tipos de terrorismo, fenómenos de análise individualizada, na Irlanda, em Espanha, em Itália. Este novo terrorismo, que é praticado contra um modo de vida, contra uma cultura, é que nos veio unir. Porque o medo, que é real, será sempre mais forte que quaisquer utopias. O problema agora é que parece não haver ninguém que nos socorra.

publicado às 09:45

E agora?

por Nuno Gonçalo Poças, em 23.03.16

Estamos em guerra. É isto, não é? Estamos em guerra e ela está a travar-se cá dentro. Nos aeroportos, nos centros comerciais, nas salas de espectáculos. E dizem-nos que não podemos ter medo. Aqueles que nos prometeram paz e prosperidade para todo o sempre, que se fiaram no fim da história, pedem-nos que não tenhamos medo. É isto, não é? Dizem-nos que temos de nos habituar, que isto vai ser sempre assim, que atentados terroristas, a partir de agora, podem sempre acontecer em qualquer altura. E pedem-nos coragem. Aqueles que recusaram o choque de civilizações, que confundiram tolerância com relativismo e multiculturalismo com passividade, agora pedem-nos coragem. Pedem-nos que continuemos a viver o nosso quotidiano da mesma maneira. E nós continuamos. Encurralados em prédios sem conhecer a vizinhança. Fechados em centros comerciais, a cismar em frente às montras. Sem que pertençamos a alguma coisa. Sempre cínicos, sempre disponíveis para rir do amor dos outros, sempre a brincar com a fé dos outros. Sem crença no País e no Estado. Encurralados nos subúrbios que não são de ninguém ou nos centros onde cada um é também só de si próprio. E a assistir a uma vaga cada vez maior de gente adolescente e pós-adolescente que quer mais do que isto e que encontra mais do que isto em células terroristas, numa religião, no diabo a quatro. Com a complacência das comunidades. E pedem-nos que continuemos a assistir a isto sem medo, firmes, orgulhosos do marasmo, da falta de moral, da incapacidade de distinguir o bem do mal. Pedem-nos que nos habituemos. Porque isto vai ser sempre assim. Mas nós temos medo. Temos medo, estão a ouvir? E viramo-nos para que lado? Para quem nos pede que nos habituemos? Há quem peça aos Estados. Mas os Estados são instituições de solidariedade social, são reservas de dinheiro. E esse dinheiro já nem existe. Os Estados não têm exércitos. Mal têm polícias. E os polícias que têm, mal conseguem encher os depósitos dos carros. E os Estados decidem o quê? E como? E quando? Decidem todos juntos, sobre alguma coisa, quando não se conseguem entender sobre coisa nenhuma. Os Estados, todos juntos, dizem-nos que o mal está lá fora. Mas nós sentimos o mal cá dentro. É isto, não é? E pedem-nos coragem. Pedem-nos que continuemos a confiar e a levar a nossa vida tranquila e sem grandes crenças. Querem que continuemos a ser cínicos. Mas nós precisamos de alguém. De alguma coisa. E olhamos à volta. E temos casos de corrupção a encher a vida pública por todo o lado. Confiamos em quem, então? E continuamos a olhar à volta. E temos extremistas, uns mais loucos que outros, a ganhar terreno por todo o lado. E viramo-nos para que lado, então? Devíamos estar a confiar nalguma coisa. Nos vizinhos lá do bairro, na associação cultural, nas Forças Armadas. E devíamos estar a acreditar nalguma coisa. Em Deus, na família, na pátria. Sem complexos de fascismo, que Deus, a Pátria e a Família não são conceitos fascistas, não servem para ostracizar ou para reprimir. Servem para estabilizar. Para nos dar solidez. Mas já vamos tarde. Estamos em guerra, pá. E a guerra está a fazer-se cá dentro, ao nosso lado, por gente que podemos conhecer e de quem podemos até gostar. O nosso mundo mudou. Para pior. Acreditem que, para quem tem 30 anos e uma vida inteira à frente, isto é dramático.

publicado às 13:05

Bruce_is_alive.png

 Na saga Guerra das Estrelas, episódio III, Anakin Skywalker e Obi-Wan tentam resgatar o Chanceler Palpatine, sequestrado pelo General Grievous. Depois do resgate, quando Anakin regressa a casa, Padmé, a sua mulher, conta-lhe que está grávida de um filho seu. A partir desse momento, Anakin passa a ter pesadelos relacionados com esta notícia, prevendo que Padmé morreria durante o parto. Dominado pelo medo e obcecado pelo Bem, junta-se aos Sith, seduzido pelo Lado Negro da Força. Anakin Skywalker passa, assim, a ser o famoso vilão da história do cinema Darth Vader.

Este absoluto desejo pelo Bem conduzi Anakin ao Lado Negro na medida em que ultrapassa os seus pontos de equilíbrio e ignora as barreiras do seu próprio ego e da sua moral. Foi o medo da barbárie que conduziu Anakin Skywalker a Darth Vader.

Já na trilogia Batman, de Christopher Nolan, deparamo-nos com o contrário. Bruce Wayne compreendeu a existência de limites à luta pelo Bem. Em ‘O Cavaleiro das Trevas’, o segundo da saga, face à presença do Mal absoluto, encarnado por Joker, Batman é conduzido à pergunta final: o Mal absoluto de Joker legitima ou não o poder absoluto do Bem de Batman? Bruce Wayne faz o percurso contrário ao de Anakin Skywalker e rejeitou a resposta fácil. Batman aceita o seu lugar secundário na história, aceita não ser o herói, aceita comprometer-se com a realidade e, pasme-se, aceita ainda passar pelo papel de vilão.

No último episódio, ‘O Cavaleiro das Trevas Renasce’, Alfred Pennyworth, o mordomo de Bruce Wayne começa por pedir-lhe que não faça renascer Batman. O milionário decide o contrário, mas o filme termina com um Bruce Wayne maravilhosamente transformado num ser humano que, aceitando o fim de Batman, reconhece também que o Mal é uma inevitabilidade e assente que é apenas um homem e não um herói. O fim da trilogia não é unívoco. Pode parecer que Bruce Wayne desistiu; pode parecer que Bruce Wayne se rendeu ao cinismo e à indiferença, à não distinção entre o Bem e o Mal. Não creio. No fim da trilogia de Nolan, Bruce Wayne aceita-se, conforma-se com os seus limites e presta-se a viver uma vida simples, decente e sem a aspiração ao Bem absoluto.

 Tzvetan Todorov, filósofo búlgaro radicado em França, afirmou, em ‘O medo dos bárbaros: para além do choque de civilizações’, que é o medo dos bárbaros que ameaça converter-nos em bárbaros, no sentido em que a cura pode ser muito pior que a doença. Bruce Wayne compreendeu isso. Não quer isto dizer que o Mal deixe pura e simplesmente de ser combatido. Pelo contrário. Quer dizer que o Bem ganha quando nos recentrarmos, quando soubermos que é no nosso quotidiano que ele se pratica. E quando deixarmos de tentar ser heróis. Numa época em que os dedos da acusação se apontam com tanta facilidade, era bom que a mensagem de Bruce Wayne se espalhasse. Era bom que aprendêssemos que somos falíveis – e que é por isso que precisamos de salvação. E que também precisamos que nos deixem falhar à vontade.

publicado às 14:41

Beirut e o McDonald's do Chiado

por Nuno Gonçalo Poças, em 14.03.16

Eu sei que as cidades não se descaracterizam. Evoluem. Claro que evoluem. A pequena Lisboa do Eça já não é a pequena Lisboa do Eça. E é claro que compreendo o mercado. Que diabo, claro que compreendo, que o dinheiro é escasso. Não há aqui ironia. Eu compreendo tudo. E dá-me jeito. Claro que dá. E é claro que uma multinacional espanhola que vende calças de ganga baratas e produzidas-numa-cave-qualquer-do-Bangladesh-por-crianças-que-podiam-ser-meus-filhos-a-ganhar-meio-cêntimo-por-dia pode perfeitamente estar numa loja do Chiado. Eu gosto de calças de ganga baratas. E claro que eu gosto das coisas modernaças. Trendy, claro.  E aceito que os barbeiros tenham deixado de ser senhores e que sejam agora putos hipster cheios de estilo, com penteados retro. Eu aceito tudo. Deixo-me ir, levado pela civilização, pelo progresso, pelo futuro. Eu, um daqueles lugares comuns que acha que todos os momentos da sua vida deviam ter a companhia de uma banda sonora, tenho o problema de ouvir a banda-orquestra do Zach Condon quase todos os dias. Porque sinto naquilo que ouço um punhado de jovens-que-são-na-realidade-velhos-melancólicos a falar para um congénere seu, na contramão do mundo. Porque ouço em Beirut os abandonos e os reencontros, a esperança e a dúvida, o passado e o presente, as lembranças e os desejos. Um avanço e recuo nostálgico, a pressa de viver e a vontade de o fazer devagar. Eu sou esse lugar comum que percebe e aceita o McDonald's ao lado da Brasileira, num sítio onde já esteve uma barbearia centenária e onde cortei o cabelo meia dúzia de vezes. Sou esse lugar comum que gosta das calças baratas de uma multinacional qualquer, em sítios onde já houve lojas familiares. Sou esse lugar comum que gosta de espaços modernos com gosto, mas que não os trocava por um clássico-ainda-que-todo-badalhoco. Percebo porque me dá jeito, porque é a vida. Mas não me peçam para gostar. Não enquanto os Beirut tocarem no meu antiquado-ainda-que-aos-meus-olhos-moderníssimo leitor de MP3.

publicado às 14:16

Os pós modernos, nada complicados

por Nuno Gonçalo Poças, em 11.03.16

(Se é que se pode dizer que é verdade) é verdade que à nossa volta a única verdade absoluta que existe, no período pós-moderno, é que não há verdades absolutas. Os pontos de vista são o critério a ter em conta, ainda que sejam permanentemente moldados em função das percepções e das considerações individuais de cada um. Tudo é interpretação, ponto de vista, opinião. E, como tal, tudo é refutável. A moralidade é variável em função da própria concepção de bem e mal de cada um. Tudo é aceitável – mesmo atentados ou violações de direitos humanos. A sociedade adoptou esta visão como cultura hegemónica e recusa a existência de centros morais. O relativismo moral, enquanto posição social contra-ética, impõe aquilo a que vamos assistindo por toda a parte, das colunas dos jornais à rotina do quotidiano: o julgamento moral é sempre variável consoante as entidades que estejam adstritas a determinado facto; os indivíduos, a sua classe social, a sua cultura e educação são factores de distinção para a apreciação do julgamento moral; o bem e o mal são valores relativos, a avaliar em função da percepção de cada indivíduo. A relevância absoluta do indivíduo sobre tudo, sobre a comunidade, sobre a família, sobre a religião, sobre a pátria, é fundamental. É evidente que o indivíduo faz escolhas e decide sobre factos da sua vida - somos dotados de livre-arbítrio. Mas o que o relativismo moral pós-moderno declara é que essas escolhas são livres até de quaisquer consequências – na medida em que todas são legítimas. Não se ensina a distinção entre o bem e o mal. Não se explica que o indivíduo pode agir desta ou daquela maneira e que cada uma delas terá uma consequência, melhor ou pior, consoante o seu acto e a sua decisão. É por isso que, por exemplo, é hoje aceitável que alguém diga que pode fazer o que bem entende com o próprio corpo, na medida em que este é sua pertença – o que legitima o aborto, a eutanásia, o suicídio, a amputação. Repare-se, noutro exemplo bem diferente, na perspectiva que venceu, a propósito do fim dos exames no fim do 1.º Ciclo, recordando as palavras de Catarina Martins, quando afirmou que preferia ser operada por um cirurgião que, em vez de ter sido avaliado, tivesse sido feliz na escola. É esta premissa que serve o ‘eduquês’ que trata o professor não como professor, educador e transmissor de conhecimento e de ética, mas como um ser passivo a quem compete ser compreensivo e tolerante para com as vontades individuais dos alunos, que têm como competência exercer a sua felicidade na sala de aula. Ou, olhando ainda para outro exemplo, se eu decidir deliberadamente matar alguém, a verdade objectiva diz-me que eu pratiquei um acto cruel e que devo ser castigado por isso. A relatividade explica-me que eu pratiquei um acto livre que pode ser explicado em função das circunstâncias. Posso ter assassinado alguém por ser pobre e esse alguém ser muito rico; posso ter assassinado uma mulher porque acredito numa religião que entende que todas as mulheres devem ser assassinadas. ‘Não matarás’ significa hoje ‘se achares por bem, mata; se achares por mal, deixa-te estar’. Os dez mandamentos tornaram-se em dez sugestões em permanente avaliação individual. As escolhas éticas passam a ser meras escolhas amorais e as palavras utilizadas para as descrever são simples palavras, sem significado e sem substância. A defesa de posições deixa de o ser, para passar a ser um banal arranjo formal de opiniões, interpretações e perspectivas. A fundamentação, a discussão, o debate, passam a ser altamente dispensáveis, na medida em que a decisão final de cada um está tomada e, independentemente de que se trate, é tão legítima como qualquer outra.

Daí que outra das inevitabilidades do relativismo pós-moderno seja o cinismo – na sua dimensão de acto daquele que se divorcia das normas sociais ou de uma moral previamente estabelecida – na medida em que decorre imediatamente da premissa que diz que tudo é interpretação e opinião. Ora, se tudo é interpretação, para quê acreditar em algo que é facilmente destruído por uma interpretação contrária? Para quê acreditar em Deus, se alguém se presta a dizer que nunca O viu e que, nunca o tendo visto, não é legítimo nem possível demonstrar a existência d’Ele? Para quê demonstrar amor à pátria, se alguém depressa nos diz que as fronteiras se alteram muitas vezes ao longo da história, que os povos migram, pelo que o amor a um país é ridículo, na medida em que esse mesmo país pode não existir daqui a anos? Daqui à vertente cómica é um instante. Para a sociedade ocidental pós-moderna, a crença em algo maior que o próprio indivíduo é critério de comicidade. Um católico é um louco. Um evangélico é um idiota. Um patriota é um ultrapassado. Já o facto de se recorrer à expressão shakespeariana “nada em si é bom ou mau, tudo depende daquilo que pensamos” é legítimo – mesmo que a frase tenha saído de Hamlet, em alto estado de insanidade.

Aqui chegados, é fácil compreender que aquele que acredita em algo e que o defende sem complexos é um potencial alvo de chacota pública – quando não de ataques violentos. Ou, como dizia o Papa Bento XVI, quando o relativismo moral se absolutiza em nome da tolerância, os direitos básicos relativizam-se e abre-se a porta a um novo totalitarismo. É por isso que, nesta fase da história, é fundamental acreditar. Em qualquer coisa. E defendê-la com coragem. Sob pena de começarmos a ir à missa clandestinamente. Ou de termos vergonha de assumir em público que rezamos. Ou de arrogarmos algum tipo de patriotismo. De reconhecer que há coisas maiores que nós próprios, que nós não somos o centro de todas as decisões e que existem verdades objectivas. Que existem centros morais. Que o bem e o mal são claros e não conceitos adaptáveis em função da necessidade ou da liberdade do indivíduo. E por aí fora. Ser rebelde é, em 2016, acreditar. Estranhos tempos, estes.

 

publicado às 11:07

Casar e ter filhos: dois gestos revolucionários

por Nuno Gonçalo Poças, em 07.03.16

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 Segundo o Pordata, em 1975 realizaram-se 130.125 casamentos em Portugal. Em 1985, esse número baixava 44%, para os 68.461 matrimónios. Em 2014, realizaram-se 31.478 casamentos. Ou seja, em quarenta anos, o número de casamentos diminui em quase 80%. Há dois anos, casaram-se pouco mais de 60.000 pessoas, 30.000 homens e 30.000 mulheres. O Patriarcado de Lisboa, em 2008, dava-nos conta de que o número de casamentos católicos tinha caído em mais de 60%, face aos registos de 1998.

Por seu turno, o número de divórcios por cada 100 casamentos era, em 1975 de 1,5, em 1985 de 13,1, em 1995 de 18,5 e em 2013 de 70,4. Significa isto que, segundo os dados mais recentes, 70% dos casamentos resultam em divórcio. Em termos mais práticos, três em cada quatro casamentos não sobrevivem.

Já em relação à natalidade, por cada 1.000 residentes, em 1975 nasciam 19,8 crianças. Em 1985 esse número reduzia para 13, em 1995 para 10,7 e em 2014 para 7,9. Já a percentagem de bebés de pais não casados, vivam ou não em união de facto, era de 7,2% em 1975, de 12,3% em 1985, de 18,6% em 1995 e de 49,3% em 2014.

A minha geração casa-se menos, divorcia-se mais, tem menos filhos e os que tem nascem fora de situações de matrimónio. Significa isto que preferimos a união de facto à figura institucional do casamento? Que fazemos pouco para que os casamentos perdurem? Que temos outros focos na vida que não a descendência e a família? Julgo que sim.

Casamos menos, porque o casamento, enquanto figura institucional, não nos diz rigorosamente nada. O casamento é jurídica e moralmente um contrato como outro qualquer tipificado na lei. Casar, constituir família, ter filhos, fazer sacrifícios para que tudo isto perdure, não são prioridades. Por isso é que nos divorciamos mais. Apenas um em cada quatro casamentos sobrevive. E, uma vez que é impossível termos dados semelhantes em relação às uniões de facto, continuaremos sem saber quantas delas realmente prevalecem. Ou não prevalecem.

Este tema não é alvo de grande debate, porque, à semelhança de causas como a defesa do direito à vida, por exemplo, são causas perdidas neste período pós-moderno. Mesmo o tema da natalidade só tem voltado, a espaços, à agenda mediática na medida em que se tornou relevante para discutir a sustentabilidade da Segurança Social. Mas os dados que acabei de enunciar evidenciam uma série de coisas: a quebra de laços familiares, o fim do casamento enquanto instituição, a liberalização e banalização dos afectos, o foco na carreira e no mercado de trabalho, a inversão de prioridades. Hoje, casar, ter filhos, constituir família, não são gestos que façam parte de um processo de busca pela felicidade. Pouca gente vê hoje felicidade na família, no matrimónio enquanto vínculo para a vida, no sacrifício, no lar. Em 1975, no pós-revolução, não casar e divorciar-se era um acto guerrilheiro e libertário. Ser iconoclasta e revolucionário, em 2016, é casar, fazê-lo na igreja por convicção e não porque as fotografias são mais bonitas, e ter filhos. Será essa a minha revolução.

 

P.S.: Também em papel, na edição d'O Diabo da passada terça-feira. Com um agradecimento especial ao Duarte Branquinho, na hora da sua despedida da direcção do jornal, por me ter acolhido tão bem nas páginas do mesmo.

 

publicado às 10:11

Era matá-los!

por Nuno Gonçalo Poças, em 08.02.16

Não importa que a eutanásia afronte a ideia da vida humana como digna por si só. Não importa que a eutanásia passe por cima da necessidade de cuidados médicos de qualidade para todos. Não importa que a eutanásia passe por cima do princípio da eliminação da doença para atingir o grau de eliminação do doente. Não importa discutir o que seja "viver com dignidade". O direito à vida é hoje um direito higiénico. Tens direito à vida se tiveres a certeza, à nascença, de que vais ter uma vida de sorrisos. Se tiveres a certeza que vais ser forte, saudável, bonito, inteligente, com rendimentos, com estudos. Se não se adivinhar nada disto, aborta-se. Perdão, "interrompe-se voluntariamente a gravidez". Se estás doente, se te apetece morrer, então o teu direito a escolher morrer é maior que o direito à vida, que um dia já foi inviolável e inquestionável. Não importa nada que viver seja mesmo isso - viver. Com dificuldade, com aspereza, com obstáculos, com doença, com estados lamentáveis. Não importa que os cuidados paliativos não cheguem a todos. Mate-se. Matemo-nos, então. Perdão, "suicidemo-nos com assistência". Já que se arranjou, como sempre, um eufemismo, agora é esperar que se legalize. Eu baixo os meus braços perante uma cultura que banaliza o direito à vida, perante uma cultura que entende a vida como um estádio de saúde, de força, de vivacidade, de felicidade. Josef Mengele deve estar a adorar.

publicado às 12:50

Convicções e democracia

por Nuno Gonçalo Poças, em 22.01.16

Tenho acompanhado de forma bastante deficiente as primárias nos Estados Unidos. Vão-me chegando as afirmações mais ou menos estapafúrdias de Donald Trump. Tenho acompanhado as intervenções acertadas mas com pouco impacto nas sondagens de Carly Fiorina. Acompanhei mais atentamente o processo eleitoral em Espanha. A ascensão do Podemos, a vitória do PP, o desastre do PSOE, a surpresa do Ciudadanos. Não quero falar sobre nenhum deles. Nem sobre Trump, nem sobre Fiorina, nem sobre o inominável Iglésias ou o falhado Sanchéz. A verdade é que mal ou bem, de forma mais acertada ou mais escabrosa, mais racional ou mais estapafúrdia, toda esta gente se tem atravessado por convicções. Podem ser as convicções de hoje - com o risco da contradição no futuro. Podem ser as convicções mais imbecis do mundo. Mas são convicções. No debate democrático, o que realmente importa são as convicções. Mais que os partidos a que se decide pertencer (ou deixar de pertencer) ou que os canais por onde a mensagem se espalha, importante em democracia é discutir convicções. Ideias e programas. Posições políticas e sociais sobre os temas que importam ao regime e ao sistema democrático. Lutar pela democracia não se faz só quando ela não existe, em ditadura. Lutar pela democracia não se faz só votando. Lutar pela democracia faz-se pugnando por este debate, pelo aprofundamento das questões e das clivagens, pela defesa das ideologias, com lealdade e honestidade intelectual. E o contínuo abandono das convicções e das ideologias a que temos assistido um pouco por todo o mundo não tem favorecido outra coisa que não o surgimento de Trumps ou de Iglésias. É legítimo escolher o contrário? É. Mas é importante que não se esqueçam que isso significa a transformação do sistema democrático num mero processo de venda de candidatos. Assim como quem vende detergentes ou tupperwares. Não venham é queixar-se depois.

publicado às 19:45

Será, talvez, por gosto

por Nuno Gonçalo Poças, em 21.01.16

Andou para aí a circular um texto brasileiro que falava da "triste geração que virou escrava da própria carreira". É a geração que nasceu quase bilíngue, que teve a melhor educação, que se licenciou, que tirou pós-graduações, mestrados e doutoramentos, que viajou pelo mundo inteiro. É a geração que chega aos 35 e ganha o que os pais nunca sonharam ganhar. Também é a geração que não sai de casa dos pais aos 25 porque espera por uma promoção na empresa, que abdica da vida pessoal porque fica no escritório até às duas da manhã e que, aos 35, não vê os filhos porque sai de casa e volta quando eles estão a dormir. Está tudo muito certo. O problema é que isto tem um erro. Nós estudámos, tirámos mestrados, pós-graduações, doutoramentos. Os que puderam, viajaram para longe. Os que não puderam, viajaram para menos longe. Acreditamos que a saúde vem em caixas de comprimidos, sim. Acreditamos que as redes sociais substituem o resto. Trabalhamos 10, 12 horas por dia. Trabalhamos ao fim de semana. Temos e-mail no telemóvel e ligam-nos aos gritos quando demoramos mais de dois minutos a responder a um e-mail não urgente que recebemos às onze da noite. E achamos tudo normal. Cansa-nos, mas achamos normal. Porque é mesmo assim. Porque se não for isto, vamos vender pizzas numa mota. E, apesar de tudo isso, não ganhamos o que os nossos pais nunca sonharam ganhar. Não ganhamos, às vezes, metade do que os nossos pais ganharam. Então tornámo-nos escravos da carreira para quê, afinal?

publicado às 16:58

Refundação

por Nuno Gonçalo Poças, em 14.01.16

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 Já aqui, a propósito da relevância de Paulo Portas e do seu CDS, falava da importância da libertação da direita portuguesa das amarras do socialismo cristão e das grilhetas do saudosismo do Estado Novo. Portas, o tigre, deixou uma jaula aberta, num gesto perspicaz e corajoso, mas perigoso.

Esse perigo não parece, para já, vir a materializar-se. A forma como as elites do CDS têm sabido fugir a um banho de sangue interno é admirável e, ainda que a nova liderança possa vir a ter algo de semelhante a uma aclamação norte-coreana, um sinal positivo para o futuro.
Em primeiro lugar, porque os egos, na vida partidária, são um factor determinante para a deterioração das máquinas. Esses egos, no CDS, souberam poupar-se e preferiram uma solução que agradasse a todos e que pudesse agradar ao País. Posso enganar-me, mas foi esta a sensação com que fiquei. E é sempre uma boa impressão.
Em segundo lugar, porque é essencial que, a partir do anúncio de candidatura de Assunção Cristas, se comecem a discutir ideias (como, aliás, já fez o Adolfo Mesquita Nunes) e não personalidades. Posso, mais uma vez, enganar-me. Mas isto é um sinal claro de um processo de amadurecimento democrático de um partido que podia perfeitamente ter ficado refém dos seus líderes - à semelhança do que acontece no PSD. Interessa-me muito pouco analisar a personalidade de Assunção Cristas. O que me interessa é saber é por onde passam as suas ideias, o seu programa, o seu discurso.
A direita precisa de afirmação e de reinvenção e este é o momento ideal para refundar o CDS, para o distanciar do PSD, para o marcar pela diferença na ética, no exemplo e na coragem. É o momento para lançar as bases de uma direita descomplexada, que não seja moralista ou condescendente. De uma direita que não se queira imiscuir no bloco central de interesses, que queira crescer e ganhar espaço eleitoral, mas que saiba não perder identidade e cultura de trabalho e de mérito. Que tenha agenda social, mas que não veja no Estado a base dessa agenda. Que seja conservadora sem ser marialva ou popularucha. Que seja liberal, mas que não julgue que todos os problemas, sem excepção, se resolvem sem interferência do Estado. Que não se torne numa escola de maus hábitos. Que não seja um albergue de medíocres. Que seja iconoclasta sem relativismo, que seja irreverente sem insolência, que seja moderna sem ridículo.
Se será Assunção Cristas a mulher ideal para representar tudo isto, ainda não sei. Sei que o País precisava de alguma coisa assim. Talvez o CDS precise de alguma coisa assim. Não sei. Mas eu gostava de ver.

publicado às 16:45

(Tentar) falar (mais) claro

por Nuno Gonçalo Poças, em 07.01.16

A avaliar pelos comentários que recebi, parece-me que ontem não fui claro. Como não gosto de ter essa sensação, aqui fica uma tentativa de esclarecimento.

 

1. Eu percebi que a Ana Garcia Martins se limitou a constatar um facto: as mulheres (e os homens, já agora) têm total liberdade de querer ou não querer ter filhos. Não neguei essa evidência. Pelo contrário, até a reforcei. Mas também me parece que é preciso ir além do óbvio. A questão não é se as pessoas podem ou não querer ter filhos. Claro que podem. O debate deve ser sobre os motivos que levam a que uma grande fatia da nova geração opte por não ter filhos. E sobre esse assunto ninguém parece ter respostas, preferindo discutir a questão da liberdade de querer ter filhos ou não.

2. Se quiserem substituir a palavra "egoísmo" por "egocentrismo" têm-me do vosso lado. Não se trata de ser egoísta em relação a filhos que ainda não nasceram. Trata-se de colocar o ego, o "eu", acima de todos os outros interesses. Incluindo os de terceiros.

3. Também me parece evidente que alguém que afirma orgulhosamente que "detesta crianças" sofre de algum problema, nem que seja de formação. São livres de odiar crianças? São. Mas isso afecta valores de comunidade em que acredito e também sou livre de achar que isso é uma barbaridade.

4. Porém, é um facto que há pessoas que não gostam de crianças - e que, por isso mesmo, mais vale que não as tenham. Claro. Mas, mais uma vez, a minha pergunta é esta: porquê? Por que motivo há hoje, numa geração que por acaso é a minha, uma aversão mais aguda em relação ao sacrifício que significa na vida de uma pessoa o facto de ter um filho?

5. Por que motivo há hoje uma tendência significativa de pessoas que não sentem o "apelo da maternidade ou da paternidade"? Mais uma vez: são livres de não o sentirem. Mas continuamos sem discutir as razões dessa escolha.

6. Também não acho que uma mulher ou um homem sejam heróis porque resolveram ser mães ou pais. Ser pai ou mãe não é um acto de heroísmo. É um decisão. Como é uma decisão não o ser. Ponto final.

7. Quando falei em "sociedade organizada" fi-lo de forma abstracta. Parece-me claro que só viu na expressão, no contexto da frase, uma alusão ao Salazarismo que vê o Salazar em todo o lado.

8. Quando disse que o meu pai sustentava, com 40 contos de rendimento, uma mulher, um filho e uma renda de casa que lhe roubava metade desse rendimento, não estava a defender nenhum modelo de sociedade em que o homem trabalha e a mulher é uma escrava do lar. A minha mãe arranjou trabalho pouco tempo depois. Novamente: alguém devia parar de ver o Salazar em todas as esquinas.

9. Claro que para não ter filhos, como para muitas outras coisas, todos os motivos são válidos. Não querer ter estrias na barriga, por exemplo, é um motivo válido como outro qualquer. Mas repito-me: por que motivo há hoje uma tendência significativa de pessoas que prefere uma barriga lisa ao sacrifício que é ter um filho e educá-lo?

10. Para que fique claro: eu não disse que a Ana Garcia Martins, o ser humano, era imbecil. Nem sequer disse que a Pipoca Mais Doce, a personagem, era imbecil. Disse, e mantenho, que a Pipoca Mais Doce é um ícone de um determinado tipo de mulher moderna e cosmopolita. E esta, sim, acho que é um bocadinho imbecil. Ou imbecilizada.

11. Se fosse preciso passarmos pelas experiências para falarmos sobre os temas, era bom que toda a gente passasse um ano a viver na rua antes de falar de pobreza, por exemplo. Não me excluí da geração que critico, mesmo que casar e ter filhos esteja nos meus planos para este ano.

12. Claro que ter filhos é uma despesa. Mas não é a despesa que muitos pais fazem crer. É tudo uma questão de opções. Umas são mais caras, outras mais baratas. E com todas se perde e se ganha.

13. Vou repetir-me pela enésima vez: eu não nego a liberdade de ter ou não ter filhos. Mas continuo a não perceber por que motivo hoje se considera que as pessoas não estão preparadas para os ter, que razão leva uma grande parte de pessoas a odiar crianças, etc.

14. Esta liberdade é individual. Claro. Mas não é um assunto que diga respeito apenas a cada um de nós. É um assunto colectivo. Da comunidade em que nos inserimos. E a renovação das gerações, a natalidade, é um problema sério com que nos confrontamos. Por isso, sim, eu tenho alguma coisa a ver com essas decisões individuais. Não as quero condicionar. Mas quero perceber o que as leva a optar por uma coisa (não ter filhos) em vez da outra (tê-los). E até agora ninguém (com a excepção, talvez do Bruno Vieira Amaral e da Susana Almeida, que abordaram alguns pontos interessantes sobre isto) me soube ajudar.

publicado às 10:12

Na Terra do Nunca

por Nuno Gonçalo Poças, em 06.01.16

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 A Ana Garcia Martins, também conhecida como a Pipoca Mais Doce, esse ícone da mulher moderna, urbana, cosmopolita e profundamente imbecil, escreve um texto de incentivo à liberdade da mulher. A liberdade de não ter filhos. E ilustrou livremente esse texto com a infeliz imagem que aqui reproduzo.

Não ignoro essas liberdade. É evidente que quem não quer ter filhos não os tem. Claro que quem não gosta de crianças não deve ter filhos. Como é evidente que quem pensa assim mais vale que não os tenha. Não é nada disso que deve estar em causa quando se discute um tema deste género.

Ninguém gosta de crianças a chorar, ninguém gosta de mudar fraldas, de ter as camisas vomitadas, de passar noites em claro, de gastar dinheiro com coisas que só as crianças usam. Mas quem disse que nós só fazemos coisas de que gostamos? Diz-nos a modernidade e o hedonismo dos tempos que correm.

A geração dos nossos pais, com a nossa idade, já tinha cumprido serviço militar, já tinha terminado os estudos, já tinha emprego, já tinha casa, já tinha casado e já tinha filhos. Não porque gostasse. Essa era uma questão que não se colocava. Este percurso natural da vida numa sociedade organizada não era uma questão de gosto. Era assim porque as coisas são mesmo assim. Porque as ambições pessoais e profissionais não atropelavam a constituição de família.

A nossa geração foi criada pela anterior, mas não pelo exemplo. Nós fomos criados numa época de paz, de prosperidade, do prazer. E levamos muito a sério o culto desse prazer. Tudo é feito e deve ser feito para ser do nosso agrado. Para sermos "felizes". É por isso que não suportamos o sacrifício, a renúncia, a dificuldade, a perda, o fracasso, a desilusão - ou, se quisermos ir mais longe, é por isso que não suportamos a velhice, o feio ou a morte.

Constituímos hoje uma sociedade Peter Pan. Não queremos atingir a maturidade - um processo que exige responsabilidade, compromisso, sacrifício. A sociedade moderna é uma sociedade adolescente porque é composta por indivíduos eternamente adolescentes – gente que atinge a puberdade cada vez mais cedo e que a abandona cada vez mais tarde.

Como disse aqui há dias, nós podemos ter paciência para tudo. Para jantar fora, para trabalhar até à meia-noite, para ir de férias com os amigos, para jantaradas e noites durante a semana, para desportos radicais, para ir a todos os sítios fashion, gourmetfancy da cidade, para estar no Facebook, no Twitter, no Instagram, no Whatsapp. Mas não temos paciência para chegar a casa e perder uma hora do nosso tempo a brincar com uma criança. Para mudar fraldas. Para não dormir por causa do choro de um bebé. Temos paciência para tudo menos para aquilo que nos tira a paciência. E o que nos tira a paciência é praticamente tudo aquilo que nos atinge o prazer.

O trabalho é horrível porque não tiramos dele qualquer prazer - mas temos de trabalhar para termos dinheiro para gastar em pequenos e grandes prazeres. A família é horrível porque nos rouba tempo, porque nos limita, porque nos condiciona o sexo, as saídas à noite, as jantaradas, as noitadas e as viagens.

E escudamo-nos em todos os argumentos. As despesas com os filhos são a maior das desculpas. Como se as gerações anteriores, mais pobres que a nossa, não tivessem tido filhos. "Ah, mas agora um filho é uma despesa muito maior". Pois é. Se quisermos que seja, claro. Se quisermos que o petiz frequente todas as actividades extra-curriculares lá do colégio caríssimo que frequenta, se quisermos gastar fortunas em roupas de marca que só duram um mês, se quisermos gastar rios de dinheiro em coisas que podiam sair muito mais baratas, ter um filho hoje é muito mais caro que antigamente. Ainda estou para saber como é que, por exemplo, o meu pai sustentava uma mulher desempregada, um filho e uma renda de casa de 20 contos quando ganhava apenas 40...

A Ana Garcia Martins tem razão: quem não quer ter filhos é livre de não os ter. E quando pergunta se isso é egoísta, a resposta é sim. E não é em relação a ninguém. É egoísta porque é uma escolha pelo amor-próprio, pelo prazer pessoal, pelo ego. Se é uma escolha livre? É - e não seria escolha se não fosse livre. Mas também é um sinal dos tempos. Da sociedade Peter Pan que estamos a construir. A Pipoca Mais Doce podia ter só dito que gosta desta Terra do Nunca. Pode ser que ela queira ocupar o espaço da Sininho. Eu prefiro ser o Capitão Gancho.

 

publicado às 16:38

A esquerda precisa de Cavaco

por Nuno Gonçalo Poças, em 03.01.16

Aníbal Cavaco Silva não nasceu no Restelo, não é filho de gente cosmopolita, não tem um passado de anti-fascismo militante, não descende sequer de gente burguesa. Cavaco nasceu numa aldeia do concelho de Loulé, filho de um homem remediado que vivia do cultivo de frutos secos e do comércio de combustíveis. Licenciou-se em Finanças, doutorou-se em Economia Pública em York, chegou a catedrático na Universidade Católica e na Universidade Nova de Lisboa. Cumpriu o serviço militar, foi Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro durante dez anos, candidato derrotado numas eleições presidenciais e Presidente da República durante outros dez anos. É o maior exemplo de elevador social da história da democracia portuguesa: o filho de um gasolineiro de Loulé chegou à chefia do Governo e à chefia do Estado depois de ter construído uma carreira académica, tudo pelo seu pulso. Se há casos de mérito em Portugal, Cavaco Silva é o maior de todos eles.

Há, porém, quem não morra de amores por Cavaco Silva. Uns, à direita, que não lhe perdoam as opções políticas que fizeram crescer o monstro que é o Estado, que não lhe perdoam o socialismo disfarçado de ambiguidade ou o despojamento ideológico (que, de resto, sempre serviu de fertilizante no PSD a todos os seus líderes). Outros, à esquerda, escudam-se na alegada marca ideológica do cavaquismo para o odiar de morte, quando na verdade não o suportam porque Cavaco representa um fenómeno de ascensão social que a esquerda detesta. A esquerda soarista detesta Cavaco porque Cavaco não faz parte da elite lisboeta - apareceu sem prestar vassalagem e obteve quatro maiorias absolutas em seis eleições. E a esquerda à esquerda do soarismo (onde se situa o novel Partido Socialista) não suporta Cavaco porque Cavaco não tem passado anti-fascista, é filho de gente pobre e porque subiu na vida a pulso. Cavaco explicou à esquerda que era possível ter sucesso em Portugal fora das dinastias e das elites de Lisboa (como Sá Carneiro tinha já demonstrado) e que um filho de um pobre podia aspirar a subir na vida. É normal que a esquerda portuguesa, que vê na pobreza uma arma eleitoral, não tenha gostado.

Cavaco pode ter usado meias brancas, pode ter aprendido tarde a mastigar a comida, pode ver numa marquise um sinal de vanguardismo estético. Foi, de facto, um socialista que, como todos os socialistas, fez obra e deixou a conta por pagar. Foi um certinho e aborrecido democrata. Sem mundo, sem cultura, sem gosto. Mas foi, acima de tudo, um português como todos os outros. Ostentou a peúga branca com a mesma naturalidade com que afirmava desconhecer quantos cantos teriam Os Lusíadas. Orgulhou-se da sua marquise dos anos 90 com a mesma descontracção com que mastigou como um selvagem uma fatia de bolo-rei. Cavaco sempre foi Cavaco. Sem passado anti-fascista, um cumpridor de regras, um homem de estabilidade e de segurança. Como a grande maioria dos portugueses. Foi a sua portugalidade que lhe deu uma maioria relativa, duas maiorias absolutas e duas vitórias à primeira volta nas presidenciais. Foi esse lado de homem médio que me fez votar nele duas vezes sem que me arrependa, por exemplo. Pode odiar-se a substância de Cavaco - eu, por exemplo, não morro de amores por ela. Mas odiar Cavaco pelo estilo é o mesmo que odiar os portugueses por atacado. E isso é, infelizmente, insensato.

Mas mesmo em relação à substância de Cavaco Silva as opiniões vão sendo diferentes. A minha já a expliquei. Há mais. À esquerda criticam-lhe, agora, o compadrio com o Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas, por exemplo. Acusam-no de ter feito dois mandatos presidenciais de parcialidade que mais não foram que favores e fretes ao PSD. E é preciso desconstruir isto.

Em primeiro lugar, Cavaco Silva deve ter sido o Presidente do PSD que mais desprezo nutriu pelos seus militantes e pelo partido em si. Imaginar que Cavaco esteve dez anos em Belém a fazer fretes ao PSD é um disparate de dimensões planetárias.

Em segundo lugar, é preciso não ter memória ou, tendo-a, estar inequivocamente de má fé. Cavaco Silva foi um dos responsáveis pelo desgaste causado ao Governo de Santana Lopes e Paulo Portas que acabou por conduzir à maioria absoluta de José Sócrates. Cavaco Silva foi o Presidente perfeito durante essa maioria absoluta e só fez abanar a estabilidade institucional quando se percebeu que o caminho que o País estava a tomar era insensato demais até para a insensatez de Sócrates. Cavaco Silva foi o Presidente que criou a expressão "espiral recessiva" para apontar o dedo ao Governo de Passos Coelho. E foi, depois, o Presidente que ofereceu de bandeja a chefia do Governo ao Partido Socialista, quando se disponibilizou a convocar eleições antecipadas no reinado de António José Seguro.

Afirmar agora, como alguns candidatos presidenciais têm feito, que Cavaco foi um Presidente de facção só é digno de alguém que perde braços quando diz verdades. Acusar Cavaco Silva de ter sido o Presidente da direita não é melhor.  A esquerda não percebe isso porque precisa de bodes expiatórios em todo o lado. Precisa de Cavaco para falar do bafio e do cinzentismo como contraponto ao colorido dos amanhãs que cantarão. A esquerda precisa da marquise de Cavaco para nos explicar que não tem grande apreço pelo povo. A esquerda precisa de colar Cavaco à direita porque a verdade se estraga sempre por causa de uma boa história.

Cavaco é um caso de sucesso pessoal. Mesmo que algum do insucesso do País se deva a esse sucesso, isso não deixa de ser um sinal positivo. Um sinal de que a democracia, mal ou bem, funciona. E é só. Trinta anos de Cavaco depois, é só. Não precisávamos era de tanto tempo para perceber isso.

publicado às 19:21

A geração mais bem preparada de sempre

por Nuno Gonçalo Poças, em 30.12.15

Há umas semanas, num restaurante de Lisboa, tive o prazer de ter uma família numa mesa ao lado que não me tem saído da memória. Um casal, um filho e a sogra. A criança, de 5 ou 6 anos, passou o jantar colado a um iPad, a jogar uma porcaria qualquer. Não pousou por uma vez o aparelho, nem enquanto comia. Os pais e a avó não lhe dirigiram a palavra uma única vez. Reinou a harmonia familiar. Não é um caso isolado. Cenários deste género fazem parte do nosso quotidiano. E crianças como aquela são hoje a nossa realidade. Um iPad nas mãos e não me aborreças.

Este é um facto. Há uma geração de pais que está a criar monstrinhos alienados. É a geração que é incapaz de lidar com o sacrifício, com o sentido de dever, com a responsabilidade familiar, porque é fruto de uma época de paz e de prosperidade, porque é fruto da lógica de filho único e de infantocentrismo, porque foi moldada para o sucesso profissional e não para o compromisso familiar. Os novos pais não toleram crianças. Muito menos toleram crianças que se mexam. Ora, novidade das novidades, as crianças mexem-se. E falam. Muito. E gritam. E choram. E fazem birras. É assim desde que existe humanidade. O problema é que antes destes novos tempos, sempre que uma criança ultrapassava os limites da boa educação, do respeito e do sossego de terceiros, levava uma palmada. Bastava um olhar. Hoje damos-lhes iPads.

Quando uma criança deve ouvir um "não", hoje recebe um "sim" e qualquer coisa que a entretenha. Porque tudo é mais importante que educá-la para que possamos ter um ser humano decente em casa. Não há regras, porque as regras dão trabalho a implementar. Exigem paciência e nós não temos paciência. Podemos ter paciência para tudo. Para jantar fora, para trabalhar até à meia-noite, para ir de férias com os amigos, para jantaradas e noites durante a semana, para desportos radicais, para ir a todos os sítios fashion, gourmetfancy da cidade, para estar no Facebook, no Twitter, no Instagram, no Whatsapp. Mas não temos paciência para chegar a casa e perder uma hora do nosso tempo a brincar com uma criança. Não temos paciência para ouvir os miúdos porque os miúdos, claro está, só dizem asneiras, não são racionais e não medem as palavras. E esperamos que eles cresçam sozinhos. Ou com uma caixa de jogos didáticos, para "aprenderem enquanto brincam", ou com filmes que os fazem "assimilar conceitos". Não os levamos para a rua porque a rua é um perigo. Há um mar de pedófilos nos parques. E os parques têm folhas e pólen. E o pólen faz mal às alergias e ao sistema respiratório. Não lhes dizemos "não". As crianças devem exercer a sua autonomia, a sua liberdade, como se um selvagem alguma vez fosse bom. Também não lhes podemos bater. As crianças têm direito à privação da palmada, porque nós vivemos num mundo pacífico, onde as pessoas se amam e se respeitam e a palmada incentiva o ódio e a invasão de países árabes, como se sabe.

Nós, a geração "mais bem preparada de sempre", temos a maior taxa de alfabetização de sempre. Nunca o mundo teve tantos diplomados como agora. Somos esplêndidos. Ensinaram-nos desde pequeninos que somos esplêndidos. Disseram-nos que tínhamos direito a ter tudo e queremos ter tudo. E disseram-nos que os sacrifícios não eram necessários. Estava ali tudo. E quando faltasse alguma coisa, ainda lá estavam os pais, para libertar algum dinheirito, para comprar um carro novo, para mobilar a casa, para uma beijoca, para mais um computador portátil. E agora temos filhos. Filhos, imagine-se! Uma geração de filhos que está a chegar, que ainda está nas barrigas ou que entrou agora para a escola. Uma geração de filhos que se enfrasca em anti-depressivos e em tecnologia para explicar à geração dos próprios pais esta coisa tão simples: a "geração mais bem preparada de sempre" é a geração mais incapaz de constituir família e de educar uma criança dos últimos séculos. E está a criar uma nova geração de pequenos e selvagens tiranos.

publicado às 13:57

The tiger's empty cage

por Nuno Gonçalo Poças, em 29.12.15

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O meu pai, ex-militante centrista, militar, ex-cavaquista e posterior eleitor de Guterres por uma única vez, foi - e é - um homem moderado no voto e nas opções políticas, apesar de ser radical no verbo. Talvez por isso tenha sido, durante os anos do reinado de Cavaco Silva, um alternado, mas assíduo, leitor d'O Independente e do Tal & Qual. Não sei. Mas como teve a ideia de me ensinar a ler precocemente, lembro-me de ler estes jornais desde sempre. Mesmo que não percebesse nada do que lá estivesse escrito. Como me habituei, também desde cedo, a admirar a figura de Paulo Portas, por influência indirecta do meu pai, primeiro, e por minha vontade, depois. Talvez isto explique alguma coisa. Talvez não explique nada. Explica, pelo menos, o legado de Paulo Portas enquanto grande - e única - figura da nova direita portuguesa dos últimos 25 anos, pelo menos. Primeiro nos jornais, depois no partido. E desde cedo na minha consciência política.

 Por motivos profissionais e por interesse pessoal (re)li recentemente algumas peças d'O Independente. E li, há não muito tempo também, edições do Público de 1998 a propósito da eleição de Paulo Portas como líder do CDS. Admirei os seus diários de campanha de 1995, como repudiei a forma como venceu o Congresso de 1998. Admirei a sua influência ideológica no monteirismo, como repudiei a forma como tantas vezes derivou à esquerda para fins eleitorais. Admirei-lhe sempre o estilo ("o meu estilo é trinário - digo sempre três ideias fortes. O [Fernando] Nogueira é binário", dizia em entrevista a'O Independente) e a inovação que trouxe ao discurso político, como repudiei brutalmente a demissão irrevogável de 2013.

Vi sempre nele o melhor líder partidário do Portugal da minha idade adulta. Mesmo enquanto fui militante do PSD nunca escondi isso de ninguém - e votei CDS sempre que entendi fazê-lo. Paulo Portas tinha os defeitos de todos os outros. E tinha qualidades que nenhum outro tinha. Depois do intervalo na liderança, o seu regresso vincou essas qualidades. É por isso que, como dizia ontem o Bernardo Ferrão no Expresso, o CDS já não é o partido de um homem só.

O seu ritmo trinário deu-nos três razões para a sua saída: o tempo do passado, o tempo do futuro e o tempo de um novo ciclo político. A única coisa que eu desejo agora é que este novo ciclo nos traga uma direita conservadora, mas descomplexada, liberal, mas com sentido de autoridade, humanista, mas não assistencialista. Que saiba ser uma direita com agenda social. Que pense à direita, mas que fale à esquerda. Sendo certo que os novos ciclos não começam por outro motivo que não seja a vontade dos sucessores, este é, apesar disso, um novo ciclo que começa. Outro se iniciará depois deste. Um ciclo em que sejam os pais a votar nos filhos.

O que me interessa por agora é realçar um facto apenas. Paulo Portas não foi perfeito - e ninguém, excepto um louco, lhe pedia que o tivesse sido. Mas foi um líder. E a capacidade dessa liderança vê-se, em grande medida, na hora da saída. Para o caso de não terem reparado nela durante os últimos anos.

Não fosse Paulo Portas (entre outros, como Miguel Esteves Cardoso, mas com ele à cabeça) e ainda hoje a direita portuguesa vivia entalada entre socialistas cristãos e saudosistas do Estado Novo. Nem que seja por isso, julgo que todos lhe devemos um agradecimento. Eu devo.

publicado às 10:55






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