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A minha oficina

por Fernando Melro dos Santos, em 23.12.15

A árvore cresce, o espírito entra, a companheira acompanha, e vive-se a celebração do Natal como ela é e jamais deverá deixar de ser: Natalícia. Que é dizer, Cristã, ou vá - agnóstica, nunca "o passeio de inverno", a "estação do floco de neve" ou as ultra-pudibundas "férias da alegria" como nos territórios suecos abertos de esfíncter ao invasor intolerante investido da genuína farripa da barba do profeta, possa ele arder no aterro sanitário mais próximo. 

 

Ontem, ao rever pela enésima vez Gran Torino, obra maior de um homem enorme, fui acometido por um torvelinho de sensações, esperanças, abismos e, nunca de somenos, esgares lupinos perante aquilo que a minha própria velhice me reserva. 

 

Se vier referir Hannah Arendt e a banalização do Mal, ou se pender para a alusão à iliteracia dos jornais quotidianos, pecarei (não é um lapso Freudiano nem Jungiano, pecaria mesmo, escolhi a palavra e fi-lo de antemão) por extremismo - aquela radicalização que mais abomino, como quem se dá ao trabalho de ler-me desde sempre aprendeu a assumir: a de centro, da moderação. Porque aquilo que se banalizou não foi a cupidez, a raiva, o ódio; nem tão-pouco a estupidez ou a apatia. Vulgarizou-se o fado. O cancro que nos rói a Oeste de Praga vive na fase da aceitação tíbia, crepuscular, impossível de ombrear como, e tento fundir o Maio de 68 com a geração IMAX, o peso do Anel sobre a cervical de Frodo. 

 

A minha velhice está povoada, nas vertentes mais a norte, onde a flora tende menos à ignição e se verifica uma maior presença de manta morta perene, por imagens de jovens adultos tíbios, incapazes de perceber para que serve um espelho, cujos anciões anciãos, anciães e respectivo legado de nada servem mesmo quando faltam a comida pronta, a roupa nova, as ferramentas - quase centenárias! - estimadas com brio e o espólio imaterial da conduta demonstrada, sem se eligir maior reacção do que um hodierno "meh".

 

A minha oficina está povoada de indómita raiva contra quem, fracção própria inclusa, deixou que as coisas, o envelhecer a Oeste de Praga chegassem a tal ponto. Está bem oleada, é alvo de manutenção periódica, não cresce lá musgo nem virei, em vida, a permitir que enferruje e de lá cesse o forjar de labaredas renovadas. A relva apara-se. Às perdas corta-se. E às crias desmama-se.

 

É isto o Natal, o meu ensejo para a Consoada: desmamem-se as crias de vícios, sejam elas pueris, extemporâneas, autárquicas, supranacionais ou arquetipais. Caia de uma vez a vergonhosa fantasia que transformou os nossos filhos em bolas de gel sem respeito nem escalas, e o futuro num marasmo medonho. 

 

Mas para já, continuem a falar da bola, porque ainda não aumentou nenhum imposto. 

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publicado às 13:58







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