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A trela da Troika

por John Wolf, em 05.05.14

A tão propalada saída limpa do programa de assistência não altera a substância dos factos. Portugal continuará endividado por muitas décadas; o desemprego estrutural não baixará dos 10% e o crescimento económico será ténue, senão insignificante, nos anos que se seguem. Para já, as contas do país beneficiaram do choque fiscal que foi aplicado às empresas e aos contribuintes portugueses. A ideia de que "a casa está arrumada" foi vendida, como seria de esperar, de acordo com um calendário político preciso: eleições europeias a semanas de acontecer e legislativas ao virar da esquina. O governo, ao oferecer a ilusão de retorno à normalidade financeira, à soberania e à independência nacional, assemelha-se a outro diletante - António José Seguro. Este último, presente no outro canto do mesmo ringue de boxe fala desalmadamente sobre as condições do presente, mas omite como será o futuro. E os tempos que se seguem (parecidos com estes) irão traí-lo, caso chegue ao poder cheio de garra e entusiasmo socialista. A inversão das condições económicas e sociais que o governo anuncia e a oposição sugere quando chegar ao anti-governo, colocam Portugal numa situação particularmente difícil. O país está efectivamente à mercê da inconsciência e do engodo de lideres presentes ou futuros. Seria preferível que apresentassem aos portugueses a verdade nua e crua, ou pelo menos uma boa parte dela. As décadas que se seguem serão condicionadas pela vigilância apertada do FMI. Ao passarem a vistoriar Portugal de seis em seis meses, concedem uma margem de manobra ligeiramente melhor, mas não largam a trela. Retiram o açaime, mas continuam a dar ordens ao Bóbi - fica, senta, quieto! O Marcelo Rebelo de Sousa também é outro tonto a ter em conta. Vê-se mesmo que não lê as obras todas que despeja em frente à Judite, porque se lesse, seria mais sensato e não diria calinadas: «os portugueses não vão ficar altos e loiros como os finlandeses, nem ricos como os alemães». Quais são os portugueses que desejam ser como os finlandeses ou os alemães? Os portugueses são o que são, para bem ou para mal, e continuarão a sê-lo pelo menos por mais 800 anos. Nessa lógica temporal, anacrónica e histórica, os portugueses deveriam desejar ser como os chineses. Ou seja, perspectivar a grande história que se estende milenarmente. Sem dúvida que serão décadas duras as que se seguem, mas as mesmas devem ser entendidas como um acidente de percurso de um país com oito séculos de história. Contudo, seria bom que aprendessem como os erros, mas tenho dúvidas. Há uma tendência inata para repetir os mesmos. 

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publicado às 09:18


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