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Em Portugal anda tudo com os nervos à flor da pele. Anda tudo muito sensível. Basta a Markel opinar sobre o grau académico de Portugal, e perde-se logo a compostura, fica-se logo incomodado. A primeira reacção cutânea é de repúdio e negação. Dá vontade de mandar a senhora àquele lugar (pela ??? vez), mas uma leitura mais atenta do seu atestado permite extrair outras certidões, apurar resultados diversos. Pois é. Durante décadas a fio (desde a democratização do ensino em Portugal), os portugueses quiseram se afastar o mais possível das nefastas taxas de analfabetismo, das origens humildes, da terra entranhada debaixo das unhas. E ter o menino a estudar na cidade para vir a ser um "verdadeiro" doutor era motivo de grande orgulho. É mais ou menos isto, em traços largos. Acontece que essa escalada académica  e social, de largas camadas da população, serviu também para discriminar ofícios "menores". Desse modo, instituiu-se que ser carpinteiro ou canalizador não era a mesma coisa do que ter uma licenciatura em gestão, e, de estigma em estigma, Portugal inverteu a cadeia de valores, negligenciando a importância de tantas funções requeridas na sociedade. O complexo de colarinho sujo dominou o espectro estatutário dos profissionais. Estabeleceu-se, de um modo mais ou menos explícito, que trabalhar na bomba de gasolina não é motivo de orgulho - o brio do mecânico escorreu também nessa sangria colectiva. Quando a Sra. D. Ângela diz que há licenciados a mais, está também a dizer que o país carece de profissionais no sentido integral, independente do grau académico que atingiram. Para mim é líquido que assim seja. Nos Estados Unidos pouco interessa o grau académico, ou mesmo o apelido, para todos os efeitos da missão profissional a cumprir. O que interessa é ser-se competente e eficaz seja qual for a posição ocupada. Se Portugal deseja a refundação económica e social da sua matriz, deve devolver a auto-estima ao trolha, ao almeida e ao sapateiro do bairro. Desde que sejam bons naquilo que fazem.

publicado às 20:36


11 comentários

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De Vortex a 04.11.2014 às 21:37

detesto o nome artístico e recusei uma cátedra em química para trabalhar na indústria até o socialismo rebentar com o rectângulo.
criaram-se centenas de curso de papel e lápis que nem servem para limpar as cloacas com o digitus impudicus.
importam-se estrangeiros para fazer o que os portugueses não querem.
os cães, enjaulados nos andares onde houve crianças, são o futuro do estado social 
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De John Wolf a 05.11.2014 às 08:20

Caro Vortex,
Muito obrigado pelo comentário.
"centenas de curso de papel e lápis" - numa frase completa.
Cordialmente,
John
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De comendador a 04.11.2014 às 21:54



Nem mais. Todos  já perceberam que há doutores e engenheiros em excesso. O lóbi da universidade tem muita força. Mesmo as televisões derretem-se por um Sr. professor qualquer, mesmo que nada saiba para alem duns livros que leu ou estudou . Técnicos , oficiais , agricultores ,e tantas outras profissões e até mesmo engenheiros não existem para dar opinião.
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De John Wolf a 05.11.2014 às 08:24

Caro Comendador,
Tem razão e não esqueçamos os dinheiros europeus canalizados para essas ficções académicas em nome de quotas e estatísticas de desenvolvimento. Os que ficaram à margem, nem sequer têm a possibilidade de exprimir o seu desagrado.
Obrigado.
Cordialmente,
John
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De António Barreto* a 04.11.2014 às 23:09

Muito bem, com uma "curiosidade; um dos propósitos da instituição do regime democrático foi, precisamente, acabar com a discriminação sócio-profissional e instituir em definitivo o respeito por todas as pessoas honradas independentemente do ofício. Aconteceu o contrário!, depois vêm as questões económicas...não há Técnicos...e os Governos nada fazem, enquanto as empresas desesperam assumindo os custos da formação " a martelo" sujeitando-se ainda à extorsão fiscalizadora e hipócrita da administração pública. Não é assim que se constrói a prosperidade, nem a felicidade, nem a Liberdade.
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De John Wolf a 05.11.2014 às 08:22

Caro António Barreto,
Grato pelo comentário.
Graves distorções conceptuais afligem as nossas sociedades. A cura tornou-se a doença.
Cordialmente,
John
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De Vítor Hugo a 05.11.2014 às 10:43

Tudo isso é verdade. No entanto, na minha opinião, o problema nem são os licenciados a mais; o problema é o efeito perverso que se procura atingir em qualquer medida ou política adoptada. Sempre que o português se depara com uma lei, uma norma, uma regra, uma medida, etc., parece que a postura é determinar por onde é que eu consigo ser mais espertalhão que os outros sem seguir pelo caminho que me apresentam. É mau ter uma grande percentagem com formação superior? Não me parece. Parece-me benéfico. A questão é que se deturpou o verdadeiro benefício que é ter pessoas com formação académica: fomos atrás do que não interessa e descurámos os objectivos práticos; fomos atrás do "prestígio" de ter um título académico; corremos atrás do emprego, não do trabalho, estável. Com essa postura baralhámos completamente a escala de valores, e esse problema é transversal em toda a sociedade portuguesa. 
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De Umbila a 05.11.2014 às 11:02

Se em vez de ficarem "excitados" e "amuados" cada vez que Angela Merkel diz o que pensa, seguissem o seu trabalho e discursos, saberiam há muito que o que ela disse nada tem que ver só com Portugal e Espanha.
Ela já afirmou "miles" de vezes o mesmo no que diz respeito à Alemanha. Aqui, o problema também existe.  Aqui faltam há muitos anos já milhares de "facharbeiter". E isso porque todos querem ser "Doutores"...
A diferenca é que aqui se aplicam medidas para que o problema seja combatido e aí se "amua"...

Abraco desde a Floresta Negra
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De Fábio Oliveira a 05.11.2014 às 20:07

É na verdade um problema misto. Ainda ontem vinha um artigo no The Guardian a indicar que a Alemanha tinha aprendido a lidar com a elevada imigração porque sabe que tem uma grande falta de profissionais qualificados. Estes são normalmente engenheiros, médicos e enfermeiros. Não só técnicos. 
Claro que também já ouvi colegas aqui na Alemanha dizer que tiveram que tirar um mestrado porque já seria difícil encontrar emprego sem um. Mas isto parece-me ser mais em áreas como gestão e administração de empresas.
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De FD a 06.11.2014 às 00:17

Já agora se quiserem perceber a captura, atentem aos iluminados, eles é que sabem!

http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=65&doc=7190
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De umBhalane a 06.11.2014 às 13:01

Tiro-lhe o meu chapéu

Não lhe doa a pena, assim, deste modo

Cumprimentos

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