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As Cidades

por Nuno Gonçalo Poças, em 09.06.17

A grande maioria veio do campo. Do Alentejo, de Trás-os-Montes, das Beiras. Do pé descalço, da sardinha para três, do piolho. Fugiram da brutalidade da charrua e do arado, do destino miserável e da vida de criadagem. Eles queriam a burguesia, elas não queriam servir. Invadiram as fábricas, os portos, as empresas, as funções públicas. No Barreiro, em Loures, na Amadora, em Almada, em São Domingos de Rana, em Odivelas. O salto foi tão grande que hoje os filhos do êxodo rural só conhecem a vida dos avós se tiverem de facto curiosidade. Licenciaram-se, viajaram, quiseram abandonar os subúrbios dos seus pais e olham como turistas para as terras dos avós. Os pais vão-se reformando. Com vontade de regressar à terra, onde a custo construíram uma casa. Não voltam para ajudar os filhos. O reformado suburbano, nas suas calças vincadas e na sua camisa de manga curta aos quadrados, na sua bata e no seu camiseiro florido, está desamparado e amolecido - eles nas praças a jogar cartas ao ponto, a procurar os jornais gratuitos nos balcões da Caixa Geral de Depósitos, elas na praça, ao peixe, e na cozinha, a fazer tudo para que o mundo não pare. Muitos, já avós, ainda trabalham. São as centenas de milhares de carros que enchem Lisboa de manhã. Que entopem a ponte, o IC19, a A5. Que enchem os barcos, os comboios, os autocarros. Tudo em greve, tudo com perturbações, com atrasos, com mau cheiro, com o ar grave e zangado de quem tem pressa, de quem perde duas horas por dia, muitos dias por ano, muitos anos na vida, neste ramerrame infinito. Os salários, em média nos oitocentos euros, não esticam e fogem quase na totalidade até à primeira semana do mês. Paga a renda, paga a água, paga o gás, paga a luz, paga o telefone, paga o passe, paga o condomínio, paga a prestação disto e daquilo, paga a escola, paga a creche, paga o lar, paga o supermercado, paga os tempos livres, paga os tempos menos livres, paga o tempo, paga a vida. Levantam-se cedo, chegam tarde. E é difícil encontrar creches e escolas e transportes, e o autocarro não veio, o metro não funciona, o trânsito não dá saúde, e o passe é caro e a gasolina também, e a vida que está tão má. Voltar à província, por uma razão que não seja o bucolismo do regresso pacífico de quem espera pela morte, está fora de questão. Talvez por medo, talvez porque muitas vezes ainda vive o passado da terra dura, da esteva e da giesta. Mais depressa vão os filhos e os netos, graças a Deus ignorantes, meus ricos meninos, dar cor e futuro a uma grande parte do País que só agora parece querer deixar de estar espiritual e geograficamente morto. A Lisboazinha já pouco tem de fadistas e de prostitutas de um conto de réis. Pouco se ouve o sotaque realmente lisboeta, do bairro, da viela, de quem carrega nos 'ch' e de quem abre as vogais, como quem diz 'chóriço'. Toda modelada pela pronúncia da televisão, pelo charme de quem conhece o estrangeiro e sabe que isto já não fica atrás de ninguém, a nova Lisboazinha, que já não é aquela Lisboazinha yuppie, de um yuppie com as calças com más bainhas, dos anos 90. Mas continua a ser feita por toda aquela multidão muda, que só parece buzinar, que se acotovela nos transportes, que fala entre si mas que teme os modernos e mais ainda os modernaços. Nas repartições, nas cadeias de comida rápida, nas limpezas, nas forças de segurança, nas secretarias. O País real, como lhe chamam, está lá longe, nas serras e nas planícies. Mas está, em grande parte, aqui à porta, logo depois do Campo Grande, a recolher tabuleiros nos centros comerciais. O País real, caramba, somos nós. Estamos é todos, os mais e os menos auto-julgados evoluídos, os do centro e os da periferia, todos, todos, a fazer de conta que não existimos ou que existimos de outra maneira. Que somos outra coisa qualquer para, sobretudo nesta altura, inglês ver. Como se não tivéssemos todos andado em baloiços de pneu, como se não tivéssemos todos, os da minha geração, comido pão com tuli-creme. Como se isto tivesse deixado de ser uma terra encantadora mas dura. Acho que o Rodrigo Leão explicou isto tudo sem usar uma palavra quando compôs 'As Cidades'.

publicado às 23:37


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