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O anúncio da ordem de trabalhos da Cimeira da NATO, parece privilegiar os casos afegão e ucraniano, ambos passíveis de rápida secundarização quando comparados com o problema maior para o Ocidente, precisamente aquele que nos chega às portas de casa, no Médio Oriente. Ontem foi a vez do regime de Putin ser directamente visado, enquanto a ameaça dirige-se também, via Zawahiri, à Índia. Provavelmente iludidos pelo inebriar da omnipresença na abertura dos noticiários, os radicais estão a erigir uma até agora imprevista coligação internacional que num ápice poderia congraçar potências desavindas. O inestimável serviço prestado ao Ocidente - para eles a Rússia também faz parte do inimigo -, é talvez fruto das grandes esperanças depositadas nos até agora condescendentes sistemas jurídicos europeus, sempre lestos nas garantias conducentes ao laissez-faire e à impunidade de meliantes dos mais variados tipos.
Cameron disse algo que decerto será contestado nas instâncias que vigiam o Estado de Direito, como se este não se encontrasse em causa pela intervenção despudorada daqueles que nele se resguardam. O primeiro-ministro britânico deveria ser obrigatoriamente secundado por todos os seus pares da Aliança Atlântica, numa clara manifestação de solidariedade que sirva de mensagem enviada urbi et orbi. É mesmo este o dilema em que nos encontramos e que para Al Qaeda - o ""califado" não passa de um elo da mesma cadeia - consiste num trunfo que não hesita em manobrar a seu bel prazer. Conta para isso com os prestimosos serviços de uma boa parte da esquerda europeia ferozmente anti-ocidental, precisamente aquele pendor suicidário que encontra no Cavalo de Tróia o eterno exemplo por todos facilmente identificável. Embora seja este um tema passível de apressadas interpretações conducentes às ladainhas da discriminação, os dirigentes da subversão contam ainda com a chantagem emocional exercida sobre as comunidades formalmente muçulmanas existentes em numerosos países europeus. Num misto de despeito histórico pelos há séculos extintos fulgores de Bagdade e de Córdova, os rancores decorrentes do passado colonial e a progressiva ruptura das políticas de integração - aliás rejeitadas por amplos sectores daqueles que deveriam ser os principais interessados nas mesmas -, estas comunidades poderão a breve prazo assistir ao desencadear de um processo de intensa propaganda veiculada pelos radicais, na própria Europa designando um terreno arável pela jihad.
Deveria ser este o assunto principal a tratar pelos parceiros da NATO, desde já aproveitando-se a oportunidade de estender o diálogo ao Kremlin, à Ucrânia e porque não?, aos agora directamente ameaçados indianos. Por muito pueris que possam parecer estas inciativas, não deixariam, contudo, de significar o início de algo que preencheria o vazio, ou pior ainda, o atoleiro em que o Ocidente se encontra.
O "outro lado" tem um longo historial de mentiras, abusos, negação ou incumprimento de tratados e reserva mental? É verdade, não se trata de uma suposição ou de mera propaganda alardeada pelo negregado imperialismo. No entanto, uma mais moderada recíprocidade existe, desde os tempos em que alegámos a existência de armas de destruição maciça - nunca encontradas, mas decerto transportadas para jamais vislumbradas grutas da Ali Babá -, até ao engenhoso encontrar de inimigos perversos pelos Pulitzer e Hearst do nosso mundo, os capazes de tudo para a obtenção não se sabe de qual fim.
A mensagem deve ser nítida, sem a menor possibilidade de duvidosas interpretações. Não poderá ficar a impressão de um mero regresso ao bandoleirismo internacional um dia enunciado por Theodore Roosevel: "dou as boas-vindas a qualquer guerra, porque acho que este país necessita de uma".
Não, desta vez não pode ser desta forma.