Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Da democracia interna dos partidos políticos

por Samuel de Paiva Pires, em 07.06.14

Em tempos disseram-me que não é possível leccionar uma cadeira sobre partidos políticos com uma certa propriedade sem ter passado precisamente por algum partido. Para podermos perceber o mundo e escrever sobre ele temos, efectivamente, de viver nele, de o experienciar.

 

Eu conheci relativamente de perto uma diminuta parte da realidade da JS e do PS. Alegadamente inscrevi-me, em tempos, no PSD, mas a minha ficha, misteriosamente, desapareceu e eu acabei por me afastar - não sem antes ajudar um amigo a ganhar umas eleições numa secção da JSD e ter a oportunidade de ver as coisas mais mirabolantes como betos da Av. de Roma a contratarem capangas do Martim Moniz para dissuadir os concorrentes de votar, quotas de militantes a serem pagas por alguém do partido para garantir que determinados militantes poderiam votar, o controlo exercido sobre instituições como a Santa Casa da Misericórdia ou empresas municipais e outras que tais - e sou há alguns anos militante da JP e do CDS, que é onde me sinto mais confortável em termos ideológicos.

 

Neste âmbito, uma das actividades que mais me apraz desempenhar é a de estar nas mesas de voto, ajudando a que os actos eleitorais intrapartidários decorram com normalidade. Como cientista político, é uma posição privilegiada que me permite observar determinados comportamentos. Talvez um dia, num livro de memórias que não interessarão a ninguém, deixe registadas certas impressões pessoais. Mas vale a pena adiantar somente o óbvio que talvez não seja tão óbvio para quem não circula nestes meandros: na politica intrapartidária, as ideias e os programas valem absolutamente nada, e estratos sociais ou idades (dos 14 aos 90, literalmente) são também absolutamente irrelevantes quando está em causa a vitória numas eleições. Muitas vezes, aqueles que se preocupam em criar um programa, propor e debater ideias e propostas perdem para os que conseguem mobilizar mais militantes, não apresentam qualquer programa e, no fim, até têm o supremo descaramento de se dizerem convictos de que venceu o melhor projecto.

 

É o vale tudo do maquiavelismo, essa má moral e péssima política, segundo Wilhelm Röpke. Que, do meu ponto de vista, ganha contornos particularmente perversos quando é praticada por católicos (podem sempre invocar Richelieu, embora não me pareça um exemplo particularmente edificante). A distância que vai do que se proclama ao que se pratica torna-se gritante, mas com certeza que umas avés marias e uns pais nossos lhes garantirão um lugarzinho no céu.

 

Tenho sorrido sempre que leio ou oiço alguém dizer que António Costa não é ideologicamente diferente de António José Seguro, e que nem sequer terão ideias diferentes quanto aos problemas principais que nos assolam. Não percebem que isto interessa para muito pouco ou nada no que à vida interna dos partidos diz respeito. E escapa à minha compreensão com que autoridade um líder partidário que emerge deste género de processos políticos pode exigir a outro líder partidário que se coloque o debate no plano das ideias e não no das pessoas - o que reflecte apenas a hipocrisia reinante. Como em tempos ouvi a alguém, a democracia também é demografia, i.e., o valor de cada um é medido pelo número de votos que vale, pelo caciquismo.

 

Adopto, naturalmente, a máxima, que de tantas vezes repetida se tornou um cliché - e frequentemente é até invocada pelos que procuram justificar os seus actos ilícitos, desonestos ou até ilegais - de que a democracia é o pior regime à excepção de todos os outros. Na esteira de Robert Dahl, sou democrata mas não deixo de criticar a democracia. Mas a democracia, para poder sobreviver, necessita de ser aquele regime que se corrige e regenera a si próprio, onde se exerce a autocrítica, à maneira de Karl Popper, e onde uma certa ética tem de imperar, procurando evitar-se a anaciclose. A democracia é, como ensinava Raymond Aron, a institucionalização do conflito. E neste não pode valer tudo, acrescento eu. Afinal, até na concepção clássica de guerra há respeito entre os adversários, regras e limites éticos.

 

Não é por acaso que os clássicos são sempre os clássicos. No princípio do século XX Ostrogorski e Michels observaram o funcionamento dos partidos políticos e não parece que as coisas tenham mudado muito. Para quem ainda prefere quebrar a torcer e repudia a máxima "se não os podes vencer, junta-te a eles", torna-se fácil perceber as razões na origem da desilusão de Michels com o SPD e a subsequente atracção pelo fascismo. E talvez também aqui se encontre uma parte da chave para compreender fenómenos políticos que se vão verificando no continente europeu, como os elevados níveis de abstenção, a reduzida participação política e a ascensão dos partidos de extrema-esquerda e extrema-direita. 

publicado às 11:56


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas


    subscrever feeds