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Do desrespeito pelas tradições

por Samuel de Paiva Pires, em 26.10.15

Se há algo que os desenvolvimentos recentes no panorama político luso nos têm mostrado é que assim como podemos contar com a direita e o seu natural temperamento conservador para respeitar as tradições, mesmo se emanadas a partir da esquerda socialista e sempre tendo servido os propósitos desta e da conversação que é a política entre uma esquerda e uma direita que, em democracia, são adversárias mas não inimigas, também podemos contar com os socialistas e progressistas e as suas mentes prenhes do construtivismo dogmático e do revolucionarismo para desrespeitar as tradições quando assim lhes convém. Ademais, ter de ouvir Pedro Filipe Soares, que propugna uma ideologia totalitária, a afirmar que "Em democracia mandam os votos e não as tradições", quando a democracia liberal é, por definição, tradicionalista (para os interessados, veja-se como conservadores e liberais como Friedrich Hayek, Karl Popper, Michael Polanyi ou Michael Oakeshott defenderam a democracia liberal precisamente considerando o seu carácter tradicionalista) só acrescenta substância à ideia  de que a má fama da política fica a dever-se ao facto de ser protagonizada por gente não só muito pouco decente como assaz ignorante.

publicado às 09:54


7 comentários

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De Rodolfo a 29.10.2015 às 18:49

Já vi que vai ser difícil para mim o acompanhar. Tem bastante mais conhecimento do que eu, apesar de ser difícil, até para mim, encontrar pessoas com 'capacidade' para discutir destas coisas.

De volta ao assunto.. certamente que fala em tradições como parte da cultura, e esta contém uma enormidade de conhecimento, e por ser, como disse, tácita, é difícil para os conservadores explicarem as razões para muitos dos seus comportamentos. Em relação ao processo de transmissão, há algo que não concordo com Hayek (apesar de ele fazer referência em 'Fatal Conceit' à evolução da cultura estar mais próxima do lamarckismo), que é o facto de ele dizer que a transmissão de tradições bem sucedidas se fazem por 'selecção de grupo'. Penso que em parte tem razão, mas na componente mais fundamental, a transmissão de tradições é feita por imitação e não por eliminação (ao contrário da biológica, daí que considere que a expressão "darwinismo social" não tem qualquer sentido lógico). Também entendo que o conceito de lei, normas e cultura para Hayek (e para mim também) é externo à parte governamental (mas também não gosto do facto de se retirar o governo completamente para fora do mapa, no estudo da sociedade).


No entanto, eu não consigo entender como a tradição da democracia liberal pode ser comparado com a tradição da propriedade privada, ou da família, ou da religião. Normalmente as tradições culturais têm a função de restringir o comportamento instintivo dos indivíduos. Quanto à democracia, parece-me que legitimiza os próprios comportamentos instintivos. 
Compreendo que a monarquia seja algo que se possa chamar de 'tradição', já que produz estados estáveis da sociedade (regimes monárquicos duraram muito tempo) e que está em concordância com a teoria do conhecimento de Hayek, já que há uma quase que posse (propriedade particular) da administração governamental, o que favorece a especialização da sociedade.
No meu entender, a democracia é completamente o contrário disto. As pessoas que, através da experiência (empírico), votam no candidato errado, não perdem 'voz' na próxima eleição, e vice-versa. Além disso, não há divisão do conhecimento no processo democrático, já que todas as pessoas devem possuir uma enormidade de informação para decidir em que partido votar. Eu considero a democracia um sistema bastante retardador da sociedade em termos de complexidade. Se não fui claro em relação a algum ponto, posso explicar melhor o que disse :)
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De Samuel de Paiva Pires a 05.11.2015 às 15:14

Caro Rodolfo,


Peço desculpa pela demora, mas estou assoberbado de trabalho e sem tempo para vir até aqui e poder responder-lhe adequadamente. De qualquer das formas, sou apenas um estudante destas matérias e ainda estou a terminar a tese de doutoramento, precisamente sobre a relação entre tradição, razão e mudança. Depois de a terminar, terei todo o gosto em continuarmos a nossa conversa. Aproveito para lhe deixar o meu e-mail para que o possamos fazer: samuelppires@gmail.com


Saudações
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De Rodolfo a 08.11.2015 às 13:42

Muito bem. Quando estiver disponível, envie um comentário como resposta a este. Eu envio-lhe o meu email, e conversamos sobre o assunto deste post. 


Bom trabalho,
Rodolfo

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