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Não importa que os socialistas tenham governado como governaram entre 2005 e 2011. Porque a esse argumento responde-se não com factos, mas com Durão Barroso e Santana Lopes. Não importa que os socialistas tenham governado como governaram, apesar dos tempos favoráveis, entre 1995 e 2001. A essa evidência responde-se com o fantasma de Cavaco Silva e com a psicologia do "pai do monstro". Não importa que José Sócrates tenha chamado a troika, que tenha negociado (mal) o memorando, que tenha sido o seu Governo a inaugurar a "austeridade" ou que se tenha demitido para não ter de governar em condições que não lhe permitiriam a manipulação psicológica dos portugueses. Porque a esse facto responde-se com a "austeridade má", com os "incentivos à emigração", com o retrato de um País em ruínas. Não importa que o Primeiro-ministro, os membros do Governo e os Deputados da maioria que o suporta mintam todos os dias. Várias vezes, para que ninguém consiga ter tempo de as fazer evidenciar. Não importa que António Costa governe como quem lidera uma associação de estudantes. Nada importa, na verdade. Porque resulta. A psicologia da crise só pesa nos ombros da direita. Houve gente que nunca teve cortes nas pensões ou nos salários que berrou contra a austeridade da direita, passe o pleonasmo, e do "neoliberalismo". Há um mar de gente que não paga IRS que lamenta ter de pagar a crise. Há quem se queixe com razão, claro. Mas hoje queixamo-nos menos. Estamos a ressacar. Não se destrói a narrativa da da "reposição de rendimentos" com factos. Mesmo que as estatísticas, os dados, os números, não batam certo. Nada importa, na verdade. Nós não queremos sair do Euro, mas também fugimos a sete pés das "reformas estruturais". Queremos estar assim, que estamos bem. Não queremos que se combatam os interesses instalados, as corporações, os que vivem encostados à enorme sombra do Estado, porque todos nós somos interesses instalados, todos somos corporações, todos vivemos à sombra do Estado. Não somos um País de comércio - somos um País que, por acaso, também tem comércio. Não somos um País de livre iniciativa - somos um País em que, por mera sorte, existe gente que tem iniciativa e que não espera nada do Estado a não ser que não chateie. Não queremos programas liberais. Queremos que nos deixem sossegados. Do povo às elites lisboetas, só queremos que nos deixem sossegados. A nós e às nossas negociatas. Aos nossos direitos. Não importa perguntar por Arménio Carlos, por Mário Nogueira, por Bagão Félix, por Manuela Ferreira Leite. Eles não voltam tão cedo. Estamos sossegados, a recuperar rendimentos, a gozar a paz social. Não, ninguém quer saber que custos tem essa paz social. Ninguém quer saber se o Metro não anda, se os autocarros da Carris não cumprem horários. Estamos em paz social. Não queremos sequer ouvir falar no que aí pode vir. Novo resgate? O caraças, pá. Logo se vê. Deixa andar, que assim está bom. Se não estiver, olha, logo se vê. Eles é que sabem. O remédio que têm aqueles que, como eu, olham para tudo isto com olhos de bicho assustado e incrédulo, é também deixar andar. Ir dizendo, por descargo de consciência, que o Rei vai nu. Protestar, e tal, sim. Alertar para as incoerências, para as mentiras, sim. Mas que tenhamos a certeza de que grande parte do País não quer saber disso para nada. Não há programa reformista que consiga convencer eleitores. E logo agora, que se percebeu que a direita só volta a governar se tiver maioria absoluta. O que há a fazer é esperar. E poupar. Deixar uns dinheiros de lado, não vá isto dar para o torto. E ir "fazendo oposição" - aquela coisa que, à direita, se assemelha a dar murros nas ondas. Não vale a pena continuarmos a achar que vivemos noutro País. Não vivemos.

publicado às 15:04


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