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Em época de vendavais

por Nuno Castelo-Branco, em 11.02.14

 

Velhos Colonos: a minha avó Irlanda (1916), o meu pai (1934) e o recém-nascido tio Mário (Lourenço Marques, 1939) 

 

Sabemos bem o que se passou a partir do verão de 1974. No aeroporto Gago Coutinho desembarcaram dúbias individualidades à paisana, prestimosamente assistidas por uns fulanos de farda já amarrotada, barba por fazer, palito ao canto da boca e olhar sobranceiro. Vinham liquidar a presença portuguesa em Moçambique e detendo a titularidade do poder, ou mais importante ainda, o dedo no gatilho das G-3, garantiam que as coisas se passassem como o figurino aprovado pelo partido exigia. Se ao mesmo tempo conseguissem amealhar uns cobres, melhor ainda.

 

E foi precisamente isso o que fizeram. Desde logo começou a roda viva das negociatas de transferência de divisas, pois na sua proverbial cegueira, a gente do Estado Novo obrigou o Ultramar a possuir moeda própria em cada uma das suas parcelas. Estupidez superlativa, essa ausência de um Escudo comum consistiu num dos aspectos mais criticados e atirados à cara das autoridades que ignorando a realidade no terreno, da Metrópole chegavam para as conhecidas e rendosas comissões em Angola, Moçambique, etc. Não importando quem fosse o imbecil nomeado pelo senhor engenheiro-doutor cunha, logo passava à frente de qualquer natural da Província, por mais branco, goês, preto, mulato ou chinês que este fosse. Era assim mesmo.

 

Grandes negócios foram engendrados. Os camaradas de uniforme acirraram-se nas "véstorias" - não é assim mesmo que certa gente bem colocada diz? - de caixas e caixotes dos naturais daquela terra que fugiam espavoridos pelos discursos  transmitidos por libertadores que jamais haviam conquistado uma vilória, por mais ínfima que esta fosse. Trocavam Escudos de Moçambique por Escudos de Portugal ao preço de 3 por 1, logo aumentando o esbulho para 4 e até 5. O agiotismo atingiu o paroxismo quando a data da independência se aproximou, levantando-se todo o tipo de obstáculos possíveis e imaginários. Após o 25 de Junho de 75, qual foi a sede de depósito de bens à confiança? Desgraçadamente,  a embaixada/consulados de Portugal em Moçambique.

 

As muitas dezenas de cartas que se encontram na posse de milhares de naturais do Ultramar, são eloquentes testemunhos do que se passou. Papelada para tudo e para nada, listas que eram arbitrariamente riscadas, bens deliberadamente pisoteados diante dos seus proprietários, enfim, tudo se fez às claras e sempre com um requintado prazer ditado pelo livre arbítrio. Muitos ainda recordam os palavrões e os dichotes ameaçadores, o gozo pela tortura moral de quem estava à mercê. São tristemente célebres, os factos que se contavam acerca de fulanos engalonados que se forneceram de móveis, enxovais, bibelots e electrodomésticos, logo os fazendo embarcar para a Metrópole. Pasmaram os Velhos e os Novos Colonos de Moçambique, pois tal coisa jamais se vira. 

 

Vão agora as associações de espoliados numa via sacra até S. Bento. Sabendo-se da inexistência de qualquer possibilidade de remédio à situação que foi imposta a centenas de milhar de pessoas - os milhões de infelizes que lá ficaram, são outro assunto que preenche o noticiário do dia a dia -, convém manter a memória dos inegáveis factos ocorridos há quarenta anos. Falam as associações de reparações materiais, quando o que a todos os "retornados" mais interessa, será um mea culpa dos herdeiros do Estado de 1974-76. É a obrigatória reparação moral que mais falta faz. 

 

Começam pelo PC dito P, supina ironia. Obrigam os negacionistas a uma audiência que lhes será imposta pelas regras do Parlamento. Têm os comunistas representação parlamentar? Por incrível que possa parecer, sim, têm. São assim forçados à recepção de gente que deliberada e conscientemente prejudicaram, numa ânsia de prestação de serviços à potência que então os tutelava e sustentava. Obrigar o PC e tralha anexa a escutar aqueles que odeiam, eis um quase anedótico caso que deveria ser filmado em directo. 

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publicado às 12:18


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