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Exangues

por Nuno Castelo-Branco, em 07.09.18

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Infelizmente não é do âmbito das fake news, pois o video está patente na internet, mostrando às claras uma estranha manifestação de nacionalidade.


Ele teve ontem o seu momento de campanha Eanes ou Soares, sendo por isso mesmo o possível eleito no urnismo aprazado para algumas semanas. O estado a que o Brasil chegou e que deveria encher-nos da mais profunda mágoa, não é coisa recente, mas anunciada desde há muitas décadas.

Uma oligarquia tradicional apenas interessada em si mesma e que bem depressa trocou as viagens à Europa do Grand Tour de outrora, por outros passeios que na Disneilândia vislumbra o máximo de uma civilização de vistas curtas, foi sucedida por outra que naturalmente lhe sucedeu no exercício do poder. Perdeu igualmente o tino, encarando o alpinismo não apenas político mas sobretudo de status económico e financeiro, como a solução para todas as vinganças recalcadas onde a justiça se tornou apenas num subterfúgio momentâneo. Visivelmente para nada serviram os programas sociais, exactamente para nada, pois se num primeiro momento retiraram milhões da indigência, tal não se baseou em alicerces sólidos, mas apenas num fogacho de meia dúzia, talvez uns dez anos. Roubou, mas fez, eis o lema. 

Naquela atitude que a imagem demonstra, o candidato de apelido italiano que carrega aos ombros o esmagador peso da ignorância, comprovou não conhecer os sacrifícios do povo de um país que em Utreque assinou a paz em troca do reconhecimento francês da posse portuguesa das duas margens do Amazonas. O Tratado de Utreque garantiu assim ao Brasil o estender de fronteiras até aos confins dos Andes, talvez já palmilhados pelos Bandeirantes que haviam caçoado e desprezado como letra morta o acordado em Tordesilhas. Logo se ergueram como os antigos padrões em manifestação de defesa da soberania, as fortalezas em lugarejos inóspitos, a milhares de quilómetros daquele arremedo de civilização que ia pontilhando a costa. Para nada estes trabalhos e sacrifícios terão servido, pois Bolsonaro e os seus serão bem capazes de retalhar a Amazónia em concessões a empresas estrangeiras quase soberanas e com direitos de extraterritorialidade, tal como aconteceu na África da viragem do século XIX para o XX.

De facto, por mais experiências que façam, repitam ou contornem, o regime no seu todo não serve. Não serve há muito tempo e eles, a imensa maioria de exangues pobres diabos, nem sequer disso dá conta. Limitam-se a votar e depois, contentes pelo dever cumprido do "agora é que é", vão sambar  para o Calçadão.

A falta de justiça, Senhores Senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação.

 

A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais.

 

A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

 

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

 

Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime, na Monarquia, o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas.

 

Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto (o imperador D. Pedro II, pelo exercício aturado do seu Poder Moderador), guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade”.

Deviam atender ao que Ruy Barbosa a seu tempo e já arrependido proferiu no Senado republicano de um Brasil então profundamente dilacerado. Segundo a historiadora Dana Gardner Munro que desfiou a realidade do actual regime, em "pouco mais de um século de existência, a República Brasileira enfrentou doze estados de emergência, dezassete Actos Institucionais, o Congresso Nacional dissolvido seis vezes, dezanove revoluções militares, duas renúncias presidenciais, três presidentes impedidos de assumir o cargo, quatro presidentes depostos, sete Constituições diferentes, quatro ditaduras e nove governos autoritários". Uma bela soma de infâmias.


Em suma, não existe nem um resquício de Moderação. 


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publicado às 21:46


2 comentários

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De Anónimo a 07.09.2018 às 23:46


Caro Nuno,


Aqui dá para se escutar o Bolsonaro defendendo a internacionalização da Amazónia, mas sob o eufemismo "parceria internacional":


https://www.youtube.com/watch?v=Td6Wx16aTWA


Aqui defende a privatização da Petrobrás, o que é um eufemismo para a entrega da posse do mar territorial:


https://www.youtube.com/watch?v=gdwzb8MdW_o


Interessante notar que uma das empresas interessadas é a estatal norueguesa Statoil, a pedra fundamental da afluência e exemplar distribuição de renda da Noruega, que há 200 anos era uma nação pobre em comparação com o nosso Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.


Aqui dá para se ter uma ideia de quem é o General Mourão, o vice e Jair Bolsonaro:


https://www.youtube.com/watch?v=Njp-7k7N3sY


É a famosa palestra numa loja maçónica onde culpa a herança "ibérica", indígena e africana pelos males do Brasil. Enfim, mais um mestiço com complexo de sipaio.


De resto, a chave para se compreender
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De Anónimo a 08.09.2018 às 06:50

 " Segundo Maria Helena Moreira Alves, no início do século XX, as desigualdades entre ricos e pobres no Brasil foram exacerbadas pelo tratamento diferenciado dos migrantes urbanos durante e após a Grande Depressão. Os migrantes internos, descendentes principalmente de ameríndios ou escravos africanos, não receberam assistência do governo nem treinamento na adaptação a grandes centros urbanos.
 Muitos descendentes de índios ou escravos africanos, foram totalmente abandonados a seus próprios esforços na cidade, sem subsídios governamentais, sem programas de apoio à imigração, sem treinamento profissional e sem programas habitacionais para ajudar no processo de adaptação. Em suma, os migrantes brasileiros viram-se empurrados para um apartheid social nas favelas da cidade. Os empregos disponíveis para os afrodescendentes brasileiros limitavam-se àqueles que os brancos não tocavam, como a remoção de lixo, o trabalho duro de construção e os trabalhos subalternos na indústria. Em contraste, muitos imigrantes europeus e japoneses ficaram sob os auspícios de programas organizados por seus governos que os ajudaram com o custo de transporte e moradia, ajudando-os a encontrar emprego, treinando-os e proporcionando uma série de outros benefícios. " 
Wikipédia/ Social apartheid in Brazil/ Tradutor google.

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