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Guest posts (III)

por Fernando Melro dos Santos, em 18.10.14

Prefácio 

 

A nova vida do meu amigo Paulo Fanha, que faz mais falta a este país do que jamais este país lhe fez falta a ele, ou a qualquer pessoa válida da cabeça, e que emigrou para uma terra que também a mim seria grada. Talvez seja coincidência, talvez nem tanto, que esta noite eu tenha sonhado com as filhas trigémeas que nunca terei, as quais brincavam e sorriam deitadas ao meu lado na mezzanine enquanto ouvíamos a discografia completa da Mari Boine e eu jogava xadrez contra a consola. Uma voz feminina doce e espectral galgava a escada a espaços incertos inquirindo por entre o aroma de bolos frutados se as miúdas estavam bem e em que ponto já ia o marcador do volume sonoro. Quando acordei soube então que despertara para um campo de terra minada, em que cada bomba enterrada tinha gravada, a letra dourada, a frase lixada "vais escrever qualquer merda que ao Pedro Chagas Freitas parecerá gamada". E assim com essa certeza abri o facebook, dei com dois posts do meu amigo, cuja saudade em mim certamente um dia suplantará o medo de voar, e decidi que fariam muito melhor figura do que qualquer coisa que de meu peito extraída eu pudesse aqui meter hoje. Cá vai e desculpem.

 

fms

 

 

 

Tomo I

 

Foi na noite de 15 de outubro de 2014 que apanhei o avião que iria levar para Moscovo para o início de uma nova vida. Despeço-me do meu pai, mãe, irmã e sobrinho e tento não chover enquanto as nuvens se esforçam por não chorar. Evito olhar para trás. Sabia que ia ser muito difícil, mas é muito pior do que julgava saber. Passo o primeiro controlo, as lojas de Duty Free e deixo uma última líquida, quente e amarela parte de mim nos primeiros sanitários que encontro.


Recomponho-me, faço o controlo eletrónico de passaporte e dirijo-me para as portas de embarque. Aí chegado, telefono a algumas (das muitas) pessoas que são importantes para mim. À minha avó, à minha madrinha, a alguns amigos de quem não me tinha ainda despedido. Já estou a embarcar quando a minha esposa se junta a mim, sempre atrasada com a graça que Deus lhe deu. Ou que Krishna lhe deu. Ou que lhe foi dada por outrem ou simplesmente por mais ninguém. Mas que ela tem.


Entrámos no autocarro (onde constato ser o único português), que muito se demora antes de nos conduzir ao avião, essa caravela dos tempos modernos que me levará à descoberta de outros mundos. As portas fecham-se, os motores aquecem e o avião começa a movimentar-se. Primeiro, devagar; depois, mais depressa e que por fim acelera rumo à rampa de lançamento. As rodas perdem o contato com a terra que é a da minha nação e, embora as nuvens teimem em não chorar, já eu chovo convulsivamente, enquanto a caravela voadora navega rumo ao futuro que é incerto. Mas quem de nós tem um futuro certo?

 

Tomo II

 

Ontem saí pela primeira vez de casa. Era necessário registar-me no posto dos correios. Nunca mais me queixarei dos correios portugueses. Em plena Moscovo, um posto com instalações fisicamente degradadas contém uma trabalhadora com uma mentalidade de um tamanho inversamente proporcional à dimensão do país e um ritmo de trabalho a condizer. Pela primeira vez sou exposto a uma situação em que só posso tentar fazer-me entender em russo. Na ausência da minha esposa (que me tinha abandonado temporariamente na fila para tratar de um qualquer papel) uma senhora de idade aborda-me por trás e diz-me algo que não me foi inteligível. Respondo-lhe, em bom russo, que não a percebo e ela parece entender. Não sabendo como lhe dizer que aguardo pela minha consorte, digo-lhe algo que pretendia significar que esta não estava ali, o que parece deixar a minha interlocutora algo confusa. Foi-me explicado mais tarde que por uma ausência temporária teria feito mais sentido dizer que a minha mulher estava ali, de uma forma indefinida.


Rapei um briol do catano. Foi a primeira vez que nevou, desde que cheguei. A Kátia parece não entender o meu fascínio pelo fenómeno. Mas eu só o observei duas vezes em Lisboa e em ambas o Benfica foi campeão. Podem-me dizer que a mínima foi de 2ºC, que eu não acredito. As mãos expostas ao frio iam ao bolso à vez (uma delas estava ocupada), bem como a aliança de casamento, cuja condutividade térmica parecia amplificar a sensação de frio. Já a cabeça, recém-rapada, parece que vai explodir tal a pressão que sinto nas têmporas. Hoje, gorro e luvas.

Leio num jornal em língua inglesa que existe um grupo de conversação em russo para expatriados “from zero to hero” e uma liga de futebol para expatriados que requer jogadores e managers acima dos 28 anos. Vou lá meter o nariz. Está na hora de mostrar as minhas excelências.


Tenho vontade de bater em alguém! Portanto, hoje irei ao centro de xadrez Botvinik disputar um torneio em ritmo de Blitz onde, com os meus 1972 pontos Elo FIDE, me situarei na segunda metade do ranking inicial. No primeiro jogo, terei direito a um Super Grande Mestre (acima de 2700) para abrir a pestana. A minha ou a dele...

 

(continua)

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publicado às 09:04







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