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Rugiam os jornais em Paris, acicatados pelas lojas. De uma vez por todas, era necessário liquidar o mostrengo a beira Danúbio. Onde falharam os Valois, os Bourbons, os Orleães os Bonapartes e duas repúblicas, uma coligação mundial ditaria a lei. Impunha-se a destruição daquela "Babel de povos engaiolados" pela dinastia que um dia saíra de um lugarejo suíço e ousara imaginar um AEIOU que quase se estendera a todo o mundo conhecido. Numa Londres apesar de tudo mais condescendente para com este bloco essencial ao equilíbrio europeu, o império K und K era olhado de forma mais pragmática. Uns anos mais tarde, durante o cacofónico concerto do troar dos canhões, apenas a necessidade da manutenção de uma Entente instável, acabou por fazer com que os britânicos permitissem a derrocada exigida pelos tradicionais inimigos dos Habsburgos. Para cúmulo, era um império católico.
Vinda a paz, os mais severos apologistas do princípio das nacionalidades, os franceses e os norte-americanos, logo se dedicaram ao amalgamar de várias massas estatais que em tudo pareciam caricaturas da Áustria-Hungria. A Checoslováquia abarrotava de alemães, de húngaros e ucranianos, não esquecendo um retalho polaco, Teschen. A Jugoslávia seguiu o mesmo caminho, tal como a Polónia e a Roménia.
A queda do império austro-húngaro representou um colossal desastre para a Europa. Bismarck afirmara que quem tivesse Praga, era dono e senhor de toda a Europa central e bem vistos os factos ocorridos após 1919, podemos incluir toda aquela zona que vai do Vístula, até à fronteira búlgaro-grega. Se alguém disso tiver qualquer dúvida, rememorie tudo o que se passou na Europa durante o período de entre as guerras - hegemonia alemã - e após 1945, quando os T-34 de Estaline ali se instalaram durante quase meio século.
Travadas e perdidas duas guerras mundiais, a fraqueza deste autoproclamado continente que dominara o orbe, impeliu povos e dirigentes a acordarem num modus vivendi que mantivesse a paz e sobretudo, afastasse a hegemonia que agora chegava do leste. Subitamente, toda a Europa ocidental informalmente se tornou numa grande Áustria-Hungria que para espanto de todos, funcionava, era rica, pacífica e um iman de atracção para quem neste bloco ainda não entrara. O próprio sucessor dinástico do Kaiser de Viena, o recentemente falecido arquiduque Otão de Habsburgo (1912-2011), foi dos primeiros a erguer a bandeira da União, mantendo-se fiel à divisa Viribus Unitis.
Liquidado o colosso soviético, regressaram em força os princípios outrora descuidadamente enunciados pelo presidente Wilson, ressalvando-se, para provisória tranquilidade geral, um ou dois casos excepcionais. A Jugoslávia logo seguiu o caminho que há muito lhe estava destinado e a Checoslováquia também se normalizou, desaparecendo dos mapas. Ficou a Ucrânia, exactamente com as mesmas fronteiras que o Soviete Supremo lhe concedera. Curiosamente, nos mapas surge com uma configuração parecida com a do desaparecido império austro-húngaro e os seus seiscentos mil quilómetros quadrados quase coincidem com a área ocupada pela velha monarquia dualista. País da sua periferia, a Ucrânia servia aos russos de Estado tampão, um neutralizado trilho de negócios a percorrer em direcção a ocidente. Como irmãos eslavos, contavam com uma certa solidariedade da antiga Pequena Rússia dos tempos de Nicolau II. Era assim conhecida a Ucrânia nas antigas cartas polítcas europeias, tal como sem qualquer pontilhado surgia nos mapas a Rússia Branca, hoje uma realidade estatal que toma o nome russo de Bielorrúsia. Biela, branca, Rússia Branca, Bielorrúsia.
Em Bruxelas e em Washington, temos zelosos vigilantes da liberdade dos povos. A partilha da Jugoslávia consistiu no primeiro passo das liberdades de conveniente figurino, tal como poucos anos depois aconteceria com a minúscula sobrevivente Sérvia, obrigada a abrir mão do Kosovo. Afinal de contas, os kosovares-albaneses também tinham "todo o direito de dispor do seu futuro". Era esta a lei ditada pela Comissão Europeia e pelo Departamento de Estado d'além-Atlântico.
O que foi válido para croatas, eslovenos, bósnios, eslovacos e kosovares, de forma alguma terá qualquer similitude em relação às hordas orientais para além do Prut e do Dniester. A intangibilidade de fronteiras é aqui coisa sacrossanta, tal como relíquia a venerar é o celestial calhau ciosamente guardado na Caaba.
Nada disto é razoável, a menos que finalmente, decorrendo cem anos desde que uma encasacada turbamulta decidiu a futura destruição de um país que em si resumia a ideia de Europa Unida, Bruxelas venha agora reabilitar a memória daqueles regimentos de alemães, húngaros, italianos, croatas, eslovenos, bósnios, romenos, polacos checos e ucranianos que seguindo para as frentes a sul, norte e leste, se ofereceram à metralha dos nacionalismos.
Chegou a Primavera e a Madeira apresta-se a receber a habitual enxurrada de turistas. Bem podem agora Merkel, Hollande, Obama e as restantes euro-insignificâncias atreladas irem em procissão até à funchalense Igreja do Monte, depositando uma enorme coroa de flores homenageando Carlos I. Têm um bom pretexto: ao contrário dos nossos duvidosos líderes, este Kaiser já foi santificado por Roma.