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His Master's Voice

por Nuno Castelo-Branco, em 11.03.14

De um ex-jornalista do ex- O Diário - uma desaparecida folha tão PC como o Avante! -, será lançado um book acerca dos acontecimentos que em 7 de Setembro de 1974, levaram à rebelião de uma parte da população de Lourenço Marques. Escutei o autor no tempo de antena propiciado por Mário Crespo na SIC Notícias. Para quem tenha memória curta ou uma total falta dela, as razões apresentadas  poderiam ser aceites sem grande celeuma, até porque decorridos quarenta anos, pouco ou quase nada resta de um Moçambique muito diferente daquele onde hoje esfarrapadamente se combate de norte a sul.

 

O que o ex-militar nomeado por Costa Gomes não disse ou não tornou explícito, foi o inegável facto desta sublevação ter sido o resultado de um crescendo de irritação por parte daqueles naturais de Moçambique  - que mesmo sendo de segunda, terceira ou quarta geração, eram agora chamados de "residentes em" -, obrigados desde Maio de 1974, a suportarem um ensurdecdor grasnar de iniquidades emitidas pelos senhores do Rádio Clube de Moçambique. Fiquei agora a conhecer o fácies de um daqueles que terá engendrado ou permitido as inacreditáveis e escandalosas emissões radiofónicas, copiosamente servidas até ao meu derradeiro dia naquela terra: 30 de Agosto de 1974.

 

O suposto MFA encartado esqueceu-se de dizer muitas coisas, entre as quais avulta a infrene propaganda anti-portuguesa difundida dia a dia pelos novos donos dos microfones. Para um justo e salutar tira teimas, seria interessante escutarmos hoje algumas dessas gravações, infelizmente para sempre perdidas. Pelas palavras proferidas esta noite na SIC, supomos então que gostosamente terá participado no processo. Pelo tu cá, pá, tu lá, pá facilmente implícitos, imaginamos o nível então conseguido naquela cada vez mais longínqua época. Era deveras insuportável. De um momento para o outro, fomos obrigados a ouvir todo o tipo de sandices, acicates ao ódio, "feitos heróicos" jamais ocorridos, mas atribuídos àqueles que Ribeiro Cardoso muito bem este serão apodou de turras. Era toda uma infernal panóplia preparatória daquilo que os tutores lisboetas pretendiam para Moçambique. Quem leia estas linhas, não pode conceber o que durante meses, os novíssimos His Master's Voice do RCM serviram até à mais abjecta exaustão. 

Fugindo a uma oportuna questão colocada por Mário Crespo, o ex-O Diário Ribeiro Cardoso limitou-se aos habituais artifícios dos "contextos e posicionamentos ideológicos" vividos naquela época. Mais ainda, fia-se na ignorância de quem o escuta, mencionando nomes que para a imensa maioria são desconhecidos. Falou do jornalista Areosa Pena, durante anos visita muito assídua dos meus pais e pai do Zé Orlando, amigo com quem ainda mantenho contacto. Muito antes do 25 de Abril, em Lourenço Marques era bem conhecida a sua filiação comunista, assumida sem rodeios. De ser simpatizante do PC nunca tal coisa escondeu e as discussões em nossa casa eram tempestuosas, à frente fosse de quem fosse. Enroupando-o como correspondente do Expresso de Balsemão, Ribeiro Cardoso citou o nome de um presumível camarada bastante engajado na luta pela entrega do poder total à Frelimo. Apenas cumpria aquilo a que o seu posicionamento político o obrigava. Este é o "contexto" que à maioria passará despercebido, mas nem por isso menos sintomático daquilo que a obra talvez pretenda.

 

Talvez? Talvez porque ouvi o autor, mas ainda não li o livro. Tenciono fazê-lo na diagonal,  repimpado na FNAC.

 

Naquele momento trágico de Setembro, já estava há uma semana em Lisboa e com quinze anos recentemente feitos, vivi com ansiedade as notícias que iam chegando da terra, aliás profusamente complementadas por telefonemas aos familiares que minuto a minuto, seguiram os acontecimentos. Ir telefonar aos CTT dos Restauradores tornou-se numa rotina diária do meu pai, exasperado pelas notícias transmitidas pela RTP. Na numerosíssima família, nem um só dos  nossos parentes participou na revolta. Eram Velhos Colonos, expressão que perdera todo o sentido ao fim de duas gerações, apenas servindo para tal como no Brasil acontece com os chamados quatrocentões, apontar grupos familiares pioneiros da soberania portuguesa.

 

Havia uma minoria de extremistas na condução da alteração da ordem pública? Havia. Havia exaltados? Decerto, mas o autor do livro finge ignorar a razão para tal raiva, sabendo ele que as emissões do RCM eram deliberadamente provocadoras e incendiárias. Nada foi por acaso, não há lugar para a contabilidade de inocências e "faltas de experiência". Nestes casos não existem acasos e "imprevistos de dinâmicas", porque a cartilha é conhecida e foi seguida com toda a minúcia. Houve deliberado dolo. Pelos vistos, o ex-jornalista  do ex-O Diário não assume as suas próprias responsabilidades, incómodo que contra as suas expectativas, agora  ganha contornos muito mais nítidos. 

 

Os furibundos colonos manifestaram uma compreensível ira libertada de humilhantes meses de "come e cala-te" e exaltados, gritaram um súbito não! aos vergonhosos espectáculos a que uma população incrédula foi obrigada a assistir. Militares recentemente chegados ao então chamado Estado de Moçambique, surgiam completamente desfraldados ruas e avenidas fora, cabelos e barbas à Che, postura arrogante, ordinária e provocadora. Eram uma malta, uns autênticos machimbas. Os abusos, insultos e piadolas tornaram-se frequentes, colocando-os num patamar muito distinto daquele exército que durante muitas décadas fora o português. Ribeiro Cardoso fala facilmente de "desvairados, criminosos e loucos", esquecendo-se habilidosamente de mencionar nomes que não podendo de forma alguma ser conotados com o "antigo regime", mostravam-se visivelmente indispostos pela forma repugnante como as autoridades de Lisboa estavam a conduzir todo o processo. Um dos indignados era o Dr. Neves Anacleto, avô de Francisco Louçã. Era uma relíquia, um dos derradeiros republicanos reviralhistas, homem de bem e infinitamente mais credível do que sobejamente conhecidos caçadores de fortunas que ainda medram na praça lisboeta, presidindo a partidos e mantendo bons e vitalícios negócios. São os "santos varredores", à imagem daqueles peixinhos limpa-aquários, mantendo-se sempre à tona, tanto no "antes" como no "depois". Em Lourenço Marques, Neves Anacleto tinha sido o eterno opositor de Salazar e naqueles dias de Setembro terá manifestado o seu repúdio por tudo o que  Lisboa permitia e pior ainda, ainda iria fazer. Durante a revolta, o seu nome foi bastas vezes mencionado.

 

A tropa MFA portou-se miseravelmente, há que dizê-lo e repeti-lo infinitamente, sem rodeios. Em 2014 terá a sua comemoração já bem esbatida pelo correr das décadas, pela chancela da lei da morte e sobretudo, pelos visíveis resultados provocados pela debandada a que obrigaram centenas de milhar de concidadãos. Enquanto viverem, estes jamais esquecerão. Ainda ontem e sem que houvesse qualquer razão para tal, o patético dr. Soares voltou a mencionar a questão da descolonização. O pobre homem já nem sequer tem o necessário discernimento que lhe permita pela ora contornar tal escolho, pois nele sempre embate numa manifesta declaração da má consciência.

 

No fundo, o PC age correctamente, fazendo aquilo que lhe convém. Preparemo-nos então para uma bem esfregada barrela, mas de uma coisa poderão estar certos: eles sabem que nós sabemos a verdade. É inesquecível e imperdoável.  

publicado às 22:23


4 comentários

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De José Lima a 12.03.2014 às 02:00

Um destes dias, folheei o livro em causa numa "Bertrand": há muito que não pegava numa coisa tão repugnante, tão a tresandar a ódio caluniador antiportuguês. Se o autor é - ele assim se apresenta - um antigo militar que serviu em Moçambique no período pré-independência, só me resta dizer que, com gente de tal calibre, o desastre que ocorreu era mesmo inevitável...
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De Anónimo a 12.03.2014 às 15:06

Escusando-me a fazer qualquer tipo de comentário ao corrente post, venho só alertar que o Areosa Pena, nunca, em toda a sua vida, filiou qualquer espécie de partido, independentemente da sua ideologia, isto a propósito da afirmação "era bem conhecida a sua filiação comunista".
Cumprimentos,
Jose A.Pena


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De Nuno Castelo-Branco a 14.03.2014 às 12:16

Bem, é verdade. Corrijo, querendo então dizer que a filiação era ideológica e não de cartão. O teu pai felizmente nunca escondeu aquilo que pensava, era corajoso e paraq quem se intressava pela vida pública, o "comunista Areosa Pena" não era segredo para ninguém. Nãoe stou a fazer qualquer juízo a respeito da opção, apenas a mencionar um facto. Como te disse num comentário no facebook, lembro-me muito bem de o meu pai, após o 25 de Abril,  várias vezes o avisar ..."Ó Areosa, você vai meter-se em sarilhos (...) esses tipos não gostam desse tipo coisas". Era mais ou menos este o sentido geral da advertência. Creio que estava cheio de razão e pelos vistos, infelizmente foi mesmo assim. O teu pai era um homem arrebatado, excelente companhia e parece que estou a ouvir as risotas que ele propiciava quando lá estava em nossa casa. Tinha um sentido de humor inacreditável, contangiano todos à sua volta. Se queres que te diga, os meus pais achavam o seu estalinismo uma excentricidade, nada mais que isso. 


A verdade é que todos naufragámos. VIvemos muito longe, quase numa dimensão paralela e assistimos dia a dia ao adiamento daquele país de "radiosas promessas de próspero futuro". O pior é que aqui encontrámos esse mesmo sistema de adiar sonhos que jamais se realizarão.  O meu pai jamais quis regressar a um mundo que já não era o mesmo. Dizia ele que ia ver cimento e mais nada. Creio que se estivesse entre nós, o Areosa estaria sumamente desiludido com tudo isto: um bairro do caniço transformado numa colossal metrópole dez vezes  - ou mais ! - maior que aquilo que conhecíamos em 74. Infraestruturas arrasadas, serviços públicos caóticos mesmo após cooperantes e duas gerações volvidas, ladroagem institucional jamais vista no "antigamente",  turras aos tiros por todo o país - quando digo turras, emprego o termo num sentido depreciativo, como se fosse uma alcunha -, exploração desenfreada, etc. Uma lástima. 
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De cristof a 13.03.2014 às 14:27

Como conhecia pessoalmente alguns dos que entraram na intentona do 7 Setembro 74 foi-me dito que estava tudo programado para ser ao mesmo tempo que cá(28 ?) mas como ao ouvirem pela radio a revolta que estava- a tomada da radio foi um acaso expontaneo- julgaram que tinha soado a hora e meteram-se todos nas viaturas e armas e dirigiram-se (da Africa Sul) e donde estivessem para o que acabou por ser a fracassada retoma da "ordem" dos brancos, e inviabilizou a aderencia ao verdadeiro 28 setembro. Claro que as populações infelizmente vivem pior(a maioria) que nos velhos tempos- quem vive melhor é as  classes dirigente a volta do tacho publico que é abastecido pela comunidade instenacional -para a populaçao em geral  nao chega a haver nada ou muito pouco =agora me lembro que nunca fui emigrante e já conheço esta musica de ouvido..será que é aqui que a tocam igual?? 

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