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Mais um camilo-lourencista

por Samuel de Paiva Pires, em 19.04.14

Um erro e uma vergonha é alguém como Vasco Pulido Valente, que tem por obrigação e dever de ofício conhecer os processos de formação e autonomização académica de disciplinas como a Ciência Política ou as Relações Internacionais – processos que remontam ao início do século XX, pelo que não se pode dizer que se trate de disciplinas novas –, incorrer no pensamento camilo-lourencista da utilidade económica. Só se esquece que Camilo Lourenço considera inúteis os licenciados em História, por sinal a ciência social em que VPV se doutorou em Oxford, no âmbito da qual desenvolveu os seus trabalhos e que, vá-se lá saber porquê, deixa de fora neste seu artigo.

 

Parafraseando um outro professor, talvez VPV queira recomendar a instituições como as universidades de Oxford, Cambridge, Harvard, Yale, Stanford etc. que liquidem os seus enormes departamentos e centros de investigação que se ocupam das mais diversas ciências humanas e sociais. E, já agora, talvez sugerir também a dissolução das centenas de think-tanks britânicos e norte-americanos que se ocupam desses alegados mistérios que são a Ciência Política e as Relações Internacionais. Por momentos pareceu-me estar a ler alguém que ainda acredita que estas são ciências ocultas. Faria melhor, porventura, em ler "The Idea of a University" desse inútil professor de Oxford que dava pelo nome de Michael Oakeshott, em vez de escrever disparates.

 

De resto, de um licenciado em Relações Internacionais, mestre e doutorando em Ciência Política pelo ISCSP e que trabalha no sector privado, permita-me só perguntar se será que tanto fel contra estas ciências terá alguma coisa a ver com a fusão entre a Clássica e a Técnica e as pretensões frustradas de muitos dos que trabalham ou trabalharam sob a alçada de VPV no ICS, a quem o Estado garantiu precisamente um certo modo de vida durante décadas?

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publicado às 22:15


4 comentários

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De makarana a 20.04.2014 às 00:29

Sombrios tempos estes em que assistimos á tecnocratização da sociedade,em que só as ciências concretas e exatas é que interessam.Pior,não basta saber de números para gerir a economia ou elaborar novas tecnologias,também é necessário saber a história económica e politica,para termos noção de quais os passos que devem ser dados no futuro(porque o passado é a chave de não repetir erros no futuro!).Mas infelizmente,há uma certa elite de comentadores e jornalistas(spin doctors propagandistas diria eu antes de Camilo) que preferem continuar imersos na espuma da sua arrogância e cegueira. E a falta de visão paga-se caro.Por isso caro Samuel,não vale a pena ligar a essas vozes. É deixá-los falar,que um dia hão de saber qual a verdade.
De Camilo eu esperava e hei de esperar, não é só o cabelo que lhe falta.Mas de VPV,francamente não esperava. É um homem com o qual em concordo muitas vezes,mas tem dias em que se apresenta com um certo snobismo arrogante(ele e Maria Filomena Mónica).Esqueceu-se que ele vem.. das áreas sociais,e trabalhou no maior centro de ciências sociais do pais.
Enfim, o nosso centro-direita desperdiça a oportunidade que é a falta de alternativas da esquerda.Começa a cheirar a desorientação,a fim de ciclo.
Tenha uma boa páscoa,ou o que ainda restar dela :)
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De Samuel de Paiva Pires a 20.04.2014 às 10:16

Há tempos dizia um outro professor que percebemos como a nossa decadência vai ser longa quando alguém que faz da politiquice um modo de vida quer acabar com quem faz da ciência o seu modo de vida. Quando alguém que também faz da ciência o seu modo de vida, ainda por cima na área das ciências sociais, escreve o que escreveu VPV, não sei se o adjectivo longa não poderá ser substituído pelo acelerada. Agradeço e retribuo os votos de uma Boa Páscoa, makarana. 
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De Nuno Castelo-Branco a 20.04.2014 às 18:44

Passados os séculos em que os negócios estrangeiros do Estado eram tratados por gente saída de núcleos dirigentes que se sucederam ao longo das gerações que fizeram este país, paulatinamente fomos resvalando para a total cedência aos vencedores de um dado momento eleitoral. Nao sendo um exlusivo português, assim acabaram-se com os Talleyrand, os Metternich, os Gromiko, os Genscher, esses homens que nos Negócios Estrangeiros se eternizavam, mostrando que a política externa dos estados não varia ao sabor do calendário eleiçoeiro ou dos humores de uns tantos líderes de antemão condenados ao esquecimento. Faz-nos muita falta a desabrida assunção da existência de uma linha ininterrupta da condução da política externa que apesar dos ciclos imperiais estrangeiros aos quais tivemos de nos adaptar, foi mantida sem grandes oscilações. Disso dependeu sempre a sobrevivência de Portugal. 


Não desdenharia de um Ministério dos Negócios Estrangeiros que variando a cor do partido em funções executivas, pudesse manter durante muito tempo o mesmo titular* do exercício da chefia da diplomacia nacional. A equação é simples, falta-nos apenas um outro enquadramento do regime de liberdades públicas, a tal democracia interpretada de maneira mais consentânea com as nossas necessidades e possibilidades. 


*Não estou a imaginar a insistência em "mais advogados ou engenheiros" para o desempenho dessas funções. Queres um exemplo que tem marcado a agenda internacional deste tempo? Este Serguei Lavrov da velha, única e verdadeira escola. Ele é bem capaz de servir Putin, assim como bem servirá a agora aventada, embora hipotética instauração da monarquia na Rússia. É um ministro dos Negócios Estrangeiros da dimensão de Andrei Gromyko. Ao pé dele, os patetas que se revezam em Washington, não passam disso mesmo: uma chusma de patetas. 
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De FD a 20.04.2014 às 12:03

Nada de novo! Num país, com tanto laço histórico importante que vive tão dependente do exterior tal como do seu Estado, nota-se claramente o deficit destas questões de quem nos governou desde o pós 25 de Abril (nem vou entrar no período e regime anterior), e, que no fundo fez perpetuar o culto monocromático das áreas com acesso ao poder. Se existissem mais formados nestas tão mal amadas Ciências Humanas, não se cometiam (ou tinham cometido) erros primários nas nossas estratégias e relações com aqueles com que nos relacionamos e de certa forma dependemos. Estratégia para o mar? Para a Europa? Como é que Portugal se insere no mundo? Europeu ou Atlântico? Atlântico norte ou sul? Que dizem os nossos economistas e juristas? Eles não sabem nem nunca souberam. Veja-se como uma TAP andou aí às aranhas até perceber para onde é que devia orientar os seus esforços - um bom exemplo de como a falta de visão condiciona a evolução.
Para VPV o facto de Portugal tentar jogar xadrez sem saber as regras chega - saber as regras das damas serve, afinal o tabuleiro é igual e tudo.

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