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Milagre de Tancos, parte II

por Nuno Castelo-Branco, em 05.11.18

 

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Saiu-lhes a sorte grande por algo que já estava programado há muitos meses, coincidindo esta altura com a turbulência que tem abanado o regime na sua vertente militar e política.

O Comendador de La Vichyssoise, hoje na sua versão de Supremo Comandante, disse um disparate monumental, quando relativamente à Alemanha de 1914 insistiu no apodo do odioso.

Odioso era o regime que então vigorava em Portugal, capaz de todas as infâmias e violências contra a sua própria população usada como carne para canhão, fosse ele o que troava a partir dos cruzadores surtos no Tejo disparando metralha em direcção à Rotunda, ou os de 75 que em Monsanto varejavam o Torel, a zona da Duque de Loulé, o Príncipe Real, enfim, praticamente a cidade inteira. A isto acrescentaremos os caceteiros e facas de mato de Afonso Costa, os assassinatos ao domicílio, a destruição de jornais e espancar de jornalistas em plena via pública, o corte radical dos cadernos eleitorais recebidos da "ominosa Monarchia", a fome generalizada e a ruína económica que significou uma enorme vaga de emigração para o Brasil, a repressão do sindicalismo ou os massacres contínuos no qual se evidenciou o Movimento das Espadas que acabaria com montões de cadáveres.

Comparativamente àquele Portugal, o que era então a Alemanha do Kaiser Guilherme?
- Tinha no Reichstag o SPD como principal partido eleito.
- Tinha direitos sindicais e um correspondente movimento sindical determinante e muito poderoso.
- Tinha assistência social com direitos que a maioria dos países europeus apenas adquiririam décadas depois: creches do Estado e das empresas, escolas públicas e alfabetização generalizada, escolas e institutos técnicos de primeiro plano em termos mundiais, reformas de aposentação garantidas, ensino grátis e escolaridade obrigatória, saúde pública e os mais avançados hospitais do mundo, etc.
- Uma imprensa livre e bastante dinâmica.
- Era a vanguarda científica mundial onde sobressaía o Instituto Kaiser Guilherme, hoje conhecido por Max Planck


Relativamente à França, Reino Unido, Itália ou Rússia, o II Reich estava num plano de superioridade a todos os níveis, apenas destoando das democracias ocidentais por ser o imperador quem nomeava o Chanceler, geralmente em contraponto com os deputados do Reichstag. Longe de ser um ditador, de facto Guilherme II tinha a palavra final e isso era algo que colidia com a praxis francesa, britânica ou italiana, mas num plano muito diferente da situação russa, também parte integrante e vital da Entente. Passe o anacronismo, o Kaiser retinha atribuições que hoje são atribuídas ao ocupante da Casa Branca e nem sequer presidia ao Conselho de Ministros. Noutro prisma, a própria organização territorial alemã, não sendo a de um Estado unitário, acabou por facilitar os jogos de interesses e a preponderância prussiana, não apenas ditada pela sua dimensão territorial, como pela concentração dos meios materiais. Tal como hoje acontece, a Alemanha era um Estado Federal.

A descendente longínqua dessa Alemanha também hoje foi vista, incompreensivelmente afastada dos contingentes francês, americano e britânico, sendo nestes tempos todos eles aliados de Portugal. Má decisão por parte dos organizadores.

Voltando ao desfile, para além da subliminar mensagem de aviso transmitido pela presença de um forte contingente de elementos pertencentes a duas unidades militarizadas que desfilaram na companhia de equipamentos destinados à repressão interna, o Comendador poderia ter retido um lampejo de grandeza e por uma vez, deixar-se de recaduchos político-partidários. Como se comprova a tentação é insuperável e não deixa de ser alguém oriundo de um sector político que rotineiramente vai a votos. Isto é tão válido para ele, como para os seus antecessores. Pareceu no que interessava para o caso, um desfile bem realizado e com uma certa grandeza, não faltando evocações históricas e os sempre esperados espectáculos de cavalaria e respectivos uniformes que atestam a passagem de séculos que tudo o mais secundarizam.

No que ao mais se refere, apenas duas peças de artilharia, dois blindados Leopard II e a bem visível falta de uniformes de parada. Dir-se-ia estar aquela mole de gente preparada para dali mesmo ter de seguir para uma frente de combate qualquer, tal era a predominância de camuflados que camuflam a penúria geral na instituição.

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publicado às 11:04


2 comentários

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De Anónimo a 05.11.2018 às 17:23

Opções governamentais ou "o diabo que escolha"?. Paradas militares, ou Hospitais parados.
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De Anónimo a 05.11.2018 às 21:49

O milagre de Tancos, Portugal na 1ª Guerra Mundial


meu Primo Francisco, meu Padrinho, tenente de Infantaria seguiu de comboio para Paris e noutro para a Flandres onde o cloro lançado pelo Gen Ludendorff  lhe arruinou a saúde
o II Reich não se podia comparar a javardaria afonsina da Formiga Branca e do António da Avenida

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