Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Na fronteira da estepe

por Nuno Castelo-Branco, em 20.11.14

 

1. Um ataque preventivo?

Foi com surpresa que nos primeiros dias da invasão de Junho de 1941, o Alto Comando da Wehrmacht foi recebendo relatórios da frente de combate, interessando-se especialmente pela quantidade de material destruído ou capturado ao Exército Vermelho. Centenas de milhar de homens aprisionados ou postos fora de combate, milhares de aviões abatidos ou pregados ao solo dos aeródromos militares, a inacreditável quantidade de peças de artilharia com que os alemães depararam e sobretudo, uma contabilidade final de perto de 17.000 veículos blindados que se amontoavam nas imediações da linha de demarcação estabelecida em Setembro de 1939, após a ocupação da Polónia por exércitos alemães e soviéticos.

asjdurivvfn.jpg

 

Dispositivo dos exércitos alemães e soviéticos em 22 de Junho de 1941 


A tradicional doutrina militar russa tem como norma a defesa em profundidade e desde os tempos de Pedro o Grande,  esta foi uma constante repetida ao longo de mais de dois séculos. A campanha napoleónica conheceu o calcinante pó que em turbilhões fustigava os seus regimentos durante a longa e penosa caminhada em direcção a Moscovo, para logo depois ser essa poeira substituída por outros torvelinhos, desta vez gelados, mortíferos. Durante a Guerra da Crimeia os Aliados não fizeram grande figura, tendo os russos conseguido empastelar uma invasão em grande escala. Décadas depois, os exércitos do Czar Nicolau II, apesar da clara inferioridade material, puderam ceder todo o território que hoje pertence à Polónia, aos Países Bálticos e uma boa parte da Ucrânia, sem que isso significasse o colapso da essencial segunda frente que queiram ou não queiram reconhecer os Aliados ocidentais, foi determinante para o resultado final da guerra. 

 

22jun1941.jpg

 

A frente sudeste em 21 de Junho de 1941 

O que estaria então Estaline a preparar naquele distante ano de 1941? A concentração de efectivos de toda a ordem indiciava algo muito diferente de um dispositivo meramente defensivo, apesar de alguns poderem argumentar com a desorganização causada pelas Grandes Purgas que quase eliminaram a cúpula e o poder combativo do Exército Vermelho.  Acreditar na inocência daquela gigantesca concentração de meios, seria cultivar o sonolento prazer de imaginarmos o Alto Comando soviético ter infantilmente errado no gizar do seu dispositivo guarda-fronteiras. Parece uma impossibilidade, verificados os acontecimentos no início do verão de 1941.

A história foi e ainda é naturalmente contada pelos vencedores da IIGM, mas não será absurdo considerar a hipótese de Estaline ter apenas sido ultrapassado pela belicosidade do Führer. De facto, a comoção pela fulminante queda da França e a rápida passagem de todo o espaço balcânico para o controlo do Eixo - não esquecendo o realinhamento da Hungria, Roménia e Bulgária com a Alemanha -, levou Estaline a considerar a guerra como inevitável e a concentração de meios nas fronteiras é o melhor indício da intenção de uma guerra preventiva, somando-se às suas declarações nos conciliábulos do governo soviético e nos discursos proferidos no abrigado secretismo do Comité Central do PCUS. A verdade é que Hitler surpreendeu o seu parceiro do Pacto de 23 de Agosto de 1941, enquanto o Vozd  aguardava a consolidação do seu dispositivo ofensivo para o início das hostilidades. Pouco tempo antes, os oficiais soviéticos de visita ao Reich, com desagrado comentavam o equipamento blindado que os seus congéneres alemães apresentavam para vistoria, declarando estarem os oficiais do Panzer Amt a esconder os modelos mais recentes. Quando as fábricas russas já  produziam grandes quantidades de blindados KV e T-34, a visão dos Panzer III e IV suscitavam a incredulidade, dada a notória inferioridade em relação ao equipamento que a URSS produzia em segredo. Para o oficialato russo, os seus congéneres alemães estavam a ser desleais. ocultando o que de mais valioso e moderno estavam a construir e a fornecer aos depósitos militares da Wehrmacht. Aquilo que os soviéticos tão bem sabiam fazer, claramente julgavam recíproco do outro lado da fronteira política e ideológica. Deste modo, muitos são os elementos que indiciam uma decisão soviética para um  desencadear do conflito para um momento daquele mesmo ano de 41. A posição estratégica era de facto muito favorável, pois à posse da Ucrânia ocidental e de parte da Rússia Branca arrebatadas à Polónia, somava-se a clara vantagem obtida com a anexação dos três Países Bálticos, não podendo nós esquecer a Moldávia, anexada após um violento Ultimatum entregue em Bucareste. Se é hoje difícil imaginar-se o que teria resultado de um antecipado ataque russo a ocidente, não será abusivo considerarmos as dificuldades que teria causado  aos alemães. 

 

64772_779985585401073_8417547752207658563_n.jpg

20-11-2014, Putin inaugura no Kremlin, a estátua homenageando Alexandre I. A mensagem é clara.

 

2. Uma fronteira de segurança?

Não existe hoje qualquer concentração militar que seja comparável à existente em 1941. Os meios e doutrinas militares são muito distintos, a tecnologia é outra e a situação política é, apesar dos recentes acontecimentos, de paz europeia. Serve este longo intróito para abordar o problema que para os militares e políticos russos é uma fronteira que consideram desadequada aos seus esquemas defensivos em profundidade. Se atendermos às realidades que as cartas geográficas agora comprovam, a Rússia encontra-se grosso modo, na situação em que o Tratado de Brest-Litovsk a deixou após a rendição bolchevista de 1918, com a agravante de agora ter no seu flanco sul, ameaças que seriam impensáveis há cem anos, às quais se acresce a poderosa China - actualmente um aliado de circunstância - e a miríade de países que de tão instáveis, são um elemento a considerar. Inevitavelmente, a Rússia consiste num claro objectivo do expansionismo doe extremismo islamita, ou por outras palavras, um assunto que a toda a Europa interessa.

É muito difícil imaginarmos hoje, uma concentração militar russa  tão vasta e potente como aquela conseguida por Estaline na Primavera de 1941, ou a outra, por nós bem conhecida e que na Europa central se manteve até ao início dos anos 90 do século XX. É bem notório o estado de impreparação do exército russo para qualquer aventura de largo espectro, encontrando-se nestes dias numa fase de reorganização e reequipamento. Exército, marinha e força aérea são incomparavelmente inferiores aos correspondentes dos seus possíveis adversários norte-americanos e não sendo este um aspecto desconhecido ou desconsiderado pelos nossos aliados, talvez possa servir de justificação para muitas das atitudes que se têm sucedido nos últimos anos. É certa a suposição de na última década ter a Rússia investido muito na defesa anti-aérea, colocando em campo novos e sofisticados sistemas de mísseis que aparentemente poderiam contrabalançar a supremacia das forças aéreas da NATO, ou mais propriamente, a USAF.  Isto não significa uma suficiente força dissuasora de um ataque vindo do ocidente. Não é descabida a ilusão perigosa de um conflito clássico sem a utilização de armas nucleares tácticas, sendo este um puro  exercício de wishful thinking. As armas existem e serão utilizadas, mesmo que de forma limitada, num caso de desespero. Daí à escalada - mesmo que também limitada a alguns secundários alvos além-Atlântico - vai um passo que dependerá de qualquer imponderável. Qualquer diplomata russo declara-o sem qualquer pejo e não podemos contar com qualquer alegação de bluff, pois este é o pior cenário possível de apresentar aos países componentes da Aliança Atlântica. Por outro lado, o subir da parada ocidental vem assegurar indefinidamente a sobrevivência do governo de Putin, estando hoje todos os russos colocados perante a quase intimação de um Unconditional  Surrender sem guerra, quase um émulo daquele outro saído da Conferência de Casablanca e que tão nefastos efeitos provocou no seio da oposição interna alemã. Má política, ignorância crassa, ignóbil arrogância e sobretudo, péssima propaganda engendrada e difundida urbi et orbi pelo nosso próprio campo.

As colossais e desastrosas derrotas em Minsk, Brest, Smolensk, Kiev/Briansk-Viazma e a certeza dos Panzer a pouco mais de 30Km de Moscovo, eis o inesquecível legado daqueles meses de 1941. É esta uma obsessão dos militares e políticos russos. Se a independência dos Países Bálticos pode para muitos russos ter sido considerada como inevitável e até aceitável, a perda da Ucrânia e de metade do Cáucaso consistiu num desastre que apenas poderia ser limitado, se aqueles territórios fossem pelo menos neutralizados. Parece ser esta última, a posição que um antigo secretário de Estado da dimensão de Kissinger, queria apontar como apropriada a uma política ditada pela consideração das realidades. A psicologia também deverá ser indissociável da condução dos negócios públicos e nisto os russos não fogem à regra. Tem sido clara a apresentação de argumentos tendentes a confirmar a suposição de insegurançarussa , nisto copiando-se num arremedo de interpretação a própria da Doutrina de Monroe, algo que há mais de um século os nossos aliados correctamente têm apresentado em relação ao chamado hemisfério ocidental. Um caso? O dos Mísseis de Cuba, ao qual e com alguma boa vontade poderemos juntar Granada e a Nicarágua-Contras. Se a isto somarmos o orgulho ferido de uma superpotência que jamais o deixou de ser - nem que pelo argumento da sua dimensão, posição geográfica, amontoado de recursos económicos e poder militar -, temos então um quadro bastante completo que na sua complexidade, deverá ser cuidadosamente  encarado pelos potenciais adversários. Ao longo de décadas, o ocidente tem fornecido aos russos todos os argumentos que hoje prodigamente utilizam em benefício da sua aparentemente errática política externa. Não é errática, é intencional e mais a ocidente, a Alemanha sabe-o. Pior ainda, a nossa própria actividade em certas áreas do globo, parece contradizer os interesses ocidentais quando considerados a longo prazo. Isto é tão válido para o âmbito europeu, como para as zonas mais próximas dos países integrantes da NATO, como o Médio Oriente, o Mediterrâneo Oriental e o norte de África. Avoluma-se a suspeita da intenção de um indefinido alastrar da Aliança Atlântica que hoje em dia, consultando os seus componentes, deixou de justificar o nome com que foi baptizada em 1949. A certeza que fica, é a de um expansionismo ilimitado sob a condução dos EUA. Mesmo que esta seja uma falácia que com algum esforço poderá ser eliminada com argumentos mais ou menos poderosos, a sensação geral é mesmo essa, servindo os aliados europeus como simples  instrumentos justificativos do claro unilateralismo que do outro lado, Putin aproveita para denunciar. Os ostensiva e deliberadamente mal armados alemães, outrora firmes aliados dos EUA, parecem cada vez menos dispostos a consentir numa política geral que lhes parece perigosamente irreflectida, principalmente quando é dada uma crescente e demasiadamente audível voz a países ainda bastante traumatizados pela ocupação e controlo soviético decorrente da divisão do mundo - aliás consentida, quando não claramente patrocinada pelos EUA em Teerão, Ialta e Potsdam -  consagrada em 1945. Assim, Berlim tem-nos servido aquilo que mais lhe convém, ou seja, um sistemático duche escocês em que no final, o frio tenderá a preponderar. Digam o que entenderem dizer os especialistas nestas matérias, os haushoferianos continuam bem activos e há que contar com eles.  A situação na Hungria - onde previsivelmente ocorrerão aquele tipo de espontaneidades que já vimos em Kiev -, na Bulgária e na claramente pró-russa Sérvia, demonstram claras fissuras na Europa central e oriental. Como será então possível colmatá-las, essa é uma questão que carece de resposta. Bem feitas as contas e chegada a hora H, talvez poucos estarão dispostos a alinhar numa aventura com as consequências que antevemos. Talvez restem a Polónia, os Bálticos e o por enquanto indefectível Reino Unido. A tradicionalmente cínica e calculista política externa norte-americana, tem perfeitas correspondentes nas suas homologas europeias, sobejamente treinadas por muitos séculos onde as rivalidades entre os estados engendravam alianças que logo se desfaziam consoante a oportunidade de cada momento. Em matéria de cinismo, estamos então entre iguais, quanto a isso não cultivem os nossos aliados e os nossos potenciais adversários, qualquer tipo de ilusões. 

Map_of_NATO_countries.png

 

3. Até onde poderemos expandir a NATO?

Será hoje a NATO a mesma organização que desde o seu nascimento em 1949, passou quatro longas e penosas décadas de progressiva consolidação, para logo depois se expandir em direcção ao subitamente escalavrado núcleo do seu temível adversário do leste? Não, não é. O  interesse de segurança de países tão diferentes como o Reino Unido, a França, a Alemanha ou mesmo Portugal, não corresponderá por estes dias, exactamente àquele existente durante o prolongado período do pós-guerra. Liquidado o sovietismo e afastadas as dezenas de milhar de tanques russos concentrados entre o Báltico e os Sudetas, a percepção dos perigos é outra e as mais facilmente identificáveis ameaças situam-se noutro âmbito geográfico, fora da Europa. 

Acreditem ou não os observadores ocidentais, os russos de 2014 são incomparavelmente mais livres do que aquela massa bisonha e amorfa dos anos de decadência do concentracionário e despótico regime de Brezhnev e dos seus ineptos sucessores. Os russos lêem, viajam, compram, organizam-se e contestam como (ainda) podem. Parece  bastante evidente a aprovação em larga medida, da política do Kremlin que à maioria se apresenta como de segurança nacional. O apelo de Putin é hoje tão válido como o discurso de Nicolau II em 1914, ou a evocação de Suvorov e Kutuzov que  no Outono de 1941, o desesperado José Estaline ousou fazer do alto do Mausoléu de Lenine. Não será um disparate considerarmos a veracidade dos números que indicam um claro apoio conferido à autoridade de Putin, pois apesar do desagrado pela omnipotência da oligarquia e pelas evidentes disparidades verificadas na sociedade, o sentimento popular relativo aos grandes interesses da Rússia imperial, permanecem tão sólidos como aqueles existentes precisamente há cem anos, quando a expensas da segurança do seu trono e das dilatadas fronteiras do seu império, o Czar rapidamente se decidiu pela Entente.  Se os norte-americanos e os seus incondicionais não conseguem entender os factos, então a situação poderá tornar-se extremamente perigosa e isto mesmo os porta-vozes do Kremlin não se coíbem de afirmar, sem sequer um pestanejar que denuncie hesitação. O valetudinário Kissinger dos grandes erros e abusos dos anos setenta - o golpe chinês é uma outra história -, parece estar muito lúcido, intelectualmente amesquinhando aqueles que nas chancelarias dos negócios estrangeiros ocidentais, teimam em permanecer em negação perante todas as evidências. 

Até onde pretenderão estender a NATO? À Finlândia sobranceira a S. Petersburgo? Às teimosamente neutrais Suécia, Áustria e Suíça? À Arménia e Geórgia? Ao Chipre, Israel e Jordânia? Com muito mais propriedade, porque não a Marrocos, um país porta de entrada no Mediterrâneo, no Atlântico Norte e fundamental para segurança do flanco sul?

Em suma, ao ocidente poderia convir um final delinear dos limites securitários a que se propõe - precisamente aquilo que também se exige a Putin, ou melhor, à Rússia -, talvez não fugindo ao traçado ocidental das antigas fronteiras europeias da URSS de 1938 - ou o chamado Cordão Sanitário do período de entre-as-guerras -, neste âmbito podendo-se até incluir uma Ucrânia neutralizada. Contudo, para profundo descontentamento dos russos e de cada vez mais europeus preocupados com aventureirismos e jactâncias sem sentido, não é esta a nossa politica geral, insistindo-se no querermos mais, mais e cada vez mais. 

Pagaremos bem cara a irreflexão, pois inevitavelmente abrir-se-ão insanáveis brechas na sempre desejável Aliança Atlântica. A quem atribuir então a responsabilidade? A resposta parece bastante óbvia. 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:20







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas