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No, Sir!

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.14

 

Andamos todos amnésicos de uma história que a maioria dos actualmente vivos não conheceu, mas sem dúvida bastante documentada e à disposição da sua descoberta por quem nela se interessar. Se o pós-II Guerra Mundial foi registado por milhares de documentários para sempre testemunhando a miséria e o sofrimento, imaginemos então o que seríamos forçados a passar, no caso de sobrevivermos, após um conflito entre os EUA e a Rússia. 

 

Nestas danças da chuva que em tan-tans e círculos anuncia a mobilização, há que recorrer a expressões em inglês, pois consiste numa boa forma de vincarmos bem  a urgência da situação. Por muito que tentemos resistir ao patético sacrifício, este é o mundo em que vivemos.

Ninguém conhece concretamente quais os objectivos russos, pois a queda da União Soviética implicou a rápida desagregação do império construído pelos Romanov e ciosamente conservado pelos seus sucessores do PCUS. O estabelecimento da Comunidade de Estados Independentes, poderá ter parecido como um anúncio de uma correspondente russa da Doutrina de Monroe, mas a realidade da volátil política internacional nos anos noventa, bem depressa implicou o total ignorar dessa clara delimitação de uma esfera de interessas. Logo foram surgindo bases aliadas em territórios outrora integrantes do império russo-soviético, assim como convites endereçados a alguns dos novos Estados - algo até agora sem efeito -,  fazendo-os crer nas inegáveis vantagens de pertença à NATO. Conhecem-se bem as dificuldades vividas na Rússia pós-comunista, também não sendo estranhas as notícias acerca da crescente frustração local perante o ostensivo desprezar dos seus interesses, por parte de um ocidente que inicialmente se apresentava como um horizonte de esperança. Não valerá a pena repetirmos a longa lista de eventos que progressivamente foram separando os parceiros do desanuviamento, hoje em quase aberta hostilidade.

 

No verão de 1939, o ministro Ciano visitou o seu homólogo alemão. Ribbentrop recebeu-o em casa e numa conversa no jardim, o italiano, confundido pelas evasivas e manobras de diversão do seu colega, perguntou-lhe frontalmente:

- Mas afinal o que querem vocês? O Corredor? Dantzig?

 

Olhando-o friamente, Ribbentrop foi lapidar:

- Wir wollen den Krieg!

 

O governo do Reich queria a guerra e não se contentaria com qualquer reedição de Munique. Um ano antes, Mussolini tinha impedido Hitler de atacar a Checoslováquia e tal contratempo não se repetiria.

 

A quem se aplica hoje a expressarão Wir wollen den Krieg? A John Kerry, a Sergei Lavrov ou a ambos? Se esta suposição poderá ser abusiva e anacronicamente transportada para os nossos dias, ficamos tão confundidos como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, não sabendo apontar o dedo a quem verdadeiramente pretenderá despoletar um conflito. Os sinais parecem de difícil destrinça e o subir da parada uma constante, aplicando-se tanto a americanos como aos russos. Além de serem conhecidas as dificuldades internas que Putin parece estar a enfrentar - cercado por falcões ao estilo de Jirinovski e correspondentes relíquias do infelizmente mal-soterrado passado comunista -, também teremos então de atender ao democrático rufar de tambores cujo eco nos chega do lado de lá do Atlântico. Passando sobre o grotesco de certas pretensões que visavam transformar Sebastopol numa espécie de Subic Bay do Mar Negro, a verdade é que ainda poucos de nós entenderam até onde os nossos aliados pretendem chegar, quando anunciam a colocação de forças militares num possível cenário de conflito, a tal deterrence force da salvação. Ninguém acredita na eficácia da criação de um dispositivo militar na Polónia, um dos países da NATO, pois tal exercício de segurança seria naturalmente encarado pelo possível contendor. Algo de muito diferente será a presença de forças militares da Aliança dentro do próprio território ucraniano, seja essa presença devida a um súbito impulso justificado por garantias a caridosamente concedermos - sim, somos aliados na NATO -, seja ela decorrente de um daqueles habituais pedidos de assistência hipoteticamente enviados a partir de Kiev.  Se querem a guerra, então esta é a melhor forma de a obterem: coloquem tanques, soldados, canhões, mísseis e aviões na Ucrânia e de preferência, utilizem-nos nos combates contra os rebeldes.

 

Há quem pense poder iniciar um conflito de forma controlada, nem por isso temendo o epíteto de warmonger. É praticamente inevitável o rápido descambar para uma escalada envolvendo armamente táctico nuclear, relegando as trocas de granadas entre os Abrahms e os T-90, para a condição de algo bastante irrisório, previsível e rotineiro. Mesmo sendo esta uma infeliz eventualidade talvez já considerada pela gente do Pentágono e do correspondente edifício ministerial russo, há sempre que contarmos com a esperança do lamentável incidente se circunscrever ao espaço europeu, deixando a parte mais importante da aliança fora do raio de acção retaliatório. Por muito pueril que tal coisa nos possa parecer, é mesmo um wishful thinking despreocupadamente cultivado. Aparentemente, a Sra. Palin pode hoje ser considerada como uma genial visionária digna de todos os encómios. Dadas as circunstâncias, a dita personagem  poderia mesmo ser a directa candidata a sucessora republicana de Obama. Para os mais entusiastas pelo início de uma Operação Barbarossa 2, o actual mapa proporciona-lhes o ponto de partida numa frente tal como ela surgia nos inícios de 1943. Dali a Kursk, é apenas um salto. 

 

Não é necessário ou desejável qualquer mútuo appeasement, mas tão só o conhecimento de quais os limites pretendidos por russos e americanos. Quem hoje poderá indicá-los de forma concreta e credível? Ninguém. Quanto aos europeus que aparentemente beneficiaram do estiolar dos seus deveres de auto-defesa, russos e americanos arriscam-se seriamente a não encontrarem simpatizantes ou alinhados numa Europa sumamente preocupada consigo própria e por aquilo que vai acontecendo a sul.

 

Já não estamos nos tempos do "Yes, Sir!"

 

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publicado às 14:37


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