Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O erro da narrativa da desresponsabilização da Alemanha

por Samuel de Paiva Pires, em 17.07.14

É cansativo ver repetida, quase ad nauseam, a ideia de que a Alemanha não tem qualquer responsabilidade na crise que o Velho Continente vem atravessando. Desta feita, e motivando este meu post, li-a num texto do João Távora. Curiosamente, não me recordo de ter visto qualquer dos proponentes desta narrativa suportarem-na com argumentos, dados, factos históricos. A explicação é simples e talvez fique a dever-se ao facto de muitos confundirem as suas crenças e vontade de recriminar Portugal, os portugueses e os seus líderes políticos - que também têm responsabilidades, e muitas, na crise que atravessamos, mas não são exclusivas -  com a realidade: é que aquilo que defendem está errado. É, apenas e só, wishful thinking. Isto motivou-me, já há uns bons meses, a investigar as origens da crise do euro, o que resultou num ensaio que apresentarei nesta conferência.

 

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária - em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade de os países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: "Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa." A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao "utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa."

 

Por tudo isto, caro João, o que é uma fatalidade para nós portugueses – e outros como nós –  é persistir no erro de acreditar na narrativa da desresponsabilização alemã, que não tem correspondência com a realidade. Fatalidade esta que se torna particularmente trágica atendendo a que muitos dos decisores políticos acreditam nesta narrativa, pelo que, ingenuamente ou não, acabam frequentemente a servir mais os interesses alemães do que os interesses das nações que os elegem.

publicado às 18:20


15 comentários

Imagem de perfil

De Samuel de Paiva Pires a 18.07.2014 às 12:15

Caro João,


Autoridade negocial não se ganha sendo servil aos interesses de terceiros, a meu ver, e muito menos baixando os braços à partida, achando que vivemos numa total dependência da boa vontade dos credores. Desde D. Afonso Henriques que o segredo da nossa política externa foi saber gerir dependências. E como costuma dizer o Prof. Maltez, "Estratégia é evitar que as potencialidades se tornem vulnerabilidades e levar que as vulnerabilidades passem a potencialidades." E, acrescento eu, em simultâneo, procurar transformar as potencialidades de terceiros em vulnerabilidades. A Alemanha beneficia e muito do euro e da UEM - até porque foram eles que a desenharam, tendo os franceses consentido as exigências alemãs. Não só beneficia na competitividade das exportações (tivessem o marco alemão e a competitividade seria outra bem menor), como utilizou os excedentes para emprestar a juros baixos e ignorando risco de longo prazo aos países do Sul da Europa - o tal crédito fácil, que se a ele tivemos acesso, foi porque alguém o disponibilizou e ganhou e continua a ganhar muito dinheiro com isso. 


Ora, até os gregos, a dada altura, conseguiram assustar os alemães, quando ameaçaram com a realização de um referendo quanto à permanência no euro. Os alemães farão tudo para manter a zona euro e a configuração actual da UEM - o que é uma vulnerabilidade com a qual é preciso saber jogar. A manter-se a UEM como a conhecemos, isso significa, para os países do Sul, que não há alternativa à austeridade e que esta se arrastará por décadas. Sabendo disto, se e quando reconhecerem que a generalização do diagnóstico da crise grega aos restantes países foi um erro, os países afectados podem e devem concertar-se para negociar reformas estruturais da UEM com os alemães. 


O nosso muy ilustre Bruno Maçães acha que alianças deste género são coisa do séc. XIX, mas os ingleses parecem discordar dele e até têm promovido uma aliança entre os países do Norte: http://www.spectator.co.uk/features/9147391/camerons-northern-alliance/. Perguntar-me-á o João, mesmo que isto viesse a acontecer, que alternativas é que se podem colocar? A meu ver, várias: acabar com o euro será a mais irrealista. Uma mais verosímil será um euro a duas velocidades, com uma moeda comum para os países do norte, e outra para os países do Sul. Como muitos têm alertado, os alemães têm de entender que o seu narcisismo económico, a manutenção do status quo, é um risco demasiado elevado para o futuro da UE. Se, mesmo assim, a anterior alternativa não for possível, ainda resta uma: completar a união monetária com a união política, por via do federalismo. 


A manter-se o status quo,os países poderão começar a considerar que têm mais benefícios em sair do euro, por mais sacrifícios imediatos que tenham de fazer - mas que terão retorno ao fim de 2, 3, 4 anos, em vez de se andarem a arrastar durante décadas numa austeridade deflacionária que impede a geração de excedentes que permitam pagar as dívidas. 

Comentar post







Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas