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O problema ibérico (2)

por Fernando Melro dos Santos, em 02.06.14

Encomendei uma coisa vinda da Estónia. O meu fornecedor trabalha com a UPS, que no acto da expedição fornece via email, ao destinatário final, um número de seguimento que lhe permite saber, ao minuto, onde está supostamente a encomenda.

 

Durante os seis dias que o pacote esteve em trânsito, os dados exibidos pelo sistema e a realidade material coincidiram harmoniosamente.

 

É quando entra em cena o trunfo mais alto, o homo sapiens portugalensis, que a peça descamba para o surrealismo habitual.

 

Por volta das 11h00 de hoje liga-me uma pessoa, o senhor Rui B., de uma empresa localizada em Cabanas - a 30km de onde resido, e diz que tem lá um pacote para mim entregue pela UPS minutos antes. Que não o abriu e que mo guardará, mas que a UPS certamente estará a dirigir-se à minha residência para me entregar os bens que tinham por destino a empresa do senhor Rui B. 

 

Ligo para a UPS, a custas minhas, para um número que dá música, o costume. Lá me atendem e ficam perplexos. Pedem-me uma hora para resolver a situação. Para mim uma hora é muito tempo, na minha actividade posso perder ou ganhar cem euros numa hora. 

 

Pego no carro, vou para a estrada, cruzo-me com a carrinha da UPS, sinalizo ao condutor para que encoste, explico-lhe o sucedido.

 

Resposta do trabalhador por conta de outrém a quem é pago um salário, que pode ter um valor pecuniário indigno, mas é ainda assim um salário que o obriga contratualmente a ser rigoroso, isto assumindo que quem o recrutou estava habilitado a fazê-lo e na posse das suas faculdades: "oh amigo olhe, isto às vezes acontece". 

 

E se ele fosse piloto de aviação civil e mandasse para o além 300 passageiros? Seria esta a resposta para as famílias?

 

Mas ainda retorquiu; meio que afirma, meio que indaga, se isto nunca me aconteceu até a mim próprio.

 

É o meu limite de pressão arterial e sai-me a verdade sem filtro: sabe qual é a pior parte? é eu ter a certeza que isto comigo nao acontecia, primeiro porque enquanto desempenhei funções de responsabilidade nunca me enganei grosseiramente, e segundo porque se ou quando não estava apto a ir trabalhar, metia um dia de ferias e esperava que passasse. As pessoas são diferentes.

 

Entretanto liga-me a UPS pela voz da responsável do serviço, assegurando que a normalidade da situação será reposta, e a quem dou conta do intercambio hollywoodesco (só visto) ocorrido minutos antes na EN 379-1. 

 

Ligo para o cliente da UPS e meu fornecedor, dando igualmente conta do sucedido.

 

De caminho penso que das duas uma, ou estas merdas só me acontecem a mim, ou há muito português que come e cala sem mexer um corno em sua defesa, e que cedo ou tarde, quando o bule ferve, a pressão salta por algum lado.

 

Ainda estou à espera do pacote, mas estou muito mais leve, já perdi um litro de água em suores e nervos. 

 

De notar bem que guardo na minha posse o registo de todas as chamadas ocorridas entre as quatro partes envolvidas neste filme, bem como os mails onde são bem visíveis os pontos de rastreio do pacote. 

 

Depois venham dizer, como disse um comentador anónimo neste blog há uns tempos, que tenho a mania de ser o John Galt da margem sul. Não aprendam e depois digam que é o Constitucional, Passos, Sócrates ou outro bode expiatório da vossa inércia o culpado deste marasmo.

 

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publicado às 11:40


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