Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Obrigado, Mortáguas

por Nuno Gonçalo Poças, em 22.09.16

Em 1961, Palma Inácio, Camilo Mortágua e outros personagens que a história rapidamente fez esquecer, desviavam o “Mouzinho de Albuquerque”, um avião da TAP que cumpria a rota Casablanca-Lisboa. O aparelho devia ter aterrado na capital perto das 11 horas, mas acabou por ser utilizado pelos piratas do ar para fazer distribuir mais de 100 mil panfletos revolucionários sobre várias cidades do País. O terrorismo aéreo fez escola em Portugal muito antes de Bin Laden.

No mesmo ano, o mesmo Camilo Mortágua, desta vez sob o comando de Henrique Galvão, tomou de assalto o paquete Santa Maria, onde viajavam 600 turistas a caminho de Miami, e desviou-o para o Brasil. A verdade é que a “Santa Liberdade” não olhava a meios para atingir os seus fins. A nobre missão fora preparada por Galvão e Humberto Delgado, o antigo apoiante da Alemanha nazi, antigo Procurador à Câmara Corporativa no Estado Novo e antigo Chefe da Missão Militar junto da NATO, nomeado por Salazar, nesta altura já mais preocupado em desviar navios.

Já em 1967, a dupla Palma Inácio e Camilo Mortágua (também com a companhia de mais umas personalidades que o tempo tem feito o favor de ignorar) resolveu assaltar a sucursal do Banco de Portugal na Figueira da Foz, de onde roubou mais de 29 milhões de escudos – qualquer coisa como 10 milhões de euros, a preços de hoje. Porque as revoluções não se fazem com filantropos.

Já depois do 25 de Abril, Camilo Mortágua liderou, com Wilson Filipe, a ocupação da Herdade da Torre Bela, a maior área agrícola murada do País. Desta ocupação resultou um documentário realizado pelo alemão Thomas Harlan, um cineasta de extrema-esquerda, que se deu ao trabalho de filmar o quotidiano da “revolução”, sumptuosamente instalado nos aposentos do Duque de Lafões, o real proprietário da Herdade. Graças a essas imagens, temos hoje a possibilidade de olhar para 1975 e perceber o que temos hoje.

Um oficial do Exército em revolução conferiu legalidade à ocupação e ao sonho de Mortágua e Wilson: «Eu acho que, de maneira nenhuma, podem estar ou devem estar à espera que legalmente saia um decreto a dizer que vocês podem ocupar. Vocês ocupam e a lei há-de vir, pá».

Para a história – muito graças às filmagens e à divulgação permitida pelas novas tecnologias – ficou um marcante episódio que envolveu Wilson Filipe e um trabalhador. O “revolucionário” explicava-lhe o caminho para a riqueza através do socialismo. O outro, mais inteligente, só via naquilo uma forma de esbulho e não abdicava da enxada.

A Herdade da Torre Bela era (e é) associada ao 1% da população portuguesa. Ocupar aquilo que era de tão poucos, e que tinham tanto, não tinha outro objectivo para além da redistribuição. O que era de tão poucos passaria a ser de todos. O Duque de Lafões estava a acumular em excesso, pelo que era necessário redistribuir pelos que pouco ou nada tinham.

Nenhuma daquela gente ficou menos pobre com a ocupação. Camilo Mortágua, em 1978, acabaria por aviar a trouxa e seguir a sua vida, reconhecendo o fracasso que fora a experiência. Não funcionou. O Duque de Lafões tinha ficado sem a Torre Bela; os ocupantes continuavam com o que tinham antes da ocupação. Camilo Mortágua, em 2005, afirmou ao Correio da Manhã que “não é possível fazer vingar uma experiência numa sociedade que caminha noutro sentido”. A experiência estava a vingar, a sociedade é que não estava a seguir a mesma linha. Mariana Mortágua, a filha do terrorista que a comunicação social continua a tratar como um “revolucionário romântico”, preocupa-se por estar “a dizer coisas que as pessoas não entendem”. Ninguém percebe os Mortágua. Nem mesmo quando se está a falar só de 1%. Dos ricos. Dessa gente que tudo tem. E que é preciso arruinar.

Recentemente, em 2011, Camilo Mortágua dizia ter “muito receio que à juventude de hoje não tenhamos sido capazes de transmitir a experiência do passado”. Como sempre, acredito que também aqui estava errado. Nós aprendemos com a experiência do passado. Tal como as gentes do passado aprenderam com essas experiências. O País, na sua grande maioria, percebeu que é a quem tem muito que se exige que contribua mais. Mas também percebeu que não se lhes deve exigir ao ponto de ficarmos sem eles, porque não ganhamos nada com isso. Percebemos que o roubo ao 1% significaria, mais tarde ou mais cedo, o roubo aos 99%. Até ao dia em que tudo fosse do Estado. Em que tudo fosse da Revolução – assim, com maiúscula.

Mariana Mortágua aprendeu com o pai. O resto do País também.

publicado às 21:24


7 comentários

Imagem de perfil

De jojoratazana a 23.09.2016 às 00:58

O desespero de um saudoso do Portugal, dos pequeninos salazaristas. Nos dias de hoje? Deve de ser um fantasma, do botas de Santa Comba.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 23.09.2016 às 07:52

…e o "romântico" acabou por também se tornar num razoável proprietário e não consta querer deixar de o ser. 
Imagem de perfil

De José Lima a 23.09.2016 às 11:01

Compreendo o que diz, eu que sempre fui um defensor da economia social de mercado (mesmo nos tempos em que era difícil afirmá-lo publicamente, nos idos de mil novecentos e setenta e muitos, oitenta e poucos…), e que por influência da doutrina social da Igreja, nestas matérias, me localizo algures entre aquilo que se apelida de social-democracia e de democracia-cristã. Porém, também julgo que o sistema fiscal português não pode ser um sistema bipolar (como na verdade o pretendem o PSD e parte do CDS), isto, é um sistema que trate com todo o rigor, dureza e severidade os rendimentos do trabalho (aumentando as taxas de IRS, reduzindo os escalões contributivos e aplicando a taxa normal do IVA aos produtos de primeira necessidade, não olvidando aqui as políticas económicas adstritas seguidas por esses partidos de desvalorização dos salários e de precarização dos vínculos laborais...), tratando pela inversa os rendimentos do capital (não poucas vezes decorrentes de actividades eminentemente especulativas e com nula repercussão social) com absoluta displicência, brandura e leniência, transformando Portugal para estes últimos num autêntico paraíso fiscal de primeira grandeza…
Sem imagem de perfil

De JgMenos a 24.09.2016 às 23:47


Considere o comentador que grande parte da despesa do Estado é dirigida à classe trabalhadora a quem o Estado Social, mais do dispensar da poupança,  na prática lhes propõe a todo o tempo que não poupem, que o que pagam de impostos cumpre essa função e lhe garante segurança.
Daí se vem derivando que são injustiçados porque pagam muito para terem muito de borla. Só que não é verdade!
Têm vindo a pagar pouco para o muito que têm (serviços público de todo o tipo, ensino, saúde, reformas, subsídios vários...).
Sobre tudo o mais ...!
Sem imagem de perfil

De A Vieira a 23.09.2016 às 11:30


A realidade nua e crua dos loucos do PREC 75.


Esperemos que não haja o "geringonça remake" ......


Sem imagem de perfil

De Afonso a 26.09.2016 às 11:04

A revolução subversiva mundial(da qual o esquerdismo tuga faz parte) continua http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/14804-marxismo-cultural.html
Sem imagem de perfil

De Zé a 30.09.2016 às 12:08


Tem muita razão.
Epiosódios bem presentes na memória de muito boa gente.  Alguns familiares meus viveram bem  de perto esse ambiente de terror que envolveu as povoações vizinhas, cheias de gente boa e simples, e tal ocupação em nada abonou a causa primeira - a caminhada para um país mais justo e livre -  pelo contrário ela foi subvertida e subliminarmente repudiada. Deviam ter sido julgados pelo clima de terror instalado e pelos atropelos morais.

Comentar post







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas