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Paulo Portas e o Congresso do CDS

por Nuno Castelo-Branco, em 12.03.16

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Conheci Paulo Portas em 1980, na campanha da Aliança Democrática. Ocasionalmente participámos nas longas, por vezes divertidas, por vezes perigosas, colagens de cartazes que se iniciavam à tardinha e terminavam já raiava o dia seguinte. Salpicadas por intervalos de galhofa e devorar de bolos comprados na Praça do Chile, serviram como convívio antes do surgimento das redes sociais. Era o cara a cara de outros tempos para sempre idos. Era ele um membro avulso da JSD, enquanto eu, ainda não inscrito, aparecia pela coordenação da sede da então JPM - a organização juvenil do PPM - sediada na Rua da Escola Politécnica, elementos de uma coligação eleitoral a que se acrescentava o contigente enviado pela Juventude Centrista, vindos do largo do Caldas.  

Os contactos não foram muito além disso, mas dele retenho a palavra fluida, a graça mordaz, a precocidade e rapidez do raciocínio, a análise certeira, própria de um adulto. Teria ele uns dezassete anos e pelos jornais fui seguindo na década seguinte, a sua carreira de acérrimo adversário daquilo a que então se crismou de cavaquismo, como se de uma ideologia se tratasse. Não era ideia, era e é uma prática que preenche mandatos, sejam eles laranja ou rosa e que em si mesma trouxe o que de melhor e pior este país tem interiorizado ao longo de séculos. Trinta anos passados, ainda algumas vezes o encontrei na rua e estivesse ele com quem estivesse, a mim sempre se dirigiu, não olhando ao meu trajar e tratando-me pelo nome. Há atitudes que não se esquecem e ao Paulo Portas muito poderão alegar, salvo a sobranceria. Não precisa dela, nasceu com muitas certezas e poucas ou nenhumas dúvidas. 

Segui hoje o seu discurso de despedida e excluindo o demais, retive apenas dois pontos que me pareceram urgentes porque óbvios, embora isto à maioria obcecada com contas de mercearia e politiquice caseira que pouco ou nada têm a ver com a intemporalidade das civilizações, quase nada diga. De facto, estamos perante um confronto civilizacional.

O primeiro, possivelmente o mais urgente e indicativo de perigo iminente, é a situação em que a Europa se encontra, mercê de políticas absolutamente erradas e infamantes para as quais foi atirada por uma elite descabelada de gula e de cegueira perante realidades que em tudo a transcendem. Paulo Portas, sem sequer precisar de ir muito além - para bom entendedor a sugestão bastou -, mencionou a incontornável necessidade do entendimento europeu com russos e chineses, alargando então ao espaço atlântico, ao qual não podemos ou ousamos escapar, essa aliança que obrigatoriamente deverá enfrentar um inimigo comum, infernal, impiedoso, brutal e que aproveitando aquilo que julga ser a nossa fraqueza ditada pelo liberalismo politicamente correcto, arde de delírios de há muito fanada grandeza postiça e assassina. Neste âmbito, a viagem inaugural do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa quererá inequivocamente  marcar uma posição que contradiz toda a tralha que o costismo de há cem anos eterniza: separação entre o Estado e a Igreja, sim, definitivamente sim, mas...

O segundo, talvez aquele que mais directamente nos diga respeito, é a relação com Angola, hoje mediaticamente posta em causa devido aos erros que de longe vêm e que por única e exclusiva culpa da antiga Metrópole, permitiram a ascensão ao poder de um núcleo de mandantes que o exercício da realpolitik deve hoje apresentar-nos como os necessários interlocutores, eles mesmos num processo de transição inexorável.

A portugalidade vai muito além de bandeiras, hinos, regimes, favoritismos de partido e personalidades. É algo entranhado que galga séculos e esbate tonalidades de pele, o inexplicável sentimento de pertença a um devir comum que não conhece fronteiras ou passageiras ideologias. Há quem ilusoriamente julgue poder substituir isto pelo interesse geral do mercado global. Não é assim,  desenganem-se, pois temos a certeza de que do PC ao CDS, aquele sentimento de pertença é comum. Tudo o mais é questionável e fica o que interessa.

Digam o que disserem, obrigado, Paulo Portas. 

publicado às 16:52







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