Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Prevenir pelo exemplo

por Nuno Gonçalo Poças, em 27.05.16

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, mais de 26.700 pessoas foram vítimas de violência doméstica em 2015. Nesse contexto, foram assassinadas 29 mulheres. Um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta concluiu que mais de um quarto dos jovens considera normal a violência psicológica, cerca de um terço dos rapazes julga legítimo pressionar a companheira a ter relações sexuais e um número diminuto mas revelador entende que o recurso à violência física é natural, desde que não deixe marcas.

Estes números não são de hoje, os estudos não são da semana passada, as mulheres não foram assassinadas ontem, nem esta crónica vem sequer no seguimento daquele programa televisivo em que a Deputada Catarina Martins foi filmada a tentar proteger uma fictícia vítima de violência no namoro. Nem mesmo apesar desse programa o tema está na ordem do dia. Mas devia.

Ainda somos o País onde se acha que "ela estava a pedi-las", que "o coitado estava com os copos" ou que "ele não é violento, tem só um feitio especial e é um bocadinho ciumento". É muito aquela coisa da "coutada do macho ibérico", legitimada por um tribunal há uns anos. Ainda temos tendência para desculpar a violência. Para arranjar desculpas "sociológicas" para a bordoada.

Não sei se há – ou se pode sequer haver – algum lado politicamente correcto neste assunto. É verdade que o recurso a expressões como “femicídio” me parece ligeiramente absurdo, sim. Mas não é politicamente correcto dizer que as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. É verdade. A mais pura das verdades. Mais absurdo que utilizar a expressão “femicídio” é vir reivindicar para os homens uma igualdade que, nesta matéria em concreto, não existe. Elas são mais vítimas que nós, ponto final.

Também não sei se vale sequer a pena teorizar sobre as raízes do mal ou tentar associar este tipo de comportamentos a determinado grau de escolaridade, a certo nível de literacia ou a problemas geracionais. Não creio mesmo que valha a pena. Afirmar que a violência doméstica é uma realidade rural é contrariar os dados – o maior número de vítimas é proveniente da Área Metropolitana de Lisboa. Também não é uma realidade directamente relacionada com o alcoolismo ou com parcos rendimentos. Será, talvez, uma realidade histórica, no caso das vítimas mais velhas, de domínio do macho sobre a fêmea equiparada a coisa móvel; será, também talvez, uma realidade de uma nova geração habituada a reivindicar direitos e que não conhece o respeito, a responsabilidade e o cavalheirismo. Não sei. Há quem diga que o cavalheirismo é coisa do passado. Mas os do passado também se prestam à pancada.

Parece-me, enfim, desnecessário (tentar) teorizar sobre as causas do fenómeno. Mais importante será educar os que já vieram ao mundo e aqueles que estão para vir. Ensinar-lhes o valor do respeito pelos mais velhos, da cordialidade e do bom senso. Explicar a quem ainda pode aprender que os homens e as mulheres se respeitam. E ter especial atenção com os rapazes. Os novos pais deviam ensinar, através do exemplo, que a mãe, a avó, as tias, as sobrinhas, se tratam com respeito e amor. Mesmo que elas sejam umas chatas – ou, aqui e ali, umas bestas. É também por aqui que se previne a violência doméstica. Pela estabilidade familiar, pelo amor fraternal entre marido e mulher, pelo exemplo que os filhos vêem em casa. Um filho que aprende em casa, com o pai, como se trata uma mulher, dificilmente será um agressor no futuro. Um filho que vê no pai um exemplo de dedicação e de respeito para com a sua própria mãe, seguirá esse exemplo. É só preciso que os pais tratem as suas mulheres da forma como elas merecem ser tratadas: com a certeza absoluta de que elas são, na maioria dos casos, melhores que nós em tudo, com a excepção que a abertura de frascos constitui.

publicado às 18:24


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas


    subscrever feeds