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Prós e… Prós!

por Nuno Castelo-Branco, em 22.05.14

 

Na passada segunda-feira foi com estupor que escutei uma esganiçada, violentamente atacando o ensino de História nos centros escolares portugueses. Num demasiadamente ignóbil portunhol de bodegón, percebi de imediato tratar-se de uma daquelas típicas libertárias que deliram em sonhos de grilhetas a apor a inimigos de classe que bem depressa ultrapassarão a bonita percentagem de 90% da nossa população. Os Descobrimentos, palavra ainda  tão maldita quanto há quarenta anos o era, foi coisa própria dos "larápios, fascistas, colonialistas, escravocratas e opressores" D. Henrique, D. João II, Vasco da Gama, Duarte Pacheco Pereira, Afonso de Albuquerque, Fernão Mendes Pinto e uma infinidade de nomes bem conhecidos e que por si mesmos justificam a teimosa existência deste país. São de um passado a definitivamente erradicar da nossa memória. Por cá há quem condescenda com as exigências dos esganiçados, mas há sempre uma excepção quando logo de seguida se apontam bretões, catalães, genoveses, judeus de várias origens, mouros, calabreses ou marinheiros, cartógrafos e cosmógrafos de proveniência estrangeira. Aí sim, os Descobrimentos valeram qualquer coisa, há que falar algo acerca do assunto. A por cá aboletada espanhola era sem margem para qualquer dúvida, uma daquelas auto-nomeadas demócratas que invariavelmente encontramos em qualquer tugúrio que tenha à porta o painel com uma sigla onde surge qualquer coisa acompanhando a palavra Operário, Trabalhadores, Reconstruído, Bloco, Unidade, Unificado, Proletário ou Revolucionário. São essas mesmo libertárias que logo enlouquecem à cata de inimigos de toda a ordem, normalmente contabilizados numa percentagem correspondente à de uma eleição norte-coreana.  

 

A espanhola vociferou contra os nefandos Descobrimentos, uma forma de contar a "história errada" que "é a história do colonialismo, da opressão e da escravatura". Isso mesmo, tudo encafifado na mesma mochila onde decerto também caberá o IPAD e uma bolsinha com o I-PHONE de último modelo.  Logo foi a fulana secundada por um eventual cidadão nacional oriundo de um dos antigos territórios ultramarinos. Chispando de ódio, exigindo isto e mais aquilo, também perdigotou toda uma série de asneiras na continuidade daquilo que a intrusa já ousara cacarejar. Nada disto seria grave, se alguém tivesse posto cobro ao destempero dos dois safados. Fátima Campos Ferreira ainda balbuciou algo de ininteligível para uma assistência siderada, muda de espanto e vergonhosamente incapaz de reagir. A contínua tempestade de marteladas a que este nosso pequeno mundo português se submete já há tantos anos, tornou-nos apáticos e sem capacidade de resposta. As sumidades escolhidas para o painel de serviço não tugiram nem mugiram, preferindo continuar a ruminar os ditos politicamente correctos que não estragam hipóteses de sinecura e de apetitoso lugar na manjedoura. 

 

Por muito depauperados que hoje nos apresentemos ao mundo, todos sabemos a razão da inegável visibilidade deste país na História Universal. Os Descobrimentos podem aos invejosos parecer coisa kitsch, mas este é o nosso precioso kitsch, com ou sem galo de Barcelos, com ou sem Torre de Belém, Padrão, fado Lisboa Antiga, manjericos e sardinhas assadas. Uma simples passagem de vista sobre o mapa das línguas do mundo, de imediato chama a atenção até ao mais distraído, coisa que fora de fronteiras - normalmente nos países formalmente nossos aliados e "companheiros de destino europeu" - propicia algumas irritações sem remédio. Isto não é novidade, pois Toynbee lá sabia o que dizia quando a Portugal e aos portugueses dos Descobrimentos se referiu. Idem quanto a Victor Hugo e a muitos outros que correspondem à velha e quase esfarelada pedra basilar do saber ler e escrever. Em suma, Portugal é uma potência histórica, algo que para o bem e para o menos bem, nos acompanhará pelos séculos vindouros. 

Não existe, nem há lugar para qualquer tipo de ofensa quando alguém fala nos Descobrimentos, mesmo disfarçados com os mais cómodos achamentos. Já é tempo de  passarmos a olhar fixamente os histéricos e dizer-lhes de forma bem clara: "o problema é seu, se não gosta ou não sabe ler, o aeroporto está a dez minutos do Rossio!"

Assim mesmo, a seco. 

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publicado às 17:37


1 comentário

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De fty a 26.05.2014 às 03:29

Há quem tenha lido uns milhares de páginas sobre os  Descobrimentos, tenha orgulho deles e use Ipad e Iphone. E há quem pareça estar a soldo da Samsung. 

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