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Havia feito a promessa de que não tocaria no assunto. Havia jurado que não me deixaria capturar. Mas não fui bem sucedido, falhei. Fui contaminado pela verborreia inflamatória. E não serei o único com estes sintomas. Refiro-me ao estado comichoso com prognóstico não-reservado, que não é passível de ser tratado com corticoides ou anti-histeriónicos mediáticos. A variante em causa é bem conhecida dos portugueses e, debaixo de certas condições, a maleita emerge com muita intensidade. Basta haver alguma humidade judicial e o bicho ataca a garganta. A partir desse momento as cordas vocais são as mais afectadas, lançando conjecturas declinatórias e são-de-bitaites da boca para fora, directa ou indirectamente aos alvos preferenciais: procuradores, juízes, e os demais macróbios que se lhe atravessem pelo caminho — façam parte ou não da flora raivosa de onde brotam as acusações. José Sócrates necessita urgentemente de um antídoto eficaz, um xarope meloso, um supositório administrado ali mesmo por um oficial de justiça, em directo, para travar a insolência espirrada na barra do tribunal e à porta do mesmo. A ciência judicial ainda não desenvolveu ferramentas adequadas para manusear este case-study. O prurido de arguido, à falta de melhor designação, é um estado bacteriológico constante, imune a doses cavalares de evidências e argumentações legais. A resistência demonstrada é digna de nota, de reconhecimento. Os portugueses são mesmo muito corajosos e complacentes, mas não sabem a quem recorrer, como se defender. Levar com isto todos os dias é obra. A sentença — um buffet de xingamentos e impropérios servido diariamente a todos os compatriotas.
Foi condenado em 399 a.C, Janeiro, com 71 anos, por uma acusação de "impiedade": Foi acusado de ateísmo e de corromper os jovens com a sua filosofia, mas na realidade, estas acusações encobriam ressentimentos profundos contra Sócrates por parte dos poderosos da época.