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Negacionismo foi a designação encontrada pelos meios de comunicação social para apontar todo aquele que nega ou não acredita na pandemia de SARS-COV-2. Para além destes existem, ainda, os conspiracionistas e os fascistas, designações mais antigas e correntes que apontam um largo espectro de cibernautas ou comentadores.
Estamos perante um fenómeno em nada novo. O espaço cibernético abriu caminho a uma longa trupe de indivíduos que encontrou o lugar ideal para defender, difundir e confirmar as suas teorias, muitas delas alimentadas ao longo dos anos pelo cinema de Hollywood e por nomes famosos da literatura esotérica, de consumo fácil e atractiva pelos elementos nela contidos: explicações simples para o misterioso, o incógnito ou o inexplicável.
Acreditar que a pandemia é, ou uma patranha, ou não acreditar nela é uma idiotice fácil de desmontar. Primeiro, ninguém acreditaria verdadeiramente que alguém produzisse um vírus para o «soltar» na humanidade, com intuito de prejudicar selectivamente países ou culturas. 
Depois, porque todos nós vivemos, desde Março, uma experiência que dificilmente poderia ser uma farsa. Todos vimos nas televisões os camiões com caixões em Itália, a contagem dos já milhões de óbitos, as urgências cheias, os profissionais de saúde exaustos e os confinamentos por todo o mundo. Não há imaginação que planeasse este panorama, nem as televisões mentiriam de uma forma tão consistente e abrangente. Neste mundo de inverdades digitais as televisões foram o grande recurso para saciar as nossas eventuais dúvidas.
Verdade: nunca esta palavra foi tão reclamada. A Verdade, coisa tão subjectiva como o seu contrário, tem sido invocada por alguns para desmascarar a situação em que vivemos. Para alguns há uma narrativa oficial, política, científica que mente e que deturpa o tempo em que vivemos. Uns insistem na estranha origem do vírus, outros recusam a sua letalidade, outros ainda que não passa de uma “gripezinha”. Como foi possível surgir esta frente, hoje aficandamente combatida pela comunicação social e por alguns médicos, como o Doutor Gustavo Carona?
Creio que a explicação poderá ser encontrada na forma como a comunicação da pandemia tem sido gerida quer pelos cientistas, quer pelos políticos, quer pelos media. Desde o início que todos conduziram errónea e erraticamente campanhas diversas: primeiro a do “vai ficar tudo bem”, mensagem que alimentou as parangonas de jornais e revistas e ocupou o tempo de antena de chorosos pivots televisivos . Nunca na história recente da Comunicação Social se viu tamanha campanha sentimentalista que deixou os media fragilizados na sua função de imparcialidade e objectividade pedida a uma ocasião como esta. Seguiu-se-lhe uma falsa sensação de acalmia que derivou num verão quase tranquilo, sem surtos ou casos graves. Excepções atrás de excepções, políticos e jornalistas contribuíram para um discurso confuso, errático, por vezes imperceptível e pouco sério: eis a uma das explicações para o exponencial crescimento de movimentos “pela verdade”. De facto, ninguém detém a Verdade nesta discussão entre fanáticos conspiracionistas e hipocondríacos esquizofrénicos, mas quer de um lado quer de outro, o desvario tomou proporções incontroláveis devido a meses de uma infrene campanha de desinformação.
Neste momento, uma pretensa segunda vaga (ou a continuação da primeira, acentuada pelo crescente número de testes) colocou os hospitais numa situação de ruptura. Fala-se já em escolher quem vive e quem morre, num twist macabro e irónico quando a discussão sobre a Eutanásia está na ordem do dia.
Mas o reflexo de outras escolhas já está na rua, nas manifestações de ontem, no Porto, e hoje em Lisboa. É que se os médicos, os cientistas e os políticos se responsabilizam directa ou indirectamente pelas escolhas de quem vive ou morre nos hospitais, certamente nunca se responsabilizarão pela destruição da vida individual e colectiva de jovens que vêm os seus empregos eliminados pelas políticas aplicadas na contenção de uma doença que avança desenfreadamente mesmo com o estabelecimento de várias formas de controlo. Nem a comunicação social será responsabilizada por alimentar e alimentar-se desta frenética campanha de desinformação. Um autêntico frenesi de desespero que lhes é devolvido pelos teóricos da conspiração e negação e que os media exploram como apenas mais um sensacionalismo dos muitos que lhe garantem sustento. Infelizmente os media tornaram-se um poder absoluto sem qualquer tipo de oposição ou resistência.
Ora, sem vacina ou terapêuticas adequadas conter o avanço da pandemia é como segurar uma fuga de água com uma peneira. E se, como a Comunicação Social tem divulgado abundantemente, houver sequelas nos doentes covid-19, vislumbra-se um futuro de milhões de inválidos que contribuirão para o enfraquecimento dos Serviços Nacionais de Saúde.
Até vacina chegar à maior parte da população do planeta (um, dois, três anos?) entre formas de aplanar as sucessivas curvas, muitos milhões serão aplicados nestas medidas que apenas remedeiam, durante semanas ou meses, a destruição do tecido social e económico. Até quando um estado como o da República Portuguesa aguentará este tipo de investimento?
Não se pode colocar o dilema entre a saúde e a economia, como se a saúde de uma população fosse apenas uma doença que se trata no dia de hoje, ou a curto e médio prazo. O empobrecimento social resultará em graves problemas sanitários que saem da esfera meramente biológica, como o que vivemos hoje, contribuindo ainda mais para o acima descrito enfraquecimentos dos sistemas de saúde.
Por isso, o leque de escolhas é, como escrevemos, muito mais alargado: não se decide apenas pela vida no imediato, nos cuidados intensivos, decide-se pela vida de milhões de pessoas, algumas delas tão jovens que, ou ainda em formação, ou no início do seu período de empregabilidade já viram truncadas as suas esperanças próximas futuras.
O panorama parece desolador e é-o de facto. Mas entre a desinformação e a errância dos actos, convinha respirar fundo e pensar a longo prazo. Pois o tempo que o vírus veio para ficar e as ondas de choque da sua chegada serão sentidas daqui a muitos anos. Era importante que começássemos a preparar um futuro mais saudável e não um presente remediado, investindo em mais recursos humanos e equipamentos sanitários. Bem vamos precisar destes quando já nos tivermos habituados à presença do Sars-cov-2 mas as consequências da sua chegada ainda se fizerem sentir entre nós. 

publicado às 19:45







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